Reestruturada com aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F, a empresa retoma o ASTROS, avança nos mísseis de cruzeiro e balístico, e revela dois sistemas de defesa antiaérea, de baixa e média altitude
*LRCA Defense Consulting - 23/05/2026
Em maio de 2026, quase quatro anos após um colapso financeiro que paralisou fábricas, atrasou salários por mais de 28 meses e desencadeou uma das mais longas greves da história da indústria de defesa brasileira, 1.280 dias, a Avibras voltou ao mapa. A empresa que criou o ASTROS, o sistema de lançadores múltiplos mais exportado da América Latina, reinicia suas operações sob o nome Avibras Aeroco, com nova estrutura societária, nova governança e um aporte de R$ 300 milhões do empresário Joesley Batista, do grupo J&F.
O plano de reestruturação foi aprovado por 99,2% dos credores e prevê ainda o pagamento de R$ 230 milhões em passivos trabalhistas. O Fundo Brasil Crédito, principal credor da antiga Avibras Indústria Aeroespacial, conduziu o processo e permanece como parte relevante da nova estrutura.
À frente da nova empresa, como diretor-presidente, está Sami Youssef Hassuani, engenheiro com mais de 40 anos de trajetória nos setores de defesa e aeroespacial e que já havia presidido a antiga Avibras. Sua presença sinaliza continuidade técnica e conhecimento profundo dos contratos e relações institucionais com o Exército Brasileiro.
A Avibras Aeroco tem sede em São José dos Campos, com instalações industriais em Jacareí e Lorena (SP), no coração do principal parque tecnológico e aeronáutico do Brasil. Todos os ativos industriais e tecnológicos da antiga Avibras foram preservados e incorporados à nova estrutura.
Sistema ASTROS: a referência
mundial provada em combateO carro-chefe da Avibras Aeroco é o ASTROS II MK6 (Artillery Saturation Rocket System), um sistema multicalibre de artilharia de foguetes e mísseis desenvolvido nos anos 1980 e comprovado em combate em múltiplos conflitos. É o único sistema do mundo capaz de lançar foguetes, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro táticos a partir de uma mesma plataforma, a distâncias entre 9 e 300 km.
O ASTROS foi desenvolvido originalmente a partir de contrato firmado em 1981 com o Iraque. Concluído em 1983, tornou-se o produto mais lucrativo da empresa, movimentando mais de US$ 1 bilhão em exportações nas décadas seguintes. Até hoje, oito países operam o sistema: Brasil, Iraque, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein, Angola, Malásia e Indonésia.
O batismo de fogo do ASTROS ocorreu na primeira Guerra do Golfo, em 1991, quando Iraque e Arábia Saudita — dois operadores do sistema — empregaram-no intensamente em combate. O desempenho impressionou tanto que os Estados Unidos, durante a operação, priorizaram a destruição dos lançadores iraquianos como objetivo de alta importância. Mais tarde, o ASTROS seria empregado novamente pela coalizão árabe liderada pelos sauditas no conflito do Iêmen, no combate ao Estado Islâmico.
Na versão MK6, a mais moderna, o sistema utiliza chassis Tatra 815 (6x6 e 4x4), cabine blindada, comunicações digitais, navegação moderna e o radar de rastreamento Fieldguard 3 da Rheinmetall Air Defence. O ASTROS MK6 integra a munição de cruzeiro AV-TM 300, além dos foguetes convencionais de até 450 mm de calibre.
Em março de 2026, o Exército Brasileiro oficializou a transformação do programa ASTROS no que passa a se chamar "FOGOS", uma plataforma multidomínio que integrará artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e, pela primeira vez, um sistema de defesa antiaérea contra drones — consolidando o ASTROS como o núcleo de um ecossistema de fogos de alta complexidade.
No âmbito dessa evolução contínua, a Avibras Aeroco estaria desenvolvendo uma nova variante do sistema, designada ASTROS II MK7, cujos primeiros detalhes teriam sido revelados em maio de 2026 pelo diretor-presidente da empresa ao perfil @Defence360 na rede social X. A principal novidade seria a capacidade de lançar o míssil tático balístico AV-SS 120, com alcance estimado na faixa dos 120 km, o que posicionaria o MK7 em patamar comparável ao do M270 MLRS norte-americano equipado com ATACMS, em termos de amplitude de alvos alcançáveis.
