Como o FOG-MPM brasileiro, arquivado há décadas pela Avibras, voltou ao radar internacional depois que a guerra na Ucrânia expôs a vulnerabilidade fatal dos mísseis guiados por GPS e rádio diante da guerra eletrônica
*LRCA Defense Consulting - 04/05/2026
A ironia é que o FOG-MPM nunca entrou em produção em série. O projeto foi desenvolvido pela Avibras nos anos 1980, apresentou-se ao mundo em 1989, realizou seus últimos testes conhecidos em 1992 e, desde então, hibernou. Mas o mundo mudou. E a guerra na Ucrânia pode ter ressuscitado a ideia mais disruptiva da indústria de defesa brasileira.
O projeto que o Brasil quase esqueceu
O FOG-MPM, sigla para Fiber Optics Guided Multiple Purpose Missile, ou Míssil Guiado por Fibra Óptica de Múltiplos Propósitos, nasceu da ousadia particular de uma empresa privada brasileira num momento em que o país ainda vivia a euforia da sua breve indústria bélica dos anos 1980. A Avibras Indústria Aeroespacial, sediada em São José dos Campos (SP), iniciou os trabalhos de desenvolvimento em 1985 sem qualquer encomenda governamental e com recursos próprios, uma raridade no setor de defesa de qualquer país, especialmente num período em que o mercado de mísseis precisos era dominado por potências do hemisfério Norte.
O míssil foi apresentado ao mundo em 1989 e realizou três lançamentos de teste naquele mesmo ano. Em 1992, outros oito tiros foram realizados. Os resultados eram promissores: o FOG-MPM media 1,50 metro de comprimento, pesava 33 quilogramas, atingia velocidades de 150 a 200 metros por segundo e voava a uma altitude de cruzeiro de 200 metros. Sua ogiva do tipo carga oca era capaz de penetrar até 1.000 milímetros de blindagem homogênea, desempenho que, nos anos 1990, colocava qualquer tanque de batalha principal dentro da zona de vulnerabilidade. O preço de venda estimado era de US$ 30 mil por unidade em lote de mil mísseis, valor extremamente competitivo para a época.
Tecnologia radical para a época
A tecnologia empregada era radical para os padrões daquele tempo. Em vez de rádio, laser ou buscadores infravermelhos, todos suscetíveis a contramedidas eletrônicas, o FOG-MPM utilizava um cabo de fibra óptica enrolado em um carretel instalado na cauda do míssil. Durante o voo, o cabo se desenrolava progressivamente, criando um elo físico bidirecional entre o projétil e a estação de controle do operador. Uma câmera de TV instalada na ponta do míssil transmitia imagens em tempo real pela fibra, enquanto o operador enviava comandos de direção pelo mesmo canal. O resultado era uma ligação de altíssima largura de banda totalmente imune a interferência eletromagnética, simplesmente porque nenhum sinal de rádio estava envolvido na equação.
O sistema era lançado verticalmente pelo veículo Astros II MLRS, o lendário sistema de foguetes de artilharia da Avibras exportado para mais de uma dezena de países, ascendia até 150 metros e passava o controle ao operador, que guiava o míssil subsônico até o alvo atacando-o pela parte superior, a seção menos blindada de qualquer blindado. Poderia também ser lançado de embarcações e helicópteros. Apenas dois operadores eram necessários, e o treinamento básico na simulação levava oito horas. Uma versão com alcance de 60 quilômetros foi apresentada em julho de 2001.
Mas o projeto nunca decolou no sentido comercial. Sem encomendas do Exército Brasileiro e sem clientes externos, o FOG-MPM ficou preso num limbo: era avançado demais para ser descartado, mas caro demais para ser desenvolvido sem demanda. Fóruns especializados brasileiros de defesa, como o ForTe (Forças Terrestres), registram discussões acaloradas ao longo dos anos 2000 e 2010 sobre por que o míssil nunca foi finalizado, questionamentos que invariavelmente esbarravam na mesma resposta: falta de vontade política e falta de encomenda.
A Ucrânia
reescreveu as regras do engajamento de precisão
Quando a Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022, poucos anteciparam que o conflito se tornaria o maior laboratório de guerra eletrônica da história moderna. Ao longo de mais de quatro anos de combate, ambos os lados desenvolveram sistemas de interferência eletromagnética de uma sofisticação sem precedentes, transformando o campo de batalha em um ambiente hostil para praticamente qualquer armamento que dependesse de GPS ou comunicação por radiofrequência.
