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25 fevereiro, 2026

MARSUP: SIATT e Marinha firmam acordo para criar versão aérea do MANSUP

Protocolo de Intenções assinado em 23 de fevereiro prevê estudos para adaptar o míssil antinavio de superfície para emprego a partir de aeronaves da Força Aeronaval, ampliando a autonomia estratégica da Defesa brasileira 


*LRCA Defense Consulting - 25/02/2026

Numa movimentação que reforça o compromisso do Brasil com a soberania tecnológica em defesa, a SIATT Engenharia, Indústria e Comércio S.A. e a Marinha do Brasil formalizaram, na última segunda-feira (23), um Protocolo de Intenções para o desenvolvimento conjunto de dois grupos de Mísseis Ar-Superfície Antinavio batizados de MARSUP. 

O documento foi assinado na sede da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM), no Rio de Janeiro, pelo Vice-Almirante Carlos Henrique Zampieri, diretor da DSAM, e por Rogério Salvador, presidente da SIATT. 

O acordo representa um novo capítulo na expansão de uma família de armamentos que vem sendo construída há mais de uma década. A base tecnológica do MARSUP é o próprio MANSUP (Míssil Antinavio de Superfície), já em fase avançada de operacionalização pela Marinha e cuja trajetória de desenvolvimento é, por si só, uma história de persistência da indústria nacional. 

Do navio ao céu: a lógica da evolução
O foco dos estudos previstos no protocolo é avaliar a viabilidade técnica de adaptar a tecnologia consolidada no MANSUP para que ela possa ser lançada a partir de aeronaves da Força Aeronaval. Trata-se de uma evolução conceitual já bem conhecida na história dos armamentos modernos: o míssil francês Exocet, por exemplo, começou como sistema superfície-superfície (MM38) e se tornou mundialmente famoso na versão aérea AM39, amplamente utilizada em conflitos pelo mundo. 

Não é coincidência que analistas e militares brasileiros citem o Exocet como paralelo. A própria DSAM, ao comentar o acordo firmado em fevereiro de 2025 na feira IDEX, em Abu Dhabi, onde também foram avançadas conversas sobre a família MANSUP, adotou essa comparação para explicar a estratégia. "A intenção é aproveitar o sucesso do MANSUP para expandir as capacidades do armamento naval brasileiro", afirmou o Vice-Almirante Zampieri em evento anterior. 

Imagem meramente ilustrativa

MANSUP: da prancheta ao mar aberto
Para compreender a envergadura do novo acordo, é preciso entender o que o MANSUP representa. O projeto foi iniciado no fim da década de 2000, com o objetivo de substituir a dependência dos mísseis Exocet estrangeiros. Financiado pela Marinha e por créditos de compensação (offset) de contratos internacionais, como a aquisição dos helicópteros H225M, o programa consumiu mais de R$ 380 milhões até 2019 e envolveu empresas brasileiras como Avibras, Omnisys e Atech, além da própria SIATT (à época chamada Mectron). 

Em setembro de 2024, o míssil demonstrou sua eficácia em um teste de afundamento (SINKEX), ao atingir com precisão o ex-HMS Broadsword, navio da Marinha Britânica cedido ao Brasil. Em dezembro do mesmo ano, a SIATT realizou o primeiro lançamento do MANSUP a partir de uma plataforma terrestre, com o uso de um lançador ASTROS operado pela Infantaria da Marinha, expandindo ainda mais o escopo operacional do sistema. 

Em junho de 2025, a SIATT assinou contrato formal para o fornecimento do MANSUP à Marinha, que equipará as novas Fragatas da Classe Tamandaré. Paralelamente, a Marinha firmou um contrato de compartilhamento de tecnologia por 10 anos com a SIATT e o Grupo EDGE dos Emirados Árabes Unidos, que adquiriu 50% da empresa em 2023, permitindo o desenvolvimento, produção, uso e venda do míssil e do MANSUP-ER, versão de alcance estendido, tanto no Brasil quanto no exterior, mediante pagamento de royalties

"Este protocolo marca um avanço concreto na evolução de uma capacidade construída ao longo de anos pela indústria nacional. Ele demonstra a maturidade tecnológica alcançada pela SIATT e, sobretudo, o talento da nossa equipe." - Rogério Salvador, presidente da SIATT 

Uma família de mísseis e o olhar para o mercado global
O MARSUP não é o único braço da expansão planejada. Os acordos firmados em Abu Dhabi em fevereiro de 2025 também previram o desenvolvimento de variantes superfície-ar (SAM) e de ataque terrestre (LAM) baseadas nas tecnologias do MANSUP. Em abril de 2025, um acordo com a empresa turca Kale Jet Engines garantiu o fornecimento de motores turbojato KTJ-3200 para a versão MANSUP-ER, o mesmo motor usado no míssil antinavio turco Atmaca. 

No front comercial, os avanços também são expressivos. A SIATT e o Grupo EDGE fecharam um acordo avaliado em cerca de US$ 350 milhões com os Emirados Árabes Unidos para a venda do MANSUP, e negociações de exportação estão em andamento com países da África, Ásia e América Latina. Projeções da SIATT apontam para uma receita potencial de até US$ 500 milhões com exportações até 2030. Em abril de 2025, na feira LAAD, a SIATT e a estatal EMGEPRON assinaram um memorando para facilitar vendas que exijam acordos governo a governo, sob supervisão do Ministério da Defesa. 

 

Desafios e perspectivas
Apesar do otimismo, especialistas apontam desafios. A versão básica do MANSUP tem alcance de 70 quilômetros, considerado modesto frente a mísseis concorrentes que ultrapassam 300 km. O MANSUP-ER busca endereçar essa limitação, mas sua produção em escala depende de novos investimentos. A Marinha planeja nacionalizar 95% dos componentes do sistema até 2030, mas a dependência de microeletrônicos importados ainda é um gargalo, especialmente diante das instabilidades globais nas cadeias de suprimento de semicondutores. 

Para o MARSUP especificamente, o protocolo assinado em 23 de fevereiro representa um ponto de partida: os estudos precisarão validar tecnicamente a adaptação do sistema para emprego aéreo, o que envolve não apenas modificações no míssil, mas integração com as aeronaves da Força Aeronaval e desenvolvimento de novos conceitos operacionais. 

Se os estudos avançarem conforme esperado, o Brasil poderá, a médio prazo, contar com um míssil antinavio lançado a partir do ar, totalmente nacional, uma capacidade que hoje é dominada por poucos países no mundo e que representaria um salto qualitativo no Poder Naval brasileiro.

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