*Mauro Beirão - 19/01/2026
A distinção entre Política de Estado e Política de Governo é central para
compreender como decisões públicas são formuladas, mantidas ou alteradas ao
longo do tempo. Trata-se de duas categorias analíticas distintas, porém
frequentemente tensionadas, sobretudo em áreas sensíveis como a defesa
nacional.
A Política de Estado refere-se a diretrizes estruturais, estratégicas
e de longo prazo, construídas a partir de consensos amplos entre forças
políticas, econômicas e sociais. São políticas que transcendem ciclos
eleitorais, governos e orientações partidárias, mantendo continuidade mesmo
diante da alternância no poder. Clássicos exemplos incluem a preservação da
soberania territorial, a integridade nacional e, de forma inequívoca, a defesa
do Estado.
Já a Política de Governo está
intrinsecamente associada ao mandato de uma administração específica. Reflete
prioridades conjunturais, valores ideológicos e visões de mundo do grupo
político no poder, sendo naturalmente mais suscetível a revisões, rupturas e
reorientações conforme o contexto político e econômico.
No campo da defesa, o
consenso predominante, tanto no debate acadêmico quanto na prática estratégica
de democracias consolidadas, é que ela deve constituir, prioritariamente, uma Política de Estado.
A razão é evidente: A
defesa diz respeito à sobrevivência nacional, à soberania e à capacidade de
dissuasão. Oscilações abruptas, descontinuidades ou rupturas estratégicas
produzem vulnerabilidades reais, especialmente em um ambiente geopolítico cada
vez mais instável, marcado pela competição entre grandes potências, pelas
tensões no Atlântico Sul e pelas disputas em torno da Amazônia Azul.
Na prática, o fator
ideológico pesa, e muito
Apesar desse ideal
normativo, a realidade mostra que a defesa não está imune à influência
ideológica. A visão predominante do governo de turno tende a moldar
decisões-chave, entre elas:
- A
definição do que constitui uma ameaça: ênfase em ameaças externas clássicas
vs. foco em ameaças internas,
terrorismo ou crime organizado transnacional;
- A
alocação de recursos escassos: priorização da modernização e do treinamento
das Forças Armadas, do investimento em capacidades cibernéticas e espaciais;
- As
parcerias estratégicas internacionais: alinhamentos automáticos com
potências ocidentais, busca por maior autonomia estratégica e multipolaridade multipolaridade
vs. maior aproximação com países do
Sul Global (BRICS, África e AméricaLatina);
- A
relação com a Base Industrial de Defesa (BID): estímulo à autonomia
tecnológica, à produção nacional e à transferência de tecnologia
- O
papel das Forças Armadas em missões não convencionais: maior ou menor
envolvimento em segurança interna, combate ao crime organizado, controle de
fronteiras e apoio a órgãos civis.
Capacidade existe,
mas o investimento não acompanha
O Brasil dispõe de uma
Base Industrial de Defesa tecnicamente capacitada, com empresas aptas a
desenvolver sistemas de C4I, sensores, guerra eletrônica, sistemas não
tripulados, software crítico e integração de sistemas complexos. Ainda assim, o
investimento das Forças Armadas nessas capacidades permanece aquém do
necessário. Essa lacuna não decorre de um único fator, mas de um conjunto
estrutural, político, orçamentário e cultural, que se manifesta de forma
recorrente, são eles:
1. Restrição orçamentária
crônica e rigidez estrutural
O orçamento da Defesa é
fortemente comprometido com despesas obrigatórias, pessoal ativo, inativos e
pensões, que em muitos exercícios, absorvem mais de 75% dos recursos
disponíveis. O espaço para investimento em P&D, aquisição de sistemas
avançados e modernização tecnológica torna-se residual. Como consequência,
projetos estruturantes e de longo prazo, essenciais para a guerra do século
XXI, são constantemente adiados, fragmentados ou descontinuados, minando
previsibilidade financeira e não priorizando a inovação;
2. Ausência de uma
política contínua de capacitação militar
O Brasil sofre com a
descontinuidade estratégica. Programas iniciados sob uma administração
frequentemente são interrompidos, redimensionados ou politizados pela seguinte.
