Dois consórcios portugueses avançam em paralelo no desenvolvimento de materiais à base de grafeno para reduzir a assinatura de radar de aeronaves e drones, um deles já com ensaio programado num drone militar real, enquanto o Brasil mantém programa próprio de material absorvedor de radar desde 1998 e já é pioneiro mundial em grafeno aplicado a armamento leve
*LRCA Defense Consulting - 04/08/2026
O desenvolvimento de materiais à base de grafeno para aplicações stealth em Portugal avançou de fase desde a primeira divulgação pública, em junho de 2026. Novas informações mostram que o país conta com dois projetos distintos e paralelos voltados à absorção de radar, um deles já com financiamento da NATO e ensaio programado num drone militar real da Força Aérea Portuguesa. Reportagem do Diário de Notícias, publicada em 21 de julho de 2026, e outra do portal Tek Notícias, de 22 de junho de 2026, detalham o alcance dessas iniciativas, que se somam à reportagem original da Euronews, de 30 de junho de 2026.
Do reator de plasma ao projeto
Aegis, com apoio da NATO
O projeto mais divulgado é
conduzido pela GTechPlasma, spin-off do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear
(IPFN) do Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa. Segundo o Diário de
Notícias, a tecnologia nasceu de forma quase acidental em 2013, quando a física
búlgara Elena Tatarova, então dedicada a pesquisas sobre degradação de
biomassa, identificou um depósito de carbono em um reator de plasma e passou a
investigar a hipótese de tratar-se de grafeno. A partir daí, a equipe do IPFN,
que reúne físicos de fusão nuclear, especialistas em plasmas e engenheiros de
micro-ondas, desenvolveu um processo contínuo e de etapa única para produzir
grafeno puro, sem os processos químicos poluentes usados pela concorrência
internacional.
O salto de escala ocorreu com o projeto Pegasus, financiado pelo Conselho Europeu de Inovação no âmbito do programa Horizonte 2020, com aporte de quatro milhões de euros, que permitiu construir uma nova máquina e multiplicar a produção em 400 vezes, além de submeter as primeiras patentes, hoje registradas nos Estados Unidos, no Japão e na Europa. Mais recentemente, a pesquisa migrou para o campo da defesa com o projeto Aegis, sigla em inglês para escudos eletromagnéticos avançados baseados em grafeno por meio de síntese induzida por plasma, financiado pela própria NATO. Segundo a reportagem, o material consegue absorver entre 60% e 90% da radiação eletromagnética incidente, a depender da frequência, funcionando como uma espécie de capa de invisibilidade eletromagnética para aeronaves, satélites, drones e infraestrutura militar crítica.
Força Aérea Portuguesa vai
testar o material em drone real
Ainda de acordo com o Diário de
Notícias, Bruno Soares Gonçalves e Elena Tatarova, cofundadores da GTechPlasma,
tiveram aprovado um projeto exploratório pela Fundação para a Ciência e a
Tecnologia (FCT), em parceria direta com as Forças Armadas portuguesas,
especificamente com a Força Aérea Portuguesa. O objetivo declarado é testar a
aplicação prática do grafeno em um drone militar real. Os ensaios ocorrerão em
Alverca, em câmaras anecóicas (salas blindadas desenhadas para anular ecos
eletromagnéticos) que estão sendo construídas no depósito da Força Aérea.
Paralelamente, o laboratório já forneceu 260 gramas do material a um fabricante
nacional de aeronaves não tripuladas, ainda não identificado publicamente.
Segundo consórcio: projeto
Astral mira absorção de banda larga
A iniciativa da GTechPlasma não
é a única em curso no país. Segundo reportagem do Tek Notícias, um consórcio
distinto, liderado pela empresa Controlar, sediada em Alfena, no Porto, com
mais de 30 anos de experiência em sistemas de teste eletrônico, robótica e
automação, iniciou em junho de 2026 o projeto Astral. A iniciativa reúne ainda
a Graphenest, sediada em Sever do Vouga e apontada como a única empresa
portuguesa com capacidade industrial de produção de grafeno, detentora de
patentes nos Estados Unidos e no Canadá e parceira de companhias como
Mitsubishi e Valeo; o PIEP, Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros,
responsável pelo desenvolvimento e produção das folhas; e a Universidade de
Aveiro, que contribui com pesquisa em materiais magnéticos.
O material do projeto Astral é um filme ultrafino e flexível, aplicado em múltiplas camadas, combinando grafeno com partículas magnéticas, com capacidade de absorção de banda larga entre 2 e 110 gigahertz. Segundo o Tek Notícias, a tecnologia visa substituir as volumosas espumas piramidais usadas em câmaras anecóicas e tem como alvo três setores estratégicos: a indústria automóvel, para calibração de radares de sistemas de condução assistida a 77 gigahertz, usados por fabricantes como Bosch, Visteon, Continental, Aptiv e Borgwarner; as telecomunicações, para blindagem eletromagnética de redes 5G; e o setor aeroespacial e de defesa, no qual o material é apontado como capaz de reduzir a detecção de drones e aeronaves por radar sem o peso e a rigidez dos revestimentos furtivos tradicionais. A reportagem informa ainda que a própria Força Aérea Portuguesa pretende participar dos ensaios finais do projeto, com foco em veículos aéreos não tripulados de perfil furtivo.
