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14 dezembro, 2025

Brasil pode entrar na corrida dos drones de carga militar com tecnologia 100% nacional

Startup brasileira Moya Aero pode liderar transição tecnológica na defesa nacional 

Imagem meramente ilustrativa

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LRCA Defense Consulting - 14/12/2025

Os conflitos contemporâneos na Ucrânia e no Oriente Médio revelaram uma verdade estratégica incontornável: a mobilidade aérea autônoma não é mais um luxo militar, mas uma necessidade operacional. Enquanto uma startup israelense e a indústria chinesa - apenas como dois exemplos recentes - avançam rapidamente no desenvolvimento de drones de carga pesada para uso militar, o Brasil possui uma oportunidade singular de entrar nessa corrida tecnológica através da Moya Aero, empresa sediada em território nacional que está desenvolvendo uma solução inovadora de transporte aéreo não tripulado.

A revolução silenciosa das linhas de suprimento
A logística militar sempre foi o eixo em torno do qual giram a maioria das vitórias e derrotas nos campos de batalha. Hoje, porém, esse paradigma está sendo reescrito por aeronaves autônomas capazes de transportar mantimentos, munição, equipamentos médicos e suprimentos críticos diretamente para as tropas em combate, sem expor soldados aos riscos das rotas terrestres tradicionais.

O fenômeno é global e acelerado. De Israel aos Estados Unidos, da China ao Reino Unido, potências militares investem bilhões no desenvolvimento de plataformas aéreas não tripuladas capazes de revolucionar a cadeia logística militar. O Brasil, através da Moya Aero, tem a oportunidade de participar ativamente desta transformação com tecnologia genuinamente nacional.

Panorama global: a corrida tecnológica dos drones de carga militar

- Estados Unidos: experiência de combate e inovação contínua
Os Estados Unidos lideram em experiência operacional comprovada. O Kaman K-MAX (CQ-24A), helicóptero não tripulado capaz de transportar até 2.700 kg, já acumulou missões reais de combate no Afeganistão entre 2011 e 2013. Durante 33 meses de operação, o sistema transportou mais de 2 milhões de quilos de suprimentos, substituindo 900 comboios terrestres vulneráveis e salvando incontáveis vidas ao eliminar a exposição de soldados às rotas minadas.

O sucesso do K-MAX inspirou novos desenvolvimentos. A Kaman apresentou o KARGO, drone compacto projetado desde o início como sistema autônomo, capaz de transportar 360 kg e compacto o suficiente para caber em containers ISO padrão. A empresa Grid Aero, por sua vez, desenvolveu o Lifter Lite, verdadeira "caminhonete voadora" com capacidade entre 450 e 3.600 kg e alcance impressionante de aproximadamente 2.400 km, especificamente projetado para operações no Teatro do Pacífico.

Outra solução inovadora é o Silent Arrow GD-2000, drone planador que pode ser lançado de aeronaves de carga como o C-17, transportando 159 kg sem necessidade de infraestrutura de pouso preparada. A versão motorizada em desenvolvimento promete revolucionar o conceito de entrega de última milha em teatros de operação.

- China: dominância em carga pesada
A China demonstra ambições claras de dominar o segmento de carga pesada. O SUNNY-T2000, com capacidade de 2 toneladas e alcance superior a 1.000 km, já saiu da linha de produção em Shenyang. Mas é o Air White Whale W5000 que impressiona: com capacidade para impressionantes 5 toneladas de carga, alcance de 2.600 km e velocidade de cruzeiro de 526 km/h, tornou-se o maior drone de carga não tripulado do mundo. Apresentado no Airshow China 2024 em Zhuhai, o W5000 utiliza turboélices AEP-100 desenvolvidos nacionalmente, demonstrando o avanço chinês em autonomia tecnológica.

O arsenal chinês inclui ainda o Tengen TB-001D Scorpion D (1.500 kg de capacidade) e o Feihong-98, biplano baseado no veterano An-2 soviético, já realizando voos comerciais de carga autônomos. A diversidade de plataformas chinesas revela uma estratégia abrangente cobrindo todo o espectro de necessidades logísticas militares.

