Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador Indústria de Defesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Indústria de Defesa. Mostrar todas as postagens

20 junho, 2026

Quem quer faz, e quem não quer procura uma desculpa. E qual será o Caminho da Defesa Nacional?


*Luiz Alberto Cureau Jr. - 20/06/2026

Essa é uma metáfora que está em paredes de quartel , inclusive do quartel que comandei , o saudoso Batalhão da Serra. Frase essa que serve para explicar a importância das Forças Armadas e da indústria de defesa.

Quando uma pessoa realmente deseja alcançar um objetivo, seu caminho raramente é uma linha reta. Ela tenta, erra, aprende, insiste, melhora e recomeça quantas vezes forem necessárias. Cada obstáculo se transforma em aprendizado. Cada dificuldade gera experiência. Ao final, o resultado aparece porque houve persistência.

Já quem não está verdadeiramente comprometido encontra algo muito mais fácil: uma desculpa. As nações também seguem essa lógica.

Nenhum país ou grande empresa construiu capacidades relevantes sem percorrer um longo caminho de desafios, investimentos, correções de rumo e aperfeiçoamento contínuo. Não existe atalho para a soberania. Ela é construída da mesma forma que qualquer grande conquista, com visão de longo prazo, disciplina e perseverança.

A indústria de defesa é um exemplo claro dessa realidade. Desenvolver radares, satélites, sistemas de comunicação, blindados, navios ou aeronaves exige anos de pesquisa, formação de pessoal e amadurecimento tecnológico. Muitos projetos enfrentam dificuldades, revisões e adaptações ao longo do caminho. Faz parte do processo.

O mesmo ocorre com as Forças Armadas. A formação de um soldado e um marinheiro leva tempo. A de um piloto, mais tempo ainda. A de um comandante exige décadas de experiência acumulada. Nenhuma dessas capacidades pode ser improvisada quando a necessidade aparece.

Entretanto, periodicamente surge a tentação de procurar o caminho mais fácil. Afinal, em tempos de relativa estabilidade, sempre haverá quem pergunte por que investir em defesa, por que manter uma indústria estratégica ou por que preparar-se para riscos que ainda não se materializaram.

A resposta está justamente na metáfora.

Os países que desejam preservar sua soberania seguem pelo caminho mais longo, investem, treinam, desenvolvem tecnologia, fortalecem instituições e constroem capacidades. Sabem que o processo é lento, custoso e exige continuidade.

Os que não querem fazer esse esforço normalmente encontram justificativas para adiar decisões, cortar investimentos e transferir responsabilidades. Em vez de capacidades, acumulam explicações.

A história, porém, costuma ser implacável. Quando uma crise surge, não há tempo para começar a preparação. Nesse momento, apenas colhem resultados aqueles que passaram anos construindo suas capacidades.

No campo da defesa, a diferença entre segurança e vulnerabilidade raramente está nos recursos disponíveis. Está na decisão de percorrer o caminho da preparação ou permanecer parado no conforto das desculpas.

As grandes nações escolhem preparar-se. Porque entendem que soberania não é um presente da geografia ou da sorte. É uma conquista construída todos os dias. 

 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.   

08 junho, 2026

Colégios militares ou de cultura militar dominam ranking da OBMEP e confirmam excelência no ensino de matemática

Colégios do Exército, das polícias militares e escolas cívico-militares somam 623 medalhas na 20ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas; sozinho, o Sistema Colégio Militar do Brasil conquista 440 medalhas e 312 menções honrosas


 
*LRCA Defense Consulting - 08/06/2026

O resultado da 20ª edição da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), divulgado em 22 de dezembro de 2025 pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), reafirmou uma tendência que se consolida edição após edição: as instituições de ensino de cultura militar - sejam os Colégios Militares do Exército, os colégios das polícias militares estaduais e do DF ou as escolas cívico-militares - dominam o topo do ranking nacional entre as escolas públicas, em uma demonstração de excelência sistemática que tem implicações diretas para o futuro da Base Industrial de Defesa brasileira.

A competição reuniu 18,6 milhões de estudantes de 57.222 escolas em 5.566 municípios, cobrindo 99,93% dos municípios do país. Abrange do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, conforme o regulamento do IMPA, que realiza a olimpíada com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Educação (MEC). Foram distribuídas 8.450 medalhas nacionais, entre ouro, prata e bronze.

O ranking: cultura militar na ponta
O levantamento por escola, com base nas tabelas oficiais de premiados do IMPA, revela um quadro inequívoco. O Colégio Militar de Brasília (CMB) ficou em primeiro lugar entre todas as escolas públicas do Brasil, com 60 medalhas. O Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) ficou em segundo lugar, com 36 medalhas.

Na sequência, o terceiro lugar coube ao Colégio Militar Tiradentes, da Polícia Militar do Distrito Federal, primeira das escolas de polícia militar a aparecer no ranking, com 35 medalhas. O Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ) ficou em quarto lugar. Em quinto, o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), de Belo Horizonte, com 32 medalhas, a melhor colocação entre as escolas sem qualquer vínculo com a estrutura militar.

Do 6º ao 12º lugar, o bloco é inteiramente do Exército: Colégios Militares de Curitiba, Recife, Santa Maria, Manaus, Fortaleza, Salvador e Campo Grande. O 13º lugar coube ao Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), unidade de Manhuaçu, com 22 medalhas. O 14º ao Colégio Militar de Juiz de Fora, do Exército. E o 15º ao Centro Educacional Professora Alzira Alves Carneiro, de Tanque Novo, no sertão da Bahia, escola municipal que representa um caso raro de excelência em contexto de baixa renda, na Chapada Diamantina.

Do total de quinze primeiras posições, onze são de Colégios Militares do Exército, duas de colégios de polícia militar e apenas duas de instituições civis sem vínculo militar.

440 medalhas e 312 menções honrosas para o Exército
No total, segundo dados divulgados pela Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial do Exército (DEPA) em seu perfil oficial no Instagram, o Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB) conquistou 440 medalhas e 312 menções honrosas na 20ª OBMEP. O resultado posiciona o SCMB, composto por 15 unidades distribuídas pelo território nacional, como o conjunto institucional de maior peso em toda a competição.

O desempenho de 2025 não é episódico. Na 19ª edição da OBMEP, referente a 2024, os colégios militares já haviam conquistado 419 medalhas. A consistência ao longo das edições indica que os resultados não dependem de fatores circunstanciais, mas de um modelo pedagógico estruturado e replicável.

