Ministro Mucio afirma que país será "grande
ator" no setor de mísseis especiais; fabricante do sistema ASTROS tenta
encerrar três anos de paralisação e greve histórica
*LRCA Defense Consulting - 23/03/2026
O ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, fez uma declaração de otimismo nesta segunda-feira ao comentar o andamento das negociações para reativar a Avibras Indústria Aeroespacial, maior empresa privada de defesa do Brasil. "O Brasil será um grande ator no mundo nessa questão dos mísseis especiais", afirmou Mucio a jornalistas, após o lançamento do Catálogo de Produtos da Base Industrial de Defesa do Brasil, realizado na sede do Ministério da Defesa, em Brasília.
O ministro revelou ter recebido no mesmo dia uma ligação de uma "pessoa interessada" na empresa e demonstrou esperança na solução do impasse. "Se Deus quiser, isso vai se resolver, e será mais uma grande indústria que o governo Lula vai pôr para funcionar", disse.
Uma empresa estratégica paralisada há três anos
A Avibras não é uma fabricante qualquer. Fundada em 1961 pelo engenheiro
João Verdi em São José dos Campos, no interior de São Paulo, a empresa acumula
mais de seis décadas de história e é a única integradora nacional de sistemas
de propulsão de foguetes e mísseis do Brasil. Seu produto mais conhecido, o
sistema de lançamento múltiplo ASTROS (Artillery Saturation Rocket System), é
referência mundial em precisão e mobilidade, já foi operado em combate real no
Oriente Médio e hoje equipa as Forças Armadas brasileiras com 83 viaturas, além
de ser exportado para países como Arábia Saudita, Indonésia, Malásia e Qatar.
No auge de sua trajetória, em 2017, a Avibras faturou R$ 1,7 bilhão, sendo as exportações responsáveis por cerca de 90% da receita. Era a maior exportadora brasileira de armamentos e sistemas de defesa.
Mas o cenário mudou drasticamente. Em março de 2022, a empresa pediu recuperação judicial alegando dívidas de R$ 600 milhões. Em seguida, anunciou 420 demissões, suspensas pela Justiça após ação do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. Em setembro do mesmo ano, os trabalhadores cruzaram os braços. A greve que se seguiu durou 1.280 dias, uma das mais longas da história sindical brasileira, e a fábrica ficou três anos sem produção contínua.
O plano de reestruturação e a virada de 2025
Após um longo e turbulento processo judicial, a situação começou a mudar em
2025. Em maio daquele ano, credores aprovaram um plano de recuperação judicial
por expressivos 99,2% dos votos. Em julho, o Tribunal de Justiça de São Paulo
homologou a transferência de 99% das ações da Avibras para o Brasil Crédito
Gestão Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, principal credor da
empresa, destituindo o ex-proprietário João Brasil Carvalho Leite. Em agosto, a
companhia elegeu um novo diretor-presidente, Fábio Guimarães Leite, advogado
com experiência em mercado de capitais e reestruturações societárias.
Com a nova gestão no comando, a Avibras anunciou a intenção de retomar as operações em março de 2026, o mês em curso. A própria empresa, em nota divulgada no final de fevereiro, descreveu a transição como superação de "três anos marcados pelo desgoverno da antiga administração". O plano, no entanto, ainda depende do cumprimento de condições precedentes, incluindo a definição do apoio financeiro do governo federal, descrito pela própria companhia como algo que "permanece sem definição", e a confirmação de orçamento para aquisições pelo Exército Brasileiro.
Na frente trabalhista, uma conquista concreta: neste mês de março, os 1.280 dias de greve chegaram ao fim. Em assembleia sindical, os trabalhadores aprovaram a proposta de quitação da dívida trabalhista acumulada, que soma R$ 230 milhões, parcelada em 12 a 48 vezes conforme a faixa salarial. Para retomar as atividades, a Avibras deverá encerrar os vínculos dos 850 funcionários ainda registrados, quitar os débitos conforme o plano e recontratar 450 trabalhadores.
O que está em jogo: soberania e um míssil chamado
"Matador"
A paralisia da Avibras não é apenas uma questão trabalhista ou empresarial.
Para analistas e militares, trata-se de uma ameaça direta à soberania nacional.