Os números são reveladores. No Congresso americano, em março de 2024, Daniel Patt, pesquisador sênior do Hudson Institute, testemunhou que a eficácia do projétil guiado por GPS Excalibur 'caiu de 70% para 6% em questão de meses conforme novos mecanismos de guerra eletrônica foram implantados' pelos russos. O míssil GLSDB, com alcance de 150 quilômetros, e outros sistemas guiados por GPS fornecidos ao lado ucraniano também sofreram degradação significativa de precisão em ambientes de interferência intensiva. Armas de bilhões de dólares tornavam-se caras e ineficientes diante de interferidores relativamente baratos.
A resposta tecnológica veio de um lugar inesperado: a fibra óptica. Desde o final de 2024, drones FPV (First Person View) equipados com carretéis de cabo de fibra óptica passaram a ser utilizados em escala crescente, primeiro pela Rússia na região de Kursk, depois adotados pela Ucrânia. O princípio é idêntico ao do FOG-MPM concebido nos anos 1980: o cabo físico elimina qualquer sinal de rádio do processo de guiagem, tornando o veículo imune a interferências. A largura de banda é superior às transmissões por rádio, resultando em imagens de qualidade mais alta e um stream estável mesmo em terreno urbano ou florestal.
O que a Avibras imaginou para um míssil de médio alcance nos anos 1980, o conflito ucraniano validou em escala industrial para munições de curto alcance nos anos 2020. E o mercado começou a olhar além dos drones FPV, buscando a mesma imunidade em plataformas de alcance mais longo e ogivas mais poderosas. Foi nesse contexto que o portal turco TurDef, ao especular sobre o novo projeto da ROKETSAN para a SAHA EXPO 2026, citou o FOG-MPM como o exemplo mais próximo do conceito que a empresa turca parecia estar desenvolvendo: 'um bom exemplo próximo ao que a ROKETSAN descreve é o míssil brasileiro FOG-MPM, lançado pelo Astros II MLRS, capaz de engajar uma variedade de alvos, incluindo veículos, navios e até helicópteros, a um alcance de até 60 km'.
O
renascimento da Avibras: das cinzas para a Avibras Aeroco
A trajetória que levou ao colapso da Avibras e ao seu eventual renascimento como Avibras Aeroco é um microcosmo das fragilidades da Base Industrial de Defesa brasileira. A empresa que na primeira Guerra do Golfo (1991) era tão temida pelos EUA que o sistema Astros II iraquiano constava na lista de alvos prioritários das primeiras 72 horas da campanha aérea americana acabaria sofrendo, três décadas depois, um colapso financeiro humilhante.
A crise se aprofundou a partir de 2020, combinando redução de encomendas governamentais, atrasos em contratos internacionais e endividamento crescente. Em março de 2022, a Avibras entrou com pedido de recuperação judicial declarando dívidas de R$ 394 milhões, valor que, segundo estimativas posteriores, superaria R$ 1,5 bilhão somados todos os passivos. Cerca de 900 funcionários ficaram sem salário por mais de 28 meses, iniciando uma greve histórica em setembro de 2022 que se tornaria uma das mais longas da história sindical brasileira: 1.281 dias.
Ao longo de 2024 e 2025, três grupos estrangeiros demonstraram interesse na empresa. A australiana DefendTex chegou a propor a aquisição, operação que especialistas em defesa classificaram como de natureza geopolítica, que permitiria à Austrália desenvolver capacidade de mísseis para contrapor a presença chinesa no Indo-Pacífico, essencialmente exportando décadas de conhecimento tecnológico brasileiro. O governo australiano acabou não viabilizando o negócio. A fabricante chinesa Norinco também demonstrou interesse em uma participação de 49%, o que gerou alarme nas Forças Armadas brasileiras.
Quem deu o passo decisivo foi o Fundo Brasil Crédito, principal credor da empresa. Elaborou um plano alternativo de reestruturação aprovado por 99,2% dos credores. Em agosto de 2025, a Avibras passou por uma troca de controle e inaugurou nova gestão. Em março de 2026, dois marcos jurídicos fundamentais foram alcançados: o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou por unanimidade todos os recursos contra o plano de recuperação, e os trabalhadores aprovaram em assembleia sindical o pagamento de R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas em até quatro anos. A entrada do empresário Joesley Batista, controlador da J&F, completou o quadro de financiamento, um aporte total de R$ 300 milhões de investidores privados.
No dia 30 de abril de 2026, a Avibras Aeroco anunciou oficialmente o início de suas operações, encerrando um dos capítulos mais turbulentos da história da indústria de defesa brasileira. A nova empresa, constituída como entidade jurídica distinta, sem o peso do passivo que estrangulou a predecessora, é administrada pelo engenheiro Sami Youssef Hassuani, com mais de 40 anos de trajetória no setor. Aproximadamente 300 funcionários foram recontratados em uma primeira fase, com mais 240 previstos para junho.
