*Luiz Alberto Cureau Jr. - 03/06/2026
Existe uma característica comum entre quase todas as crises estratégicas da história, elas costumam encontrar despreparados aqueles que acreditavam ter tempo para reagir.
Ao contrário do que muitos imaginam, defesa não é uma atividade que pode ser construída quando a ameaça surge. Quando o risco se torna visível, normalmente já é tarde para preparar as capacidades necessárias para enfrentá-lo.
A defesa de uma nação é construída em décadas, não em meses.
Formar um soldado, um piloto ou um marinheiro leva tempo. Formar um líder militar leva anos. Construir um navio, comprar um blindado, desenvolver sistemas de armas, lançar satélites ou estruturar uma indústria de defesa exige planejamento, recursos, conhecimento e continuidade.
O problema é que os investimentos em defesa costumam ser analisados sob a ótica do presente, enquanto seus resultados pertencem ao futuro.
Durante muitos anos, a posição geográfica do Brasil gerou uma sensação de conforto estratégico. Distante dos grandes conflitos mundiais, criou-se a percepção de que as ameaças estariam sempre longe de nossas fronteiras.
O mundo atual, entretanto, já não respeita fronteiras da mesma forma.
Ataques cibernéticos atravessam continentes em segundos. Drones transformaram o campo de batalha. Satélites comerciais fornecem informações antes restritas às grandes potências. A inteligência artificial amplia capacidades militares e acelera decisões.
A guerra ficou mais barata, mais acessível e mais difusa.
Em muitos casos, equipamentos de baixo custo podem neutralizar sistemas que exigiram bilhões de dólares para serem construídos. Isso não significa que os meios tradicionais perderam importância. Significa que a defesa moderna exige adaptação permanente.
Ao mesmo tempo, cresce a relevância de áreas estratégicas brasileiras. A Amazônia, o Atlântico Sul, os recursos minerais, hídricos e a infraestrutura digital ampliam a responsabilidade nacional de proteger interesses cada vez mais valiosos.
Nesse contexto, defesa não pode ser tratada como gasto. É investimento em estabilidade, soberania e capacidade de decisão.
A própria existência de forças armadas modernas produz um efeito muitas vezes ignorado, a dissuasão.
A melhor guerra continua sendo aquela que não acontece.
Quando um país demonstra capacidade de proteger seus interesses, reduz a probabilidade de que alguém tente desafiá-los. A força, quando bem empregada, não serve apenas para vencer conflitos. Serve para evitá-los.
Porque, no final, a defesa não protege apenas o território. Ela protege a liberdade de um povo escolher o próprio destino.
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército
Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física
pela Escola de Educação Física
do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército,
comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.

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