Drone de carga chinês SUNNY-T2000

- Reino Unido: agilidade tática e uso comprovado
Os britânicos apostam em plataformas menores e mais ágeis. A Malloy Aeronautics, recentemente adquirida pela gigante BAE Systems, desenvolveu a família T-150 e T-650. O T-150, com capacidade de 68 kg, já está em uso operacional pelos Royal Marines e foi fornecido à Ucrânia, onde provou seu valor entregando sangue, munição e suprimentos médicos sob fogo inimigo.

O T-650 representa o próximo passo evolutivo: 300 kg de capacidade, velocidade de 140 km/h e propulsão 100% elétrica. Durante demonstrações, o sistema transportou torpedos Sting Ray e foi armado com três mísseis Brimstone (150 kg total), evidenciando versatilidade para missões além da simples logística. A entrada em serviço está prevista para 2025.

- Israel: hidrogênio e autonomia em combate
Israel, forjado em conflitos constantes, desenvolveu soluções especializadas. A startup Heven Drones, fundada por veterano do conflito em Gaza, criou drones movidos a células de hidrogênio capazes de transportar 35 kg com autonomias entre 100 minutos e mais de 10 horas. O diferencial estratégico é a capacidade de operar sem dependência de GPS, crucial em ambientes com intensa guerra eletrônica.

A Heven tornou-se fornecedora exclusiva das Forças de Defesa de Israel para drones pesados a hidrogênio, com meta de equipar cada batalhão israelense até o final de 2025. Em parceria com a Mach Industries nos Estados Unidos, planeja produzir 1.000 unidades mensalmente na Califórnia, evidenciando a escala e urgência com que forças ocidentais estão se reequipando.

Drone de carga militar israelense da Heven Drones

Moya Aero: o potencial brasileiro
É neste contexto estratégico global que a Moya Aero, startup brasileira com expertise em desenvolvimento aeroespacial, apresenta uma alternativa nacional promissora. Fundada em 2020 como spin-off da ACS Aviation, empresa com mais de 15 anos de experiência em engenharia aeronáutica, a Moya está desenvolvendo uma família de drones elétricos que pode posicionar o Brasil como protagonista neste mercado estratégico.

Especificações técnicas da família Moya Cargo
A empresa brasileira desenvolve atualmente dois modelos elétricos complementares sob uma arquitetura compartilhada:

Moya 256: projetado para resposta rápida e média distância, o modelo 256 oferece autonomia de até 160 km, ideal para missões táticas e entregas urgentes em teatros de operação regionais.

Moya 760: com alcance estendido de até 190 km e capacidade de carga útil de 190 kg, este modelo representa a versão de maior capacidade da plataforma, adequada para missões logísticas mais exigentes.

Ambos os modelos utilizam tecnologia eVTOL (decolagem e pouso vertical elétricos) com configuração tiltbody inovadora, permitindo transição entre voo pairado e voo de cruzeiro horizontal. Esta configuração reduz em mais de 50% o arrasto aerodinâmico em comparação com outras configurações eVTOL Lift + Cruise, segundo dados da própria empresa.

Versão híbrida: expandindo horizontes operacionais
Reconhecendo as limitações de autonomia dos sistemas puramente elétricos, a Moya Aero desenvolveu uma versão híbrida que combina propulsão elétrica e convencional. Esta variante mantém a capacidade de carga útil de 200 kg enquanto estende o alcance operacional para impressionantes 300 km, triplicando a autonomia da versão elétrica inicial.

A versão híbrida oferece flexibilidade estratégica crucial para operações militares, permitindo alternar entre fontes de energia conforme a necessidade da missão. Para operações de baixa visibilidade e emissão térmica reduzida, o modo elétrico pode ser priorizado. Para missões de longo alcance onde velocidade e autonomia são prioritárias, o sistema híbrido entra em ação.

