CEO afirma que nenhuma unidade está à venda e que a empresa está mais forte do que nunca, está muito bem, muito sólida, e que está estudando um novo ciclo de produtos que vai garantir um crescimento de novo prazo ainda mais ambicioso
*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026
A circulação de alegações de que a Embraer seria vendida a uma companhia norte-americana caso Flávio Bolsonaro chegasse à Presidência recolocou no debate público a tentativa de associação entre a fabricante brasileira e a Boeing, encerrada em abril de 2020. A documentação histórica permite separar dois acontecimentos distintos: uma operação empresarial efetivamente negociada, aprovada e posteriormente desfeita, e uma hipótese política atual para a qual não foram apresentadas quaisquer evidências de negociação ou compromisso.
Em 8 de outubro de 2026, o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, declarou que a companhia não possui nenhuma unidade à venda. Ao tratar das relações com o poder público, afirmou que o apoio governamental continua importante, sobretudo pelo financiamento do BNDES e pela atuação diplomática na abertura de mercados. A declaração descreve a posição atual da administração, sem constituir garantia de que nenhuma reorganização societária possa ocorrer no futuro.
A negociação começou antes de Bolsonaro
As conversas entre Boeing e Embraer começaram em 2017, durante o governo Michel Temer. Uma aquisição integral chegou a ser cogitada, mas a resistência à transferência das atividades estratégicas brasileiras levou à formulação de um negócio mais restrito. Em dezembro de 2018, ainda antes da posse de Jair Bolsonaro, as companhias já haviam definido a estrutura central da operação.
Em fevereiro de 2019, os acionistas aprovaram a proposta. A Boeing pagaria US$ 4,2 bilhões por 80% de uma nova sociedade formada pelas operações de aviação comercial e serviços associados da Embraer; a brasileira conservaria 20%. A avaliação total desse negócio era de US$ 5,26 bilhões. Defesa, aviação executiva e serviços associados a essas áreas permaneceriam sob a Embraer independente. Outra sociedade, voltada ao desenvolvimento de mercados para o KC-390, teria 51% de participação da Embraer e 49% da Boeing.
O governo Jair Bolsonaro deu aval à configuração negociada, e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a concentração em janeiro de 2020, sem restrições concorrenciais. Portanto, seria incorreto afirmar que Bolsonaro iniciou a tentativa de aquisição integral da Embraer. Também seria incorreto omitir que seu governo autorizou a transferência do controle de um dos principais negócios da fabricante.
Por que o acordo fracassou
Em 25 de abril de 2020, a Boeing anunciou o encerramento do acordo, alegando que condições contratuais para a conclusão não haviam sido cumpridas. A Embraer contestou a justificativa e iniciou uma arbitragem. O rompimento ocorreu em meio à crise do 737 MAX e à retração da aviação provocada pela pandemia de Covid-19, circunstâncias relevantes para compreender o ambiente econômico, mas que não substituem a explicação contratual apresentada oficialmente pelas partes.
A arbitragem terminou por acordo em setembro de 2024, com previsão de pagamento bruto de US$ 150 milhões pela Boeing à Embraer. Não houve conclusão da aquisição: a fabricante brasileira preservou sua divisão de aviação comercial e continuou independente.
O que a União pode vetar
Privatizada em 1994, a Embraer é uma companhia aberta e não pode ser simplesmente vendida por decisão unilateral do presidente da República. A União conserva uma ação especial, conhecida como golden share, com direitos de veto sobre decisões estratégicas previstas no estatuto, inclusive alterações relacionadas ao controle societário e a programas militares. A empresa também possui regras estatutárias de limitação do exercício de votos e de proteção de sua estrutura decisória.
Esses mecanismos não representam uma proibição absoluta de operações com investidores estrangeiros. A aprovação governamental concedida ao acordo com a Boeing demonstra justamente que uma transação pode avançar quando recebe as autorizações exigidas. Também importa distinguir a venda de uma divisão da transferência do controle da companhia inteira: os instrumentos jurídicos aplicáveis e seus efeitos não são necessariamente idênticos.
Uma empresa em outra situação
Desde o rompimento, a Embraer recuperou suas operações e ampliou sua presença internacional, apresentando recordes após recordes em seus números. Em 2025, registrou receita anual de aproximadamente US$ 7,58 bilhões, crescimento de 18%. Nos nove primeiros meses de 2026, entregou 175 aeronaves, contra 153 no mesmo período de 2025. A expansão envolve aviação comercial, executiva, Defesa e serviços, além de projetos de desenvolvimento tecnológico.
Esses resultados não tornam impossível uma proposta futura, mas afastam a ideia de que a companhia precise necessariamente ser incorporada por uma concorrente estrangeira para manter suas atividades, muito pelo contrário.
O que se pode concluir sobre o rumor
O precedente histórico não comprova a alegação atual. O acordo com a Boeing nasceu no governo Temer, recebeu aprovação política no governo Bolsonaro, previa o controle norte-americano somente da aviação comercial e foi desfeito antes de sua execução. Nada disso demonstra que uma eventual administração Flávio Bolsonaro tenha decidido, negociado ou prometido vender a Embraer.
É legítimo discutir as consequências estratégicas de uma transferência de tecnologia ou de controle industrial. Foi exatamente esse o debate travado entre 2018 e 2020. Mas atribuir a um candidato uma venda futura exige evidências próprias, como documentos, compromissos públicos ou negociações verificáveis, não apenas a associação com uma operação anterior.
A posição anunciada por Francisco Gomes Neto em 8 de outubro é objetiva: a Embraer não tem unidades à venda. "A Embraer hoje está mais forte do que nunca, está muito bem, muito sólida. Não tem nenhuma unidade à venda. Muito pelo contrário, nós estamos com planos agora, estamos estudando um novo ciclo de produtos para a companhia que vai garantir um crescimento de novo prazo ainda mais ambicioso", afirmou Gomes Neto.
Assim, até que surjam elementos concretos em sentido contrário, a afirmação de que a eleição de determinado candidato resultará na venda da fabricante permanece apenas como uma alegação sem qualquer comprovação baseada em fatos.
