Fabricante brasileira participa da LIMA 2026 em Kuala Lumpur com duas de suas principais plataformas militares, consolidando uma ofensiva comercial que se aprofunda há mais de dois anos na região
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| Imagem meramente ilustrativa |
*LRCA Defense Consulting - 15/04/2026
De 20 a 23 de abril, o Malaysia International Trade and Exhibition Centre (MITEC), em Kuala Lumpur, receberá a presença da Embraer com duas de suas mais avançadas plataformas militares: o cargueiro tático multimissão KC-390 Millennium e o avião de ataque leve A-29 Super Tucano. A participação na edição 2026 do Langkawi International Maritime and Aerospace Exhibition (LIMA) não é pontual, ela é o desdobramento de uma estratégia sistemática e crescente de penetração no mercado de defesa da Ásia-Pacífico, construída ao longo de anos de aproximações diplomáticas, demonstrações operacionais e acordos comerciais.
Uma frota envelhecida e uma janela de oportunidade
O interesse da Embraer pela Malásia tem raízes concretas. A Real Força
Aérea da Malásia (RMAF) opera atualmente 15 aeronaves de transporte tático
Hercules C-130H. A maioria delas está em serviço desde 1976, enquanto o
restante das variantes foi recebido entre 1993 e 2002. Embora o governo malaio
tenha sinalizado que os C-130 continuarão em uso até 2040, analistas apontam
que a manutenção de aeronaves com mais de quatro décadas de uso coloca desafios
crescentes de disponibilidade e custo operacional.
Comparado ao Hercules C-130J, o KC-390 é 15% mais rápido, transporta carga 18% mais pesada e tem custo de aquisição 41% menor. Apesar de ter alcance ligeiramente inferior, a capacidade de reabastecimento aéreo como característica padrão da aeronave confere-lhe uma vantagem significativa, já que apenas algumas variantes específicas do C-130 possuem tal recurso.
A capacidade de carga do KC-390, de até 26 toneladas, e sua velocidade de 870 km/h tornam-no particularmente atraente para nações com geografias complexas, como a Malásia, que inclui extensas áreas insulares em Sabah e Sarawak, além de densas florestas tropicais onde a mobilidade aérea é vital.
Alto nível: Embraer se reúne com o Premier malaio
A aproximação mais significativa registrada até o momento ocorreu em julho
de 2025, durante a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro. O Primeiro-ministro da
Malásia, Datuk Seri Anwar Ibrahim, realizou uma reunião estratégica de alto
nível com a Embraer, liderada pelo presidente e CEO da empresa, Francisco Gomes
Neto. O encontro teve como foco principal discutir oportunidades de
investimento estratégico e fortalecer o ecossistema da indústria de aviação da
Malásia, com ênfase em políticas favoráveis a investidores, desenvolvimento de
talentos locais e parcerias em tecnologia de alto impacto.
A reunião contou ainda com a participação de Jose Serrador Neto, vice-presidente global de relações institucionais da Embraer, Raul Villaron, vice-presidente sênior e chefe da região Ásia-Pacífico, além de Anthony Loke, ministro dos Transportes da Malásia, e Tengku Zafrul Tengku Abdul Aziz, ministro do Investimento, Comércio e Indústria.
Segundo informações da agência Bernama, Anwar ressaltou o interesse em expandir a cooperação no setor de defesa, especialmente para aprimorar a mobilidade aérea das Forças Armadas da Malásia. As discussões também abordaram possíveis colaborações em manutenção, reparo e revisão (MRO) de aeronaves, e a possibilidade de estabelecer centros de manutenção regionais para o KC-390 em território malaio, o que incluiria transferência de tecnologia e capacitação de engenheiros locais.
O tabuleiro regional: pressão de Pequim e necessidade de
modernização
A motivação estratégica da Malásia para modernizar sua frota de transporte
não é apenas técnica. O Sudeste Asiático vive um clima de forte tensão com a
expansão militar promovida por Pequim na região marítima ao sul da China. Nesse
contexto, a necessidade de vetores de transporte táticos modernos, com
capacidade de operar em pistas curtas, áreas insulares e florestas, é cada vez
mais urgente.
A aeronave A-29 Super Tucano também desperta interesse, uma vez que a Malásia, por ser um país com grande fronteira marítima e áreas insulares além de densas florestas, poderia utilizá-la para cumprir missões de vigilância marítima e patrulha costeira, à semelhança do que fazem seus vizinhos Indonésia e Filipinas.
A ofensiva na Ásia-Pacífico: um mercado endereçável de
184 aeronaves
A presença na LIMA 2026 insere-se num movimento mais amplo. A participação
da Embraer no Singapore Airshow 2026, realizado entre 3 e 8 de fevereiro,
consolidou uma mensagem clara: a Ásia-Pacífico deixou de ser um mercado
secundário para se tornar um dos principais vetores de expansão da fabricante
brasileira nas próximas décadas.
