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22 agosto, 2026

Eve, da Embraer, deixa de discutir "se vai dar certo" e foca em "quando e quanto", diz CEO

Fabricação do "táxi voador" em Taubaté avança com carteira de US$ 13,5 bilhões e caixa de US$ 531 milhões



*LRCA Defense Consulting - 21/08/2026

A Eve Air Mobility, empresa de mobilidade aérea urbana controlada pela Embraer, começa a colocar em prática seu plano de fabricação do eVTOL apelidado de “táxi voador”. Segundo o CEO da companhia, o francês naturalizado brasileiro Johann Bordais, em entrevista ao portal Broadcast publicada em 21 de agosto de 2026, a empresa não tem mais dúvidas de que o veículo é viável, tanto como produto de engenharia quanto como modelo de negócio, e avança agora para a etapa de produção em série, com o objetivo de atender a uma carteira de pedidos que já soma US$ 13,5 bilhões.

A força da controladora Embraer foi apontada por Bordais como diferencial para reduzir o risco de a Eve seguir o caminho de concorrentes mundo afora que ficaram sem recursos à espera de dois desafios ainda incertos no setor: a segurança do produto em voo e a certificação. Com os engenheiros e recursos da empresa-mãe, somados ao apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Eve diz ter caixa para aguardar a certificação, prevista para 2028, sem pressa.

O eVTOL (aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical) da Eve lembra um grande drone e decola como um helicóptero, na vertical, para depois voar como um avião, na horizontal. Entre suas vantagens, segundo a empresa, está o custo operacional, 25% mais baixo do que o de um helicóptero, além da ausência de ruído por ser elétrico. Cada aeronave deve custar em torno de US$ 5 milhões.

Fábrica em Taubaté 
Uma unidade de apoio fabril da Embraer, localizada em Taubaté, no interior de São Paulo, deve começar a dar lugar, nos próximos meses, à primeira linha de produção do veículo. O projeto executivo, orçado em US$ 88 milhões, já está pronto e passa agora pela fase de validação. Segundo Bordais, o plano prevê, inicialmente, um módulo de produção com capacidade para até 120 aeronaves por ano; o local poderá abrigar até quatro módulos, elevando a capacidade máxima a 480 unidades anuais. “Não sabemos o quão rápido vamos chegar nesse patamar. Vai depender da demanda”, afirmou o executivo.

O cronograma da empresa prevê o primeiro voo com piloto humano no segundo semestre de 2027 e a certificação completa da aeronave pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela Federal Aviation Administration (FAA) em 2028. Uma vez certificada, a primeira entrega deverá ocorrer no prazo de uma semana e será destinada à empresa brasileira Revo, que detém pedido firme para até 50 unidades, além de contrato de serviços de pós-venda, e será pioneira no uso comercial da aeronave.

Carteira de pedidos 
A Eve possui atualmente uma carteira de aproximadamente 2,7 mil eVTOLs, distribuída entre 28 clientes de dez países, com valor potencial estimado em cerca de US$ 500 milhões em pedidos firmes. Somado o livro de pré-vendas, o valor total sobe para US$ 13,5 bilhões. A previsão de Bordais é a de que o breakeven do negócio, ponto de equilíbrio financeiro, seja alcançado quando o nível de produção atingir de 90 a 100 aeronaves por ano, o que o executivo estima ocorrer entre dois e três anos após a certificação.

Finanças 
A Eve registra queima de caixa anual entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões, mas conta com liquidez de US$ 531 milhões. “Temos caixa suficiente para chegar à certificação. A disciplina de gastos é uma prioridade”, disse Bordais, descartando novas captações no mercado, ao menos no curto prazo.

O executivo lembrou que a empresa teve três principais fontes de financiamento: a própria Embraer, que detém 72% do capital da Eve; o BNDES, com pouco mais de R$ 1 bilhão aportados; e a abertura de capital no exterior, realizada em 2022. A Eve é listada na Bolsa de Nova York, com valor de mercado de cerca de US$ 900 milhões (aproximadamente R$ 4,6 bilhões); como comparação, a própria Embraer vale hoje pouco mais de R$ 70 bilhões na bolsa. A partir da certificação, segundo Bordais, a empresa passa a ser financiada pela receita da venda das aeronaves.

A Eve revê constantemente o processo em busca de sinergias adicionais, tanto com a Embraer quanto com os 22 fornecedores atuais do programa. Entre eles estão a britânica BAE Systems, responsável pelas baterias; a japonesa Nidec Aerospace, fabricante dos motores elétricos; e a americana Beta Technologies, que fornece os sistemas de propulsão.

Bordais rejeitou a hipótese de inviabilidade do projeto e afirmou que a discussão central deixou de ser “se vai dar certo” para se concentrar em “quando e quanto”, condicionada à escala do ecossistema e da infraestrutura de mobilidade aérea urbana. “O eVTOL nasceu da necessidade do cliente. E a Eve tem o mesmo DNA da Embraer, que é uma referência mundial na área de aeronáutica, com know-how de 57 anos, completados nesta semana”, declarou. Atualmente, a Eve conta com 176 funcionários próprios e outras 800 pessoas da Embraer dedicadas integralmente ao desenvolvimento do eVTOL, em regime de prestação de serviços, distribuídas entre as áreas de engenharia, suprimentos, finanças, compliance e pós-venda.

Mercado endereçável 
A Eve projeta que a frota global de táxis voadores possa atingir 30 mil unidades até 2045, volume necessário para atender a uma estimativa de 3 bilhões de passageiros transportados no período, o que geraria receita potencial de US$ 280 bilhões. Os números constam do estudo de perspectivas de mercado global de eVTOLs publicado pela própria companhia, que considerou dados de 1.800 cidades do banco World Urbanization Prospects, das Nações Unidas, informações de cerca de mil aeroportos e mais de 27 mil helicópteros civis atualmente em operação.

A chegada da Eve ao mercado deve ter reflexo positivo também para a Embraer. Em relatório divulgado na semana anterior à reportagem, analistas do Citi destacaram o avanço da companhia no processo regulatório e observaram que pouco ou nada do valor da Eve está refletido na avaliação de mercado da Embraer. Os analistas citaram ainda concorrentes da Eve mais bem avaliadas em bolsa, como as americanas Joby Aviation, com valor de mercado de US$ 7,3 bilhões, e Archer Aviation, avaliada em cerca de US$ 4 bilhões, ambas listadas na Bolsa de Nova York.

Na última teleconferência de resultados da Embraer, o presidente da companhia, Francisco Gomes Neto, destacou que a Eve terá papel fundamental nos planos de longo prazo do grupo. “Estamos muito confiantes com relação à contribuição da Eve com o crescimento da Embraer, principalmente em 2029 e 2030, para complementar a nossa estratégia de crescimento no início da próxima década”, afirmou. Segundo o executivo, a Embraer pretende acompanhar a evolução da demanda antes de decidir sobre eventuais novas unidades de produção do eVTOL.

A fábrica de Taubaté já vinha sendo acompanhada por esta Consultoria desde o anúncio original do sítio industrial, em 2023, passando pela conclusão da fase de voos pairados do protótipo em escala real, em maio de 2026, e pela assinatura do pedido firme da Revo para o Eve 100. Os números de investimento (US$ 88 milhões) e a estrutura modular da planta, com capacidade entre 120 e 480 aeronaves por ano, confirmam o cronograma já sinalizado pela empresa nos últimos meses.

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