Trabalhadores autorizam negociação de dívidas e empresa anuncia retorno gradual das atividades
*LRCA Defense Consulting - 23/01/2026 (atualizada às 17h13)
A autorização para negociar ocorre um dia após a empresa apresentar ao Sindicato, em reunião realizada na quarta-feira (21), um cronograma concreto para o retorno das atividades da fábrica. Segundo informado pela direção da Avibras, está prevista a retomada com 450 trabalhadores: 210 devem voltar em março e outros 240 a partir de junho.
O anúncio traz um sopro de esperança para cerca de 900 trabalhadores que estão há 34 meses sem receber salários e vivem uma greve iniciada em setembro de 2022.
O drama dos trabalhadores
Cerca de 900 trabalhadores, que chegaram a ser 1.400 antes das demissões, estão há 34 meses sem receber salários. A greve iniciada em setembro de 2022
persiste, tornando-se uma das mais longas da história recente da indústria
brasileira. Muitos profissionais qualificados já migraram para outras empresas
do setor de defesa, como Akaer, Mac Jee e SIATT, levando consigo expertise
acumulada ao longo de décadas.
Weller Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, tem cobrado não apenas o pagamento dos salários atrasados, que somam 26 meses, mas também pressiona o governo federal por investimentos que garantam a retomada sustentável da empresa. "Se conseguirmos o retorno das atividades da principal indústria bélica do país, será uma vitória dos trabalhadores e do Sindicato", afirmou em reunião recente com o ministro Guilherme Boulos.
Um processo de recuperação complexo
A trajetória de recuperação judicial da Avibras começou em março de 2022,
quando a empresa, acumulando uma dívida de aproximadamente R$ 1,5 bilhão,
entrou com pedido de recuperação. A crise afeta não apenas trabalhadores, mas
também credores como o governo federal, bancos públicos e privados e
fornecedores.
Em maio de 2025, a Assembleia Geral de Credores aprovou um plano alternativo apresentado pela Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimentos e Direitos Creditórios, que prevê o afastamento do então proprietário João Brasil Carvalho Leite e a nomeação de um interventor judicial. O plano foi homologado e abriu caminho para negociações sobre o pagamento das dívidas trabalhistas.
A proposta de retomada inclui o parcelamento em 48 meses dos salários, 13º, férias e FGTS atrasados, além da conversão das multas trabalhistas em 10% das ações da "Nova Avibras", quando houver abertura de capital. Em agosto de 2025, o processo de transição avançou com a designação do Dr. Fábio Guimarães Leite como novo administrador, representando a Vita Gestão e Investimentos Ltda., novo acionista majoritário.
Aguardando recursos do governo
Um dos principais obstáculos para a retomada completa das operações é a
liberação de recursos federais. Segundo a direção da Avibras, há pendências
relacionadas à formalização pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional de um
acordo para redução de débitos tributários, condição precedente estabelecida
no Plano de Recuperação Judicial.
A empresa solicita R$ 300 milhões para reativar linhas de produção, pagar dívidas trabalhistas e iniciar projetos pendentes. No entanto, a demora na liberação dos recursos tem gerado frustração. Em reunião com o ministro Boulos, o sindicato destacou que "não falta dinheiro público para a Embraer", referindo-se ao bilhão de reais liberado pelo BNDES para a fabricante de aeronaves, e questionou por que uma empresa em situação crítica como a Avibras não recebe a mesma atenção.
A importância estratégica da Avibras
Fundada em 1961 por engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica
(ITA), a Avibras integrou o Programa Espacial Brasileiro ainda nos anos 1960 e
se tornou referência mundial no desenvolvimento de sistemas de mísseis,
foguetes de artilharia e veículos militares.
O sistema ASTROS II, seu principal produto, é utilizado pelo Exército Brasileiro e exportado para países como Arábia Saudita, Iraque, Catar e Malásia. Capaz de lançar munições de diferentes calibres a distâncias entre 9 e 300 km, o sistema é comparável ao HIMARS americano, que teve papel crucial na contenção da ofensiva russa na Ucrânia em 2022.