Polícias militares e escolas cívico-militares: mais 245 medalhas
Além do SCMB, outras duas categorias de instituições de cultura militar apresentaram desempenho relevante na 20ª OBMEP. Os colégios vinculados às polícias militares estaduais e do Distrito Federal somaram 201 medalhas, distribuídas entre 49 instituições de ao menos 14 estados. O Colégio Militar Tiradentes da PMDF liderou esse grupo com 35 medalhas e o 3º lugar no ranking geral. O Colégio Tiradentes da PMMG, com diversas unidades em Minas Gerais, somou 22 medalhas em sua unidade de Manhuaçu, além de outras premiações nas demais unidades. O 2º Colégio da PM do Paraná, de Londrina, obteve 13 medalhas.

As escolas cívico-militares, modelo implantado a partir de 2019 pelo Ministério da Educação em parceria com o Ministério da Defesa e as secretarias estaduais de educação, somaram 44 medalhas em 32 instituições. O desempenho é pulverizado, nenhuma unidade individualmente ultrapassou 3 medalhas, o que reflete a juventude do programa e o fato de que muitas dessas escolas ainda estão em processo de consolidação do modelo pedagógico.

Somadas as três categorias, as instituições de cultura militar conquistaram 623 medalhas na 20ª OBMEP, o equivalente a 9,5% de todas as medalhas distribuídas entre as escolas públicas do país, uma participação desproporcional ao número de estabelecimentos, que representa fração mínima do total de 57.222 escolas inscritas.

O que explica o resultado
A recorrência dos resultados não é acidental. Os colégios militares do Exército e, em menor escala, os das polícias militares, combinam um conjunto de fatores que raramente coexistem em outras redes públicas de ensino: infraestrutura adequada, corpo docente qualificado, acompanhamento sistemático do rendimento dos alunos, disciplina, cultura institucional de excelência acadêmica e culto a valores éticos e morais (honra, coragem, honestidade, espírito de corpo, iniciativa e respeito pelas instituições, pessoas e meio ambiente).

Estudo da Universidade Federal do Ceará demonstrou que alunos de colégios militares federais adquirem o equivalente a um ano e meio a mais de conhecimentos em matemática quando comparados a estudantes de escolas públicas regulares. No PISA 2018, os colégios militares federais tiveram desempenho superior à média da OCDE em matemática, ciências e leitura, resultado que, analisado isoladamente do restante da rede pública brasileira, posicionaria o país em patamar comparável a Portugal e Croácia nessas áreas.

O caso das escolas cívico-militares é distinto. O modelo é mais recente, a implantação é heterogênea entre os estados e a gestão pedagógica ainda está em fase de maturação. O desempenho na OBMEP reflete essa transição: presença expressiva em termos de número de instituições premiadas, mas com volume de medalhas por escola ainda modesto. A expectativa, conforme o modelo se consolida, é de crescimento progressivo dos resultados.

A exceção que confirma a regra
O caso do Centro Educacional Professora Alzira Alves Carneiro, de Tanque Novo, no sertão baiano, merece atenção à parte. Uma escola municipal, em uma cidade do interior, inserida em contexto de baixa renda, chegou ao grupo das mais premiadas do Brasil, em 15º lugar no ranking geral, com 22 medalhas. O resultado é coerente com o que os dados do IDEB revelam sobre o Nordeste: as 21 escolas públicas que alcançaram nota 10 nos anos iniciais do ensino fundamental em 2023 estavam todas nessa região, com 15 no Ceará, cinco em Alagoas e uma em Pernambuco.

A lição que o caso baiano e os dados nordestinos oferecem é precisamente a mesma que o resultado das instituições militares reforça: é possível, dentro do Brasil, oferecer educação de qualidade em matemática independentemente do contexto socioeconômico ou do vínculo institucional. O diferencial está na gestão, no rigor acadêmico, na formação docente, no acompanhamento sistemático e na cultura de excelência.

A conexão com a indústria de defesa
O desempenho das instituições militares nas olimpíadas de matemática não é apenas um dado educacional. Para a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, os colégios militares do Exército e, crescentemente, os das polícias militares e as escolas cívico-militares representam mecanismos de formação da massa crítica de engenheiros, físicos e técnicos de que setores como aeroespacial, eletrônica embarcada, balística e construção naval necessitam.

A matemática é a rainha das ciências exatas: quem não a domina também não dominará física, e a cadeia se quebra antes mesmo de chegar à universidade. Sem sólida formação em matemática no ensino básico, um estudante não conseguirá operar com equações diferenciais, transformadas de Laplace, mecânica dos fluidos ou dinâmica de sistemas não lineares, requisitos elementares para os projetos de alta complexidade que sustentam programas como o KC-390 da Embraer, o ASTROS II da Avibras ou o PROSUB da Marinha.

Uma parcela considerável dos egressos dos colégios militares do Exército segue carreiras em engenharia, medicina, ciências da computação e ciências exatas. Muitos ingressam em instituições militares de ensino superior como a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Academia da Força Aérea (AFA), a Escola Naval, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o Instituto Militar de Engenharia (IME). Os egressos dos colégios de polícia militar e das escolas cívico-militares, por sua vez, reforçam o conjunto de profissionais qualificados que alimenta tanto as carreiras de segurança pública quanto o mercado técnico e científico civil.

Implicações para as políticas educacional e de defesa
O domínio das instituições de cultura militar no ranking da OBMEP levanta uma questão que transcende o debate pedagógico e adentra o campo da política estratégica. Se o modelo funciona - e os números demonstram que funciona de maneira consistente ao longo de múltiplas edições e em diferentes categorias institucionais - a pergunta relevante não é por que essas escolas têm bons resultados, mas por que esse modelo não é replicado em escala nacional.

O Brasil possui atualmente 15 colégios militares federais, dezenas de colégios das polícias militares estaduais e um número crescente de escolas cívico-militares, cujos resultados em olimpíadas de matemática e parâmetros de avaliação como o IDEB e o SAEB têm se mostrado promissores. A ampliação estratégica desse conjunto, especialmente nas regiões onde se concentram empresas e instituições de defesa, como o Vale do Paraíba, as região metropolitanas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Porto Alegre, além de outras (Itaguaí, Santa Maria, Itajubá, Campinas etc.), poderia criar polos de formação de futuros engenheiros e técnicos para a BID.

Cada leva de estudantes que passa pelo sistema educacional público sem dominar matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e técnicos que o país não terá. E sem eles, a indústria de defesa brasileira permanecerá aquém de seu potencial estratégico e econômico. O resultado da OBMEP 2025 é mais um lembrete de que o caminho já existe. O que falta é a decisão de percorrê-lo em escala.


