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28 outubro, 2026

Cinco organizações brasileiras articulam satélite para estudar a atmosfera da Amazônia

MoU assinado em São Paulo dá forma ao ATTOSat, missão já qualificada pela AEB, mas ainda sem financiamento definido



*LRCA Defense Consulting - 28/10/2026 - 13h09

A Fundação Ezute, a Concert Space (unidade da Concert Technologies), a HORUSEYE TECH, a TR Radares e a CRON Sistemas e Tecnologias assinaram, em 20 de outubro, um Memorando de Entendimentos (Memorandum of Understanding, MoU) para cooperar no desenvolvimento do ATTOSat, pequeno satélite brasileiro destinado ao estudo dos processos atmosféricos e climáticos da Amazônia. O acordo, firmado na sede da Ezute, em São Paulo, reúne competências de engenharia de sistemas, sensoriamento remoto, navegação e controle, integração de plataformas espaciais e operação de missões.


O objetivo é construir, lançar e operar um satélite capaz de coletar dados sobre aerossóis, formação de nuvens, queimadas e poluição atmosférica, com a possibilidade de também monitorar gases de efeito estufa. As informações deverão apoiar a pesquisa científica, a formulação de políticas públicas ambientais e as ações de adaptação às mudanças climáticas. Por enquanto, trata-se de uma missão proposta, e não de um satélite contratado ou em construção.

Uma torre que ganha olhos no espaço 
O nome ATTOSat vem de Amazon Tall Tower Observatory Satellite. A missão foi concebida para complementar, a partir da órbita, as medições do Amazon Tall Tower Observatory (ATTO), torre de pesquisa de 325 metros de altura instalada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, cerca de 150 quilômetros a nordeste de Manaus. Em operação desde 2015, o observatório resulta de cooperação entre Brasil e Alemanha, com participação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e dos Institutos Max Planck de Química e de Biogeoquímica.

A posição da torre permite analisar massas de ar que atravessaram centenas de quilômetros de floresta com mínima interferência humana. O interesse científico é grande: os aerossóis emitidos pela vegetação e pelas queimadas participam da formação de nuvens e influenciam o regime de chuvas, com efeitos que ultrapassam os limites da região. As medições feitas em solo, porém, têm alcance espacial limitado, lacuna que um satélite dedicado poderia reduzir.

Em apresentação divulgada em abril de 2026, a Concert Space descreveu uma arquitetura baseada em satélite do padrão CubeSat, com sensores hiperespectrais e polarimétricos voltados ao estudo de aerossóis, umidade, precipitação e propriedades das nuvens, prazo estimado de 48 meses para a execução e dados disponibilizados em plataforma aberta e gratuita. O comunicado mais recente acrescenta uma estrutura em solo para recepção, processamento e distribuição das informações, com operação orbital prevista por pelo menos dois anos. São parâmetros do conceito divulgado, ainda não especificações finais.

Cinco competências, uma arquitetura 
Pelo acordo, a Fundação Ezute responderá pela engenharia de sistemas integrada, pela coordenação técnica e administrativa e pela estruturação da proposta de financiamento. A Concert Space, que há mais de três décadas fornece sistemas de preparo, lançamento e rastreio de foguetes aos centros de lançamento de Alcântara (CLA) e da Barreira do Inferno (CLBI), ficará com os softwares de bordo, o processamento de dados e o suporte à operação.

A HORUSEYE TECH contribuirá com sistemas de navegação, orientação e controle; a TR Radares, com os equipamentos de sensoriamento, a calibração e a validação dos dados e os sistemas de apoio em solo; e a CRON, com o desenvolvimento e a integração da plataforma do satélite, os ensaios e a preparação para o lançamento. O MoU estabelece as bases da cooperação e do planejamento, mas não equivale à contratação das etapas industriais nem ao comprometimento dos recursos necessários.

