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21 janeiro, 2026

O novo tabuleiro sul-americano avança e o Brasil segue atrasado na sua leitura estratégica

 

*Luiz Alberto Cureau Jr., via LinkedIn - 21/01/2026

A América do Sul já não é mais um espaço periférico na geopolítica global. O que se observa hoje é uma movimentação coordenada, pragmática e silenciosa de grandes potências sobre infraestrutura crítica, energia e presença militar. Não se trata de teoria: são fatos em curso.

No Peru, por exemplo, os Estados Unidos autorizaram um investimento de até US$ 1,5 bilhão para a modernização e reposicionamento da Base Naval de Callao. O discurso oficial fala em eficiência logística e combate a ilícitos transnacionais. O dado estratégico é outro, a base está a menos de 80 km do megaporto de Chancay, operado pela COSCO Shipping, peça central da projeção logística chinesa no Pacífico Sul. Não é parceria equilibrada nem diplomacia neutra, é contenção direta da influência chinesa em um corredor vital do comércio marítimo.

Esse movimento evidencia, ao meu ver,  que o Peru não é protagonista soberano dessa equação, mas território sensível de disputa entre potências. A expansão chinesa em infraestrutura provoca resposta militar americana. O país vira espaço de fricção estratégica, não ator autônomo. Essa é a realidade objetiva.

Na Venezuela, o cenário é ainda mais explícito. Após a intervenção e a captura de sua liderança política, o país passa a operar sob forte tutela externa. O petróleo segue como ativo central, agora inserido em uma lógica de reordenamento forçado de alianças e fluxos energéticos. A reabertura controlada ao capital ocidental não representa soberania recuperada, mas submissão funcional a quem controla sanções, mercados e segurança.

Mais ao norte, a Guiana ilustra como recursos estratégicos redesenham destinos nacionais. Com as descobertas petrolíferas offshore, o país tornou-se um dos que mais crescem em PIB per capita no mundo. Pequeno, antes irrelevante, hoje é disputado, protegido e monitorado. O petróleo não traz apenas riqueza: traz presença militar, acordos de segurança e interesse permanente das grandes potências.

Tudo isso ocorre ao redor do Brasil, que insiste na confortável narrativa de “país sem inimigos”. Uma ilusão perigosa. O Brasil possui nove tríplices fronteiras, todas em áreas sensíveis, muitas associadas a petróleo, minerais críticos, terras raras, biodiversidade, água doce e corredores logísticos. São zonas expostas à pressão externa, ao crime transnacional e à instrumentalização geopolítica caso o Estado não esteja presente com estratégia e poder dissuasório.

Enquanto bases são modernizadas, portos adquiridos, rotas redesenhadas e cadeias de energia reposicionadas, seguimos tratando defesa, fronteiras e projeção estratégica como temas secundários. Ignorar esse movimento não nos torna neutros. Nos torna vulneráveis. 

A história é clara: países ricos em recursos, mas frágeis institucionalmente e pobres em estratégia não escolhem seu papel no tabuleiro, ele lhes é imposto. 

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