01 janeiro, 2026

O cálculo invisível: como as lacunas educacionais ameaçam a indústria de defesa brasileira

Cada leva de estudantes que passa pelo sistema sem dominar matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e técnicos que o país não terá.


*LRCA Defense Consulting - 01/01/2026

1 INTRODUÇÃO

A indústria de defesa representa um dos setores mais exigentes em termos de capital humano qualificado. Diferentemente de diversos outros segmentos industriais, não há espaço para aproximações ou improvisações quando se trata do desenvolvimento de sistemas de armas, aeronaves militares, eletrônica embarcada ou propulsão naval. A margem de erro é literalmente inexistente. 

Neste contexto, as lacunas no ensino de matemática que chegam às universidades brasileiras representam não apenas um desafio pedagógico, mas uma ameaça estrutural à capacidade do país de desenvolver uma indústria de defesa competitiva e autônoma.

Cabe ressaltar que as deficiências educacionais aqui elencadas e analisadas trazem, por óbvio, consequências graves para outros ramos fundamentais da vida nacional, como as diversas engenharias, a medicina, as ciências da computação, a arquitetura, as ciências econômicas e tantas outras áreas que dependem de sólida formação em matemática e ciências exatas. Contudo, o foco deste estudo recai especificamente sobre a Indústria de Defesa, dada sua importância estratégica para a soberania nacional e as particularidades de suas exigências técnicas, que não admitem margem para improviso ou formação deficiente. 

O presente estudo constitui uma pequena contribuição da LRCA Defense Consulting para o desenvolvimento da Indústria de Defesa e para a Educação no Brasil, buscando evidenciar a relação indissociável entre formação técnica de qualidade em ciências exatas e a capacidade de um país construir soberania tecnológica na área de defesa. 

Ao analisar tanto os desafios sistêmicos quanto alguns dos casos de sucesso já existentes no Brasil, pretende-se oferecer alguns subsídios para a formulação de políticas públicas e estratégias institucionais que fortaleçam simultaneamente a educação básica e a superior, bem como a Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). 

2 O PARADOXO DA EXPANSÃO SEM PROFUNDIDADE

O Brasil vive um momento peculiar: ampliou significativamente o acesso ao ensino superior nas últimas duas décadas, mas comprometeu a solidez da base formativa. Para a indústria de defesa, isso se traduz em um paradoxo cruel. Há mais candidatos disponíveis no mercado de trabalho, mas uma parcela menor deles possui o domínio técnico necessário para atuar em projetos de alta complexidade.

Enquanto estudantes universitários paralisam diante de equações simples, a indústria de defesa precisa de profissionais capazes de trabalhar com equações diferenciais, transformadas de Laplace, mecânica dos fluidos, dinâmica de sistemas não-lineares e modelagem computacional avançada. A distância entre o que chega e o que é necessário tornou-se um abismo técnico.

Relatos de professores universitários são consistentes e preocupantes: calouros de engenharia, economia e licenciaturas que não dominam regra de três, porcentagem ou leitura algébrica básica. O que antes seria exceção tornou-se padrão estatístico. A pandemia não criou o problema, mas expôs desigualdades históricas e fragilidades estruturais que vinham sendo mascaradas por políticas de aprovação automática e avaliações pouco rigorosas.

3 SETORES CRÍTICOS EM RISCO

3.1 Engenharia Aeroespacial

O desenvolvimento de aeronaves militares exige domínio absoluto de aerodinâmica, resistência dos materiais, termodinâmica e sistemas de controle. Um engenheiro que não domina cálculo vetorial, derivadas parciais ou análise de tensões não consegue sequer interpretar os requisitos de um projeto, muito menos contribuir para sua execução. A Embraer, com sua divisão de defesa, e o programa KC-390 exemplificam o nível de exigência: são projetos que demandam anos de formação técnica sólida, iniciada já no ensino fundamental.

3.2 Eletrônica e Sistemas Embarcados

Radares, sistemas de guerra eletrônica, comunicações criptografadas e sensores de precisão dependem de profissionais que dominem análise de sinais, processamento digital, teoria eletromagnética e matemática discreta. A lacuna formativa - estudantes que não dominam regra de três ou porcentagem - torna-se catastrófica neste contexto. Como esperar que esses mesmos estudantes, anos depois, trabalhem com transformadas de Fourier ou modulação de sinais?

3.3 Balística e Propulsão

O cálculo de trajetórias, desenvolvimento de propelentes, análise de combustão e dinâmica de projéteis são áreas onde a matemática não é apenas ferramenta, mas linguagem nativa. Sem domínio de funções trigonométricas, logaritmos, exponenciais e integração, não há como formar especialistas em sistemas de mísseis, artilharia de precisão ou propulsão de foguetes. O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) dependem de quadros técnicos que simplesmente não podem ser improvisados.

3.4 Construção Naval Militar

Submarinos, fragatas e corvetas exigem cálculos de estabilidade, resistência hidrodinâmica, sistemas de propulsão nuclear ou convencional, e integração de sistemas complexos. O programa de submarinos nucleares brasileiro (PROSUB) ilustra a dimensão do desafio: são décadas de investimento em infraestrutura, mas que podem fracassar pela ausência de engenheiros navais plenamente capacitados.

4 O CUSTO OCULTO DA TERCEIRIZAÇÃO DO CONHECIMENTO

Quando um país não forma adequadamente seus próprios engenheiros e técnicos, a indústria de defesa sofre consequências em cascata. A primeira é a dependência tecnológica externa. Sem capacidade interna de desenvolvimento, o Brasil permanece refém de transferências de tecnologia condicionadas, licenciamentos caros e, em situações de conflito ou tensão geopolítica, vulnerável ao bloqueio de fornecimento.

A segunda consequência é a perda de autonomia estratégica. Defesa nacional não é apenas sobre ter equipamentos, mas sobre ser capaz de projetá-los, fabricá-los, mantê-los e, quando necessário, adaptá-los rapidamente às necessidades operacionais. Esse ciclo completo depende de uma massa crítica de profissionais de altíssimo nível técnico.

A terceira, talvez a mais silenciosa, é a erosão da capacidade de inovação. A indústria de defesa é historicamente um dos principais vetores de avanço tecnológico. Internet, GPS, materiais compostos, microcircuitos avançados, todos tiveram origem ou forte impulso em projetos militares. Um país que não forma bem seus cientistas e engenheiros perde não apenas a capacidade de se defender, mas também de inovar em áreas que, eventualmente, transbordam para a economia civil.