Características técnicas detalhadas:

  • Capacidade de carga útil: 190-200 kg (conforme modelo)
  • Alcance operacional: 160-190 km (versão elétrica) / 300 km (versão híbrida)
  • Envergadura: 5,5 metros (protótipo)
  • Tipo: eVTOL Classe 1 (acima de 150 kg de peso máximo de decolagem)
  • Propulsão: 100% elétrica ou híbrida elétrica-convencional
  • Emissões: zero emissões no modo elétrico
  • Construção: materiais compostos (fibra de carbono e resina epóxi)
  • Configuração: tiltbody com transição thrust-to-wing
  • Autonomia: autônoma (piloto automático integrado)

Validação tecnológica e avanços recentes
Em agosto de 2024, a Moya Aero alcançou um marco técnico crucial ao completar com sucesso o primeiro voo de transição de um protótipo em escala reduzida (20% do tamanho final). O teste demonstrou a conversão de voo pairado propulsivo para voo de asa sustentada, validando o conceito aerodinâmico e os sistemas de controle de voo.

O protótipo em escala real já realizou seu primeiro voo bem-sucedido sob comando de Alexandre Zaramela, CEO e projetista do eVTOL. A aeronave está atualmente em fase de testes rigorosos visando certificação pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), com conversas em andamento sobre os procedimentos regulatórios necessários.

A filosofia da Moya vai além da simples entrega de carga entre dois pontos. A empresa visa conectar locais remotos, áreas sem infraestrutura estabelecida e regiões inacessíveis por métodos tradicionais. Essa capacidade, desenvolvida inicialmente para aplicações civis em logística, agricultura e operações de resgate, possui aplicabilidade direta em cenários militares.

Aplicações militares e vantagens estratégicas
Um drone de carga como o que está sendo desenvolvido pela Moya Aero poderia atender necessidades críticas das Forças Armadas brasileiras:

- Logística em fronteiras e Amazônia: o Brasil possui vastas extensões de território com infraestrutura precária ou inexistente, particularmente na região amazônica e ao longo das fronteiras. Com alcance de até 300 km na versão híbrida e capacidade de transportar 200 kg, os drones Moya permitiriam o reabastecimento rápido de destacamentos isolados, reduzindo a dependência de transporte terrestre vulnerável ou helicópteros tripulados caros. A capacidade de operar em modo totalmente autônomo, com piloto automático integrado, reduz ainda mais a necessidade de infraestrutura especializada.

- Evacuação aeromédica: a capacidade de transportar 200 kg possibilita não apenas o envio de equipamentos médicos e medicamentos, mas também a evacuação de feridos em macas especializadas. Em operações na selva ou em áreas remotas, onde o tempo de resposta é crítico para a sobrevivência, essa capacidade pode ser decisiva.

- Redução de riscos: ao automatizar rotas de suprimento, as Forças Armadas poderiam reduzir significativamente a exposição de pessoal a emboscadas, minas terrestres e outros perigos das rotas convencionais. A construção em materiais compostos (fibra de carbono e resina epóxi) confere resistência estrutural mantendo baixo peso operacional.

- Autonomia tecnológica: desenvolver capacidade nacional em drones militares logísticos reduziria a dependência de tecnologia estrangeira, fortalecendo a soberania tecnológica brasileira em um setor estratégico. A Moya Aero já recebeu R$ 10,3 milhões da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e conta com investimentos de fundos como Seed4Science e aceleradoras como Hards e Techstars, demonstrando confiança institucional no projeto.

- Custo-benefício: a empresa afirma que os custos operacionais do Moya eVTOL são 50% menores que helicópteros tradicionais, permitindo maior frequência de missões com orçamentos limitados. Operação com zero emissões no modo elétrico também alinha o equipamento com metas de sustentabilidade cada vez mais relevantes até para instituições militares.