Para Rafael Mordente, CEO da Concert Space, o ATTOSat nasce com uma "finalidade técnico-científica muito clara", e a entrada da Ezute agrega experiência em gestão de projetos complexos e engenharia de sistemas. Roberto Lorenzoni, diretor-presidente da fundação, vê na iniciativa a oportunidade de colocar tecnologia e conhecimento brasileiros a serviço de uma demanda que interessa a toda a sociedade.

A Ezute de volta à Amazônia 

A presença da Ezute tem significado particular. A fundação foi criada em 1997, com o nome de Fundação Atech, para atuar como integradora nacional do Sistema de Vigilância da Amazônia e do Sistema de Proteção da Amazônia (Sivam/Sipam), em parceria com o Ministério da Defesa e a Força Aérea Brasileira. Adotou a marca atual em 2013 e, desde então, participou de programas como o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) e o Míssil Antinavio Nacional de Superfície (Mansup), da Marinha do Brasil. É credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED).

Quase três décadas depois do Sivam, a instituição volta a trabalhar com o monitoramento da região amazônica, agora a partir do espaço e com finalidade científica. 


O que a AEB já reconheceu 
O ATTOSat já percorreu uma etapa formal na Agência Espacial Brasileira (AEB). Na VII Reunião Deliberativa Ordinária do Procedimento para Seleção e Adoção de Missões Espaciais (ProSAME), realizada em 4 de dezembro de 2025, a proposta foi uma das três selecionadas para a Carteira de Qualificação, ao lado de um nanossatélite universitário e do Microlançador Brasileiro (MLBR). O resultado foi divulgado pela agência em fevereiro de 2026. O release das empresas situa a admissão no primeiro semestre deste ano, o que não coincide com o registro oficial.

O ProSAME é o processo pelo qual a AEB seleciona as missões do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE 2022-2031). A Carteira de Qualificação corresponde à análise técnica, em que se detalham requisitos, soluções, custos, cronogramas e riscos. Segue-se a Carteira de Habilitação, que examina, entre outros aspectos, a viabilidade financeira e a aderência programática, antes de uma eventual adoção. A seleção mostra que a proposta avançou institucionalmente, mas não garante recursos nem compromisso de lançamento.

Velhos conhecidos do MLBR 
A coincidência na reunião de dezembro não é casual. Concert, HORUSEYE TECH e CRON desenvolveram, por encomenda tecnológica da AEB, o Sistema de Navegação Inercial integrado à navegação por satélite (SNI-GNSS), concebido para o MLBR. O equipamento voou em dezembro de 2025 a bordo do foguete sul-coreano HANBIT-Nano, da INNOSPACE, lançado de Alcântara, e em 9 de outubro a Concert anunciou contrato com a indiana Skyroot Aerospace para ensaiá-lo no foguete Vikram I, como noticiou a LRCA Defense Consulting. O mesmo trio, portanto, está presente em duas das três propostas aprovadas naquela rodada do ProSAME.

A sobreposição sugere aproveitamento de conhecimento acumulado, mas não há confirmação pública de que o ATTOSat empregará o SNI-GNSS ou de que será lançado pelo MLBR ou por qualquer outro veículo específico. Na vertente científica, a Concert havia citado em abril a participação do INPA, do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Max Planck de Química; o novo comunicado não detalha o papel desses parceiros.

Autonomia tecnológica e uso dual 
Para o País, o interesse no ATTOSat vai além de um conjunto adicional de dados ambientais. Uma missão desenhada a partir de perguntas científicas sobre a atmosfera amazônica complementa informações de sistemas estrangeiros e amplia a capacidade nacional de definir o que observar, como tratar os dados e a quem distribuí-los.

A eventual execução também mobilizaria uma cadeia de competências em sistemas embarcados, sensores, integração de satélites, infraestrutura de solo e processamento de informações. Essas capacidades interessam ao desenvolvimento da indústria espacial e, conforme os requisitos de cada aplicação, podem servir a soluções de uso dual, ainda que a missão tenha finalidade exclusivamente civil.