5 A UNIVERSIDADE COMO REMENDO E O ESGOTAMENTO DO SISTEMA

Universidades brasileiras improvisam disciplinas de nivelamento, módulos introdutórios, cursos de "matemática zero". Em algumas instituições, o reforço já se divide em dois andares: um para revisar o ensino médio; outro, mais constrangedor ainda, para reconstruir o ensino fundamental. É como se a universidade tivesse assumido, sem aviso prévio, o papel de escola básica tardia.

Para cursos de engenharia voltados à defesa, isso é especialmente devastador. O tempo que deveria ser dedicado a aprofundar conhecimentos em sistemas dinâmicos, controle robusto, análise numérica ou ciência dos materiais precisa ser redirecionado para revisar frações, funções básicas e álgebra elementar.

Há um custo oculto nesse remendo. O tempo gasto recuperando o que deveria estar consolidado reduz a profundidade do ensino superior. Professores sacrificam rigor para garantir permanência. Estudantes acumulam frustração, evasão silenciosa e a sensação íntima de inadequação. O país paga duas vezes: primeiro, por uma educação básica que não ensinou; depois, por uma universidade que precisa ensinar o que já foi pago para ser ensinado.

Professores relatam turmas heterogêneas onde parte significativa dos estudantes simplesmente não acompanha o ritmo exigido. O resultado é uma escolha trágica: ou reduz-se o rigor, comprometendo a qualidade da formação, ou mantém-se o padrão, elevando a evasão. Em ambos os casos, a indústria de defesa perde. No primeiro, recebe profissionais insuficientemente preparados. No segundo, não recebe profissionais em número adequado.

6 COMPARAÇÃO INTERNACIONAL E O DISTANCIAMENTO COMPETITIVO

Enquanto o Brasil lida com estudantes universitários que travam diante de equações simples, países com indústrias de defesa consolidadas mantêm padrões rigorosos desde a educação básica. China, Estados Unidos, Rússia, França, Israel e Coreia do Sul investem pesadamente não apenas em universidades de elite, mas em toda a cadeia formativa, garantindo que os estudantes cheguem ao ensino superior com base matemática sólida.

Israel, por exemplo, com uma população menor que a da cidade de São Paulo, mantém uma das indústrias de defesa mais avançadas do mundo. Não por acaso, também possui um dos sistemas educacionais mais rigorosos em ciências exatas. A Coreia do Sul, que décadas atrás tinha indicadores educacionais comparáveis aos brasileiros, priorizou matemática, física e engenharia como políticas de Estado. Hoje, exporta sistemas de defesa de alta tecnologia.

O Brasil, ao contrário, celebra índices de acesso sem correspondente preocupação com profundidade formativa. Expande sem consolidar. Aprova sem diagnosticar. E paga o preço na forma de uma indústria de defesa que, apesar de casos pontuais de excelência, não consegue competir globalmente de maneira consistente.

 

7 O DRAMA ECONÔMICO E A PERDA DE OPORTUNIDADES

A indústria de defesa não é apenas estratégica do ponto de vista militar; é também um setor econômico de alta geração de valor. Países que dominam tecnologias de defesa exportam bilhões de dólares anualmente. Israel exporta cerca de 12 bilhões de dólares por ano em equipamentos militares. A Coreia do Sul tornou-se um dos principais fornecedores globais de sistemas de artilharia, tanques e aeronaves de treinamento.

O Brasil, com sua dimensão continental, recursos naturais, base industrial e histórico de projetos bem-sucedidos como o C-390 da Embraer e os ASTROS da Avibras, poderia ocupar posição de destaque nesse mercado. Mas a fragilidade na formação técnica de engenheiros e cientistas limita essa possibilidade. Projetos atrasam, custos aumentam, entregas são comprometidas e, gradualmente, o país perde competitividade internacional.

Mais grave ainda: perde-se a capacidade de formar uma indústria de defesa robusta internamente, o que compromete a própria segurança nacional. Dependência externa em defesa não é apenas cara; é estrategicamente arriscada.

8 CASOS DE SUCESSO: EXEMPLOS QUE FUNCIONAM

Embora o diagnóstico geral seja preocupante, existem iniciativas brasileiras que demonstram ser possível formar adequadamente os profissionais de que a indústria de defesa necessita. Seis casos merecem destaque especial.

8.1 Colégios Embraer: Formação Estratégica desde o Ensino Médio

A Embraer mantém dois colégios de ensino médio em período integral: o Colégio Juarez Wanderley em São José dos Campos e o Colégio Casimiro Montenegro Filho em Botucatu. Juntos, oferecem 240 vagas anuais, sendo 80% destinadas a estudantes de baixa renda vindos da rede pública de ensino, com bolsas integrais que incluem material didático, uniforme, alimentação e transporte.

O modelo é notável por vários aspectos. Primeiro, pelo processo seletivo rigoroso organizado pela Fundação Vunesp, garantindo que os estudantes admitidos já demonstrem capacidade e comprometimento. Segundo, pela infraestrutura de excelência e corpo docente altamente qualificado. Terceiro, pelos resultados: a taxa de aprovação em universidades de primeira linha (USP, Unicamp, ITA, entre outras) alcança 84%.

Ao longo de 21 anos, já passaram pelos colégios mais de 4.700 estudantes, muitos vindos de famílias com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa.

A Embraer compreendeu algo fundamental: não pode depender exclusivamente do sistema público de educação básica para formar os engenheiros e técnicos de que necessita. Ao investir na formação desde o ensino médio, garante um fluxo constante de profissionais com base sólida em matemática e ciências exatas, prontos para os desafios técnicos da indústria aeroespacial de defesa.

8.2 Colégios Militares e Escolas Cívico-Militares: Rigor e Resultados

O Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), composto por 15 instituições distribuídas pelo país, representa outro modelo de excelência na formação em ciências exatas. Os números são inequívocos: em 2024, os alunos dos colégios militares conquistaram 419 medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), sendo 72 de ouro, 173 de prata e 174 de bronze. Em 2025, novamente foram mais de 400 alunos premiados, sendo 86 medalhas de ouro, 174 medalhas de prata e 180 medalhas de bronze, além de 312 menções honrosas.

No PISA 2018, a avaliação internacional que mede a qualidade da educação em 79 países, relatórios destacam que colégios militares federais tiveram desempenho superior à média OCDE em matemática, ciências e leitura, comparável aos top 20 mundiais se analisado isoladamente. Se os resultados fossem analisados separadamente, teria garantido ao Brasil empate com Portugal e Croácia nessas áreas.