A nova viatura lançadora 6x6 contaria ainda com maior autonomia operacional em relação às versões anteriores. Nenhum país da América Latina dispõe atualmente de um sistema de artilharia de foguetes com míssil balístico tático orgânico. Para os atuais operadores do MK6, o MK7 poderá ser oferecido como atualização que amplia significativamente o leque de opções táticas sem a necessidade de adquirir uma plataforma inteiramente nova.
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| ASTROS MK6 lançando um míssil AV-TM 300 "Matador" |
Operação e exportações
A composição básica de uma bateria do ASTROS inclui seis
viaturas lançadoras universais (AV-LMU), seis viaturas de remuniciamento, uma
viatura de radar de controle de fogo (AV-UCF) e uma viatura de comando
(AV-VCC). Essa arquitetura distribuída, baseada em plataformas rodadas, confere
alta mobilidade ao sistema, um dos principais diferenciais competitivos no
mercado internacional.
A Arábia Saudita, que opera o ASTROS desde 1987 com 60 viaturas, manifestou interesse em atualizar seu parque para o padrão MK6. O Egito também foi identificado como potencial comprador, e missões militares de Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait e Bahrein têm sido frequentes em exposições brasileiras de defesa nos últimos anos.
Míssil Tático de Cruzeiro:
300 km de alcance, em fase de certificação
O Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), também designado AV-TM
300 ou “Matador”, é o projeto que concentra a maior atenção estratégica da
Avibras Aeroco. Com alcance de até 300 km na versão de exportação, e superior
a 1.000 km na versão destinada às Forças Armadas brasileiras, o míssil é
movido a turbina, tem guiagem combinada por GPS e sistema inercial, e carrega
uma ogiva de 200 kg com Círculo de Erro Provável (CEP) menor ou igual a 30
metros.
O míssil é lançado a partir da plataforma móvel do Sistema ASTROS 2020, aproveitando toda a infraestrutura logística, de comando e controle já existente. Quando certificado, o AV-TM 300 tornará o Brasil o único país da América do Sul com um míssil de cruzeiro indígena operacional.
O programa teve início no final dos anos 1990. Ao longo da década de 2010, avançou para fases de teste. Em setembro de 2020, o Ministério da Defesa anunciou que o míssil estava em fase final de desenvolvimento, com recursos alocados para conclusão. Em 2023, o Exército agendou novos lançamentos para obtenção de aprovação operacional. A crise da Avibras em 2022 interrompeu o ritmo do projeto, mas o site da Avibras Aeroco confirma que o MTC está em processo de certificação.
O componente propulsivo crítico é a turbina a jato desenvolvida pela Turbomachine (ex-Polaris), empresa brasileira com expertise específica nessa tecnologia. O CEP projetado é de 30 metros, precisão compatível com alvos estratégicos pontuais de alto valor, obtido pela combinação de guiagem inercial e GPS.
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| ASTROS MK6 lançando um míssil tático balístico AV-SS 100 (renderização) |
Míssil Tático Balístico AV-SS
100: a nova fronteira de alcance
Enquanto o MTC segue trajetória rasante com guiagem precisa,
a Avibras Aeroco desenvolve um segundo vetor estratégico: o Míssil Tático
Balístico (MTB) AV-SS 100, com alcance máximo superior a 100 km. Diferentemente
do míssil de cruzeiro, o MTB segue trajetória parabólica de alta altitude,
atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, dificultando
significativamente a interceptação por sistemas de defesa adversários.
O AV-SS 100 é projetado para ser lançado a partir da plataforma do Sistema ASTROS, ampliando o ecossistema já existente sem novas viaturas de lançamento. Seu perfil de missão é o ataque de alta precisão a alvos táticos, operacionais e estratégicos entre 50 km e 100 km de distância, com baixo efeito colateral, eficaz contra pessoal, veículos e edificações de alto valor.
