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05 novembro, 2026

Wheels Up faz primeira compra direta de jatos novos da Embraer

Contrato de cerca de US$ 90 milhões prevê seis Phenom 300E entregues no segundo semestre de 2027 e marca uma virada na estratégia da operadora norte-americana, que até agora formou sua frota com aeronaves usadas



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LRCA Defense Consulting - 05/11/2026 -  13h20

A Wheels Up Experience, operadora norte-americana de aviação privada sob demanda sediada em Atlanta, encomendou seis jatos executivos Phenom 300E novos de fábrica à Embraer. O contrato definitivo foi assinado em 3 de novembro de 2026 pela Wheels Up Partners LLC, subsidiária indireta da empresa, com a Embraer Executive Aircraft, Inc., braço norte-americano da fabricante brasileira, e anunciado nesta quinta-feira, 5 de novembro. As entregas estão previstas para o terceiro e o quarto trimestres de 2027. É a primeira vez que a Wheels Up compra aeronaves novas diretamente da Embraer.

O comunicado à imprensa não menciona valores. A informação aparece no formulário 8-K apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos: o preço agregado é de aproximadamente US$ 90 milhões, sujeito a descontos e ajustes usuais. A média, de cerca de US$ 15 milhões por aeronave, supera o preço de lista do Phenom 300E, que parte de US$ 12 milhões; a diferença pode refletir opcionais, a conectividade por satélite e reajustes até a entrega, mas a composição do valor não foi detalhada.

Dos usados aos novos de fábrica 
A encomenda inverte a lógica adotada pela Wheels Up desde outubro de 2024, quando lançou seu programa de modernização de frota. No mês seguinte, a empresa concluiu a compra de 17 Phenom 300 e 300E usados da GrandView Aviation, subsidiária da Global Medical Response, por preço-base de US$ 105 milhões, dos quais cerca de US$ 95 milhões foram pagos no fechamento. Os Phenom hoje em operação na Wheels Up foram fabricados entre 2012 e 2021. Em outras palavras, um valor semelhante ao que comprou 17 jatos usados há dois anos agora compra seis novos.

O programa foi concluído em abril de 2026, mais de 18 meses antes do cronograma original, com a retirada dos Citation XLS, CitationJet e Hawker 400XP da operação própria e a concentração da oferta em duas famílias, Phenom 300 e Bombardier Challenger 300. A frota premium controlada pela empresa reúne atualmente 29 Phenom 300/300E e 15 Challenger da série 300, todos com Wi-Fi por satélite; os seis novos jatos chegarão com o sistema já instalado.

Segundo as duas empresas, o pedido resulta de quase três anos de conversas. Michael Amalfitano, presidente e CEO da Embraer Executive Jets, afirmou que o acordo concretiza um planejamento iniciado em 2024 para levar Phenom 300E novos à frota da operadora.

A demanda do programa Signature 
George Mattson, CEO da Wheels Up, relacionou a decisão à forte procura pelo Wheels Up Signature, programa de associação lançado há cerca de um ano e apoiado na frota de Phenom e Challenger, e ao compromisso de oferecer uma experiência premium mais uniforme. O programa superou 1.500 membros, alta de 130% no acumulado do ano até setembro, enquanto as associações dos programas antigos, em fase de encerramento desde abril, caíram 62%.

Os números do terceiro trimestre, divulgados no mesmo dia, mostram o efeito da troca. A receita da frota premium de Phenom e Challenger cresceu 120% em relação ao mesmo período de 2025, acima da expansão de 79% dessa frota, que passou de 24 para 43 aeronaves. A utilização média da frota controlada subiu 31%, e as frotas ligadas ao Signature passaram a responder pela maior parte da receita de voos em jatos privados. Segundo a empresa, os novos Phenom servirão para que a capacidade acompanhe a demanda esperada de membros e clientes.