No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de 2023, o Colégio Militar de Campo Grande obteve nota 6,7, com média de 370,80 em matemática, posicionando-se como a 25ª melhor escola do Brasil e a melhor de Mato Grosso do Sul. Estudo da Universidade Federal do Ceará demonstrou que alunos de colégios militares adquirem o equivalente a um ano e meio a mais de conhecimentos em matemática quando comparados a estudantes de escolas públicas regulares.

A forte preparação em matemática e raciocínio lógico cria vantagens competitivas significativas. Uma parcela considerável dos egressos segue carreiras em engenharia, medicina, direito e ciências exatas, exatamente as áreas críticas para a indústria de defesa. Muitos ingressam em instituições militares de ensino superior, como a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) / Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), Academia da Força Aérea (AFA), Escola Naval, Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e Instituto Militar de Engenharia (IME).

O modelo de escolas cívico-militares, embora mais recente, também tem apresentado desempenho muito promissor, obtendo excelentes resultados em olimpíadas de matemática (incluindo a OBMEP), parâmetros nacionais de avaliação (IDEB/Saeb) e vestibulares competitivos. Ainda em expansão, essas escolas combinam gestão militar com corpo docente civil, mantendo o rigor disciplinar e a ênfase em ciências exatas que caracterizam os colégios militares tradicionais.

8.3 Escolas Públicas de Excelência: o Nordeste como Modelo

Um dos fatos mais surpreendentes do IDEB 2023 é que todas as 21 escolas públicas que alcançaram nota 10 nos anos iniciais do ensino fundamental estão localizadas no Nordeste: 15 no Ceará, cinco em Alagoas e uma em Pernambuco. Esta foi a primeira vez na história que o IDEB conferiu nota máxima a escolas, e todas são nordestinas.

A Escola Municipal Nossa Senhora da Paz, em Coreaú (Ceará), com 10 no IDEB, ocupa o primeiro lugar nacional. O mais notável é que as 10 melhores escolas públicas do Brasil nos anos iniciais são do Ceará e estão no interior. Não são capitais. São cidades pequenas como Pires Ferreira, Cruz, Novo Oriente, Mucambo — municípios que desafiam o senso comum de que excelência educacional depende de grandes centros urbanos.

O sucesso do Ceará não é acidental. O estado mantém um regime de colaboração com os municípios que inclui formação continuada para professores, material didático estruturado, sistema de avaliação (Spaece) e o Programa de Aprendizagem na Idade Certa (Paic Integral). É uma política de Estado, não governo, implementada há quase duas décadas com consistência.

Entre as 50 cidades com maiores notas do IDEB 2023 no 9º ano do ensino fundamental, 36 são do Nordeste, sendo 20 apenas do Ceará. No ensino médio, a Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos, em Ipueiras (Ceará), no Sertão dos Crateús, é a melhor unidade estadual do Brasil com nota 7,5. Trata-se de uma escola do campo, que alterna sala de aula e trabalho agrícola, demonstrando que é possível excelência em contextos não convencionais.

Uma diretora de escola nota 10 relatou: "São aplicados simulados padronizados mensalmente, não só no ano do IDEB. Além do simulado, temos maratonas de aprendizagem com premiações para os alunos de destaque e os professores". Há método, avaliação constante, diagnóstico e intervenção pedagógica efetiva.

Esses resultados provam algo fundamental para a indústria de defesa: é possível formar adequadamente estudantes em matemática e ciências exatas dentro do Brasil, inclusive em contextos de baixa renda e municípios pequenos. O diferencial está na gestão, no rigor acadêmico, na formação docente, no acompanhamento sistemático e na cultura de excelência.

8.4 Escolas Particulares de Alto Nível: Investimento e Resultados

O Brasil também possui escolas particulares que demonstram padrões internacionais de excelência. Colégios como Bandeirantes e Santa Cruz, em São Paulo, obtiveram no PISA desempenho comparável aos melhores países da Europa, como Estônia, Reino Unido e Alemanha. Em Leitura, as escolas particulares de elite brasileiras colocariam o país na 5ª posição mundial.

O Farias Brito Colégio de Aplicação, em Fortaleza, liderou o ranking de melhores colégios do Brasil no ENEM por anos consecutivos. Outras instituições de destaque incluem o Colégio Objetivo Integrado (São Paulo), Instituto Dom Barreto (Teresina), Colégio Bernoulli (Belo Horizonte) e Coleguium (Belo Horizonte), todas figurando consistentemente no top 20-50 nacional do ENEM e com forte ênfase em preparação para vestibulares de alta seletividade em engenharia e ciências exatas.

O que essas escolas têm em comum? Investimento robusto em infraestrutura (laboratórios, bibliotecas, tecnologia), corpo docente altamente qualificado, processos seletivos rigorosos, currículo focado em profundidade (não apenas extensão), avaliações constantes e cultura de excelência acadêmica. Muitas implementam conteúdos de ensino superior ainda no ensino médio para estudantes avançados.

Para a indústria de defesa, essas instituições representam fontes confiáveis de futuros engenheiros e cientistas. Seus egressos ingressam maciçamente em cursos de engenharia do ITA, IME, Politécnica da USP, Unicamp, UFRJ e outras instituições de primeira linha, chegando à universidade com domínio sólido de matemática, física e química.

8.5 Taurus e UNISINOS: Parceria Universidade-Indústria

A Taurus Armas, maior fabricante de pistolas do mundo e Empresa Estratégica de Defesa, estabeleceu em 2021 uma parceria abrangente com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) que exemplifica como a indústria de defesa pode participar ativamente da formação de seus profissionais.

A parceria possui três frentes principais. A primeira é o projeto de Excelência Operacional, desenvolvido pelo grupo de pesquisa GMAP da UNISINOS, focado em elevar a capacidade operacional e o avanço tecnológico da empresa rumo à Indústria 4.0. A segunda é o Programa de Capacitação Taurus, que abrange todos os colaboradores, do montador à diretoria, criando uma base conceitual sólida para aproveitamento dos avanços tecnológicos.

A terceira frente, particularmente relevante para este estudo, é o Programa de Educação Continuada Taurus. A empresa oferece aos colaboradores cursos de graduação, mestrado e doutorado, com apoio dos professores orientadores da UNISINOS. Foi criado inclusive o Master Business Engineering (MBE) em Engenharia de Produção e Sistemas Taurus, curso que simula em sala de aula demandas reais da companhia e estimula cada participante a desenvolver projetos de melhoria contínua em produtos ou processos.

A parceria se estende à pesquisa aplicada. A Taurus também firmou convênio com a Universidade de Caxias do Sul (UCS) para desenvolvimento de armamentos com grafeno, utilizando a UCSGRAPHENE, primeira e maior planta de produção de grafeno em escala industrial da América Latina instalada por uma universidade. O resultado foi a pistola GX4 Graphene, primeira arma leve do mundo com grafeno injetado em peças e revestimento Cerakote® Graphene, para maior resistência, durabilidade e dissipação térmica..