Comparativo de capacidades
Comparado a dois dos sistemas internacionais exemplificados, o Moya Aero apresenta um posicionamento intermediário estrategicamente relevante:

  • Versus Heven Drones (Israel): enquanto o sistema israelense oferece autonomia superior (até 10 horas) com células de hidrogênio, possui capacidade de carga limitada a 35 kg. O Moya 760 transporta quase seis vezes mais carga (190-200 kg), embora com menor autonomia na versão elétrica. A versão híbrida brasileira oferece um meio-termo interessante entre capacidade de carga e alcance.
  • Versus SUNNY-T2000 (China): o drone chinês é claramente superior em capacidade bruta (2 toneladas vs 200 kg) e alcance (1.000 km vs 300 km). Porém, essa diferença de escala implica em maior complexidade operacional, custos mais elevados e necessidade de infraestrutura de apoio mais robusta. Para muitas missões logísticas táticas brasileiras, especialmente em terreno complexo como a Amazônia, a agilidade e menor pegada logística do Moya podem representar vantagens operacionais significativas.

A Moya Aero já possui mais de 100 cartas de intenção para compra de unidades, incluindo 50 aeronaves da Helisul Aviação, operadora de helicópteros que contribui com expertise logística para o desenvolvimento do projeto. Este interesse comercial valida a viabilidade técnica e econômica da plataforma.

A tecnologia de propulsão elétrica da Moya Aero, embora ofereça autonomias inicialmente menores que os sistemas movidos a hidrogênio da Heven Drones, apresenta vantagens em simplicidade operacional, custos de manutenção e disponibilidade de infraestrutura de recarga. Para muitas operações militares brasileiras, especialmente em áreas com algum grau de infraestrutura estabelecida, essa pode ser uma solução mais prática.

Desafios e caminho à frente
A adaptação de uma plataforma civil para uso militar não é trivial. Requer modificações em sistemas de comunicação para operar em ambientes com contra-medidas eletrônicas, blindagem adicional para componentes críticos, capacidade de operação noturna e em condições meteorológicas adversas, além de integração com sistemas de comando e controle militares.

No entanto, a experiência acumulada pela equipe da Moya Aero em desenvolvimento, certificação e lançamento de inovações aeroespaciais coloca a empresa em posição favorável para essa transição. A abordagem modular da plataforma, com arquitetura compartilhada entre múltiplos modelos, facilita a adaptação para diferentes requisitos operacionais.

O momento é propício. Com investimentos militares globais em sistemas aéreos não tripulados atingindo níveis recordes, o Ministério da Defesa brasileiro tem a oportunidade de apoiar o desenvolvimento nacional nesta tecnologia crítica. A parceria entre governo, academia e iniciativa privada, neste caso representada pela Moya Aero, poderia posicionar o Brasil não apenas como usuário, mas como desenvolvedor e eventual exportador de tecnologia de drones de carga militar.

Alternativa tecnológica genuinamente brasileira: questão de de soberania nacional
A guerra moderna está sendo redefinida pela autonomia aérea. Enquanto Israel aposta em drones movidos a hidrogênio com longas autonomias e a China impressiona com capacidades de carga pesada, o Brasil não precisa ficar para trás. A Moya Aero representa uma alternativa tecnológica genuinamente brasileira, desenvolvida com conhecimento local e adaptada às necessidades específicas das nossas Forças Armadas.

O desenvolvimento de drones de carga militares não é apenas uma questão de modernização das Forças Armadas, mas de soberania nacional. Em um mundo onde a mobilidade aérea autônoma se tornou fator decisivo em conflitos, investir em capacidade nacional nesta área é investir na defesa e no futuro estratégico do Brasil.

A pergunta não é mais se drones de carga se tornarão ferramentas militares essenciais, mas quando o Brasil decidirá participar ativamente dessa revolução tecnológica. 

 

*Nota do Editor: a LRCA Defense Consulting não possui qualquer tipo de vínculo com a Moya Aero e também não consultou a empresa para produzir esta matéria. O objetivo é apenas apontar uma alternativa brasileira para uma necessidade das Forças Armadas nacionais.

10 setembro, 2025

IFSC desenvolve drone híbrido pioneiro para inspeção de linhas de transmissão

O Sharp Eye possui características que indicam sua utilização também em missões nas áreas de Defesa e Segurança 


*Instituto Federal Santa Catarina, por Maycon Oliveira - 22/08/2025

Um equipamento capaz de voar por mais de duas horas, realizar inspeções aéreas com alta precisão e reduzir custos operacionais. Essa é a proposta do GD-25, o primeiro drone multirotor híbrido de grande porte desenvolvido no Brasil, fruto de uma parceria entre o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e a empresa Global Drones. O dispositivo representa um avanço na tecnologia nacional de veículos aéreos não tripulados (VANTs) e promete transformar a inspeção de linhas de transmissão de energia, além de outras aplicações que demandam longos períodos de voo. 

