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08 junho, 2026

Colégios militares ou de cultura militar dominam ranking da OBMEP e confirmam excelência no ensino de matemática

Colégios do Exército, das polícias militares e escolas cívico-militares somam 623 medalhas na 20ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas; sozinho, o Sistema Colégio Militar do Brasil conquista 440 medalhas e 312 menções honrosas


 
*LRCA Defense Consulting - 08/06/2026

O resultado da 20ª edição da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), divulgado em 22 de dezembro de 2025 pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), reafirmou uma tendência que se consolida edição após edição: as instituições de ensino de cultura militar - sejam os Colégios Militares do Exército, os colégios das polícias militares estaduais e do DF ou as escolas cívico-militares - dominam o topo do ranking nacional entre as escolas públicas, em uma demonstração de excelência sistemática que tem implicações diretas para o futuro da Base Industrial de Defesa brasileira.

A competição reuniu 18,6 milhões de estudantes de 57.222 escolas em 5.566 municípios, cobrindo 99,93% dos municípios do país. Abrange do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, conforme o regulamento do IMPA, que realiza a olimpíada com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Educação (MEC). Foram distribuídas 8.450 medalhas nacionais, entre ouro, prata e bronze.

O ranking: cultura militar na ponta
O levantamento por escola, com base nas tabelas oficiais de premiados do IMPA, revela um quadro inequívoco. O Colégio Militar de Brasília (CMB) ficou em primeiro lugar entre todas as escolas públicas do Brasil, com 60 medalhas. O Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) ficou em segundo lugar, com 36 medalhas.

Na sequência, o terceiro lugar coube ao Colégio Militar Tiradentes, da Polícia Militar do Distrito Federal, primeira das escolas de polícia militar a aparecer no ranking, com 35 medalhas. O Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ) ficou em quarto lugar. Em quinto, o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), de Belo Horizonte, com 32 medalhas, a melhor colocação entre as escolas sem qualquer vínculo com a estrutura militar.

Do 6º ao 12º lugar, o bloco é inteiramente do Exército: Colégios Militares de Curitiba, Recife, Santa Maria, Manaus, Fortaleza, Salvador e Campo Grande. O 13º lugar coube ao Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), unidade de Manhuaçu, com 22 medalhas. O 14º ao Colégio Militar de Juiz de Fora, do Exército. E o 15º ao Centro Educacional Professora Alzira Alves Carneiro, de Tanque Novo, no sertão da Bahia, escola municipal que representa um caso raro de excelência em contexto de baixa renda, na Chapada Diamantina.

Do total de quinze primeiras posições, onze são de Colégios Militares do Exército, duas de colégios de polícia militar e apenas duas de instituições civis sem vínculo militar.

440 medalhas e 312 menções honrosas para o Exército
No total, segundo dados divulgados pela Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial do Exército (DEPA) em seu perfil oficial no Instagram, o Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB) conquistou 440 medalhas e 312 menções honrosas na 20ª OBMEP. O resultado posiciona o SCMB, composto por 15 unidades distribuídas pelo território nacional, como o conjunto institucional de maior peso em toda a competição.

O desempenho de 2025 não é episódico. Na 19ª edição da OBMEP, referente a 2024, os colégios militares já haviam conquistado 419 medalhas. A consistência ao longo das edições indica que os resultados não dependem de fatores circunstanciais, mas de um modelo pedagógico estruturado e replicável.

Polícias militares e escolas cívico-militares: mais 245 medalhas
Além do SCMB, outras duas categorias de instituições de cultura militar apresentaram desempenho relevante na 20ª OBMEP. Os colégios vinculados às polícias militares estaduais e do Distrito Federal somaram 201 medalhas, distribuídas entre 49 instituições de ao menos 14 estados. O Colégio Militar Tiradentes da PMDF liderou esse grupo com 35 medalhas e o 3º lugar no ranking geral. O Colégio Tiradentes da PMMG, com diversas unidades em Minas Gerais, somou 22 medalhas em sua unidade de Manhuaçu, além de outras premiações nas demais unidades. O 2º Colégio da PM do Paraná, de Londrina, obteve 13 medalhas.

As escolas cívico-militares, modelo implantado a partir de 2019 pelo Ministério da Educação em parceria com o Ministério da Defesa e as secretarias estaduais de educação, somaram 44 medalhas em 32 instituições. O desempenho é pulverizado, nenhuma unidade individualmente ultrapassou 3 medalhas, o que reflete a juventude do programa e o fato de que muitas dessas escolas ainda estão em processo de consolidação do modelo pedagógico.

Somadas as três categorias, as instituições de cultura militar conquistaram 623 medalhas na 20ª OBMEP, o equivalente a 9,5% de todas as medalhas distribuídas entre as escolas públicas do país, uma participação desproporcional ao número de estabelecimentos, que representa fração mínima do total de 57.222 escolas inscritas.

