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18 fevereiro, 2026

Da teoria à trincheira: como a impressão 3D está revolucionando a defesa no brasil e no mundo

Tecnologia que nasceu em laboratórios civis transforma-se em arma estratégica nos campos de batalha da Ucrânia e impulsiona a indústria brasileira de defesa

“Fábrica” de impressão 3D independente da The ExOne Company que opera a partir de um contêiner de transporte

*LRCA Defense Consulting - 18/02/2026

Quando o Exército Brasileiro publicou recentemente um artigo técnico sobre Manufatura Aditiva e seus usos militares, poucos imaginavam que aquela análise acadêmica refletia uma revolução silenciosa que já transformava campos de batalha a milhares de quilômetros de distância. Na Ucrânia, soldados imprimem peças de drones em impressoras 3D instaladas próximo à linha de frente. Nos Estados Unidos, a Força Aérea substitui componentes de aeronaves antigas com peças fabricadas digitalmente. E no Brasil, empresas como Taurus, Embraer e XMobots investem milhões para dominar uma tecnologia que promete redefinir não apenas como se fabricam armas, mas como se conduzem as guerras modernas.

Do laboratório ao campo de batalha
A Manufatura Aditiva (MA), conhecida popularmente como impressão 3D, consiste na formação de objetos tridimensionais por meio da deposição sucessiva de camadas de material. Embora tenha sido criada em 1984 e consolidada inicialmente em setores civis como indústria automotiva, aeroespacial e médica, seu uso vem crescendo de maneira exponencial no campo militar, oferecendo rapidez, autonomia e flexibilidade em cenários onde cada segundo pode determinar o destino de uma missão.

O artigo do EBlog do Exército Brasileiro, assinado pelo Subtenente Julio Cezar Rodrigues Eloi, detalha como essa tecnologia pode contribuir para operações, logística e capacidades estratégicas das forças armadas. O documento ressalta que a MA já ultrapassou a esfera experimental e se integra gradualmente aos processos tradicionais de defesa em diversos países.

O caso ucraniano: quando a necessidade vira inovação
Nenhum caso ilustra melhor o potencial militar da impressão 3D do que a guerra na Ucrânia. Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, o país transformou-se em um gigantesco laboratório de inovação militar. Em 2024, foram construídos 1,5 milhão de drones de ataque e reconhecimento, com expectativa de produção de 4,5 milhões até o final do ano, um salto astronômico em relação às 300 mil unidades de 2023.

Empresas como a Wild Hornets operam verdadeiras fazendas de impressoras 3D, dezenas de equipamentos Bambu Lab e Elegoo funcionando 24 horas por dia, para produzir componentes dos drones interceptadores Sting, que combatem os Shaheds iranianos. A organização afirma ter neutralizado 1.738 ativos inimigos no valor de US$ 1,69 bilhão, incluindo 448 UAVs adversários.

Outras fabricantes ucranianas, como a TAF Drones, operam instalações secretas no oeste da Ucrânia onde mais de 100 funcionários produzem cerca de 1.000 drones diariamente. O modelo ucraniano demonstrou que a impressão 3D permite iteração em ciclos curtíssimos: imprimir, montar, testar e modificar projetos quase em tempo real. Um protótipo que funciona hoje pode ser ajustado até amanhã, comprimindo ciclos de desenvolvimento que levariam anos na fabricação aeroespacial tradicional em questão de semanas.

"Praticamente toda brigada ucraniana tem uma unidade de drones, com capacidade de reparo e também de produção de novos drones", explica Sandro Teixeira Moita, professor na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro. "Por mais incrível que pareça, um dos principais insumos para o esforço de guerra ucraniano é o polímero, material que a impressora 3D usa para a impressão de peças de drones."

Mas não é apenas na produção de drones que a Ucrânia inovou. O país desenvolveu também capacidades em impressão 3D de metal para peças de reposição de equipamentos militares. Empresas britânicas como a Babcock, em parceria com a QinetiQ, receberam contratos para produzir desenhos digitais e arquivos CAD de equipamentos essenciais, permitindo que o pessoal ucraniano imprima peças localmente conforme necessário, reduzindo drasticamente a dependência de cadeias de suprimentos externas.