Nos últimos anos, a Taurus investiu mais de 500 milhões de reais em maquinários, equipamentos e processos de produção automatizados, mas compreendeu que investir em tecnologia sem investir nas pessoas que a operarão seria inútil. O modelo demonstra que a indústria de defesa não pode ser passiva, aguardando que o sistema educacional entregue profissionais prontos. Precisa participar ativamente da formação.

Formatura da 1ª turma de colaboradores no MBE Engenharia de Produção e Sistemas Taurus em 2023

8.6 UFSM e Exército Brasileiro: Soberania Tecnológica em Simulação Militar

A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) consolidou-se como principal parceira acadêmica do Exército Brasileiro no desenvolvimento de tecnologias de defesa nacional. Com investimentos que já ultrapassam R$ 20 milhões ao longo de uma década, a cooperação entre as instituições tem gerado inovações críticas para a soberania tecnológica do país, especialmente na área de simulação militar.

8.6.1 Projetos Desenvolvidos e Resultados

Há mais de uma década, pesquisadores do Centro de Tecnologia da UFSM vêm desenvolvendo soluções inovadoras que transformaram a capacidade de treinamento das Forças Armadas brasileiras. O principal marco foi a criação do Sistema Integrado de Simulação ASTROS (SIS-ASTROS), destinado ao treinamento de operadores do sistema de foguetes 100% nacional fabricado pela Avibras. A equipe desenvolveu um Simulador Virtual Tático completo, com mesa tática sensível ao toque e vídeo wall, além de softwares para treinamento em computadores pessoais.

Outro projeto relevante foi a modernização do Dispositivo de Simulação e Engajamento Tático (DSET), que simula por meio de feixes laser a trajetória balística nos blindados Leopard 1A5. O projeto, orçado em R$ 2 milhões, eliminou limitações do sistema original alemão da década de 1980, substituindo a impressora térmica por transmissão de dados via rádio e incluindo georreferenciamento das viaturas.

Os resultados são expressivos: dezenas de publicações científicas, uma patente concedida, dois depósitos de patentes em andamento, oito registros de software e diversos prêmios de reconhecimento científico. Aproximadamente 190 pessoas já trabalharam nos projetos, entre professores, alunos de graduação e pós-graduação, pesquisadores e funcionários.

8.6.2 Metodologia e Tecnologias Empregadas

A metodologia envolve o desenvolvimento de "serious games" — jogos de computador que vão além do entretenimento para cumprir propósitos de treinamento e educação. O processo inicia-se com estudo aprofundado de doutrinas militares, seguido por desenvolvimento de soluções inovadoras em engenharia de software, computação gráfica, realidade virtual, inteligência artificial, interoperabilidade de jogos em rede e modelagem 3D.

O projeto mais recente, iniciado em dezembro de 2024 com aporte superior a R$ 10 milhões e duração de cinco anos, envolve equipe multidisciplinar com seis professores do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação da UFSM, além de um professor da UFRGS. A equipe conta com 15 alunos de iniciação científica, dois bolsistas de mestrado e quatro pesquisadores mestres.

8.6.3 Tríplice Hélice e Formação de Recursos Humanos

A cooperação entre UFSM e Exército exemplifica o conceito da tríplice hélice: a integração entre universidade, governo e indústria para promover inovação e desenvolvimento tecnológico. O General de Brigada Moisés da Paixão Júnior, Gerente do Programa Estratégico ASTROS, ressaltou que os projetos em cooperação com a UFSM são diferenciados, pois os resultados obtidos frequentemente superam as expectativas iniciais.

Santa Maria estabeleceu-se como polo nacional de tecnologia de defesa e simulação militar, abrigando tanto os laboratórios da UFSM quanto importantes instalações militares como o Centro de Instrução de Blindados e o Centro de Adestramento-Sul.

8.6.4 Relevância para a Formação Técnica

O caso UFSM-Exército é particularmente relevante para este estudo por demonstrar como a parceria universidade-Forças Armadas pode formar profissionais altamente qualificados em áreas críticas para a defesa nacional. Os aproximadamente 190 profissionais que já passaram pelos projetos receberam formação prática em tecnologias de ponta que exigem sólida base em matemática, computação, física e engenharia.

O modelo evidencia que estudantes com formação adequada em ciências exatas podem contribuir significativamente para a soberania tecnológica do país. A capacitação proporcionada tem sido um diferencial no mercado de trabalho, com profissionais sendo absorvidos por empresas do setor tecnológico brasileiro e internacional. Como enfatizou o professor Raul Ceretta Nunes, coordenador do projeto, "a equipe efetivamente estabelece uma conexão profícua entre academia, governo e indústria", desenvolvendo "soluções inovadoras de simulação 100% nacional".

Equipes da UFSM e do Exército reunidas no Gabinete do Reitor (dezembro de 2025)

9 LIÇÕES DOS MODELOS DE EXCELÊNCIA

Os casos de sucesso analisados — Colégios Embraer, colégios militares, escolas cívico-militares, escolas públicas nota 10 do Nordeste e interior, escolas particulares de alto nível, parceria Taurus-UNISINOS e parceria UFSM-Exército — revelam padrões comuns que deveriam orientar políticas para a formação de profissionais para a indústria de defesa:

9.1 Rigor Acadêmico sem Concessões

Todas as instituições de sucesso mantêm padrões elevados e não rebaixam expectativas. Avaliações constantes, diagnóstico precoce de dificuldades e intervenção pedagógica efetiva são práticas sistemáticas.

9.2 Gestão por Resultados

O modelo cearense de colaboração estado-município, com metas claras, acompanhamento sistemático e responsabilização, prova que gestão educacional eficiente faz diferença mesmo em contextos de recursos limitados.

9.3 Formação Docente Qualificada

Professores bem preparados em conteúdo e metodologia, bem como qualificação e retenção de bons professores, são condição necessária e fazem a diferença.

9.4 Cultura de Excelência

Escolas que celebram conquistas acadêmicas, mantêm expectativas altas e criam ambiente propício ao estudo produzem resultados superiores, independentemente do contexto socioeconômico.

9.5 Meritocracia e Inclusão não são Excludentes

Os Colégios Embraer reservam 80% das vagas para estudantes de baixa renda da rede pública, mas mantêm processo seletivo rigoroso. Escolas públicas nota 10 do interior do Ceará atendem populações pobres, mas não abrem mão do rigor. Colégios militares e escolas cívi-militares possuem alunos de todas as classes sócio-econômicas. Meritocracia acadêmica bem implementada identifica e desenvolve talentos onde quer que estejam.