A ideia surgiu em 2021, quando a Global Drones procurou a Unidade Embrapii IFSC para superar o principal obstáculo dos modelos convencionais: a autonomia limitada das baterias. Segundo o coordenador do projeto, Leandro de Medeiros Sebastião, professor do Departamento de Eletrotécnica do Câmpus Florianópolis, a empresa já realizava inspeções com drones comerciais “de prateleira”. Embora utilizasse câmeras de alta resolução e outros equipamentos adequados, enfrentava um entrave crítico devido à curta duração dos voos. Na prática, dificilmente chegavam a meia hora no ar, o que exigia múltiplos pousos e aumentava a complexidade logística. 

“O grande fator limitante para escalabilidade da operação estava no tempo de voo – a autonomia – das aeronaves comerciais à época. Raramente conseguiam ultrapassar 25 minutos de duração, o que dificultava inspecionar mais de uma torre no mesmo voo”, explica Leandro. Essa restrição não apenas aumentava os custos e reduzia a eficiência, mas também tornava a atividade em áreas extensas uma tarefa demorada e árdua.

A parceria foi firmada por meio do Polo de Inovação do IFSC. Nela, a Global Drones, principal financiadora, apresentou os requisitos iniciais e acompanhou o processo, enquanto o IFSC liderou todas as etapas de pesquisa, desenvolvimento, testes, validação de soluções e protótipos, aquisição de materiais, montagem e ensaios de voos. A solução encontrada foi adotar um sistema de propulsão híbrido – tecnologia rara no cenário mundial para drones multirotores. Em vez de depender apenas de baterias, o GD-25 combina um motor a combustão e um gerador embarcado, utilizando gasolina como combustível principal. 

“Nesse contexto, o volume de combustível transportado ditaria a autonomia da aeronave. A partir dessa premissa, a aeronave foi dimensionada para comportar a quantidade de gasolina suficiente para atender o requisito de duas horas de voo, marca que acabou sendo superada ao longo do projeto”, afirma o docente. Assim, o tamanho do tanque de combustível passou a ser um fator determinante para o tempo de voo, um conceito novo para este tipo de operação. As baterias permanecem a bordo como um sistema de backup, garantindo segurança em caso de falha do motor a combustão e permitindo um pouso seguro.

Tecnologia nacional e adaptada ao mercado

A decisão de desenvolver uma solução nacional, em vez de adaptar modelos importados, foi motivada por razões estratégicas e financeiras. Segundo o professor Leandro, os custos de aquisição, frete, importação e, sobretudo, certificação de modelos estrangeiros com características semelhantes são “proibitivos para a realidade da empresa demandante”. 

A construção do drone desde o zero possibilitou a personalização completa para cumprir os requisitos técnicos específicos do projeto, resultando em uma tecnologia proprietária com grande potencial para futuras adaptações e aplicações. Ainda que alguns componentes-chave – como motores, hélices, câmeras e sensores – sejam importados por conveniência, a concepção, o dimensionamento e a montagem do protótipo foram integralmente efetuados no país.

De acordo com Leandro, existem poucas soluções nacionais envolvendo drones híbridos, em geral, restritas ao mercado do agronegócio e à pulverização agrícola. “Contudo, explorar essa tecnologia em diversas frentes e aplicações abre novos caminhos, oportunidades, desafios tecnológicos e inovações, que são incorporadas e nacionalizadas à medida que os projetos são realizados”, avalia. 

