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04 agosto, 2026

Portugal amplia aposta em grafeno stealth com apoio da NATO e teste real na Força Aérea

Dois consórcios portugueses avançam em paralelo no desenvolvimento de materiais à base de grafeno para reduzir a assinatura de radar de aeronaves e drones, um deles já com ensaio programado num drone militar real, enquanto o Brasil mantém programa próprio de material absorvedor de radar desde 1998 e já é pioneiro mundial em grafeno aplicado a armamento leve

Equipe de investigação do projeto do grafeno (esq. para a dir.) Miguel Martins, Afonso Fresco, Bruno Soares Gonçalves, Edgar Felizardo, Ana Dias e Pedro Nobre seguram a Patente da sua produção de grafeno. Soares Gonçalves, Edgar Felizardo e Ana Dias são os cofundadores da GTechPlasma; demais são alunos de mestrado / estagiários (Fonte: Instituto Superior Técnico)

*LRCA Defense Consulting - 04/08/2026

O desenvolvimento de materiais à base de grafeno para aplicações stealth em Portugal avançou de fase desde a primeira divulgação pública, em junho de 2026. Novas informações mostram que o país conta com dois projetos distintos e paralelos voltados à absorção de radar, um deles já com financiamento da NATO e ensaio programado num drone militar real da Força Aérea Portuguesa. Reportagem do Diário de Notícias, publicada em 21 de julho de 2026, e outra do portal Tek Notícias, de 22 de junho de 2026, detalham o alcance dessas iniciativas, que se somam à reportagem original da Euronews, de 30 de junho de 2026.

Do reator de plasma ao projeto Aegis, com apoio da NATO
O projeto mais divulgado é conduzido pela GTechPlasma, spin-off do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN) do Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa. Segundo o Diário de Notícias, a tecnologia nasceu de forma quase acidental em 2013, quando a física búlgara Elena Tatarova, então dedicada a pesquisas sobre degradação de biomassa, identificou um depósito de carbono em um reator de plasma e passou a investigar a hipótese de tratar-se de grafeno. A partir daí, a equipe do IPFN, que reúne físicos de fusão nuclear, especialistas em plasmas e engenheiros de micro-ondas, desenvolveu um processo contínuo e de etapa única para produzir grafeno puro, sem os processos químicos poluentes usados pela concorrência internacional.

O salto de escala ocorreu com o projeto Pegasus, financiado pelo Conselho Europeu de Inovação no âmbito do programa Horizonte 2020, com aporte de quatro milhões de euros, que permitiu construir uma nova máquina e multiplicar a produção em 400 vezes, além de submeter as primeiras patentes, hoje registradas nos Estados Unidos, no Japão e na Europa. Mais recentemente, a pesquisa migrou para o campo da defesa com o projeto Aegis, sigla em inglês para escudos eletromagnéticos avançados baseados em grafeno por meio de síntese induzida por plasma, financiado pela própria NATO. Segundo a reportagem, o material consegue absorver entre 60% e 90% da radiação eletromagnética incidente, a depender da frequência, funcionando como uma espécie de capa de invisibilidade eletromagnética para aeronaves, satélites, drones e infraestrutura militar crítica.

Força Aérea Portuguesa vai testar o material em drone real
Ainda de acordo com o Diário de Notícias, Bruno Soares Gonçalves e Elena Tatarova, cofundadores da GTechPlasma, tiveram aprovado um projeto exploratório pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), em parceria direta com as Forças Armadas portuguesas, especificamente com a Força Aérea Portuguesa. O objetivo declarado é testar a aplicação prática do grafeno em um drone militar real. Os ensaios ocorrerão em Alverca, em câmaras anecóicas (salas blindadas desenhadas para anular ecos eletromagnéticos) que estão sendo construídas no depósito da Força Aérea. Paralelamente, o laboratório já forneceu 260 gramas do material a um fabricante nacional de aeronaves não tripuladas, ainda não identificado publicamente.

Segundo consórcio: projeto Astral mira absorção de banda larga
A iniciativa da GTechPlasma não é a única em curso no país. Segundo reportagem do Tek Notícias, um consórcio distinto, liderado pela empresa Controlar, sediada em Alfena, no Porto, com mais de 30 anos de experiência em sistemas de teste eletrônico, robótica e automação, iniciou em junho de 2026 o projeto Astral. A iniciativa reúne ainda a Graphenest, sediada em Sever do Vouga e apontada como a única empresa portuguesa com capacidade industrial de produção de grafeno, detentora de patentes nos Estados Unidos e no Canadá e parceira de companhias como Mitsubishi e Valeo; o PIEP, Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros, responsável pelo desenvolvimento e produção das folhas; e a Universidade de Aveiro, que contribui com pesquisa em materiais magnéticos.

O material do projeto Astral é um filme ultrafino e flexível, aplicado em múltiplas camadas, combinando grafeno com partículas magnéticas, com capacidade de absorção de banda larga entre 2 e 110 gigahertz. Segundo o Tek Notícias, a tecnologia visa substituir as volumosas espumas piramidais usadas em câmaras anecóicas e tem como alvo três setores estratégicos: a indústria automóvel, para calibração de radares de sistemas de condução assistida a 77 gigahertz, usados por fabricantes como Bosch, Visteon, Continental, Aptiv e Borgwarner; as telecomunicações, para blindagem eletromagnética de redes 5G; e o setor aeroespacial e de defesa, no qual o material é apontado como capaz de reduzir a detecção de drones e aeronaves por radar sem o peso e a rigidez dos revestimentos furtivos tradicionais. A reportagem informa ainda que a própria Força Aérea Portuguesa pretende participar dos ensaios finais do projeto, com foco em veículos aéreos não tripulados de perfil furtivo.