O que explica o resultado
A recorrência dos resultados não é acidental. Os colégios militares do Exército e, em menor escala, os das polícias militares, combinam um conjunto de fatores que raramente coexistem em outras redes públicas de ensino: infraestrutura adequada, corpo docente qualificado, acompanhamento sistemático do rendimento dos alunos, disciplina, cultura institucional de excelência acadêmica e culto a valores éticos e morais (honra, coragem, honestidade, espírito de corpo, iniciativa e respeito pelas instituições, pessoas e meio ambiente).

Estudo da Universidade Federal do Ceará demonstrou que alunos de colégios militares federais adquirem o equivalente a um ano e meio a mais de conhecimentos em matemática quando comparados a estudantes de escolas públicas regulares. No PISA 2018, os colégios militares federais tiveram desempenho superior à média da OCDE em matemática, ciências e leitura, resultado que, analisado isoladamente do restante da rede pública brasileira, posicionaria o país em patamar comparável a Portugal e Croácia nessas áreas.

O caso das escolas cívico-militares é distinto. O modelo é mais recente, a implantação é heterogênea entre os estados e a gestão pedagógica ainda está em fase de maturação. O desempenho na OBMEP reflete essa transição: presença expressiva em termos de número de instituições premiadas, mas com volume de medalhas por escola ainda modesto. A expectativa, conforme o modelo se consolida, é de crescimento progressivo dos resultados.

A exceção que confirma a regra
O caso do Centro Educacional Professora Alzira Alves Carneiro, de Tanque Novo, no sertão baiano, merece atenção à parte. Uma escola municipal, em uma cidade do interior, inserida em contexto de baixa renda, chegou ao grupo das mais premiadas do Brasil, em 15º lugar no ranking geral, com 22 medalhas. O resultado é coerente com o que os dados do IDEB revelam sobre o Nordeste: as 21 escolas públicas que alcançaram nota 10 nos anos iniciais do ensino fundamental em 2023 estavam todas nessa região, com 15 no Ceará, cinco em Alagoas e uma em Pernambuco.

A lição que o caso baiano e os dados nordestinos oferecem é precisamente a mesma que o resultado das instituições militares reforça: é possível, dentro do Brasil, oferecer educação de qualidade em matemática independentemente do contexto socioeconômico ou do vínculo institucional. O diferencial está na gestão, no rigor acadêmico, na formação docente, no acompanhamento sistemático e na cultura de excelência.

A conexão com a indústria de defesa
O desempenho das instituições militares nas olimpíadas de matemática não é apenas um dado educacional. Para a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, os colégios militares do Exército e, crescentemente, os das polícias militares e as escolas cívico-militares representam mecanismos de formação da massa crítica de engenheiros, físicos e técnicos de que setores como aeroespacial, eletrônica embarcada, balística e construção naval necessitam.

A matemática é a rainha das ciências exatas: quem não a domina também não dominará física, e a cadeia se quebra antes mesmo de chegar à universidade. Sem sólida formação em matemática no ensino básico, um estudante não conseguirá operar com equações diferenciais, transformadas de Laplace, mecânica dos fluidos ou dinâmica de sistemas não lineares, requisitos elementares para os projetos de alta complexidade que sustentam programas como o KC-390 da Embraer, o ASTROS II da Avibras ou o PROSUB da Marinha.

Uma parcela considerável dos egressos dos colégios militares do Exército segue carreiras em engenharia, medicina, ciências da computação e ciências exatas. Muitos ingressam em instituições militares de ensino superior como a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Academia da Força Aérea (AFA), a Escola Naval, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o Instituto Militar de Engenharia (IME). Os egressos dos colégios de polícia militar e das escolas cívico-militares, por sua vez, reforçam o conjunto de profissionais qualificados que alimenta tanto as carreiras de segurança pública quanto o mercado técnico e científico civil.

Implicações para as políticas educacional e de defesa
O domínio das instituições de cultura militar no ranking da OBMEP levanta uma questão que transcende o debate pedagógico e adentra o campo da política estratégica. Se o modelo funciona - e os números demonstram que funciona de maneira consistente ao longo de múltiplas edições e em diferentes categorias institucionais - a pergunta relevante não é por que essas escolas têm bons resultados, mas por que esse modelo não é replicado em escala nacional.

O Brasil possui atualmente 15 colégios militares federais, dezenas de colégios das polícias militares estaduais e um número crescente de escolas cívico-militares, cujos resultados em olimpíadas de matemática e parâmetros de avaliação como o IDEB e o SAEB têm se mostrado promissores. A ampliação estratégica desse conjunto, especialmente nas regiões onde se concentram empresas e instituições de defesa, como o Vale do Paraíba, as região metropolitanas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Porto Alegre, além de outras (Itaguaí, Santa Maria, Itajubá, Campinas etc.), poderia criar polos de formação de futuros engenheiros e técnicos para a BID.

Cada leva de estudantes que passa pelo sistema educacional público sem dominar matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e técnicos que o país não terá. E sem eles, a indústria de defesa brasileira permanecerá aquém de seu potencial estratégico e econômico. O resultado da OBMEP 2025 é mais um lembrete de que o caminho já existe. O que falta é a decisão de percorrê-lo em escala.


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