O programa é identificado internamente pelo Exército como S+100 e foi desenvolvido aproveitando o conhecimento acumulado no projeto S-80. Segundo o Escritório de Projetos Estratégicos do Exército (EPEx), o S+100 deverá ter interoperabilidade com outros sistemas da Avibras, reforçando a centralidade da empresa na arquitetura de fogos de longa distância do Brasil.
A combinação de três vetores distintos na mesma plataforma - foguetes de saturação, míssil de cruzeiro e míssil balístico - posicionaria o ASTROS MK6/FOGOS em patamar de superioridade funcional sobre a maioria dos sistemas comparáveis disponíveis no mercado internacional.
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| Sistema de Foguetes Skyfire 70 mm na versão ar-terra |
Sistema Skyfire 70 mm: da
aviação à artilharia leve
O Sistema de Foguetes Skyfire 70 mm é um dos produtos mais
maduros e operacionais do portfólio da Avibras Aeroco. Evolução direta da
família SBAT-70 (Sistema Brasileiro Ar-Terra), desenvolvida nos anos 1980, o
Skyfire oferece desempenho superior a sistemas convencionais de 70 mm graças a motores
de alta energia e cabeças de guerra intercambiáveis.
Versão ar-terra
Na configuração aeronáutica, o Skyfire é compatível com
praticamente todos os modelos de aeronaves de asa fixa e helicópteros. Pesa
11,28 kg, mede 1.430 mm de comprimento e tem alcance efetivo de 4.700 m com
velocidade de engajamento de 820 m/s. O motor-foguete padrão é o AV-SF 70 M9.
O Exército Brasileiro qualificou o Skyfire-70 no helicóptero HA-1 Fennec (Airbus H125), em campanha de testes realizada pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx). O lançador múltiplo AV-LM 70/19-SF, desenvolvido com a Helibras, foi aprovado para uso na plataforma.
Versão terra-terra
A versão superfície-superfície, designada AV-SS 12/36, é
especialmente indicada para forças especiais e artilharia leve. Pode ser
rebocada ou montada sobre viaturas leves 4x4, e também pode ser transportada
por helicóptero. Sua principal característica tática é a capacidade de disparar
uma rajada de 36 foguetes de 70 mm em apenas 12 segundos, com alcance de até 12
km.
As cabeças de guerra disponíveis cobrem múltiplos efeitos: anticarro, antipessoal, antimaterial, flechete, antipista e versões de exercício (inerte e sinalizadora). Uma derivação do Skyfire é empregada como munição de treinamento (subcalibre) do Sistema ASTROS. O motor, as cabeças de guerra e os lançadores do Skyfire-70 estão certificados pelo IFI.
Em outubro de 2023, o Centro de Obtenções do Exército (COEx) assinou contrato com a Avibras para aquisição de um lote de foguetes Skyfire-70 com cabeça de guerra antipessoal (AVC-70 HE), demonstrando que a demanda operacional pelo sistema permanece ativa mesmo durante o período de crise da empresa.
Defesa antiaérea: o capítulo
inédito do portfólio
Um dos elementos mais relevantes do portfólio da Avibras
Aeroco, e que passou praticamente despercebido na cobertura da retomada da
empresa, é a declaração de dois sistemas de defesa antiaérea: um para baixa
altitude e outro para média altitude. Embora ambos tenham raízes em parcerias
anteriores ao colapso de 2022, sua presença ativa no novo site corporativo
sinaliza que a Avibras Aeroco pretende reativá-los como produtos comerciais.
Uma distinção que o site da empresa revela
Uma leitura atenta do site da Avibras Aeroco oferece uma pista relevante sobre o estágio atual de cada um dos dois sistemas antiaéreos. Ao descrever o Sistema FILA, a empresa usa o pretérito: "a Avibras, em parceria com empresas internacionais, desenvolveu o Sistema FILA". Ao descrever o sistema de média altura, o tempo verbal muda para o presente do indicativo: "em cooperação com parceiros internacionais, a Avibras desenvolve..."
Não se trata de descuido de redação. A diferença é semanticamente precisa e juridicamente relevante em um site corporativo: o FILA é apresentado como uma realização concluída, um produto com histórico, enquanto o sistema de média altura é descrito como um projeto em curso, com parceiros ativos.