Estados Unidos: investimento bilionário em autonomia logística
Se a Ucrânia improvisou sua revolução em manufatura aditiva sob pressão, os Estados Unidos a planejaram meticulosamente. Desde 2017, as Forças Armadas norte-americanas fazem investimentos substanciais em impressão 3D para melhorar a resiliência da cadeia de suprimentos e o desempenho operacional geral.

Em 2021, o Departamento de Defesa dos EUA contratou a The ExOne Company para desenvolver uma "fábrica" de impressão 3D independente que opera a partir de um contêiner de transporte. Em 2022, o fabricante australiano SPEE3D foi selecionado pela Marinha para fornecer sua tecnologia de manutenção MAINTENX. Em 2024, os militares do Reino Unido receberam seu primeiro lote de componentes impressos em 3D para sistemas navais e de artilharia.

O mercado global de impressão 3D militar deve registrar uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) superior a 10% durante o período 2024-2029, segundo a Mordor Intelligence. O mercado aeroespacial e de defesa especificamente deve atingir US$ 8,20 bilhões até 2029, crescendo a um CAGR de 15,13%.

A 3D Systems, em colaboração com a Força Aérea dos EUA, usa fabricação aditiva para substituir peças difíceis de construir para aeronaves militares antigas. Em novembro de 2024, a Agência de Logística de Defesa concedeu um contrato para um componente impresso em 3D que protege a aeronave F-15 contra danos estruturais, o primeiro contrato nesta categoria para manufatura aditiva.

Brasil na vanguarda: Taurus, Embraer e XMobots

Impressora suíça 3D DMP (Direct Metal Priting) Flex 350, da 3D Systems, em uso na Taurus

Taurus: pioneira em Manufatura Aditiva Metálica
A Taurus Armas foi pioneira na América do Sul ao receber, em abril de 2020, a impressora suíça 3D DMP (Direct Metal Printing) Flex 350, da 3D Systems, a primeira entregue em todo o Hemisfério Sul. O sistema de fabricação Direct Metal Printing de alto desempenho oferece redução de desperdício, maiores velocidades de impressão e peças de metal com propriedades mecânicas excelentes.

Imprimindo em metal, a impressora faz o protótipo inteiro de uma arma em apenas um dia ininterrupto de trabalho, enquanto o processo anterior utilizava terceiros e demorava muitos dias. Além de precisão muito maior, por ser totalmente robotizado, o processo gera considerável ganho de tempo e economia de recursos.

Mas a Taurus não parou aí. A empresa também domina a tecnologia Metal Injection Molding (MIM), sendo uma das apenas duas fabricantes de armas no mundo com essa capacidade, e a única abaixo do Equador. Hoje, fabrica mais de 80 mil peças MIM por dia, com planos de chegar a 110 mil peças/dia após a instalação de um terceiro forno contínuo.

A empresa gaúcha tornou-se referência global ao anunciar a produção de armas com grafeno, material revolucionário que proporciona melhor desempenho contra oxidação, potencializa propriedades mecânicas como resistência ao impacto e reduz o peso das armas. A versão da pistola GX4 com grafeno, lançada em 2021, foi a primeira arma do mundo a usar esse material.

Embraer: aviões mais leves, mais eficientes
A Embraer utiliza a Manufatura Aditiva para construir peças de plástico encontradas no interior dos E-Jets E2, resultando em componentes até 40% mais leves. O Termoplástico AM substituiu o processo demorado e manual anteriormente utilizado para preparação e usinagem de peças e ferramentas.

As peças agora levam 50% menos tempo de produção, geram 65% menos resíduos e evitam o contato de compostos orgânicos voláteis com os funcionários. A MA é usada para construir 37 tipos de peças internas nos E2s, incluindo grades de ar-condicionado, unidades de proteção de sistemas, flanges do sistema de sucção dos lavatórios e dutos de ar.

"No ano passado, produzimos mais de 1.800 peças por MA para o programa E2. Nossos engenheiros já estão trabalhando para criar peças de metal por meio do mesmo processo de MA", informou a fabricante brasileira. "A manufatura aditiva é apenas mais uma ferramenta que nos ajuda a tornar nossos E2s os aviões mais ecologicamente corretos do mercado".

XMobots: da Ucrânia para São Carlos
É no caso da XMobots, maior fabricante de drones da América Latina, que vemos a convergência entre a experiência ucraniana e a capacidade industrial brasileira. A empresa de São Carlos (SP) consolidou recentemente uma parceria estratégica com a SKA Automação de Engenharias, representante da HP no Brasil, trazendo impressoras 3D industriais de última geração para seu chão de fábrica.