Como a compra será paga 
Em 3 de novembro, a Wheels Up fez um depósito equivalente a cerca de 20% do preço total, usando caixa disponível e os recursos de uma emissão de US$ 17,4 milhões em notas de equipamento PDP (pre-delivery payment, pagamento anterior à entrega), que financiou praticamente todo o sinal. Essas notas são garantidas pelo próprio contrato de compra e pelo depósito, em favor do Wilmington Trust.

O saldo vence na entrega de cada aeronave. A empresa pretende financiá-lo quase integralmente com a capacidade disponível de sua Revolving Equipment Notes Facility, linha de até US$ 332 milhões estruturada com o Bank of America em 2024 e garantida por aeronaves próprias, que foi emendada no mesmo dia 3 para acomodar a operação. O contrato prevê ainda que a Embraer pode rescindi-lo e reter total ou parcialmente o depósito em caso de inadimplência ou desistência da compradora; inversamente, a Wheels Up pode recuperá-lo se a falha for da fabricante, observados prazos de notificação e correção. Portanto, os US$ 90 milhões não correspondem a receita já recebida pela Embraer.

Um comprador ainda em reestruturação 
A encomenda chega em um momento de melhora operacional, mas com o balanço sob pressão. No terceiro trimestre de 2026, a Wheels Up registrou receita de US$ 164,8 milhões, queda de 11% na comparação anual (cerca de três pontos percentuais atribuídos à venda de negócios não essenciais em 2025), e lucro bruto de US$ 15,2 milhões, ante prejuízo bruto de US$ 1,3 milhão um ano antes. O prejuízo líquido, porém, aumentou para US$ 89,4 milhões, impulsionado por uma despesa de juros 66% maior, de US$ 39,1 milhões.

Entre dezembro de 2025 e setembro de 2026, o caixa caiu de US$ 133,9 milhões para US$ 51,8 milhões, a dívida de longo prazo passou de US$ 316,4 milhões para US$ 684,0 milhões e o patrimônio líquido ficou negativo em US$ 637,2 milhões. O principal apoio vem da Delta Air Lines, dona de cerca de 36% da empresa e parceira estratégica na combinação de aviação privada com benefícios de viagens comerciais, que comprometeu uma linha adicional de crédito rotativo de US$ 100 milhões. Trata-se de reforço à transformação do negócio, e não de pagamento específico pelos seis jatos.

Por que o 300E, e não o 300EV 

O Phenom 300E atinge Mach 0,80 e tem alcance de 2.010 milhas náuticas (cerca de 3.724 km) com cinco ocupantes e reservas NBAA IFR. Segundo dados da General Aviation Manufacturers Association (GAMA) divulgados pela Embraer em fevereiro, a família Phenom 300 foi o jato leve mais vendido do mundo pelo 14º ano consecutivo; a fabricante entregou 72 unidades da série em 2025 e soma mais de 900 aeronaves em operação em 70 países. 

A Embraer lançou em julho de 2026 a evolução Phenom 300EV, certificada em agosto pela ANAC, pela FAA e pela EASA como o primeiro jato leve com o sistema Garmin Emergency Autoland, que pousa a aeronave automaticamente em caso de incapacitação do piloto. As entregas do novo modelo, porém, só devem começar em 2028, depois da janela contratada pela Wheels Up, o que ajuda a explicar a escolha pelo 300E. As informações divulgadas não indicam possibilidade de troca de versão.

O que está em jogo 
Embora limitada a seis unidades, a transação abre um canal de venda direta entre a Embraer e uma operadora que já tem 29 aviões da família Phenom e grande visibilidade no mercado norte-americano, onde a aviação executiva de alta utilização é o principal mercado do modelo. Nenhuma opção adicional ou novo pedido foi anunciado. As informações divulgadas também não indicam em qual linha de montagem as unidades serão produzidas.

Para a Wheels Up, a compra é uma aposta na frota padronizada e no crescimento do Signature; para a Embraer, uma encomenda de um produto consolidado e a ampliação de um relacionamento comercial antes baseado em aeronaves de segunda mão. A confirmação das entregas em 2027, e a capacidade da compradora de financiar o saldo, serão os indicadores mais objetivos do resultado.



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