A Avibras Aeroco, portanto, sinaliza de forma inequívoca, ainda que sem nomear os parceiros, que o desenvolvimento do sistema antiaéreo de média altura não foi encerrado com a crise de 2022 e que segue em andamento sob a nova estrutura da empresa. No contexto da escolha do EMADS pelo Exército Brasileiro e da arquitetura aberta do sistema, essa distinção adquire significado estratégico adicional: a empresa se posiciona não como quem perdeu o programa, mas como quem ainda tem um papel a desempenhar nele.
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| Sistema antiaéreo de baixa altitude FILA |
Sistema FILA para defesa antiaérea de baixa altura
O Sistema FILA (Fighting Intruders at Low Altitude,
ou “atacante de invasores à baixa altitude”) foi a primeira incursão da Avibras
no mercado de defesa antiaérea. Desenvolvido na década de 1980 em cooperação
com a empresa sueca Bofors e com o Centro Tecnológico do Exército (CTEx), o
FILA é uma unidade de controle de fogo (Equipamento de Direção de Tiro — EDT)
para defesa antiaérea de baixa altitude.
O sistema é munido de múltiplos radares, sensores eletro-ópticos e computadores de tiro capazes de controlar simultaneamente canhões antiaéreos de 35 mm e 40 mm e mísseis terra-ar, para defesa de ponto contra alvos múltiplos. O Exército Brasileiro adquiriu o sistema em 1983, integrando-o aos canhões automáticos Bofors L70 de 40 mm (M985). O inventário chegou a incluir 26 canhões Bofors e 13 EDT FILA, que equiparam os seis Grupos de Artilharia Antiaérea por quatro décadas.
Em março de 2023, o Exército desativou formalmente o sistema Bofors/FILA 40 mm, junto ao Oerlikon/Contraves de 35 mm, por portarias publicadas no Boletim do Exército. A decisão marcou uma mudança estrutural na estratégia antiaérea da Força Terrestre, que passou a depender de mísseis (RBS 70 da Saab e Igla-S russo) e das futuras viaturas Guarani antiaéreos.
O site da Avibras Aeroco, no entanto, não apresenta o FILA como produto histórico, e sim como sistema atual, descrevendo-o como capaz de integrar sensores, radares e sistemas de controle de fogo capazes de controlar canhões e mísseis. A linguagem indica que a empresa posiciona uma versão modernizada do conceito FILA como oferta de portfólio. O parceiro internacional não é identificado nominalmente no site, mas o histórico aponta a Bofors (hoje parte do grupo BAE Systems) como o parceiro fundador.
O canhão do FILA na guerra dos drones
A relevância operacional do Sistema FILA ganhou um capítulo inesperado no conflito da Ucrânia. O canhão Bofors L70 de 40 mm, o mesmo tubo que o EDT FILA da Avibras controlava no Exército Brasileiro, está sendo empregado com eficácia comprovada no abate de drones kamikazes tipo Shahed-136 operados pela Rússia.
A partir de 2023, a Lituânia transferiu à Ucrânia 36 unidades do L70, desativadas de seu próprio exército, especificamente para o combate a esse tipo de ameaça. A Holanda contribuiu com outras 17 unidades. O sistema se revelou uma resposta pragmática e de baixo custo: o Shahed-136 voa lentamente (cerca de 185 km/h), em baixa altitude e sem manobras evasivas, tornando-se um alvo relativamente acessível para um canhão antiaéreo de 40 mm com alcance efetivo de 3 a 4 km. Combatentes da 5ª Brigada Slobozhanska da Guarda Nacional da Ucrânia, operando na região de Kharkiv, registraram mais de 19 abates com um único canhão.
Há, porém, uma distinção técnica importante: o que está sendo empregado na Ucrânia é o canhão em si, sem o EDT FILA. As tripulações ucranianas operam o L70 com miras ópticas básicas e pontaria manual, o que aumenta a carga de trabalho, mas não elimina a eficácia do sistema contra alvos lentos e previsíveis como o Shahed. O cérebro do sistema original - com seus radares, sensores eletro-ópticos e computadores de tiro da Avibras - não integra o lote transferido.
