Protocolo de intenções, assinado em 3 de agosto e publicado no Diário Oficial da União em 11 de agosto, tem vigência de 36 meses e mira o Anshar, sistema de ataque único já apresentado pela empresa em feiras internacionais
*LRCA Defense Consulting - 13/08/2026
A Mac Jee Indústria de Defesa e sua subsidiária Equipaer Indústria Aeronáutica assinaram um protocolo de intenções com o Comando da Aeronáutica (COMAER) voltado ao desenvolvimento de drones kamikaze no País. O documento foi assinado em 3 de agosto e publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 11 de agosto, formalizando um vínculo que já vinha se desenhando entre a empresa e a Força Aérea Brasileira (FAB) ao longo dos últimos meses.
O que diz o protocolo
Segundo o texto publicado no DOU, o objetivo do acordo é estimular e coordenar os esforços necessários para o desenvolvimento de capacidades relacionadas ao emprego de Sistemas Aéreos Autônomos de Ataque Único, categoria na qual se enquadram os chamados drones kamikaze, voltados ao cumprimento de missões de interdição. O protocolo também prevê a cooperação institucional entre a Mac Jee, a Equipaer e o COMAER para a comunicação pública conjunta das iniciativas das duas empresas, além do planejamento de futuras ações de cooperação técnica, industrial e institucional alinhadas aos interesses estratégicos da Aeronáutica.
A assinatura coube ao tenente brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, comandante da Aeronáutica, e à empresária Alessandra Batista Stefani, diretora executiva da Mac Jee e sócia administradora da Equipaer. O prazo de vigência é de 36 meses, com possibilidade de prorrogação, período em que a empresa deverá evoluir seus projetos de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) já em desenvolvimento, além de dar origem a novos programas.
O Anshar, principal candidato do portfólio
Embora o protocolo não cite nominalmente nenhum produto, o principal ativo da Mac Jee no segmento é o Anshar, drone kamikaze cujo protótipo foi apresentado publicamente pela primeira vez em novembro de 2023, durante a Dubai Airshow. O nome faz referência ao deus do horizonte celeste na mitologia babilônica.
Nas especificações divulgadas pela empresa em 2023, o Anshar teria peso máximo de decolagem de 160 kg, carga útil (payload) de 20 kg e peso de combustível de 46 kg, com velocidade máxima de 170 m/s (612 km/h), altitude mínima de 10 metros em voo sea skimming e máxima de 8 mil metros. Já o alcance variou conforme a fonte consultada à época: parte da imprensa especializada registrou 100 km, enquanto outra parte, citando material da própria empresa, mencionou até 180 km.
Uma maquete em tamanho real do sistema voltou a ser exibida na LAAD Defence Security de 2025, no Riocentro. Segundo cobertura pós-evento do site Assuntos Militares, o Anshar poderia atingir cerca de 600 km/h, com alcance de até 120 km e ogiva de 20 kg de explosivo, número que se aproxima do citado mais recentemente em análises do setor sobre a evolução do projeto.
Uma aproximação que já vinha se consolidando
O protocolo de agosto não é o primeiro elo formal entre a Mac Jee e o Comando da Aeronáutica. Em 12 de junho, durante o 1º Encontro de Inovação Aeroespacial (INOVAERO), realizado na Base Aérea de Salvador, o COMAER já havia assinado protocolos de intenções com um grupo de empresas da Base Industrial de Defesa (BID), entre elas a própria Mac Jee, a BRVANT, a Helisul Engenharia, a OBL e a Taurus Armas. O evento teve como um dos destaques uma munição de espera (vagante ou kamikaze) em testes a bordo do Embraer C-390 Millennium.
A empresa também mantém outras frentes de cooperação com instituições ligadas ao COMAER, como o acordo de fevereiro de 2026 com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para o desenvolvimento do RATO-14X, foguete acelerador do veículo hipersônico 14-X, e recebeu em 1º de julho uma visita do Alto Comando da FAB às suas instalações em São José dos Campos. Até aquele momento, contudo, o Anshar seguia sem contrato público confirmado com a Força Aérea.
Contexto: a corrida por drones de ataque único na indústria nacional
A movimentação da Mac Jee se insere em um esforço mais amplo do COMAER para fomentar essa categoria de sistemas na indústria nacional. Em fevereiro de 2026, a Stella Tecnologia já havia assinado protocolo semelhante com a Aeronáutica, também com foco no desenvolvimento de sistemas remotamente pilotados de ataque único, priorizando soluções de propulsão nacionais. Outras frentes correlatas do próprio portfólio da Mac Jee incluem a munição suicida de asa fixa LM-1 Defensor, desenvolvida em parceria com a AERO.ID e voltada à combinação com o drone de vigilância MQ-25 PTROS.
O movimento também dialoga com o que já ocorre em outras Forças: a Marinha do Brasil incorporou drones kamikaze e ativou esquadrão especializado no início de 2026, evidenciando que a munição de ataque único deixou de ser tema apenas de vitrine em feiras para se tornar prioridade declarada nos planejamentos de médio prazo das Forças Armadas.
Próximos passos
Com o protocolo assinado, a expectativa é que Mac Jee e Equipaer avancem nos estudos técnicos que poderão embasar, ao longo dos 36 meses de vigência, uma futura contratação do Anshar ou de outro sistema de ataque único pela FAB. Até o fechamento desta matéria, não havia cronograma público de testes operacionais ou de qualificação divulgado pelas partes.

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