A Embraer anunciou nesta quarta-feira, 28 de outubro, em Amsterdã, um acordo com a Air Dolomiti para fornecer suporte a componentes da frota de 30 E-Jets da companhia italiana, integrante do Lufthansa Group, por meio do Programa Pool. O contrato abrange mais de 300 componentes utilizados em diferentes sistemas das aeronaves e prevê serviços de intercâmbio de peças, reparo e revisão geral. No mesmo dia, a fabricante divulgou um contrato equivalente com a Austrian Airlines, para os 13 E195 que a companhia austríaca ainda opera e que estão sendo transferidos gradualmente para a Air Dolomiti.
Os dois anúncios se complementam. Ao atender tanto a companhia que entrega os aviões quanto a que os recebe, a Embraer mantém o suporte de componentes dos E195 ao longo de toda a migração dentro do grupo alemão. O objetivo declarado é ampliar a disponibilidade das aeronaves e dar previsibilidade ao atendimento das necessidades de manutenção. Os valores, os prazos de vigência e as metas quantitativas de desempenho dos contratos não foram divulgados, o que impede dimensionar seu impacto econômico.
Uma frota em transformação
A Air Dolomiti, sediada em Verona, desempenha papel relevante na alimentação dos centros de conexão do Lufthansa Group em Munique e Frankfurt, ligando aeroportos italianos a destinos europeus. Em 2025, segundo a companhia, transportou mais de 4,4 milhões de passageiros. Na temporada de inverno 2025/2026, passou também a operar voos para Viena, em nome da Austrian Airlines.
A relação com a Embraer começou em 27 de janeiro de 2009, quando a companhia recebeu, em São José dos Campos (SP), seu primeiro E195. A Air Dolomiti foi a cliente lançadora do modelo na Itália e o opera desde fevereiro daquele ano.
O plano de renovação em curso prevê a chegada gradual, até 2028, de 13 E195 anteriormente operados pela Austrian Airlines, que substituirão nove E190. A transferência começou em dezembro de 2025, e o quarto avião, matriculado I-ENJD, foi o primeiro a receber a nova pintura da companhia. Dados do Lufthansa Group, com posição de 31 de julho de 2026, identificam 21 E195, com 122 assentos, e nove E190, com 108 assentos.
O número de aeronaves, porém, não deve mudar até o fim do processo: a frota já soma 30 jatos e continuará com 30, todos E195. O crescimento virá da oferta de assentos. Cada E190 substituído por um E195 acrescenta 14 lugares, o que representa cerca de 126 assentos adicionais ao fim das nove trocas. A padronização em um único modelo tende ainda a simplificar treinamento, manutenção e logística de peças, embora a dimensão dos ganhos efetivos dependa da execução do plano.
As duas pontas da transferência
A Austrian Airlines decidiu retirar seus 17 E195 até o fim de 2028, como parte de uma estratégia de simplificação que reduzirá suas famílias de aeronaves a duas: Airbus A320 e Boeing 787-9. Dos 17 jatos, 13 seguem para a Air Dolomiti, e os outros quatro estão sendo vendidos a terceiros. O contrato com a Embraer cobre os aviões que ainda permanecem na frota austríaca, com o mesmo escopo de mais de 300 componentes e serviços de troca, reparo e revisão geral.
Na prática, os E195 deixam Viena e chegam a Verona sem trocar de prestador de suporte de componentes. Para o Lufthansa Group, a solução reduz o risco de descontinuidade no fornecimento de peças durante a transição. Para a Embraer, preserva o vínculo com uma frota que, distribuída entre as duas companhias, permanece integralmente de fabricação brasileira.
No Programa Pool, a fabricante disponibiliza ao operador acesso a uma rede de componentes reparáveis e soluções logísticas, reduzindo a necessidade de cada companhia manter estoques próprios extensos de peças de elevado valor. O modelo pode incluir trocas de componentes, reparos, revisões gerais, gestão de inventário e níveis de serviço contratualmente definidos.
Segundo a Embraer, sua solução proporciona economia nos custos de reparo e de manutenção de estoques, reduz a necessidade de armazenagem e opera com níveis de desempenho garantidos. O alcance anunciado refere-se às categorias de peças cobertas pelo atendimento, e não necessariamente a estoques mantidos em cada base da Air Dolomiti. Diferentemente do contrato com a LATAM, que prevê um inventário selecionado de componentes nas instalações da companhia no Brasil, o comunicado da Air Dolomiti não menciona estoque local.
Carlos Naufel, presidente e CEO da Embraer Services & Support, afirmou que a estrutura de serviços e logística da fabricante busca maximizar a disponibilidade das aeronaves e dar suporte previsível à rede da companhia. Steffen Harbarth, CEO da Air Dolomiti, destacou que, em um momento de evolução significativa da empresa, contar com um parceiro de longa data representa um passo importante em sua trajetória de crescimento.
Uma estratégia que vai além da venda de aeronaves
Os acordos com a Air Dolomiti e a Austrian Airlines encerram uma sequência de anúncios da Embraer no segmento de suporte. Em setembro, a Japan Airlines renovou seu vínculo com o Programa Pool para os 32 jatos operados por sua subsidiária regional J-Air, sendo 18 E170 e 14 E190; depois disso, a companhia japonesa escolheu o E190-E2 como sucessor dessa frota.
Em outubro, os anúncios se multiplicaram. No dia 13, conforme noticiou a LRCA Defense Consulting, a LATAM incluiu no programa a futura frota de 24 E195-E2 encomendados em caráter firme; o grupo detém ainda opções de compra de outros 50 jatos. No dia 15, foi a vez da Portugália Airlines, empresa do Grupo TAP que opera sob a marca TAP Express, com 19 E-Jets, sendo 12 E190 e sete E195. A companhia portuguesa retornou ao programa após uma breve experiência com outro fornecedor. No dia 21, como também noticiou a LRCA, a Alliance Airlines renovou seu acordo de suporte de componentes para a frota E190, relação iniciada em 2021.
Esses contratos, com perfis operacionais distintos, ilustram a importância do suporte ao longo de toda a vida útil dos aviões. Para a fabricante, a prestação continuada de serviços aprofunda o relacionamento com os clientes e amplia as oportunidades de receita recorrente, mesmo quando não há encomenda nova. Para as companhias aéreas, o principal valor está na combinação de disponibilidade, previsibilidade de custos e menor imobilização de capital em estoques.
A longevidade da primeira geração dos E-Jets aparece também em outras frentes. Como a LRCA noticiou em 27 de outubro, a Polônia vai converter quatro E195 da LOT Polish Airlines em aeronaves de evacuação aeromédica, no âmbito do rescEU, mecanismo de proteção civil da União Europeia.
No caso do Lufthansa Group, os dois contratos consolidam o relacionamento da Embraer com uma operadora que utiliza o E195 há mais de 17 anos e asseguram sua presença na fase de reorganização da frota regional do grupo. Mais do que um fornecimento de peças, os anúncios evidenciam que a competitividade de uma fabricante aeronáutica depende tanto da qualidade de seus aviões quanto da capacidade de sustentá-los operacionalmente por muitos anos.
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