A aliança posiciona o Brasil na fronteira tecnológica da manufatura aditiva para defesa, com a mesma tecnologia que tem permitido à Ucrânia produzir milhares de drones por mês. A XMobots deixou de usar impressão 3D apenas como ferramenta de prototipagem para tratá-la como pilar central da manufatura de seus sistemas de defesa.

As soluções aplicam-se diretamente ao desenvolvimento dos drones da família Nauru, especialmente os modelos Nauru 100D ISTAR, Nauru 500C ISR e Nauru 1000C ISTAR — plataformas táticas pensadas para missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos.

O Nauru 1000C ISTAR, selecionado pelo Exército Brasileiro para missões de monitoramento de fronteiras, é um drone VTOL (decolagem e pouso vertical) de categoria 2 com envergadura de 7,7 metros, autonomia de 10 horas e capacidade de carga útil de 18 kg. A empresa também firmou parceria com a MBDA, maior empresa europeia de mísseis, para desenvolver a versão armada do Nauru 1000C com mísseis Enforcer Air, tornando-o o primeiro drone brasileiro a integrar capacidade de ataque guiado de precisão.

A impressão 3D industrial entra como facilitadora em diversos pontos críticos: produção de carenagens, suportes internos, pods de sensores e estruturas secundárias complexas; redução de ferramental, gabaritos e dispositivos de montagem; e iteração rápida de novas geometrias, acelerando drasticamente o ciclo entre projeto e validação em campo.

Drone Nauru 100D, da XMobots

Vantagens e desafios da impressão 3D militar
O artigo do EBlog sistematiza as principais vantagens e limitações da tecnologia em ambientes de combate. Entre as vantagens destacam-se:

  1. Produção rápida e local de armamentos, munições e drones, atuando como fonte alternativa em situações de escassez;

  2. Fabricação de componentes personalizados e sob demanda, aumentando a adaptabilidade da tropa e acelerando reparos em campo;

  3. Redução de custos e dependência de fornecedores externos;

  4. Autonomia logística em operações remotas ou em ambientes hostis.

Quanto às limitações:

  1. Durabilidade menor das peças quando comparada às armas convencionais, devido ao uso predominante de polímeros;

  2. Confiabilidade operacional dependente da qualidade do material e da habilidade do operador, restringindo seu emprego a funções emergenciais ou suplementares;

  3. Desafios de certificação e controle de qualidade em ambientes militares regulados;

  4. Questões de propriedade intelectual e segurança cibernética dos arquivos digitais.

Aplicações além das armas
A tecnologia não se limita à produção de armamentos. Pesquisadores identificaram aplicações em diversos campos:

- Construção e engenharia: o Exército e a Marinha dos EUA estão utilizando impressão 3D para construir quartéis militares, aproveitando misturas de cimento e concreto de alta performance depositadas camada por camada por robôs. Projetos menores podem ser concluídos em um dia, enquanto estruturas maiores ficam prontas em uma semana.

- Equipamentos individuais: a tecnologia oferece vantagens importantes ao permitir a produção de equipamentos personalizados como capacetes, coletes e protetores auriculares ajustados às características anatômicas de cada militar, melhorando conforto, proteção e capacidade operacional.

- Veículos blindados: pesquisas relacionadas ao Challenger 3 e aos veículos Boxer, da Rheinmetall BAE Systems Land, demonstram que componentes estruturais podem ser fabricados por impressão 3D.

- Sistemas aeroespaciais: a NASA testa materiais impressos em 3D para aplicações futuras no espaço. O mecanismo SuperDraco, que fornece impulso de escape para a cápsula espacial Dragon V2 da SpaceX, está totalmente impresso em 3D.

O futuro: impressão 4D e materiais inteligentes
Pesquisadores apontam que a Manufatura Aditiva poderá viabilizar a produção de sensores biométricos e exoesqueletos, ampliando significativamente as capacidades físicas e cognitivas de militares em operação. A impressão 4D, evolução natural da impressão 3D, incorpora materiais inteligentes capazes de responder a estímulos externos.

