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07 novembro, 2026

A uma só voz, cúpula da Avibras Aeroco cobra previsibilidade, triagem e contrapartidas para a BID

Em artigo conjunto na Folha, Bruno Dantas e Sami Hassuani apontam caminhos para que o País deixe de comprar de prateleira e transforme sua indústria de defesa em instrumento de soberania e desenvolvimento



*LRCA Defense Consulting - 07/11/2026 - 10h15

O ex-ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas, presidente do Conselho de Administração da Avibras Aeroco, e o engenheiro Sami Youssef Hassuani, presidente executivo da empresa, assinaram na quarta-feira (4) um artigo de opinião na Folha de S.Paulo em que propõem tratar a Defesa como política de Estado de longo prazo. O texto, primeira manifestação pública conjunta da nova cúpula da fabricante de foguetes e mísseis de Jacareí (SP), combina um diagnóstico do gasto militar brasileiro com três propostas: previsibilidade orçamentária, triagem de investimentos estrangeiros no setor e contrapartidas de quem recebe benefícios públicos.

A assinatura conjunta também evidencia a divisão de papéis na nova estrutura de comando da empresa. Com a posse de Dantas na presidência do Conselho de Administração, as atribuições ficaram bem definidas e complementares: ao Conselho cabem a orientação estratégica e a interlocução institucional; à presidência executiva, sob Hassuani, a condução das operações industriais e comerciais.

Trajetórias que se somam 
Dantas, que presidiu o TCU, construiu reputação de articulador institucional, sobretudo na mediação de conflitos entre governo e setor privado. Hassuani soma mais de quatro décadas no setor de defesa, já presidiu a antiga Avibras e assessorava o Fundo Brasil Crédito durante a reestruturação que deu origem à Avibras Aeroco. A nova composição foi consolidada com a conclusão da compra da empresa pela Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista, anunciada em 15 de outubro.

Um diagnóstico pelo orçamento 
Os autores abrem o texto com o diálogo de Melos, registrado pelo historiador ateniense Tucídides, segundo o qual os fortes impõem sua vontade e os fracos se resignam, para sustentar que a lógica voltou a orientar os orçamentos nacionais. Com dados do Sipri (Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo), lembram que o gasto militar mundial chegou a quase US$ 2,9 trilhões em 2025, recorde e décimo primeiro ano seguido de alta; que a Europa ampliou suas despesas em 14%, no ritmo mais acelerado entre os membros europeus da OTAN desde 1953; e que a Alemanha alterou sua Lei Fundamental para excluir do freio da dívida os gastos de Defesa acima de 1% do PIB.

O Brasil, por sua vez, gastou 1,1% do PIB, menos da metade da média mundial. Para os autores, a composição preocupa mais que o volume: dos R$ 133 bilhões aplicados pela Defesa em 2025, apenas cerca de R$ 11 bilhões foram destinados a programas militares. Em outras palavras, o País paga o custeio do presente e quase nada investe no futuro. O artigo sustenta que a Defesa é uma política industrial praticada abertamente pelos países desenvolvidos, cita a internet e o GPS como frutos de encomendas militares e recorda que o ITA e o antigo CTA deram origem ao polo aeroespacial de São José dos Campos (SP).

A lei que autoriza, mas não obriga 
Dantas e Hassuani elogiam a lei complementar 221/2025, que retira da meta e do limite fiscal até R$ 5 bilhões por ano em investimentos estratégicos das Forças Armadas até 2031, por tratar a capacidade de Defesa como investimento, e não como despesa sujeita a contingenciamento. Apontam, porém, duas fragilidades: a margem de 2026 não foi utilizada, e a LC 235/2026, que antecipa recursos, desconta-os do exercício de 2028. A conclusão dos autores é que a indústria não se planeja com autorizações, mas com contratos.

Três passos 
O primeiro é a previsibilidade. Citando França e Polônia, que fixam em lei a programação militar plurianual, os autores propõem converter a exceção fiscal em um horizonte de dez anos, vinculado a contratos de capacidade capazes de sobreviver às trocas de governo. O argumento é direto: o fornecedor que não sabe se terá encomendas daqui a três anos não contrata engenheiros hoje.