O arsenal
que ficou parado e o que pode ser retomado
A Avibras Aeroco herda um portfólio tecnológico de valor estratégico difícil de mensurar. O carro-chefe continua sendo o Sistema ASTROS 2020 (MK6), nova geração do lançador múltiplo de foguetes que já provou seu valor em combate real. Mas é o conjunto de projetos em diferentes estágios de desenvolvimento que torna o renascimento da empresa especialmente relevante para a defesa nacional.
O Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), apelidado de 'Matador', tem cerca de 90% do desenvolvimento concluído. Com alcance declarado de 300 quilômetros para exportação, e estimado em mais de 1.000 quilômetros na versão para uso interno, é movido a turbojato após lançamento por foguete de combustível sólido e navega com sistema GPS ativo combinado a giroscópio a laser, atingindo precisão de aproximadamente 30 metros. Trata-se do primeiro míssil de cruzeiro 100% brasileiro, e um dos poucos dessa classe desenvolvidos no hemisfério Sul. A crise paralisou a fase final de testes e disparos.
O Míssil Tático Balístico (MTB S+100), com alcance superior a 100 quilômetros, também figura entre os projetos a serem retomados. E, mais relevante para o contexto deste artigo, o FOG-MPM, ou sua versão modernizada, ainda consta como munição em desenvolvimento para o sistema Astros 2020, com alcance de 20 quilômetros na configuração básica atual, e potencial de extensão conforme demonstrado nos testes da versão de 60 quilômetros apresentada em 2001.
Por que o FOG-MPM faz mais sentido hoje do que nos anos 1980
A lógica que justificaria a retomada do FOG-MPM é simultaneamente técnica e geopolítica. No plano técnico, o contexto de guerra eletrônica intensiva que se consolidou no conflito ucraniano criou uma demanda de mercado que simplesmente não existia quando o míssil foi concebido. Nos anos 1980 e 1990, o jamming de GPS e radiofrequência era uma capacidade sofisticada reservada a poucos atores estatais. Hoje, sistemas de interferência estão disponíveis comercialmente e são amplamente disseminados. Armamentos que dependem de GPS ou rádio para guiagem tornaram-se vulneráveis de maneira antes impensável.
O FOG-MPM endereça esse problema pela raiz: sua fibra óptica simplesmente não tem sinal de rádio para ser interferido. Enquanto ogivas Excalibur caíam de 70% para 6% de eficácia diante do jamming russo, um FOG-MPM hipotético manteria 100% de sua capacidade de guiagem independentemente da intensidade da guerra eletrônica adversária. Esta é precisamente a vantagem que o TurDef destacou ao citar o míssil brasileiro como referência conceitual para o projeto da ROKETSAN.
No plano geopolítico, o Brasil ocupa uma posição interessante. Como nação não alinhada com nenhum dos blocos em conflito, o país poderia, em tese, exportar armamentos sem as restrições políticas que limitam fornecedores europeus e norte-americanos. A Avibras já tem histórico de exportações para países do Oriente Médio, Ásia e África. Um míssil de precisão imune à guerra eletrônica, a um preço competitivo, teria apelo considerável em mercados que buscam alternativas ao duopólio ocidental ou russo.
Os desafios, porém, são reais. O FOG-MPM original foi desenvolvido há quatro décadas, com eletrônica da época. Uma versão modernizada exigiria câmeras de maior resolução, processamento de imagem avançado (possivelmente com reconhecimento de alvos por inteligência artificial), carretéis de fibra mais leves e resistentes, e integração com sistemas de comando e controle contemporâneos. O alcance de 60 quilômetros, impressionante para os anos 2000, poderia ser insuficiente para engajamentos fora da linha de visão em conflitos modernos, onde a detecção precoce e os sistemas de defesa de ponto são muito mais capazes.
Há também o problema da fumaça: os testes originais foram criticados pela enorme assinatura visual do motor foguete, que gerava quantidades conspícuas de fumaça ao lançar, comprometendo a sobrevivência da equipe de operação. Versões modernas precisariam de propulsão mais limpa ou de veículos lançadores com distância segura de operação.
Mas o ponto de partida tecnológico não é zero. A Avibras domina propulsão de foguetes, integração de sistemas de armas e a produção do próprio Astros II, plataforma de lançamento natural para o FOG-MPM. O Brasil tem capacidades em fibra óptica e o Instituto de Estudos Avançados (IEAv) do CTA desenvolveu giroscópios de fibra óptica de referência internacional. A base existe; falta concatená-la com financiamento e vontade política.