Da intenção à execução 

O próximo desafio será transformar a articulação das cinco organizações em um empreendimento com arquitetura consolidada, responsabilidades formalizadas e recursos assegurados. Permanecem sem confirmação pública o orçamento, a fonte de financiamento, a configuração final dos sensores, o grau de nacionalização e a data de lançamento.

O mérito imediato do acordo está em reunir, de forma organizada, competências nacionais em torno de uma demanda científica de interesse público. Sua relevância industrial e estratégica crescerá se o grupo superar as etapas de qualificação, habilitação e financiamento e demonstrar que empresas e instituições brasileiras conseguem entregar, em conjunto, uma missão espacial completa, do projeto à operação.

17 julho, 2026

Do Essequibo ao narcotráfico: a nova ameaça que preocupa o Exército na Amazônia

Chefe do Estado-Maior aponta confrontos semanais com o GAOR na fronteira com a Colômbia e desloca a prioridade do Comando Militar da Amazônia para o oeste da região

  

*LRCA Defense Consulting - 17/07/2026

O chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, revelou que a principal ameaça enfrentada pelo Comando Militar da Amazônia (CMA) deixou de ser a fronteira de Roraima com a Venezuela e passou a se concentrar no oeste da região amazônica, onde pelotões brasileiros travam confrontos semanais com guerrilheiros colombianos ligados ao narcotráfico. A declaração foi feita durante o seminário “A Evolução da Guerra: Desafios para o Componente Terrestre”, realizado no auditório do quartel-general do Exército, em Brasília, no dia 14 de julho de 2026.

Segundo o general, soldados, tenentes e sargentos da 2.ª e da 16.ª Brigadas de Infantaria de Selva enfrentam ataques e trocam tiros toda semana com integrantes do GAOR (Grupos Armados Organizados Residuais), denominação dada a dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que se recusaram a aderir ao acordo de paz de 2016 e passaram a atuar como um dos mais fortes cartéis do narcotráfico da América do Sul. “O cenário mudou. Hoje, a gente tem um cenário muito preocupante no CMA”, afirmou Montenegro, segundo reportagem do jornalista Marcelo Godoy publicada pelo Estadão.

Rotas de escoamento de droga levam a mudança de foco
De acordo com o general, os guerrilheiros dos GAOR cruzam a fronteira brasileira para escoar drogas com destino à Europa e à África, principalmente por duas vias. A primeira é a rota do Solimões, que liga áreas produtoras de droga nos países andinos à malha fluvial amazônica, passando perto da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru; dali, a carga pode seguir por rio até Manaus e Belém, de onde alcança rotas internacionais. A segunda é a chamada rota Caipira, historicamente associada ao escoamento de entorpecentes vindos da Bolívia e do Paraguai pelo Centro-Oeste até o Sudeste, com saída pelo litoral de São Paulo. Segundo o general, essa combinação de rotas fez da faixa oeste do CMA a nova prioridade operacional da Força.

Levantamentos de segurança pública anteriores já indicavam que a rota do Solimões é considerada a segunda principal via de entrada de cocaína no País, atrás apenas da rota Caipira. Reportagens sobre o tema apontam ainda que ex-integrantes das Farc se associaram a facções brasileiras, como o Comando Vermelho, para disputar o controle de trechos da rota amazônica, o que ajudaria a explicar a intensidade dos confrontos hoje relatados pelo Exército.

Prejuízo de R$ 600 milhões e apreensões na fronteira
O general Montenegro também citou um dado divulgado pelo comando do Exército em maio de 2026, segundo o qual a atuação da Força Terrestre na faixa de fronteira impôs mais de R$ 600 milhões de prejuízo ao crime organizado em 2025, somando milhares de ações contra ilícitos, entre apreensões de drogas, destruição de estruturas ilegais e patrulhamentos. Um episódio emblemático dessa rotina ocorreu na madrugada de 27 de fevereiro de 2025, quando o 2.º Pelotão Especial de Fronteira (PEF), da 16.ª Brigada de Infantaria de Selva, apreendeu uma tonelada de skunk (variedade de maconha de alto teor de THC) em uma embarcação no Rio Içá, no Amazonas, próximo à fronteira com a Colômbia.