9.6 Parcerias Universidade-Indústria-Governo Funcionam

Os modelos Taurus-UNISINOS e UFSM-Exército, com mestrados aplicados, pesquisa conjunta, formação continuada e desenvolvimento de tecnologias nacionais, demonstram que a indústria de defesa e as Forças Armadas podem participar ativamente da formação de seus profissionais, acelerando a inovação e criando ciclos virtuosos de conhecimento. A tríplice hélice (universidade-governo-indústria) se mostra especialmente eficaz na área de defesa.

9.7 Formação Prática em Projetos Reais

A experiência da UFSM mostra que estudantes que participam de projetos reais de desenvolvimento tecnológico para defesa adquirem não apenas conhecimento teórico, mas experiência prática inestimável. Os aproximadamente 190 profissionais formados pelos projetos UFSM-Exército representam massa crítica qualificada que beneficia todo o setor tecnológico nacional.

10 PROPOSTAS DE ENFRENTAMENTO

10.1 Recuperação da Educação Básica em Matemática

Não há atalho. A solução começa na escola fundamental, com professores bem formados, currículos estruturados, avaliações diagnósticas reais e intervenções pedagógicas efetivas. Políticas de fluxo que empurram estudantes adiante sem domínio de conteúdo são incompatíveis com a formação de uma força de trabalho técnica qualificada.

A matemática exige construção sequencial: frações antes de equações, equações antes de funções, funções antes do cálculo. Quando essa escada está quebrada em vários degraus, o estudante tenta subir pulando etapas que nunca foram solidificadas. O resultado é o colapso no ensino superior.

Os casos de sucesso dos colégios militares e da Embraer, das escolas cívico-militares, e das escolas públicas de destaque do Nordeste e do interior mostram que é possível, dentro do Brasil, oferecer educação básica de qualidade em matemática e ciências exatas. O diferencial está no rigor acadêmico, na disciplina, na seleção por mérito, na infraestrutura adequada e no corpo docente qualificado. Esses elementos não são privilégios inatingíveis, mas escolhas institucionais deliberadas.

10.2 Parcerias entre Indústria de Defesa, Forças Armadas e Universidades

Os modelos Taurus-UNISINOS e UFSM-Exército demonstram o caminho: empresas como Embraer Defesa, Avibras, Mac Jee, Akaer e instituições como CTEx, IAE, além do próprio Exército Brasileiro, Marinha e Força Aérea, precisam estabelecer programas estruturados de formação, desde estágios até programas de pós-graduação aplicada. A indústria e as Forças Armadas não podem apenas receber profissionais prontos; precisam participar ativamente de sua formação.

A criação de mestrados e doutorados voltados especificamente para as demandas da indústria de defesa, como fizeram a Taurus em parceria com a UNISINOS e o Exército com a UFSM, permite que colaboradores e estudantes desenvolvam soluções aplicadas a problemas reais enquanto se qualificam academicamente. Esse modelo de educação continuada beneficia simultaneamente o profissional, a instituição e o desenvolvimento tecnológico nacional.

Parcerias para pesquisa e desenvolvimento, como a estabelecida entre Taurus e UCS para aplicação de grafeno em armamentos, ou entre UFSM e Exército para simulação militar, exemplificam como universidades podem se tornar extensões dos centros de pesquisa das empresas e das Forças Armadas, acelerando a inovação e formando pesquisadores altamente especializados.

O investimento de mais de R$ 20 milhões do Exército na UFSM ao longo de uma década demonstra que essas parcerias, quando bem estruturadas, geram retorno significativo em tecnologia nacional, formação de recursos humanos e soberania tecnológica.

10.3 Replicação do Modelo Embraer por Outras Empresas Estratégicas

A experiência dos Colégios Embraer deveria inspirar outras empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). Empresas como Avibras, CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil), Akaer, Mac Jee e EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais) poderiam considerar iniciativas semelhantes, criando escolas técnicas ou estabelecendo parcerias com instituições de ensino médio para garantir um fluxo constante de estudantes com formação sólida em ciências exatas.

O investimento é significativo, mas o retorno em longo prazo compensa: profissionais formados desde cedo dentro da cultura da empresa, com lealdade institucional, domínio técnico adequado e compreensão das especificidades da indústria de defesa. A taxa de 84% de aprovação em universidades de primeira linha dos egressos dos colégios Embraer comprova a viabilidade do modelo.

10.4 Ampliação e Fortalecimento do Sistema de Colégios Militares e de Escolas Cívico-Militares

O desempenho excepcional dos colégios militares e de escolas cívico-militares em matemática e ciências exatas não é acidental. Resulta de um conjunto de fatores: processo seletivo rigoroso, infraestrutura adequada, corpo docente qualificado, disciplina, rigor acadêmico e acompanhamento constante do rendimento dos estudantes.

O Brasil possui atualmente 15 colégios militares federais e um número crescente de escolas cívico-militares estaduais. A ampliação estratégica desse sistema, especialmente em regiões onde se concentram empresas e instituições de defesa (Vale do Paraíba em São Paulo, região metropolitana do Rio de Janeiro, sul do país, eixo Brasília-Goiânia), poderia criar verdadeiros polos de formação de futuros engenheiros e técnicos para a indústria de defesa. A região de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, não é citada, pois já dispõe de duas dessas escolas: Colégio Militar de Santa Maria e Colégio Tiradentes da Brigada Militar.

Dados da OBMEP 2024 e 2025 mostram que os colégios militares conquistaram mais de 400 medalhas em cada edição, demonstrando não apenas competência, mas excelência sistemática no ensino de matemática. Essa excelência se traduz em vantagens competitivas reais: egressos que ingressam no IME, ITA, Politécnica da USP, Unicamp e outras instituições de engenharia de primeira linha.

Importante destacar que 80% das vagas dos colégios Embraer são destinadas a estudantes de baixa renda vindos da rede pública, desmistificando a ideia de que educação de excelência em ciências exatas seria privilégio exclusivo de classes mais favorecidas. O modelo dos colégios militares também aceita estudantes independentemente da renda familiar, mediante processo seletivo por mérito.

A questão central não é elitização, mas meritocracia acadêmica combinada com investimento adequado. Países como Coreia do Sul e Cingapura universalizaram educação de qualidade em ciências exatas mantendo padrões rigorosíssimos. O Brasil pode e deve fazer o mesmo. O Ceará, Alagoas e Pernambuco, com suas escolas públicas nota 10 localizadas em municípios pequenos e do interior, provam que isso é possível dentro do contexto brasileiro.

