Ministro da Defesa visitou o KC-390 em Farnborough e definiu a aeronave como capaz de preencher "a lacuna que sentimos com muita frequência: capacidade robusta de transporte tático"
*LRCA Defense Consulting - 24/07/2026
O ministro da Defesa da Bélgica, Theo Francken, visitou o estande da Embraer durante o Farnborough International Airshow 2026 e conheceu de perto o KC-390 Millennium. Em publicação na rede social X, descreveu o encontro com a fabricante brasileira como "uma boa conversa" e definiu a aeronave como uma capaz de preencher "a lacuna que sentimos com muita frequência: capacidade robusta de transporte tático".
A fala, e a lista de operadores europeus que ele citou (Portugal, Países Baixos, Áustria, Suécia e República Tcheca), foram registradas por portais nacionais e internacionais como mais um encontro de vitrine do salão britânico. Um exame do quadro real da frota belga sugere que há mais substância na declaração do que aparenta.
Uma frota
reduzida a uma única aeronave
A Força Aérea Belga operou o Lockheed C-130H Hercules entre 1971 e 2021,
quando o modelo foi retirado de serviço e substituído pelo Airbus A400M Atlas,
frota de oito unidades compartilhada com Luxemburgo desde 2020, no âmbito do
programa multinacional conduzido pela OCCAR. Desde a baixa do Hercules, a
Bélgica não opera nenhuma outra aeronave de asa fixa dedicada a transporte
tático. O A400M, maior e mais caro que o KC-390, foi concebido como plataforma
híbrida entre a capacidade tática e a estratégica, e sua operação exige pistas
mais longas e infraestrutura mais robusta, o que limita seu emprego em cenários
de pouso em pistas curtas ou não preparadas, missão típica do segmento em que o
cargueiro brasileiro compete.
O vazio não se resume, portanto, a uma lacuna pontual de capacidade: é a ausência completa de uma segunda opção abaixo do A400M. A própria Airbus já reconheceu publicamente que as duas aeronaves podem se complementar, a depender da demanda de cada país, leitura que reforça a hipótese de que Bruxelas avalia uma solução tática mais leve, e não uma substituição do A400M.
O precedente
esquecido
Há um capítulo pouco lembrado na relação entre a Bélgica e a Embraer.
Entre a década de 2000 e 2020, o transporte VIP do alto escalão do governo
belga foi realizado por jatos regionais ERJ-135 e ERJ-145, também fabricados
pela companhia brasileira, até serem substituídos pelo Dassault Falcon 7X, de
origem francesa. É a única aeronave tripulada não fabricada em país-membro da
OTAN que a Bélgica já operou em toda a sua história. O dado não configura,
isoladamente, qualquer indicação de preferência atual, mas mostra que o
relacionamento entre Bruxelas e a Embraer não começa em Farnborough 2026.
O pano de fundo
europeu
O interesse belga, ainda que informal, se insere em um movimento mais
amplo. Desde 2022, a Agência Europeia de Defesa (EDA) estuda um programa de
transporte tático médio (Future Medium Transport Capability, ou FMTC),
concebido como aeronave complementar e mais leve que o A400M para substituir
frotas envelhecidas de C-130 Hercules, C-27J Spartan e CASA C-295 ainda em
operação na Europa. O KC-390 é hoje o modelo mais associado a esse nicho no
continente.
A lista de operadores europeus citada por Francken cresce por meio de um padrão recorrente: aquisições conjuntas. Países Baixos e Áustria assinaram contrato compartilhado de nove aeronaves em Farnborough 2024, cinco para os holandeses e quatro para os austríacos, dentro do projeto "Replacement of Tactical Airlift Capacity". A Suécia aderiu ao mesmo acordo-guarda-chuva em 2025, garantindo entrega mais rápida e custo menor por operar como parte de um lote já em produção.
Em Farnborough 2026, a Embraer ainda anunciou pacotes de treinamento e simuladores para Suécia e Áustria, e a República Tcheca recebeu sua primeira aeronave, batizada "Karel Toman-Mareš" durante o salão. Esse modelo de adesão a um contrato-guarda-chuva já existente reduz o custo político e orçamentário de uma eventual entrada belga no programa, caso a sinalização de Francken avance.
Da cortesia ao
contrato: como ler o sinal
Declarações de ministros da Defesa em salões aeronáuticos nem sempre
evoluem para contratos, e o histórico recente do próprio programa KC-390
oferece parâmetro para essa leitura. No caso do Marrocos, o interesse percorreu
um caminho gradual e verificável: aparição em slide institucional da Embraer em
outubro de 2024, Memorando de Entendimento no mesmo mês, empréstimo de uma
aeronave para avaliação em 2025, até chegar a negociações reportadas em estágio
avançado. No caso belga, até o fechamento desta matéria, não há registro de
memorando, pedido formal de proposta (RFP) ou dotação orçamentária associada ao
KC-390. Há apenas a visita ao estande, a fala pública e o quadro estrutural de
frota que a sustenta.
Se a sinalização avançar, o caminho mais provável para a Bélgica não é um processo competitivo isolado, mas a adesão ao contrato-guarda-chuva já em vigor entre Países Baixos, Áustria e Suécia, replicando o modelo que tem sustentado a expansão do KC-390 na Europa desde 2023.


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