Embora documentos como a Estratégia Nacional de Defesa reconheçam a importância
da autonomia tecnológica, falta uma execução consistente, com contratos
plurianuais protegidos dos ciclos políticos;
3. Cultura de
aquisição centrada no “produto pronto”
A preferência por
soluções prontas reduz riscos de curto prazo, mas desestimula o desenvolvimento
nacional, sobretudo em áreas como software militar, inteligência artificial,
integração de sistemas e guerra eletrônica, domínios que evoluem rapidamente e não
se adaptam bem a modelos tradicionais de compra;
4. Baixa tolerância
institucional ao risco tecnológico
O desenvolvimento de
sistemas avançados envolve riscos técnicos, prazos mais longos e falhas
intermediárias. No Brasil, a combinação entre orçamento limitado, cultura
administrativa avessa ao risco e atuação rigorosa de órgãos de controle cria um
ambiente no qual:
- Optar
por não desenvolver localmente é percebido como mais seguro;
- Projetos
disruptivos e complexos são evitados;
- Soluções
prontas produzidas fora do país parecem menos arriscadas do ponto de vista
administrativo.
5. Fragilidade do
modelo de “tríplice hélice”
A integração entre
Forças Armadas, indústria e academia ainda é muito limitada. Embora existam
alguns casos de sucesso, as iniciativas são pontuais, dependentes de indivíduos
e não de estruturas permanentes. Em países líderes em inovação militar, esse ecossistema
funciona de forma contínua e coordenada, algo que ainda não se consolidou no
nosso país;
6. Predominância
de uma visão centrada em meios tradicionais
Apesar da evolução
doutrinária, o investimento brasileiro ainda privilegia “meios” em detrimento
de “sistemas”.
No cenário
contemporâneo, capacidades como ciberdefesa, guerra eletrônica, sistemas
antidrone e operações multidomínio são centrais e não complementares, porém não
são priorizadas;
7. Ambiguidade
política quanto à autonomia estratégica
Discursos
recorrentes sobre soberania e autonomia contrastam com decisões que favorecem
fornecedores sem presença industrial relevante no país em detrimento de
empresas nacionais já inseridas na BID. Isso fragiliza o domínio do ciclo de
vida dos sistemas, o suporte logístico e a capacidade de adaptação rápida a
novos cenários de ameaça, evidenciando que a BID ainda não é plenamente
utilizada como instrumento de soberania.
Até que ponto a
ideologia interfere?
O grau de interferência
ideológica varia conforme o contexto:
- Democracias
com consenso estratégico consolidado → interferência de baixa a moderada (EUA e
França mantêm linhas mestras mesmo com alternância política);
- Países
com alta polarização e instituições de defesa em consolidação → interferência
de moderada a alta, como no caso brasileiro.
Essa interferência
tende a ser maior quando:
- Não
há tradição de revisões periódicas e institucionais dos documentos
estratégicos;
- O orçamento de defesa é tratado como
gasto ordinário, e não como investimento de Estado;
- O
meio político e a sociedade civil têm pouca ou nenhuma participação no debate
sobre defesa.
Idealmente, a defesa
nacional deveria ser o campo de menor interferência ideológica possível, o
núcleo duro da Política de Estado. Na prática, contudo, a ideologia sempre
estará presente, pois são governos, e não abstrações, que definem prioridades,
alocam recursos e interpretam o ambiente estratégico.
O desafio não é
eliminar essa interferência, mas conter seus efeitos nocivos, por meio da
construção de consensos mínimos multipartidários em torno de objetivos
centrais, tais como a autonomia tecnológica, a dissuasão crível, a
previsibilidade orçamentária e a institucionalização de revisões periódicas e
transparentes da Política Nacional de Defesa (PND) e da Estratégia Nacional de
Defesa (END).
Quando a ideologia se
sobrepõe excessivamente à razão de Estado na área de defesa, o país incorre em
fragilidade estratégica. No limite, a defesa não existe para proteger governos,
ela existe para proteger o Estado e a nação. Quanto mais “de Estado” e menos “de governo”
ela for, maior será a segurança coletiva.
Em um ambiente geopolítico cada vez mais
instável, investir pouco em tecnologia de defesa não é economia: é vulnerabilidade estratégica!
*Mauro Beirão tem formação em Engenharia
Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial,
atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais
conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu
para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o
desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente
de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e
prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e
tecnologia para a defesa nacional.