10.5 Currículos de Engenharia com Foco em Defesa

Algumas universidades brasileiras poderiam desenvolver currículos específicos voltados para a indústria de defesa, com ênfases em áreas críticas: aeroespacial militar, sistemas embarcados de defesa, cibersegurança aplicada, propulsão avançada, balística computacional, simulação militar. Isso já existe em países como Estados Unidos, França e Rússia.

A parceria Taurus-UNISINOS criou, dentro do curso de Engenharia de Produção, a disciplina "Sistema Taurus de Produção", permitindo que futuros engenheiros adquiram conhecimento tecnológico específico da produção de armas. A UFSM desenvolve expertise singular em simulação militar e "serious games" aplicados à defesa. Esses modelos poderiam ser replicados por outras universidades, criando disciplinas, habilitações ou até cursos inteiros voltados para as especificidades da indústria de defesa.

10.6 Expansão de Programas de Iniciação Científica em Projetos de Defesa

O modelo da UFSM, com 15 alunos de iniciação científica trabalhando em projetos reais de simulação militar, deveria ser ampliado para outras universidades e áreas da defesa. Estudantes de graduação que participam de projetos aplicados desenvolvem não apenas conhecimento técnico, mas compreensão das necessidades estratégicas nacionais e experiência prática inestimável.

Programas estruturados de iniciação científica em parceria com empresas da BIDS e com as Forças Armadas poderiam identificar e formar talentos desde cedo, criando um pipeline de profissionais qualificados para a indústria de defesa.

10.7 Investimento em Centros de Excelência

O Brasil precisa de centros de pesquisa em defesa que sejam, simultaneamente, ambientes de formação de alto nível. O modelo do Lincoln Laboratory (MIT), do DARPA nos EUA ou do Technion em Israel mostra que é possível integrar pesquisa de ponta, formação de recursos humanos e desenvolvimento tecnológico aplicado.

O Centro de Tecnologia da UFSM, com sua experiência em simulação militar, representa um embrião desse tipo de centro de excelência. Santa Maria já se consolidou como polo de tecnologia de defesa. Outros polos poderiam ser desenvolvidos em regiões estratégicas, concentrando expertise, recursos e talentos.

10.8 Programas de Bolsas e Retenção de Talentos

Engenheiros e cientistas altamente qualificados são disputados globalmente. O Brasil precisa criar condições para que os melhores talentos permaneçam no país e atuem na indústria de defesa nacional. Isso inclui bolsas robustas durante a formação, salários competitivos após a graduação e ambientes de trabalho estimulantes tecnicamente.

O caso da UFSM indica que profissionais formados em projetos de defesa podem ser rapidamente absorvidos pelo mercado, inclusive internacional. Programas de retenção de talentos, com carreiras atrativas nas Forças Armadas, em empresas da BIDS e em centros de pesquisa, são essenciais para manter no país a massa crítica de profissionais qualificados.

11 CONSIDERAÇÕES FINAIS: O SILÊNCIO QUE COMPROMETE A SOBERANIA

As lacunas matemáticas que chegam silenciosamente à universidade brasileira representam, para a indústria de defesa, um problema estrutural. Esse silêncio é ensurdecedor. Ele representa a impossibilidade de formar, em quantidade e qualidade suficientes, os engenheiros, físicos, matemáticos e técnicos necessários para sustentar uma indústria de defesa competitiva e autônoma.

Enquanto outros países tratam a educação em ciências exatas como questão de segurança nacional, o Brasil segue improvisando, remendando e celebrando acessos sem profundidade. O resultado não aparece nos índices de matrícula, mas nas limitações de projetos, nos atrasos tecnológicos, na dependência externa e, em última instância, na fragilidade estratégica.

O drama não é apenas pedagógico. É econômico e civilizatório. Um país que forma engenheiros sem álgebra sólida, professores sem domínio conceitual e profissionais que operam fórmulas sem compreendê-las compromete sua própria capacidade de inovação, produtividade e autonomia tecnológica.

Mas este estudo também revela uma verdade fundamental: o Brasil sabe fazer educação de qualidade em ciências exatas. Os colégios Embraer formam engenheiros de excelência. Os colégios militares conquistam centenas de medalhas na OBMEP. Escolas públicas do interior do Ceará, Alagoas e Pernambuco alcançam nota 10 no IDEB. Escolas particulares brasileiras têm desempenho no PISA comparável aos melhores países europeus. A parceria Taurus-UNISINOS mostra que universidade e indústria podem formar profissionais altamente qualificados juntas. A parceria UFSM-Exército demonstra que é possível desenvolver tecnologia 100% nacional de ponta e, simultaneamente, formar a massa crítica de profissionais que o país necessita.

O problema não é falta de conhecimento sobre como fazer, mas falta de vontade política de universalizar o que já funciona. Enquanto ilhas de excelência prosperam, o sistema como um todo naufraga, empurrando milhões de estudantes adiante sem domínio real do conteúdo. É uma escolha, consciente ou não, de manter dois Brasis educacionais: um que forma para a excelência, outro que aprova para o fluxo.

Para a indústria de defesa, essa dualidade é insustentável. Não é possível construir soberania tecnológica e autonomia estratégica com uma base educacional fraturada. Submarinos nucleares, aeronaves de combate, sistemas de mísseis, guerra eletrônica, cibersegurança e simulação militar exigem massa crítica de profissionais altamente qualificados. Ilhas de excelência não bastam; é preciso um arquipélago, depois um continente.

Em matemática não se pode fingir que aprendeu. E uma indústria de defesa não funciona com profissionais que apenas fingiram dominar as bases técnicas que a sustentam. O Brasil precisa escolher: continuar expandindo sem consolidar, mantendo a dualidade que condena a maioria ao fracasso, ou replicar nacionalmente o que já funciona em suas ilhas de excelência.

O modelo existe. As evidências estão à vista. A tecnologia pedagógica está dominada. Os casos de sucesso estão documentados e operando. Falta apenas a decisão política de tratá-los como prioridade estratégica nacional — não apenas educacional, mas de segurança, soberania e desenvolvimento.

O tempo dessa escolha, porém, está se esgotando. Cada leva de estudantes que passa pelo sistema sem dominar matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e técnicos que o país não terá. E sem eles, a indústria de defesa brasileira permanecerá eternamente aquém de seu potencial. O caminho a ser seguido está mostrado. Resta ao Brasil a decisão de trilhá-lo em escala nacional.

Postagem em destaque