Pesquisar este portal

28 janeiro, 2026

Defesa não é custo. É projeto de país


*Luiz Alberto Cureau Jr. - 28/01/2026

O Brasil é um país continental que ainda pensa sua defesa em escala reduzida. Infraestruturas estratégicas, infraestruturas críticas, segurança de fronteiras e capacidade militar continuam sendo tratadas como temas setoriais, fragmentados e sujeitos ao humor fiscal do momento. Essa lógica não é apenas equivocada, é perigosa.

Infraestruturas estratégicas como energia, telecomunicações, logística, portos, aeroportos e sistemas digitais sustentam o funcionamento do Estado. Já as infraestruturas críticas são aquelas cujo colapso paralisa a economia, compromete serviços essenciais e afeta diretamente a vida da população. Proteger esses ativos não é opção política, é obrigação estatal. E essa proteção exige planejamento, inteligência, capacidade tecnológica e presença permanente do Estado.

O mesmo raciocínio se aplica às fronteiras. O Brasil possui mais de 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres, incluindo nove tríplices fronteiras, grande parte em áreas remotas e de difícil acesso. Onde o Estado não chega de forma estruturada, o crime organizado chega rápido. Narcotráfico, contrabando, garimpo ilegal e organizações transnacionais não exploram apenas lacunas territoriais, exploram lacunas de decisão.

Projetos estratégicos das Forças Armadas foram concebidos justamente para enfrentar essa realidade. Programas como o monitoramento integrado de fronteiras, a vigilância do espaço aéreo, a proteção cibernética, os sistemas espaciais, o reaparelhamento naval e a modernização da aviação de caça representam saltos de capacidade e soberania. O problema não é a concepção, é a falta histórica de continuidade e previsibilidade orçamentária.

Projetos de defesa são, por natureza, de longo prazo. Quando interrompidos, atrasados ou subfinanciados, não apenas perdem eficiência: tornam-se mais caros, menos integrados e estrategicamente vulneráveis. A ausência de um fluxo estável de recursos transforma planejamento em improviso e estratégia em remendo.

As Forças Armadas, não podem ser instrumentos de governo, mas de Estado. Sua missão vai além da dissuasão clássica, envolve presença territorial, apoio à segurança das fronteiras, proteção de infraestruturas críticas e resposta a crises complexas. Para um país do tamanho do Brasil, forças subdimensionadas significam soberania relativa.

O debate central não é ideológico nem corporativo. É estratégico. Defesa não é custo operacional a ser comprimido em ciclos eleitoreiros e não tem lado. Defesa é investimento estruturante, tão essencial quanto energia, transporte ou comunicações. Países que entenderam isso planejam décadas à frente. Países que não entendem delegam o próprio futuro.

Se o Brasil pretende se afirmar como nação soberana, relevante e segura, precisa tratar defesa, fronteiras e infraestruturas críticas como política de Estado permanente, com planejamento de longo prazo, orçamento previsível e continuidade institucional.

Soberania não se improvisa. Se constrói. 

 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).

Postagem em destaque