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03 setembro, 2026

Embraer e SPX Capital se unem para criar gigante da cibersegurança

Troca de ações une Tempest e Vision Cybersecurity e mira expansão na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa



*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A Embraer e a SPX Capital vão se tornar sócias em uma nova companhia de cibersegurança, com receita anual superior a R$ 700 milhões. O acordo, formalizado por meio de troca de ações, prevê a aquisição da Tempest Security Intelligence, hoje controlada pela fabricante de aeronaves, pela Vision Cybersecurity, empresa sob controle da gestora paulista. A operação foi anunciada nesta quinta-feira (3), em São Paulo.

A transação ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e de outros órgãos reguladores. Após sua conclusão, a SPX assumirá o controle e a maior fatia acionária do grupo resultante, enquanto a Embraer passará a integrar o quadro societário como acionista relevante e seguirá também como cliente da companhia. Os valores da operação e os percentuais de participação de cada sócia não foram divulgados.

O comando do novo grupo ficará com André Fleury, hoje CEO da Vision. Mais do que somar clientes e receita, ele diz que a ambição é construir um player capaz de atuar em toda a cadeia de segurança cibernética, do desenvolvimento de tecnologias e do monitoramento recorrente até a detecção, a contenção e a recuperação de ataques. Segundo Fleury, existem hoje apenas três ou quatro empresas no mundo capacitadas a oferecer esse tipo de serviço completo, e a união das duas companhias brasileiras abre espaço para que o grupo resultante também ocupe essa posição. "Queremos ser o principal player de cibersegurança para essas empresas no Brasil e no mundo", afirma.

As duas empresas têm atuações complementares. Voltada a empresas de médio porte, a Vision presta serviços gerenciados de cibersegurança, os chamados MSSP (managed security service provider), monitorando sistemas de clientes de forma contínua para identificar e neutralizar ameaças antes que se tornem incidentes. Já a Tempest, nascida de um grupo de pesquisa acadêmica em Recife (PE) há 26 anos, concentra-se em grandes empresas e setores críticos da economia, como bancos, energia, óleo e gás e saúde, com um portfólio que vai da consultoria à integração de tecnologias e identidade digital.

João Lins, CEO da Tempest, que passará a ocupar a vice-presidência de tecnologia e inovação do grupo combinado, afirma que boa parte dos concorrentes atua apenas em nichos específicos ou se limita à revenda de produtos, ao passo que a união das duas companhias permite atender o mercado de cibersegurança de forma mais abrangente. Segundo ele, as carteiras de clientes de Tempest e Vision praticamente não se sobrepõem, o que reforça o potencial de ganho de escala combinado.

A empresa resultante da fusão terá cerca de 900 profissionais e mais de 600 clientes corporativos, cujos nomes não foram revelados por questões de segurança. Num primeiro momento, as marcas Tempest e Vision seguirão operando de forma independente; o nome definitivo do grupo será decidido à medida que a integração avançar. Assessoraram a operação o Bradesco BBI e o Madrona Advogados, pelo lado da Embraer, e o Mattos Filho, pelo lado da SPX.

A movimentação dá continuidade a um relacionamento antigo entre Embraer e Tempest. A fabricante brasileira de aeronaves entrou no capital da empresa pernambucana por volta de 2015, por meio de um fundo de investimento, tornou-se acionista majoritária em 2020 e concluiu a aquisição da totalidade da companhia em 2023, movida pela avaliação de que a cibersegurança é uma camada estratégica tanto para a área de defesa quanto para a aviação. Já em 2024, a Embraer chegou a contratar o Bradesco BBI para buscar um comprador para a Tempest, dentro de uma estratégia de concentração em negócios considerados core business.

Do outro lado da mesa, a Vision nasceu como spin-off da ISH Tecnologia, empresa capixaba fundada em 1996 e pioneira em cibersegurança no País, que passou a concentrar sua atuação em contratos com o setor público. A SPX começou a analisar o mercado brasileiro de cibersegurança e a mapear oportunidades de consolidação em 2025 e, em janeiro deste ano, formalizou um investimento de até R$ 400 milhões na Vision, assumindo participação majoritária na companhia; Rodrigo Dessaune, fundador da ISH, permanece como presidente do conselho de administração de ambas as empresas. A operação teve assessoria da Ártica.

O movimento ocorre em um mercado brasileiro de cibersegurança ainda bastante fragmentado, apesar de o País figurar entre os mais visados por ataques cibernéticos no mundo; o setor foi estimado em cerca de US$ 2 bilhões em 2024, com penetração de serviços ainda considerada baixa em relação a mercados mais maduros.

A expansão para fora do Brasil é apontada pelos executivos como o passo seguinte da estratégia. Fleury cita a América Latina como o mercado natural mais próximo e, na sequência, a América do Norte e a Europa, nesta ordem. Segundo ele, a lógica é sustentada tanto pela tecnologia quanto pela base de clientes: parte das empresas brasileiras atendidas pelo grupo já opera internacionalmente e demanda serviços de cibersegurança integrados em escala global. "Não ficamos devendo nada para as empresas de fora", diz Fleury.

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