Embora o foco inicial tenha sido a inspeção de linhas de transmissão, o professor Leandro aponta que o GD-25 tem potencial para diversas outras áreas, abrindo novos caminhos para o mercado nacional de drones. A tecnologia pode ser aplicada em:

  • mapeamento de extensas áreas, possibilitando o levantamento topográfico e de recursos naturais em uma única missão prolongada; 

  • vigilância, para monitoramento de fronteiras, oleodutos, gasodutos ou grandes perímetros de segurança por longos períodos; 

  • suporte tecnológico em situações críticas, como o fornecimento de iluminação auxiliar em emergências noturnas ou a repetição de sinal de comunicação em regiões remotas ou afetadas por desastres. 

Somado a isso, a capacidade de carregar pequenas cargas também abre portas para aplicações logísticas, como o transporte de itens estratégicos a locais de difícil acesso. De acordo com o professor Leandro, o leque de usos tende a se expandir continuamente. “Novas aplicações trazem novas demandas de engenharia para nós, desenvolvedores de aeronaves. Desde a parte de hardware, com adaptações e desenvolvimento de subsistemas para incorporação de novas funções, até a parte de software, com o desenvolvimento de algoritmos de controle de navegação ou de missão da aeronave, sistemas semiautônomos, etc.”, prevê.

Do laboratório ao campo: desafios e aprendizados
Antes do GD-25, a experiência do IFSC se concentrava em drones de pequeno porte, com até 45 centímetros de diâmetro (distância entre eixos opostos). O salto para um modelo de até 25 quilos e alta autonomia exigiu novos conhecimentos em áreas como aerodinâmica, integração de sistemas híbridos e segurança operacional. “Ainda que haja uma considerável semelhança de tecnologia embarcada, o porte maior da aeronave trouxe diversos desafios e aprimorou de forma significativa a expertise do grupo de pesquisa no desenvolvimento de modelos desse tamanho”, destaca Leandro.

Para o coordenador, a integração do sistema híbrido foi a etapa mais difícil, por conta do ineditismo e da escassez de referências a drones com essa característica. A equipe precisou equilibrar cuidadosamente três variáveis: a massa total do veículo, o sistema de propulsão (composto por motor a combustão, gerador, tanque de combustível e baterias de backup) e a autonomia. “A redução de peso, apesar de bastante desafiadora, foi menos complexa, pois desde o início do projeto a seleção de componentes e o dimensionamento da aeronave ponderaram essa variável, por conta de sua relevância. Como resultado, a autonomia desejada foi alcançada de forma natural”, explica.

A pesquisa e o desenvolvimento foram essenciais para lidar com as particularidades da integração de um conjunto híbrido. O trabalho compreendeu o design do protótipo – contemplando os componentes que deveriam garantir equilíbrio de centro de massa, gerenciamento térmico, supressão de vibrações, montagem e manutenção –, a integração do sistema de baterias em paralelo com o sistema híbrido a combustão (para evitar incidentes no caso de falha da máquina térmica), além da sintonia da controladora de voo e do sensoriamento auxiliar.

Garantir a segurança dos voos e das operações foi prioridade durante todo o processo. A equipe manteve atenção rigorosa aos parâmetros exigidos para veículos que utilizam baterias de lítio e líquidos inflamáveis, com hélices de fibra de carbono em alta rotação e em circulação no espaço aéreo. Também foi necessário o cumprimento de todas as normas e regulamentos de órgãos como a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). 

Com um investimento aproximado de R$ 2,68 milhões, o projeto foi concluído em janeiro de 2024, atingindo o nível de maturidade TRL6 (protótipo validado em ambiente relevante). A Global Drones assumiu as próximas etapas, que incluem a otimização do modelo para produção em escala, a obtenção das certificações junto aos órgãos reguladores e a introdução no mercado. Após o desenvolvimento do GD-25, a empresa firmou contrato para mais três projetos com o IFSC e está prestes a fechar outros dois. 

Polo de Inovação conecta empresas e pesquisa no IFSC
O Polo de Inovação do IFSC tem como missão desenvolver projetos de inovação tecnológica em parceria com empresas. Desde 2018, a instituição conta com uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), instalada no Câmpus Florianópolis e integrada ao Polo. Foi justamente por meio dessa estrutura que o desenvolvimento do drone híbrido GD-25 se tornou viável, unindo a expertise acadêmica do IFSC às demandas da empresa Global Drones.