O episódio reforça, paradoxalmente, o argumento em favor da modernização do conceito FILA que a Avibras Aeroco sinaliza em seu portfólio: a guerra na Ucrânia demonstrou que canhões antiaéreos de médio calibre, quando dotados de sistemas de controle de fogo modernos e munições programáveis, constituem uma camada de defesa eficiente e economicamente viável contra a ameaça de drones de baixo custo e alta eficiência, exatamente o nicho que o FILA, em versão atualizada, poderia ocupar.
Sistema de Defesa Antiaérea de Média Altura e a parceria com
a MBDA
O segundo sistema antiaéreo da Avibras Aeroco é o mais estrategicamente ambicioso e o que possui o histórico de parceria mais bem documentado. Em novembro de 2014, a Avibras e o consórcio europeu MBDA, maior fabricante de mísseis da Europa, apresentaram ao Exército Brasileiro, no Seminário de Proteção em Grandes Eventos realizado em Brasília, o conceito desenvolvido em conjunto para a defesa antiaérea de média altitude. O projeto envolvia a adaptação do CAMM (Common Anti-Air Modular Missile), míssil de nova geração da MBDA com capacidade multiplataforma, para uso brasileiro. Recebeu a denominação AV-MMA (Míssil Modular Antiaéreo) e previa o aproveitamento das plataformas, veículos e tecnologias já desenvolvidas para o Sistema ASTROS 2020, com cerca de 70% de conteúdo nacional.
A história da parceria Avibras/MBDA nesse campo começa ainda antes de 2014. Na LAAD 2013, a Avibras já havia apresentado um conceito antiaéreo baseado no MICA VL, outro míssil da MBDA, associado ao caça Dassault Rafale, então finalista do programa FX-2 da FAB. Com a não seleção do Rafale, o foco migrou para o CAMM, que, anos depois, seria adotado pela Marinha do Brasil para equipar as fragatas da Classe Tamandaré.
O projeto AV-MMA, no entanto, não chegou a ser contratado. O colapso financeiro da Avibras em 2022 encerrou esse ciclo em um momento crítico: quando o Exército acelerou o processo de obtenção de um sistema antiaéreo de média altura, entre 2024 e 2025, com caráter de urgência operacional, a empresa simplesmente não existia como fornecedor confiável.
A decisão do Exército veio em dezembro de 2025. Por meio da Portaria EME/C Ex nº 1.086, a Força formalizou a escolha do sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), da MBDA, como solução para preencher a histórica lacuna de defesa antiaérea de média altura e médio alcance. A aquisição ocorrerá via acordo Governo a Governo (G2G) com a Itália, modelo ágil, com forte supervisão estatal e histórico consolidado na cooperação bilateral em defesa, que inclui programas como o AMX, os blindados Guarani e Centauro II e os veículos Guaicurus. A configuração prevista inclui quatro viaturas radar Kronos Land (Leonardo) e seis viaturas lançadoras de oito mísseis cada, compondo três baterias integradas ao Link-BR2. O míssil escolhido é o CAMM-ER (versão de alcance estendido, superior a 45 km), da mesma família que equipa as fragatas Tamandaré, o que garante interoperabilidade logística entre o Exército e a Marinha e reduz custos de manutenção e treinamento. O investimento estimado é de até R$ 5 bilhões.
A Avibras Aeroco não integra essa primeira fase, pois esse contrato já está definido. Existe, porém, uma janela de oportunidade nas fases seguintes do programa, sustentada por dois pilares. O primeiro é a arquitetura aberta do EMADS, que comprovadamente permite a integração de radares e subsistemas de origens diferentes: o Reino Unido opera o EMADS com radares da Saab; a Itália usa o Kronos Land da Leonardo no Exército e o X-TAR 3D da Rheinmetall em sua Força Aérea. A diretriz do Exército Brasileiro prevê explicitamente a integração futura com radares desenvolvidos pela Base Industrial de Defesa nacional. O segundo pilar é a perspectiva de produção local de mísseis: o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, sinalizou que a aquisição do EMADS poderá abrir caminho para a fabricação de mísseis no Brasil, mediante transferência de tecnologia com a Itália.