O presidente da Embraer Defesa e Segurança, Bosco da Costa Junior, identificou um mercado endereçável de 184 aeronaves de transporte na região Ásia-Pacífico, muitas delas com cerca de 50 anos de idade e necessitando substituição urgente. A empresa reduziu o tempo de produção em 33% e planeja entregar seis aeronaves Millennium em 2026, ante três em 2025, com meta de produzir dez unidades anuais até 2030.
Entre as conquistas recentes do KC-390 no mercado asiático, destaca-se um cliente inédito anunciado durante o Singapore Airshow: o Uzbequistão tornou-se o primeiro operador do C-390 na região da Ásia Central, com a aeronave a ser utilizada principalmente em missões de transporte e humanitárias. Além disso, o primeiro KC-390 destinado à Força Aérea da República da Coreia atingiu a fase final de montagem em dezembro de 2025, com previsão de entrega ainda em 2026, sob o programa Large Transport Aircraft II.
Demonstrações presidenciais: Indonésia e Filipinas
A campanha de demonstrações tem gerado resultados expressivos em toda a
região. Em fevereiro de 2026, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto,
participou pessoalmente de uma demonstração do KC-390 na Base Aérea Halim
Perdanakusuma, em Jacarta, acompanhado pelo chefe do Estado-Maior da Força
Aérea indonésia.
Nas Filipinas, imediatamente após o Singapore Airshow 2026, um KC-390 Millennium realizou demonstração na Clark Air Base para a Força Aérea das Filipinas, com a presença do embaixador brasileiro Gilberto Moura e de diplomatas, reforçando o caráter de diplomacia de defesa da ação. O Brasil é apontado pelo Departamento de Defesa Nacional filipino como único parceiro formal de defesa na América Latina.
No caso das Filipinas, a relação com a Embraer é ainda mais sólida: a empresa confirmou que o país receberá seis aeronaves A-29 Super Tucano adicionais, dobrando a frota nacional para 12 unidades.
Singapura: uma porta que permanece entreaberta
Nem toda a trajetória regional foi linear. Singapura, que seria um cliente
de enorme prestígio simbólico para o KC-390, optou por uma solução
intermediária. A decisão da República de Singapura foi adquirir C-130H usados
para substituir seus quatro C-130B mais antigos, uma escolha que representa a
primeira vez desde os anos 1990 que a Força Aérea de Singapura recorre a
aeronaves usadas.
Contudo, analistas interpretam a decisão como adiamento, não como recusa definitiva. Em vez de uma recapitalização direta com o comprovado C-130J Super Hercules, a RSAF optou por uma abordagem faseada. Isso sinaliza que o Super Hercules pode não ser mais o substituto padrão. A Embraer, por sua vez, não desistiu: Bosco da Costa Junior revelou que a empresa está trabalhando ativamente com a ST Engineering para conhecer melhor os requisitos específicos da Força Aérea de Singapura, um indicativo claro de que o fabricante brasileiro leva a sério a possibilidade de uma venda futura ao país.
Singapura funciona como centro nervoso das operações da Embraer na Ásia-Pacífico, abrigando um Centro de Distribuição Regional com mais de US$ 100 milhões em peças de reposição e o primeiro simulador de voo completo para os E-Jets E2 na região.
A Índia: o maior prêmio
O horizonte mais ambicioso da Embraer na região está na Índia. O país
lançou uma concorrência para o programa MTA (Medium Transport Aircraft), que
prevê a aquisição de 40 a 80 aeronaves para substituir os envelhecidos Antonov
An-32 e Ilyushin Il-76. A Embraer firmou parceria estratégica com o grupo
Mahindra para estabelecer uma linha de montagem local do C-390, alinhando-se
aos programas "Make in India" e "Aatmanirbhar Bharat".
Recentes mudanças nos requisitos da Força Aérea Indiana parecem favorecer o C-390. A exigência de que a aeronave possa transportar o tanque leve Zorawar, de 25 toneladas, eliminou o Lockheed Martin C-130J Super Hercules da competição, deixando apenas o C-390 Millennium e o Airbus A400M como concorrentes viáveis.
Em paralelo, a Embraer e o Grupo Adani Defence & Aerospace assinaram um Memorando de Entendimento para desenvolver na Índia um ecossistema integrado de aeronaves com foco na aviação comercial regional, com instalação de linha de produção local de jatos comerciais E-Jets E2.
Um projeto de longo prazo
A presença na LIMA 2026 é, portanto, mais do que uma participação em feira.
É a expressão visível de uma estratégia construída sobre relacionamentos de
alto nível, demonstrações operacionais em campo, parcerias industriais e
infraestrutura de suporte permanente. A Embraer está presente na região há
quase cinco décadas, desde que a primeira aeronave operou na Ásia-Pacífico em
1978. Atualmente, sua frota abrange operadores em mais de 20 países.
Em Kuala Lumpur, entre os dias 20 e 23 de abril, o KC-390 Millennium e o A-29 Super Tucano serão a face mais visível dessa ambição. Mas o que se negocia nos bastidores do MITEC pode definir o futuro da aviação militar de toda a região por décadas.


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