O Projeto Estratégico ASTROS 2020, iniciado em 2012, contempla o desenvolvimento e fornecimento de mísseis táticos de cruzeiro, foguetes guiados e novas viaturas de combate. A modernização visa dotar a Força Terrestre de meios capazes de prestar apoio de fogo de longo alcance com elevada precisão e letalidade, contribuindo para o poder dissuasório do Brasil e a garantia da soberania nacional.
Base Industrial de Defesa em risco
A possível venda da Avibras para grupos estrangeiros, incluindo tentativas
da australiana DefendTex e da saudita Black Storm Military Industries, acendeu
o debate sobre a falta de investimentos na Base Industrial de Defesa (BID)
brasileira.
Credenciada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa, a Avibras é considerada um ativo estratégico e geopolítico para a soberania brasileira. A BID possibilita o desenvolvimento de tecnologias de uso dual (aplicações militares e civis) que impulsionam a inovação em setores como aeroespacial, energia e comunicações.
Especialistas alertam que a transferência de controle para capital estrangeiro resultaria na perda de domínio sobre tecnologias sensíveis, afetando programas estratégicos das Forças Armadas como o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro, foguetes guiados e sistemas de artilharia avançados.
"Nenhum país que é preponderante no sistema internacional abriu mão da sua Base Industrial de Defesa", explica Vitélio Brustolin, especialista em defesa. "Todos procuram o máximo possível de autonomia nessa área ou parcerias estratégicas duradouras."
O modelo brasileiro em questão
O Brasil adota um modelo híbrido em sua indústria de defesa: nem totalmente
privado como as democracias liberais do Ocidente, nem estatal como na Rússia,
Irã e China. Enquanto investe diretamente na Embraer, não faz compras
suficientes para sustentar empresas como a Avibras, que acabam dependendo de
vendas internacionais para sobreviver.
Analistas apontam que o governo brasileiro compra 75% do armamento de fora do país, deixando de desenvolver a indústria nacional. Para reverter o quadro, seria necessário não apenas aumentar as compras governamentais, mas também investir em pesquisa e desenvolvimento, lançar concorrências para projetos novos e garantir contratos de longo prazo que deem estabilidade às empresas do setor.
O histórico trágico da Engesa
A história da Avibras evoca o caso da Engesa, empresa da década de 1970 que
se consolidou na produção de blindados e carros de combate e chegou a ser uma
das maiores exportadoras de equipamentos militares do Brasil. A Engesa faliu
nos anos 1990 por falta de apoio governamental, levando consigo tecnologia
estratégica e milhares de empregos qualificados.
"A possível venda da Avibras pode repetir os erros do passado", alertam especialistas. "Isso representa não apenas a perda de soberania nacional, mas também o desprezo absoluto pelos milhares de trabalhadores qualificados que construíram a empresa ao longo de seis décadas."
Perspectivas para 2026
As próximas semanas serão cruciais para definir o destino da Avibras. A
empresa aguarda a liberação de recursos federais, a formalização dos acordos
tributários e a homologação final do plano de pagamento aos trabalhadores.
Enquanto isso, o sindicato mantém a pressão, cobrando do governo federal e do BNDES (um dos maiores credores da empresa) medidas concretas para viabilizar a retomada. "A Avibras é fundamental para a Base Industrial de Defesa brasileira", ressaltou Rennys Frota, diretor de Inovação da Finep, parceira histórica da empresa desde os anos 1970.
Se as negociações forem bem-sucedidas, a "Nova Avibras" poderá renascer com governança renovada, estabilidade institucional e uma estrutura de capital alinhada à visão de longo prazo. Caso contrário, o Brasil poderá perder definitivamente uma de suas principais empresas estratégicas de defesa, comprometendo sua autonomia tecnológica e sua capacidade de projeção de poder.
Para os 900 trabalhadores que aguardam há quase três anos por salários e esperança, a retomada representa muito mais que a recuperação de uma empresa: é a luta pela dignidade, pela soberania nacional e pelo futuro da indústria de defesa brasileira.
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