A empresa detém competências tecnológicas sensíveis que o Brasil levaria
décadas para reconstituir caso fossem perdidas.
O projeto de maior peso estratégico no momento é o AV-TM 300, o míssil tático de cruzeiro apelidado informalmente de "Matador". Com desenvolvimento iniciado oficialmente em 2001, o míssil alcança até 300 km de distância na versão de exportação e mais de 1.000 km na versão de uso interno, é guiado por GPS e navegação inercial com precisão de aproximadamente 30 metros. O Exército assinou contrato de encomenda em novembro de 2012, investindo 100 milhões de dólares no projeto. O "Matador" estava em fase final de desenvolvimento quando a crise financeira da Avibras paralisou tudo.
Em outubro de 2025, durante a Operação Atlas, o maior exercício conjunto das Forças Armadas realizado na Amazônia, com cerca de 10 mil militares, o sistema ASTROS 2020 fez seu primeiro disparo na região, atingindo um alvo a 300 km com alta precisão, em Bonfim (RR). O feito reforçou a importância estratégica da tecnologia da Avibras para a proteção das fronteiras brasileiras.
O Exército apresentou ao presidente brasileiro um ambicioso plano de modernização da defesa nacional com investimentos previstos de R$ 456 bilhões até 2040. Entre as prioridades estão justamente o "Matador" e um novo míssil balístico, o S+100, com tecnologia inteiramente nacional. Ambos dependem diretamente da reativação da Avibras.
Em janeiro de 2026, o Exército realizou uma visita
institucional às instalações da empresa, liderada pelo General de Divisão Tales
Villela, Diretor de Fabricação da Força, para acompanhar a retomada industrial e avaliar a continuidade dos
projetos estratégicos, sinal claro do quanto as Forças Armadas monitoram de
perto o processo.
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| Míssil de Cruzeiro Avibras AV-MTC 300 lançado pelo Sistema Astros |
Interesse do Oriente Médio e risco de desnacionalização
Paralelamente às negociações internas, a Avibras tenta também reabilitar
sua carteira de clientes internacionais. O presidente da empresa, Fábio
Guimarães Leite, confirmou que a companhia retomou negociações com compradores
do Oriente Médio, citando Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e
Indonésia, países que historicamente adquiriram sistemas ASTROS.
Mas o interesse externo acende um sinal de alerta. Parlamentares e analistas alertam para o risco de que a Avibras seja adquirida por potências estrangeiras. Um projeto de lei de nacionalização da empresa, protocolado na Câmara, ganhou força no debate público. Anteriormente, a empresa havia indicado negociações com o grupo árabe Black Storm Military Industries, que, segundo a Avibras, "permanece comprometido" com uma aquisição, o que, para críticos, representaria a perda do controle nacional sobre tecnologia militar sensível.
A comparação que circula nos meios especializados é eloquente: para muitos analistas, a Avibras é o equivalente brasileiro das europeias Saab ou Thales, empresas que representam o núcleo tecnológico de suas nações. Perder seu controle seria, na avaliação desses especialistas, um retrocesso sem precedentes para a autonomia estratégica do Brasil.
Um voo ainda incerto
As declarações otimistas do ministro Mucio chegam em um momento de grande
expectativa, mas também de incerteza. Os trabalhadores encerraram a greve, os
credores aprovaram o plano, a gestão mudou e o Exército acompanha de perto.
Ainda assim, a contribuição financeira do governo federal segue indefinida, e
há condições precedentes que ainda precisam ser cumpridas.
O que ninguém questiona é a dimensão do que está em jogo. Uma empresa fundada há mais de 60 anos, que já exportou sistemas de mísseis para o Oriente Médio, que participou do maior exercício militar da Amazônia e que carrega em seu catálogo o mais poderoso míssil de cruzeiro já desenvolvido no Brasil não pode ser tratada como um caso corriqueiro de recuperação judicial.
Se o Brasil quer, de fato, ser "um grande ator no mundo nessa questão dos mísseis especiais", como afirmou o ministro Mucio, o caminho passa inevitavelmente por uma única fábrica localizada em Jacareí, no interior de São Paulo, e pelo desfecho das negociações que, segundo o próprio ministro, dependem agora de uma ligação telefônica e, nas palavras dele, de Deus.


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