Se esse cenário se concretizar, a Avibras Aeroco, que tem parceria histórica declarada com a MBDA e que desenvolveu o projeto AV-MMA ao longo de uma década, seria a candidata natural para sediar essa produção no país, dado que nenhuma outra empresa nacional acumula experiência equivalente em integração de sistemas de mísseis superfície-ar nessa faixa de altitude. O fato de a Avibras Aeroco manter o sistema de média altura em seu portfólio ativo sugere que as conversas com a MBDA não foram encerradas. Além disso, a linguagem utilizada pela empresa é compatível com a continuidade da parceria com a MBDA, sem excluir eventuais outras colaborações.
Há, porém, uma complicação técnica relevante: o Exército escolheu o CAMM-ER, não o CAMM base do projeto AV-MMA original. O CAMM-ER tem alcance quase dobrado e motor diferente, o que significa que qualquer proposta de produção nacional ou integração industrial teria de ser renegociada com a MBDA em torno de um míssil mais complexo do que aquele previsto em 2014.
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| Sistema de defesa antiaérea de média altitude no ASTROS MK6 (renderização) |
Contexto estratégico: por que
esses sistemas importam agora
A retomada da Avibras Aeroco ocorre em um momento em que a
demanda global por sistemas de defesa, especialmente artilharia de longo alcance
e defesa antiaérea, está em seu pico histórico. O emprego intensivo de drones,
foguetes e mísseis de cruzeiro nos conflitos da Ucrânia e do Oriente Médio
demonstrou tanto a eficácia quanto a vulnerabilidade de forças que carecem de
capacidade antiaérea robusta em múltiplas camadas de altitude.
O projeto da empresa adquire relevância no contexto do Projeto Estratégico de Defesa Antiaérea do Exército Brasileiro, cujo objetivo central é recuperar e ampliar a capacidade de defesa de baixa e média altitude. Esse objetivo tornou-se mais urgente com a desativação dos sistemas Bofors/FILA e Oerlikon/Contraves em 2023 e a ausência de um substituto de tubo adequado para a baixa altitude.
Para o Brasil, a Avibras Aeroco é um ativo estratégico insubstituível no horizonte imediato. O Exército Brasileiro apresentou ao presidente do País um plano de modernização de defesa avaliado em R$ 456 bilhões até 2040, com o míssil tático de cruzeiro (AV-TM 300) e o míssil balístico (S+100) como projetos prioritários. Ambos dependem diretamente da retomada operacional da Avibras.
No campo das exportações, a empresa retorna ao mercado em posição mais ambiciosa. A parceria com a Milanion NTGS, firmada na World Defence Show 2024 em Riade, indica o posicionamento da Avibras para oferecer sistemas ao mercado saudita e do Golfo Pérsico, uma região que historicamente é o maior comprador do ASTROS e que hoje enfrenta ameaças de mísseis e drones de longo alcance.
A questão central que analistas apontam é de natureza financeira e estrutural: programas de desenvolvimento de mísseis exigem décadas de investimento continuado. O aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F é substancial, mas cobre apenas a estabilização inicial. A capacidade do novo modelo societário de sustentar projetos de longo prazo, especialmente o AV-TM 300 e os sistemas antiaéreos, será o teste decisivo da nova fase da empresa.
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Portfólio da Avibras Aeroco — síntese de dados ASTROS II MK6 | Foguetes de 9 a 300 km | Exportado a 8 países MTC (AV-TM 300 “Matador”) | Alcance: 300 km (exportação) | Guiagem: GPS + inercial | Em certificação AV-SS 100 (MTB) | Alcance: 50–100 km | Plataforma ASTROS | Em desenvolvimento Skyfire 70 mm | Ar-Terra e Terra-Terra | Alcance: até 12 km | Rajada: 36 foguetes em 12 s FILA (renovado) | Baixa altura | Parceiro histórico: Bofors (Suécia) Sistema média altura | Parceiro: MBDA (Europa) | Míssil base: CAMM | Designação: AV-MMA |






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