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| Ilustração: LRCA |
*Luiz Alberto Cureau Jr. - 13/05/2026
O novo tabuleiro sul-americano já não é movido apenas por tropas, tratados diplomáticos ou disputas ideológicas tradicionais. Hoje, ele é movimentado por narrativas, influência digital, pressão econômica e demonstrações psicológicas de poder. E talvez seja exatamente isso que parte da nossa região ainda tenha dificuldade de compreender.
Uma simples imagem publicada por uma liderança global pode produzir mais efeitos estratégicos do que semanas de reuniões diplomáticas. A recente postagem sugerindo a incorporação de um país sul-americano aos Estados Unidos não deve ser vista apenas como ironia política ou provocação eleitoral. Ela revela algo maior: as grandes potências voltaram a olhar para a América do Sul com atenção crescente.
E não por acaso, energia, água doce, minerais críticos, biodiversidade, alimentos, terras raras e acesso ao Atlântico Sul transformaram o continente em um ativo estratégico valioso para as próximas décadas.
O norte da América do Sul concentra algumas das maiores reservas energéticas do planeta. A região das Guianas ganhou importância no novo jogo energético mundial. O Brasil reúne capacidade agrícola gigantesca, reservas minerais, matriz energética privilegiada e a maior floresta tropical do mundo. Em um planeta pressionado por disputas energéticas, climáticas e tecnológicas, isso deixa de ser apenas riqueza. Passa a ser interesse estratégico internacional.
E há um detalhe que muitos brasileiros esquecem, o Brasil também faz fronteira com a França. A Guiana Francesa é parte da França e da União Europeia. Na prática, isso significa que o Brasil possui uma fronteira terrestre direta com uma potência nuclear, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e integrante da OTAN. Isso deveria provocar reflexões mais profundas sobre Amazônia, soberania e defesa estratégica.
Nesse cenário, o papel do Brasil torna-se decisivo. Pela dimensão territorial, estabilidade relativa e capacidade econômica, o país é o principal fator de equilíbrio regional. E suas Forças Armadas deixam de ter apenas função convencional de defesa territorial. Passam também a exercer papel de dissuasão, proteção de infraestruturas críticas, presença na Amazônia, defesa cibernética e garantia da soberania nacional em um ambiente cada vez mais híbrido e complexo.
A Amazônia não é apenas patrimônio ambiental. É território estratégico.
O mundo mudou. E mudou rápido. Hoje, influência não se projeta apenas com porta-aviões. Também se projeta através da tecnologia, da informação e da capacidade de moldar narrativas globais.
Um simples post pode testar reações internacionais, pressionar governos e medir fragilidades institucionais. Parece apenas uma imagem. Mas raramente é apenas isso.
A história é pouco gentil com países que ignoram sinais estratégicos. O novo tabuleiro sul-americano já está em movimento. A dúvida é se teremos maturidade para compreender o jogo antes que outros decidam as regras por nós.
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.
Nota da LRCA: A postagem de Trump com a imagem da Venezuela foi publicada na rede social Truth Social, como pode ser visto na reportagem da CNN Brasil e de outros órgãos.

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