FICHA TÉCNICA · FOG-MPM
Fabricante: Avibras Indústria Aeroespacial (hoje Avibras Aeroco), São José dos Campos, Brasil
Início do desenvolvimento: 1985, com recursos próprios da empresa
Apresentação pública: 1989
Guiagem: fibra óptica bidirecional com câmera de TV (imune a ECM/jamming)
Comprimento: 1,50 metro
Diâmetro: 180 mm
Peso: 33 kg
Alcance: 10–20 km (versão inicial) / até 60 km (versão 2001)
Velocidade: 150–200 m/s (subsônico)
Altitude de cruzeiro: 200 metros (< 150 m na versão naval)
Ogiva: carga oca tandem HEAT; penetração de 1.000 mm de blindagem homogênea
Plataformas de lançamento: Astros II MLRS (terrestre), navios, helicópteros
Preço estimado (anos 1980): US$ 30.000 por unidade em lote de 1.000
Status atual: nunca produzido em série; programa em
estado latente
O que precisa acontecer para o FOG-MPM voltar
A pergunta não é apenas técnica, é institucional. A Avibras Aeroco nasceu com R$ 300 milhões de capital privado, mas o desenvolvimento de um míssil de precisão guiado por fibra óptica modernizado demandaria investimentos da ordem de centenas de milhões de reais adicionais, além de um prazo de cinco a dez anos para certificação e produção em escala. Isso implica necessariamente uma parceria com o governo federal e com o Exército Brasileiro.
O Exército mantém o Escritório de Projetos do Exército (EPEx) exatamente para gerir esse tipo de iniciativa. O sistema Astros 2020, do qual o FOG-MPM seria uma munição adicional, é um Programa Estratégico do Exército (PEE), o que fornece um caminho institucional natural para que o míssil seja incluído como projeto derivado, beneficiando-se de recursos do Fundo do Exército e de linhas de crédito da Finep e do BNDES.
O interesse internacional também poderia funcionar como catalisador. Se a ROKETSAN está desenvolvendo um conceito semelhante de forma independente, isso indica que outros países estão chegando à mesma conclusão sobre a necessidade de mísseis imunes à guerra eletrônica. Uma parceria tecnológica com a Turquia, que tem um programa de defesa robusto e presença exportadora expressiva, poderia distribuir os custos de desenvolvimento e acelerar a certificação. A Turquia já é cliente de sistemas de artilharia e tem histórico de colaborações industriais de defesa, inclusive com empresas brasileiras.
Alternativamente, países do Oriente Médio e do Sudeste Asiático que operam o Astros II e têm acesso à plataforma de lançamento poderiam manifestar interesse em co-financiar o desenvolvimento em troca de acesso prioritário ao produto final. A Arábia Saudita e a Indonésia, por exemplo, são clientes históricos do sistema Astros.
Um fantasma que se tornou profecia
O FOG-MPM foi concebido numa janela histórica incomum: quando o Brasil tinha uma indústria de defesa viva e inventiva, mas não tinha nem o contexto estratégico nem a demanda de mercado para justificar a produção em série de um míssil de precisão imune à guerra eletrônica. O contexto chegou quatro décadas depois, na lama e na fumaça de Kherson e Bakhmut, nos campos minados da linha de contato ucraniana onde jammers russos transformam mísseis de US$ 1 milhão em metal inerte.
A Avibras Aeroco renasceu num momento histórico particularmente favorável. A demanda global por sistemas de defesa está em seu ponto mais alto desde o fim da Guerra Fria. Tecnologias de fibra óptica evoluíram de forma extraordinária desde os anos 1980. A guerra na Ucrânia validou o conceito central do FOG-MPM de maneira mais eloquente do que qualquer demonstração comercial poderia fazer.
O que falta, como sempre faltou no Brasil, é a convergência entre visão de longo prazo, financiamento consistente e vontade política de transformar capacidade tecnológica latente em produto real. A Avibras quase foi comprada por australianos e sauditas, e parcialmente controlada por chineses. A base industrial de defesa que o país levou décadas para construir quase escorregou pelas mãos da nação que a criou.
Se o renascimento da Avibras Aeroco for acompanhado de uma decisão estratégica de retomar e modernizar o FOG-MPM, o Brasil terá a oportunidade rara de ser pioneiro num segmento de armamentos que a guerra do futuro está tornando indispensável. Se não for, outros, como a ROKETSAN, chegarão primeiro. E o Brasil continuará sendo o país que, mais uma vez, teve a ideia certa na hora certa, mas não encontrou a determinação para executá-la.



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