Os Pelotões Especiais de Fronteira funcionam como pontos avançados e quase permanentes de presença do Estado brasileiro em áreas remotas da Amazônia, muitas vezes cercadas por rios e selva fechada. Segundo dados do próprio Comando Militar da Amazônia, o CMA vigia atualmente cerca de 60% das fronteiras terrestres do Brasil, com efetivos distribuídos em 64 organizações militares, 23 pelotões especiais de fronteira e um destacamento especial de fronteira, atuando nas quatro tríplices fronteiras da região (Brasil-Guiana-Venezuela, Brasil-Colômbia-Venezuela, Brasil-Peru-Colômbia e Brasil-Peru-Bolívia).

O que perdeu prioridade: o dispositivo montado contra Maduro
A fala do general reposiciona um dispositivo que havia sido montado nos últimos anos em razão do risco de o então ditador venezuelano Nicolás Maduro usar o território brasileiro para se apossar da região de Essequibo, na Guiana. Para reforçar a 1.ª Brigada de Infantaria de Selva, com sede em Boa Vista (RR), o Exército havia criado, em 2023, o 18.º Regimento de Cavalaria Mecanizado e enviado à unidade dezenas de mísseis antitanque MAX 1.2 AC (à época ainda designados MSS 1.2 AC), sistema guiado a laser desenvolvido com tecnologia nacional pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) em parceria com a SIATT, além de artilharia antiaérea de baixa altura. Reportagens recentes já reenquadram esse mesmo material dentro da nova prioridade amazônica, afirmando que os mísseis foram enviados com urgência à região em 2023 e 2024 por causa da crise de Essequibo, mas hoje servem, sobretudo, para reforçar a soberania brasileira sobre a Amazônia como um todo.

Ao comentar a revelação do general, o jornalista Marcelo Godoy observou que, enquanto forças políticas do País discutem a classificação jurídica do crime organizado, os grupos armados continuam a se infiltrar na política, na economia e nas fronteiras nacionais.

Um precedente histórico
O confronto direto entre tropas brasileiras e guerrilheiros colombianos em solo nacional não é inédito. Em fevereiro de 1991, cerca de 40 guerrilheiros das Farc, que se autodenominavam “Comando Simón Bolívar”, invadiram o território brasileiro às margens do Rio Traíra, no Amazonas, e atacaram de surpresa um destacamento do Exército guarnecido por apenas 17 militares. A resposta brasileira, batizada de Operação Traíra, envolveu tropas de elite, forças especiais e apoio do Exército colombiano. O episódio de 1991 e os confrontos hoje relatados pelo general Montenegro têm origem em contextos distintos (o ataque de 1991 seria motivado pela repressão ao garimpo ilegal, enquanto os atritos atuais decorreriam do narcotráfico), mas ilustram a persistência histórica da fronteira amazônica como área de atrito armado com grupos originados da guerrilha colombiana.

Cooperação binacional em curso
Paralelamente ao quadro descrito pelo general, Brasil e Colômbia têm ampliado ações conjuntas na mesma faixa de fronteira. Um exemplo é a Operação Fronteira Dourada, conduzida entre 11 e 19 de novembro de 2025, que reuniu Polícia Federal, Ibama, ICMBio, Exército, Polícia Rodoviária Federal, Censipam e a Polícia Nacional da Colômbia contra o garimpo ilegal na região do Rio Puruê, com resultado de mais de R$ 112 milhões de prejuízo às estruturas criminosas. Organismos internacionais também têm sinalizado atenção ao tema: o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime destacou, em 2026, que Brasil e Colômbia assinaram protocolo de intercâmbio de inteligência para enfrentar o crime organizado transnacional ligado ao tráfico de drogas em áreas marítimas e fluviais da Amazônia compartilhada.