Tal avanço pode permitir, por exemplo, uniformes com camuflagem adaptativa ou sistemas capazes de alterar sua estrutura conforme variáveis ambientais, ampliando as possibilidades de proteção e desempenho. A tendência é a evolução em direção ao uso de materiais mais leves, resistentes e complexos, além da integração de elementos eletrônicos.

Soberania tecnológica: o caso brasileiro
Para o Brasil, as iniciativas da Taurus, Embraer e XMobots representam mais do que avanços tecnológicos pontuais. Elas sinalizam:

- Soberania industrial em um dos segmentos mais críticos da defesa contemporânea, reduzindo dependência de cadeias externas para modificações ou lotes especiais de componentes.

- Alinhamento com as melhores práticas que emergem do "laboratório de guerra" ucraniano, mas adaptadas à realidade de um grande país em paz, com capacidade de construir essa infraestrutura em ambiente controlado.

- Capacidade de resposta rápida a novas demandas das Forças Armadas e de clientes internacionais, uma vantagem competitiva crucial em mercados onde o tempo de desenvolvimento determina contratos.

A XMobots, fundada em 2007 e incubada no CIETEC-USP, emprega hoje cerca de 700 funcionários e ocupa o 6º lugar no ranking mundial da Drone Industry Insights. A empresa recebeu investimento da Embraer em 2022, consolidando sua posição estratégica no setor aeroespacial brasileiro.

"Nosso objetivo é dar à Ucrânia a capacidade de recriar as peças militares de que precisa, onde e quando realmente for necessário", afirmou Tom Newman, CEO da Babcock's Land Sector, ao comentar a parceria com a QinetiQ para apoio ao esforço de guerra ucraniano. A mesma lógica se aplica ao Brasil: ter capacidade instalada de manufatura aditiva significa poder responder rapidamente a crises sem depender de cadeias de suprimento internacionais vulneráveis.

Lições da guerra e perspectivas futuras
O Tenente-Coronel Ben Irwin-Clark, comandante do 1º Batalhão de Guardas Irlandeses do Exército Britânico, foi direto ao afirmar que a decisão de investir em produção interna de drones foi "definitivamente uma lição que aprendemos da Ucrânia". Os britânicos já imprimiram seu primeiro corpo completo de drone e treinam 78 soldados como pilotos ou instrutores.

A Holanda desenvolveu o AMCOD (Additive Manufacturing Container of Defense), um hub de reparo móvel na forma de contêiner de transporte projetado para ser instalado em qualquer navio da Marinha Real Holandesa, equipado com ar-condicionado, ventilação e fonte de alimentação ininterrupta para produção de peças de polímero 24 horas por dia.

No Mali, desde 2015, o Exército Holandês utiliza impressão 3D para substituir peças de sobressalentes desgastadas dos veículos Fennek pelo clima do deserto, reduzindo drasticamente os prazos de entrega que antes dependiam de cadeias logísticas complexas.

A nova era da Defesa
Os exemplos apresentados demonstram que a manufatura aditiva oferece vantagens expressivas ao ambiente militar, especialmente em termos de redução de custos, rapidez na produção, autonomia logística e personalização de equipamentos. Esses benefícios se estendem à fabricação de armamentos, munições, peças sobressalentes, equipamentos individuais e até estruturas de construção civil.

Enquanto a Ucrânia demonstra que a impressão 3D pode sustentar produção quase artesanal, mas em grande escala, de drones militares, empresas brasileiras como Taurus, Embraer e XMobots mostram que o país é capaz de transformar essa lógica em política industrial: fábricas digitais de defesa, com robôs industriais, linhas seriadas e manufatura aditiva integrada.

Em um cenário em que a próxima geração de conflitos será protagonizada por enxames de drones projetados, fabricados e modificados em ciclos cada vez mais curtos, ter empresas brasileiras dominando impressão 3D industrial é jogar na mesma liga de quem hoje redefine a guerra na Ucrânia, só que com a vantagem de construir essa capacidade desde já, em ambiente controlado, para quando o país precisar.

Como ressalta o artigo do EBlog do Exército Brasileiro, fatores como segurança cibernética e sustentabilidade serão determinantes para a evolução da Manufatura Aditiva nas próximas décadas. A mensagem é clara: o Brasil não está apenas observando a revolução da manufatura aditiva na defesa. Está construindo, em São Carlos, São Leopoldo e São José dos Campos, os pilares dessa nova era.

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