O segundo é saber quem manda em cada empresa. Em junho, a União Europeia aprovou regulamento que torna obrigatório, em todos os Estados-membros, o exame prévio de investimentos estrangeiros em Defesa. No Brasil, segundo o artigo, a legislação considera a distribuição do capital votante, e não quem efetivamente controla a empresa, e não existe rito que avalie, sob a ótica da segurança nacional, a compra do controle de fabricantes de mísseis e foguetes. Os autores ressalvam que não defendem proibição, pois consideram o capital estrangeiro bem-vindo e, muitas vezes, indispensável; pedem triagem com prazo, motivação, possibilidade de recurso e medidas de mitigação.

O terceiro é a contrapartida. "Privilégio sem dever é renda", escreveram. Para eles, quem recebe crédito público, reserva de mercado ou benefício tributário deve devolver ao País engenharia nacional, propriedade intelectual partilhada com a União, preços auditáveis quando não há concorrência e metas de formação de pessoal. Os signatários fazem questão de incluir a própria empresa na regra.

A estatal estrangeira que o artigo não nomeia 
O trecho de maior repercussão potencial é a afirmação de que, em 2024, uma estatal estrangeira propôs adquirir 49% da companhia sem que o País dispusesse de procedimento para avaliar a operação. O artigo não identifica a empresa, e a Avibras Aeroco não acrescentou detalhes.

O acervo do LRCA registra que, entre 2024 e 2025, ao menos três grupos estrangeiros buscaram a Avibras. A australiana DefendTex, empresa privada, anunciou negociações em abril de 2024, mas a operação não avançou depois que o governo australiano se recusou a financiá-la, em junho. Em seguida, a chinesa Norinco, conglomerado estatal, enviou ao Ministério da Defesa carta de interesse na compra de 49% das ações; o ministro José Múcio confirmou ter recebido o documento, sem citar a origem. Em janeiro de 2025, a Avibras anunciou tratativas avançadas com a saudita Black Storm Military Industries, desta vez com vistas ao controle acionário. Houve ainda, em outubro de 2024, notícia de que o Fundo Soberano da Arábia Saudita poderia assumir 80% da empresa.

Dos episódios conhecidos, apenas o da Norinco reúne os três elementos citados no artigo (estatal, 49% e 2024), o que indica que seria essa a operação mencionada pelos autores. O caso ilustra a lacuna apontada: à época, a avaliação inicial do Ministério da Defesa foi de que a venda de 49% manteria o comando da empresa no Brasil, isto é, o critério observado foi a fatia do capital votante. O interesse chinês levou senadores, em requerimento encabeçado por Esperidião Amin, a pedir explicações ao governo, e a imprensa internacional relatou alertas norte-americanos sobre o risco de sanções caso a operação prosperasse.

Um debate que já bate à porta 
A proposta de triagem chega em momento sensível para a BID. Em setembro, o EDGE Group, dos Emirados Árabes Unidos, concluiu a compra da Akaer, em operação estruturada com participação minoritária da SIATT para preservar o credenciamento da empresa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), o que reacendeu a discussão sobre a desnacionalização da base industrial. A própria Avibras Aeroco, após anos de crise e de propostas estrangeiras, acabou resgatada por capital privado nacional.

O recado para dentro e para fora 

Desde que anunciou o início de suas operações, em 30 de abril, a Avibras Aeroco retomou a base instalada do ASTROS e firmou memorando de entendimento com a AEL Sistemas para a montagem, em Jacareí, das viaturas do programa ATMOS. Ao defender contrapartidas que valeriam também para si, a nova direção sinaliza ao governo e ao mercado o tipo de relação que pretende estabelecer com o Estado.

No fechamento do artigo, os autores colocam a escolha em termos estratégicos: o Brasil pode continuar comprando sistemas prontos, a preço alto e dependente de autorização estrangeira para empregá-los, ou optar por produzi-los, o que lhe permitiria ganhar poder de dissuasão, formar pessoal e deixar de pedir permissão.

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