A revelação do general Montenegro Júnior deve alimentar o debate sobre quais equipamentos o Exército deve priorizar para o combate diário nas áreas de fronteira mais expostas ao narcotráfico, tema que, segundo o próprio general, já está sendo avaliado pela Força.

01 julho, 2026

Exército inaugura instituto de pesquisas na Amazônia, com aporte de R$ 15 milhões

IPEAM funcionará em parceria com o IME e o Censipam, em Manaus, e já abre vagas de pós-graduação em inteligência artificial, biotecnologia e tecnologias quânticas 


*LRCA Defense Consulting - 01/07/2026

O Exército Brasileiro inaugurou, nesta segunda-feira (29), o Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM), em Manaus. A cerimônia reuniu o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, o Comandante Militar da Amazônia, general Viana Filho, e o senador Eduardo Braga (AM), entre outras autoridades civis e militares.

O instituto passa a funcionar nas instalações do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), em Manaus, que cedeu o espaço e deve compartilhar dados de monitoramento da região para as pesquisas desenvolvidas pelo IPEAM. A parceria com o Censipam havia sido formalizada em janeiro, em acordo assinado em Brasília entre o órgão e o Instituto Militar de Engenharia (IME), responsável pela condução acadêmica do novo instituto.

Criado em 2024, o IPEAM tem como missão desenvolver tecnologias voltadas à defesa, à preservação ambiental e ao monitoramento sustentável da Amazônia. A grade de pesquisa abrange inteligência artificial, análise de imagens e mapeamento ambiental, proteção de dados, biotecnologia, bioinformática, transição energética, cibernética e aplicações de física quântica, com cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado ministrados por professores do IME, sediado no Rio de Janeiro, em modelo híbrido de ensino integrado a Manaus.

Segundo o diretor do IME, general Juraci Ferreira Galdino, o instituto inicia as atividades com 24 pesquisadores entre mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos, com previsão de início das aulas em 3 de agosto. Um novo edital de seleção deve ampliar o corpo discente para cerca de 84 alunos no início de 2027. Também está prevista a implantação de laboratórios permanentes de inteligência artificial e de ciências quânticas, viabilizados por um aporte de R$ 15 milhões anunciado durante a solenidade: R$ 5 milhões do Ministério da Defesa e R$ 10 milhões de emendas parlamentares impositivas, entre elas as dos deputados Adail Filho e Silas Câmara e a do próprio senador Eduardo Braga.

Além da pós-graduação, o IPEAM prevê cursos de extensão para professores da educação básica de comunidades isoladas e projetos de iniciação científica voltados a estudantes e docentes da região, com apoio da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e do Instituto Federal do Amazonas (IFAM). Um projeto-piloto em Itacoatiara, em parceria com a UEA, deve atender cerca de 440 estudantes e professores da rede básica.

Para o ministro da Defesa, a criação do IPEAM se insere em uma estratégia de descentralização da formação científica e militar do país, citando como precedentes o novo campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em Fortaleza e o Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia (CIMATEC), em Salvador. Múcio descreveu o instituto como uma “semente” com potencial de crescer e se transformar em um grande centro de conhecimento para a região, ao destacar o movimento de levar professores e estruturas de ensino para o Norte e o Nordeste do país, invertendo o fluxo histórico de estudantes dessas regiões rumo ao Sul.

A instalação do IPEAM amplia a presença de estruturas de ciência e tecnologia de defesa na Amazônia Legal, região que concentra desafios de vigilância de fronteiras, monitoramento ambiental e soberania sobre um território de dimensão continental. Ao integrar as capacidades de sensoriamento remoto e processamento de dados do Censipam à formação de pesquisadores do IME, o Exército busca consolidar em Manaus um polo permanente de inovação aplicada à defesa e à sustentabilidade da região.