A Unidade Embrapii atua como ponte entre empresas e instituições de pesquisa, facilitando a cooperação em inovação. Ao compartilhar riscos em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), estimula o setor industrial a empreender por meio de parcerias público-privadas. Diferentemente de outros programas, os projetos podem ser negociados diretamente com a unidade, em qualquer época do ano, sem a necessidade de editais.

Entenda como funciona o Polo de Inovação.

No IFSC, a unidade é especializada em Sistemas Inteligentes de Energia e atua em quatro frentes: (1) desenvolvimento de sistemas informatizados para gerenciamento energético; (2) eficiência energética e redes elétricas inteligentes; (3) fontes renováveis de energia; e (4) mobilidade.

Para acessar os serviços, a empresa deve apresentar um desafio tecnológico em fase pré-competitiva que se enquadre nas competências da Unidade Embrapii e oferecer contrapartida financeira, definida conforme o porte e o ramo de atuação. Em todos os casos, a participação mínima da empresa deve corresponder a um terço do valor total do projeto.

Impacto na formação de futuros profissionais
Um dos legados mais relevantes do projeto de desenvolvimento do GD-25 foi o impacto direto na formação dos estudantes. A iniciativa proporcionou aos alunos uma experiência interdisciplinar, abrangendo áreas como eletroeletrônica, mecânica, aeronáutica e design. O trabalho em equipe, o gerenciamento de um cronograma rigoroso e a oportunidade de propor e implementar soluções criativas foram essenciais para o aprendizado prático e para o desenvolvimento de habilidades de resolução de problemas.

 “Trata-se de um complemento de grande valia à formação tradicional dos cursos regulares desses estudantes”, comenta Leandro. Segundo ele, o projeto estimulou nos alunos a consciência sobre responsabilidade, cumprimento de procedimentos de segurança e aplicação de boas práticas de engenharia, preparando-os para o mercado de trabalho com um diferencial competitivo. 

Como reflexo do sucesso da parceria, a Global Drones contratou cinco egressos do IFSC que atuaram como bolsistas no projeto, demonstrando a qualidade da formação e a importância da vivência na prática. Há ainda a perspectiva de novas contratações, impulsionada pela crescente demanda por profissionais capacitados neste tipo de aeronave. “A participação em projetos como este é um diferencial relevante para a contratação, seja na própria Global ou em outras empresas que utilizam tecnologias semelhantes”, afirma Leandro.

Fortalecimento da pesquisa e legado para o setor
O projeto também fortaleceu o Grupo de Pesquisa em Veículos Não Tripulados Remotamente Pilotados do IFSC, criado em 2021, e contribuiu para a consolidação do Laboratório de Drones do IFSC (LabDrones). Voltada para inovações que irão marcar a próxima geração desses equipamentos, o grupo atua em iniciativas de ensino, pesquisa e extensão, além de competições. 

Para Leandro, o próximo passo na evolução dos drones envolve novas fontes de energia, como células a hidrogênio e baterias de alto desempenho, capazes de ampliar ainda mais a autonomia e a segurança. No entanto, ele ressalta que nem todo estudo na área precisa se concentrar em "tecnologias inéditas ou disruptivas". 

“A incorporação de conceitos básicos e o aprendizado sobre projeto e construção de aeronaves mais simples têm um valor substancial para profissionais que desejam compreender melhor e trabalhar com essa tecnologia. Nosso LabDrones incentiva a participação de alunos iniciantes, promovendo competições estudantis e estimulando a realização de trabalhos de conclusão de curso e demais pesquisas correlatas nas quais possamos contribuir”, afirma.

O sucesso do GD-25 vai além do desenvolvimento de uma única aeronave: solidificou a posição do IFSC como referência nacional no desenvolvimento de drones e exemplifica como a colaboração entre academia e setor produtivo pode gerar soluções estratégicas para o país. Afinal, ao oferecer uma alternativa nacional a equipamentos importados, o projeto contribui para a soberania tecnológica e para a formação de profissionais mais qualificados. 

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