O projeto Astral recebe financiamento de 1,86 milhão de euros ao abrigo do programa Portugal 2030, com execução prevista entre junho de 2026 e maio de 2029, e prevê o registro de ao menos uma patente internacional. Segundo Bruno Figueiredo, Co-CEO da Graphenest, citado pelo Tek Notícias, a iniciativa representa passo relevante para a autonomia tecnológica europeia em um campo até então dominado pelos Estados Unidos.
Da bancada de laboratório à
fábrica no Alentejo
O laboratório do IPFN, que
inicialmente produzia 0,1 miligrama de grafeno por minuto, chegou aos atuais 40
miligramas por minuto. Para escalar a produção, a GTechPlasma conta com a
parceria da Plasmaphene, que prepara um investimento de 7,5 milhões de euros
para construir uma fábrica em Vila Viçosa, no Alentejo, com 30 reatores de
micro-ondas funcionando em paralelo. Segundo as contas apresentadas pelo Diário
de Notícias, cada reator deve produzir cerca de 50 gramas de material a cada 24
horas de operação contínua, o que resultaria em capacidade de colocar no
mercado 1,5 quilograma de grafeno de alta pureza por dia.
Brasil também pesquisa material
absorvedor de radar desde 1998
O avanço português reacende a
comparação com o histórico brasileiro na área. Embora não utilize grafeno, o
Brasil mantém, desde 1998, um programa de pesquisa em materiais absorvedores de
radiação eletromagnética conduzido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço
(IAE), em São José dos Campos, batizado internamente de MARE. Segundo
informação divulgada pela própria Força Aérea Brasileira, o instituto obteve,
em janeiro de 2016, carta patente para um processo de pintura furtiva capaz de
converter a energia eletromagnética emitida por radares inimigos em energia
térmica, dificultando a identificação da aeronave. O projeto, liderado pela
pesquisadora Mirabel Cerqueira Rezende, envolveu cerca de 30 profissionais ao
longo de quase duas décadas. Pesquisas complementares em blindagem
eletromagnética também são conduzidas pelo Instituto de Pesquisas da Marinha
(IPqM), no Rio de Janeiro, em intercâmbio com a Universidade Federal do Rio de
Janeiro na área de engenharia de materiais.
O País, portanto, já dispõe de know-how institucional consolidado em material absorvedor de radar, ainda que não haja, até o momento, indício público de que esse programa tenha incorporado o grafeno à sua formulação, como fazem os projetos portugueses. Isso sugere um caminho de eventual convergência tecnológica, caso institutos brasileiros optem por integrar o material às pesquisas já existentes na Aeronáutica e na Marinha.
Brasil já é pioneiro mundial em
armamento leve com grafeno
Em outra frente, a indústria
brasileira de defesa já é pioneira mundial no uso do grafeno, ainda que em
campo distinto: o armamento leve. Desde 2021, a Taurus Armas mantém convênio
com a Universidade de Caxias do Sul (UCS) e sua planta industrial UCSGraphene,
considerada a maior produtora de grafeno da América Latina. Em julho de 2022, a
empresa lançou a pistola GX4 Graphene, apresentada como a primeira arma de fogo
do mundo com grafeno incorporado a componentes injetados e ao revestimento das
peças metálicas, por meio da tecnologia Cerakote Graphene. A Taurus também
lançou o primeiro capacete automobilístico com grafeno do mundo, pela
controlada Taurus Helmets, e incorporou o material à pistola TX9, lançada no
início de 2026 para o mercado americano de aplicação da lei.
A aposta brasileira no grafeno é reforçada por um fator geológico: o Brasil detém a maior reserva mundial de grafite, matéria-prima do grafeno, condição já apontada publicamente pela própria Taurus como vantagem competitiva para o desenvolvimento de novas tecnologias no País.
Grafeno não é solução stealth
isolada, alertam especialistas
Análise publicada pelo portal
português ECO pondera que o grafeno não deve ser tratado como solução stealth
completa por si só, já que a redução de assinatura depende também da geometria
da aeronave e de sistemas de guerra eletrônica, e a eficácia de revestimentos
absorvedores tende a variar conforme a frequência do radar utilizado pelo
adversário. O avanço de radares quânticos e de sistemas de deteção mais
sofisticados é citado como fator que pode reduzir, no longo prazo, a vantagem
obtida com esse tipo de material. No próprio depoimento ao Diário de Notícias,
Bruno Soares Gonçalves reconhece a distância entre o tempo da ciência e o tempo
do mercado, lamentando a falta de cultura de risco das empresas portuguesas
para investir em tecnologia de fronteira antes de o produto estar pronto para
entrega.
O quadro que emerge é o de uma disputa tecnológica em estágio ainda inicial, mas em aceleração: dois projetos portugueses avançam simultaneamente rumo a testes com forças armadas reais, com financiamento europeu e da própria NATO, ao passo que o Brasil combina um programa histórico de material absorvedor de radar na Aeronáutica com liderança mundial em grafeno aplicado a armamento leve. A convergência dessas duas frentes brasileiras, caso venha a ocorrer, poderia posicionar o País de forma mais competitiva também no campo dos materiais furtivos para plataformas aéreas.

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