13 maio, 2026

Quando uma imagem vale mais que um porta-aviões

Ilustração: LRCA
 
*Luiz Alberto Cureau Jr. - 13/05/2026

O novo tabuleiro sul-americano já não é movido apenas por tropas, tratados diplomáticos ou disputas ideológicas tradicionais. Hoje, ele é movimentado por narrativas, influência digital, pressão econômica e demonstrações psicológicas de poder. E talvez seja exatamente isso que parte da nossa região ainda tenha dificuldade de compreender.

Uma simples imagem publicada por uma liderança global pode produzir mais efeitos estratégicos do que semanas de reuniões diplomáticas. A recente postagem sugerindo a incorporação de um país sul-americano aos Estados Unidos não deve ser vista apenas como ironia política ou provocação eleitoral. Ela revela algo maior: as grandes potências voltaram a olhar para a América do Sul com atenção crescente.

E não por acaso, energia, água doce, minerais críticos, biodiversidade, alimentos, terras raras e acesso ao Atlântico Sul transformaram o continente em um ativo estratégico valioso para as próximas décadas.

O norte da América do Sul concentra algumas das maiores reservas energéticas do planeta. A região das Guianas ganhou importância no novo jogo energético mundial. O Brasil reúne capacidade agrícola gigantesca, reservas minerais, matriz energética privilegiada e a maior floresta tropical do mundo. Em um planeta pressionado por disputas energéticas, climáticas e tecnológicas, isso deixa de ser apenas riqueza. Passa a ser interesse estratégico internacional.

E há um detalhe que muitos brasileiros esquecem, o Brasil também faz fronteira com a França. A Guiana Francesa é parte da França e da União Europeia. Na prática, isso significa que o Brasil possui uma fronteira terrestre direta com uma potência nuclear, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e integrante da OTAN. Isso deveria provocar reflexões mais profundas sobre Amazônia, soberania e defesa estratégica.

Nesse cenário, o papel do Brasil torna-se decisivo. Pela dimensão territorial, estabilidade relativa e capacidade econômica, o país é o principal fator de equilíbrio regional. E suas Forças Armadas deixam de ter apenas função convencional de defesa territorial. Passam também a exercer papel de dissuasão, proteção de infraestruturas críticas, presença na Amazônia, defesa cibernética e garantia da soberania nacional em um ambiente cada vez mais híbrido e complexo.

A Amazônia não é apenas patrimônio ambiental. É território estratégico.

O mundo mudou. E mudou rápido. Hoje, influência não se projeta apenas com porta-aviões. Também se projeta através da tecnologia, da informação e da capacidade de moldar narrativas globais.

Um simples post pode testar reações internacionais, pressionar governos e medir fragilidades institucionais. Parece apenas uma imagem. Mas raramente é apenas isso.

A história é pouco gentil com países que ignoram sinais estratégicos. O novo tabuleiro sul-americano já está em movimento. A dúvida é se teremos maturidade para compreender o jogo antes que outros decidam as regras por nós. 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.  

Nota da LRCA: A postagem de Trump com a imagem da Venezuela foi publicada na rede social Truth Social, como pode ser visto na reportagem da CNN Brasil e de outros órgãos. 

24 abril, 2026

Amazônia sob pressão

 Ataques a militares revelam lacunas estratégicas e redefinem a soberania brasileira


*Mauro Beirão

No último mês de março, militares do 8º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro, localizado em Tabatinga (AM), região na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, foram atacados a tiros por narcotraficantes durante um patrulhamento. 

Fatos como esse transcendem o âmbito da segurança pública, pois eles expõem uma mudança qualitativa no ambiente operacional da Amazônia Legal: a transição de uma fronteira permeável, caracterizada pela evasão e ocultação, para um espaço progressivamente contestado por organizações criminosas e transnacionais armadas capazes de confronto direto.

Com o uso de armamento pesado e táticas típicas de forças irregulares organizadas, esses incidentes representam um enfrentamento direto a tropas regulares. Não se trata de mais um caso do aumento da criminalidade na região, mas de uma contestação prática da autoridade do Estado brasileiro em áreas sensíveis do território nacional.

