*Luiz Alberto Cureau Jr., via LinkedIn - 06/01/2026
Os acontecimentos recentes envolvendo a Venezuela expuseram, de forma nua e
crua, uma verdade incômoda que a história já ensinou inúmeras vezes, soberania
não se sustenta apenas com discursos, votos em organismos multilaterais ou boas
intenções diplomáticas. Sustenta-se, antes de tudo, com capacidade real de
dissuasão, previsibilidade orçamentária e instrumentos efetivos de poder como o
chamado hard power (poderío militar)que combinado de forma inteligente
com o soft power (diplomacia), pode ser uma solução inteligente.
A captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, em uma operação
cirúrgica e de alto impacto político, revela a assimetria brutal entre Estados
com forças armadas estruturadas, financiadas de forma contínua e integradas a
uma estratégia nacional, e aqueles cuja defesa se tornou retórica vazia ou
variável de ajuste fiscal. Não se trata aqui de juízo de valor, mas de
constatação objetiva. Quem não consegue proteger seu território, suas
instituições e seus líderes, não controla plenamente seu destino.
Nesse cenário, talvez não se trate de estratégia, mas da exposição de
fragilidades acumuladas por Estados que abriram mão, ao longo do tempo, de
capacidade real de dissuasão para ter discursos populistas ligados a auxílios
travestidos de bolsas que no final só garantem outra eleição, mas os diminuem
com Estados.
A resposta raramente agrada. Segurança nacional não é improviso, tampouco
projeto de governo. É política de Estado, construída ao longo de décadas,
sustentada por orçamento sustentável e contínuo, planejamento de longo prazo e
clareza estratégica. Países que tratam defesa como gasto supérfluo acabam
terceirizando, consciente ou inconscientemente, sua soberania.
O hard power que tem em seu esteio, Forças Armadas capacitadas,
tecnologia, inteligência e prontidão não exclui o soft power. Pelo
contrário, diplomacia eficaz, capacidade de mediação, liderança
regional/mundial e credibilidade internacional só existem quando respaldadas
por força real. O mundo respeita quem dialoga, mas ouve com atenção quem também
pode se defender.
Para a América do Sul em 2026, a crise venezuelana tende a ser um divisor de
águas. Fluxos migratórios, instabilidade fronteiriça, disputas de influência extrarregionais
e precedentes perigosos pressionam os países vizinhos. O Brasil, em especial,
não pode se dar ao luxo da ingenuidade estratégica. Sua tradição diplomática é
um ativo valioso, mas perde eficácia se dissociada de capacidade militar crível
e de uma política de defesa estável e previsível.
Tratar episódios dessa magnitude como “normalidade” é um erro estratégico. A soberania, quando negligenciada, não desaparece de forma ruidosa ela se esvai silenciosamente. E quando se percebe a perda, geralmente já é tarde demais para recuperá-la sem custos elevados.
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército, foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília.

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