O projeto Astral recebe financiamento de 1,86 milhão de euros ao abrigo do programa Portugal 2030, com execução prevista entre junho de 2026 e maio de 2029, e prevê o registro de ao menos uma patente internacional. Segundo Bruno Figueiredo, Co-CEO da Graphenest, citado pelo Tek Notícias, a iniciativa representa passo relevante para a autonomia tecnológica europeia em um campo até então dominado pelos Estados Unidos.

Da bancada de laboratório à fábrica no Alentejo
O laboratório do IPFN, que inicialmente produzia 0,1 miligrama de grafeno por minuto, chegou aos atuais 40 miligramas por minuto. Para escalar a produção, a GTechPlasma conta com a parceria da Plasmaphene, que prepara um investimento de 7,5 milhões de euros para construir uma fábrica em Vila Viçosa, no Alentejo, com 30 reatores de micro-ondas funcionando em paralelo. Segundo as contas apresentadas pelo Diário de Notícias, cada reator deve produzir cerca de 50 gramas de material a cada 24 horas de operação contínua, o que resultaria em capacidade de colocar no mercado 1,5 quilograma de grafeno de alta pureza por dia.

Brasil também pesquisa material absorvedor de radar desde 1998
O avanço português reacende a comparação com o histórico brasileiro na área. Embora não utilize grafeno, o Brasil mantém, desde 1998, um programa de pesquisa em materiais absorvedores de radiação eletromagnética conduzido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em São José dos Campos, batizado internamente de MARE. Segundo informação divulgada pela própria Força Aérea Brasileira, o instituto obteve, em janeiro de 2016, carta patente para um processo de pintura furtiva capaz de converter a energia eletromagnética emitida por radares inimigos em energia térmica, dificultando a identificação da aeronave. O projeto, liderado pela pesquisadora Mirabel Cerqueira Rezende, envolveu cerca de 30 profissionais ao longo de quase duas décadas. Pesquisas complementares em blindagem eletromagnética também são conduzidas pelo Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM), no Rio de Janeiro, em intercâmbio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro na área de engenharia de materiais.

O País, portanto, já dispõe de know-how institucional consolidado em material absorvedor de radar, ainda que não haja, até o momento, indício público de que esse programa tenha incorporado o grafeno à sua formulação, como fazem os projetos portugueses. Isso sugere um caminho de eventual convergência tecnológica, caso institutos brasileiros optem por integrar o material às pesquisas já existentes na Aeronáutica e na Marinha.

Brasil já é pioneiro mundial em armamento leve com grafeno
Em outra frente, a indústria brasileira de defesa já é pioneira mundial no uso do grafeno, ainda que em campo distinto: o armamento leve. Desde 2021, a Taurus Armas mantém convênio com a Universidade de Caxias do Sul (UCS) e sua planta industrial UCSGraphene, considerada a maior produtora de grafeno da América Latina. Em julho de 2022, a empresa lançou a pistola GX4 Graphene, apresentada como a primeira arma de fogo do mundo com grafeno incorporado a componentes injetados e ao revestimento das peças metálicas, por meio da tecnologia Cerakote Graphene. A Taurus também lançou o primeiro capacete automobilístico com grafeno do mundo, pela controlada Taurus Helmets, e incorporou o material à pistola TX9, lançada no início de 2026 para o mercado americano de aplicação da lei.

A aposta brasileira no grafeno é reforçada por um fator geológico: o Brasil detém a maior reserva mundial de grafite, matéria-prima do grafeno, condição já apontada publicamente pela própria Taurus como vantagem competitiva para o desenvolvimento de novas tecnologias no País.

Grafeno não é solução stealth isolada, alertam especialistas
Análise publicada pelo portal português ECO pondera que o grafeno não deve ser tratado como solução stealth completa por si só, já que a redução de assinatura depende também da geometria da aeronave e de sistemas de guerra eletrônica, e a eficácia de revestimentos absorvedores tende a variar conforme a frequência do radar utilizado pelo adversário. O avanço de radares quânticos e de sistemas de deteção mais sofisticados é citado como fator que pode reduzir, no longo prazo, a vantagem obtida com esse tipo de material. No próprio depoimento ao Diário de Notícias, Bruno Soares Gonçalves reconhece a distância entre o tempo da ciência e o tempo do mercado, lamentando a falta de cultura de risco das empresas portuguesas para investir em tecnologia de fronteira antes de o produto estar pronto para entrega.

O quadro que emerge é o de uma disputa tecnológica em estágio ainda inicial, mas em aceleração: dois projetos portugueses avançam simultaneamente rumo a testes com forças armadas reais, com financiamento europeu e da própria NATO, ao passo que o Brasil combina um programa histórico de material absorvedor de radar na Aeronáutica com liderança mundial em grafeno aplicado a armamento leve. A convergência dessas duas frentes brasileiras, caso venha a ocorrer, poderia posicionar o País de forma mais competitiva também no campo dos materiais furtivos para plataformas aéreas.

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