Soberania em xeque - do plano criminal ao estratégico
Historicamente, episódios de confrontos diretos entre atores não estatais e forças militares brasileiras são raros, mas não inéditos. A Operação Traíra (1991), deflagrada após incursão armada das FARC em solo brasileiro, já havia demonstrado a necessidade de resposta coordenada em nível de segurança nacional. O paralelo é oportuno: quando grupos armados passam de ações furtivas para o confronto aberto, o patamar da ameaça se eleva. 

Nos últimos anos, o crime organizado na Amazônia Legal expandiu-se de forma dramática. Segundo a 4ª edição do relatório Cartografias da Violência na Amazônia (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, novembro/2025), facções criminosas atuam hoje em 344 dos 772 municípios da região — o equivalente a cerca de 45% do total. Esse número representa um crescimento de 32% em apenas um ano.

Presença estatal - avanços e limites
Desde 1985, o Projeto Calha Norte consolidou a estratégia de presença física na Amazônia Legal por meio da implantação de Pelotões Especiais de Fronteira e infraestrutura básica. Essa iniciativa evitou o vácuo de poder que criminosos rapidamente explorariam.

Paralelamente, o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) introduziu a dimensão tecnológica, permitindo monitoramento aéreo abrangente, detecção de voos ilícitos, integração de sensores (radares, satélites e meteorologia) e apoio a operações militares e interagências. O país evoluiu de uma lógica puramente física para uma lógica de consciência situacional.

Contudo, os eventos recentes deixam claro que a presença isolada de pelotões de fronteira aliada ao SIVAM, tecnologia de geração anterior, focada principalmente no domínio aéreo, não é suficiente para garantir controle efetivo do território. O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) reforça essa arquitetura, mas ainda demanda integração plena para enfrentar a complexidade atual.

O salto necessário - tecnologia e integração
A resposta estratégica passa necessariamente pela incorporação de capacidades mais avançadas:

➢ VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados), como o Hermes 900, empregado pela Força Aérea Brasileira, oferecem vigilância persistente de longa duração, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, monitoramento de rotas ilícitas com baixa exposição de pessoal e capacidade de transformar dados em inteligência acionável, reduzindo o tempo de resposta;

➢ Arquitetura C4ISR (Comando, Controle, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento) representa o verdadeiro diferencial operacional. Ela exige interoperabilidade entre sensores, plataformas e centros de comando; comunicações seguras e resilientes; operação em ambientes contestados; e integração com inteligência de sinais (SIGINT). O domínio do espectro eletromagnético torna-se, assim, um domínio de disputa essencial à superioridade informacional.

Essas capacidades só se consolidam com o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, incentivando o desenvolvimento e a adaptação de soluções às especificidades da selva amazônica e reduzindo dependências externas.

Conclusão: três pilares para a soberania no Século XXI
Os ataques na Amazônia não são eventos isolados. São um alerta estratégico inequívoco de que a soberania brasileira nas fronteiras depende da integração plena de três pilares:

1. Presença Física: consolidada pelo Projeto Calha Norte;

2. Consciência Situacional: viabilizada pelo SIVAM e SISFRON;

3. Superioridade Tecnológica: materializada em sistemas C4ISR e plataformas autônomas de média e longa distância (MALE – Medium Altitude Long Endurance) de categoria 4 como o Hermes 900, já empregado pela FAB.

A soberania contemporânea não se mede apenas pela ocupação do território, mas pela capacidade de compreender, antecipar e atuar com superioridade decisiva. Integrar esses elementos de forma eficiente é o desafio e a oportunidade que o Brasil precisa enfrentar com urgência.

A Base Industrial de Defesa tem papel central nesse processo: apenas o domínio nacional das tecnologias críticas garantirá o controle efetivo da Amazônia Legal no século XXI. 

*Mauro Beirão tem formação em Engenharia Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial, atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e tecnologia para a defesa nacional.  

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