Empresa portuguesa, controlada pela Embraer, entrega último C-130H modernizado à Força Aérea Portuguesa após projeto de sete anos que demandou mais de 100 mil horas de engenharia
*LRCA Defense Consulting - 13/01/2026
A OGMA – Indústria Aeronáutica de Portugal anunciou a entrega da quarta e última aeronave C-130H modernizada à Força Aérea Portuguesa, marcando a conclusão de um dos projetos de atualização aviônica mais ambiciosos já realizados pela empresa. A entrega ocorreu em dezembro de 2025, na Base Aérea Nº 6, no Montijo, encerrando um ciclo iniciado em 2018 que transformou profundamente as capacidades operacionais da frota portuguesa de transporte militar.
O programa de modernização representou um desafio técnico de grande envergadura. Foram alocadas mais de 100 mil horas de engenharia no desenvolvimento e certificação da solução, com a produção de mais de 500 relatórios de engenharia e 1.000 desenhos técnicos. Em cada aeronave, foram instalados mais de 500 novos componentes e 16 quilômetros de cabeamento, totalizando mais de 100 mil horas de intervenção em hangar.
"Foi o contrato mais ambicioso de modificação de aeronaves levado a cabo pela OGMA", reconheceu Paulo Monginho, CEO da empresa, durante a cerimônia de entrega da primeira aeronave modernizada, em maio de 2024. O executivo destacou que o projeto demandou a dedicação conjunta de todas as áreas da OGMA, da Força Aérea Portuguesa e da Autoridade Aeronáutica Nacional.
Modernização alinha Portugal aos padrões europeus
A intervenção contemplou alterações estruturais e uma profunda modificação
nos sistemas aviônicos das aeronaves, integrando novos equipamentos de
navegação e comunicação que transformaram o cockpit do C-130H, equiparando-o
aos padrões mais modernos da aviação militar mundial.
A modernização insere-se no programa europeu SESAR (Single European Sky ATM Research), que visa adaptar as aeronaves às atuais exigências do espaço aéreo europeu. O objetivo é incrementar a segurança na circulação aérea, aumentar o volume de tráfego, reduzir custos através de uma gestão mais eficiente de rotas de voo e minimizar o impacto ambiental das operações aéreas.
Cofinanciada por fundos europeus, a atualização assegura que a Força Aérea Portuguesa continue a cumprir suas missões em teatros nacionais e internacionais. Os C-130H garantem o transporte aéreo em operações militares e de interesse público, além de missões de patrulhamento marítimo e busca e salvamento.
OGMA: pilar estratégico da Embraer na Europa
A conclusão bem-sucedida do projeto de modernização dos C-130H reforça o
papel estratégico da OGMA como principal ativo da Embraer no continente
europeu. Desde 2004, quando a fabricante brasileira adquiriu o controle
acionário da empresa portuguesa (atualmente detém 65% das ações, enquanto o
Estado português mantém 35%), a OGMA passou por uma transformação profunda,
consolidando-se como centro de excelência em manutenção aeronáutica e produção
de aeroestruturas.
"Portugal é o país onde a Embraer mais investe em sua capacidade industrial fora do Brasil", afirmou Francisco Gomes Neto, presidente da Embraer, destacando o compromisso de longo prazo da empresa com o desenvolvimento do ecossistema aeroespacial e de defesa português.
Os números comprovam essa estratégia: desde a privatização, a Embraer investiu mais de 500 milhões de euros na OGMA. Somente em 2024, a fabricante brasileira anunciou um aporte adicional de 90 milhões de euros para ampliar as capacidades da empresa portuguesa, especialmente voltadas para a produção dos aviões A-29N Super Tucano e a adaptação do KC-390 Millennium aos requisitos da OTAN.
Expectativas futuras: triplicar faturamento até 2030
As perspectivas para a OGMA são extremamente promissoras. A empresa, que
deve encerrar 2025 com faturamento de 290 milhões de euros, tem como meta
ambiciosa triplicar suas receitas até 2030, alcançando 1 bilhão de euros
anuais, segundo projeções de Antonio Carlos Garcia, vice-presidente Financeiro
da Embraer.
Diversos fatores sustentam esse crescimento projetado:
1. Centro de Manutenção de Motores GTF
Em 2024, a OGMA inaugurou uma unidade de manutenção dos motores turbofan Pratt
& Whitney GTF, tornando-se o 18º centro autorizado da rede global e o
oitavo na Europa. O investimento de 74 milhões de euros permitirá à empresa
realizar manutenção dos motores PW1100G (usados nos Airbus A320neo) e PW1900G
(que equipam os jatos E2 da Embraer). Este contrato pode gerar até 600 milhões
de euros anuais e criar 300 novos empregos.
2. Produção do KC-390 Millennium
A OGMA é responsável pela fabricação de componentes estruturais críticos do
cargueiro militar KC-390, incluindo a fuselagem central, os sponsons (carenagem
do trem de aterragem) e os lemes de profundidade. Com mais de 20 países já
tendo encomendado a aeronave e uma carteira de pedidos em expansão na Europa - incluindo Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia e Eslováquia -, a demanda
por essas peças deve crescer significativamente.
Portugal, que adquiriu seis unidades do KC-390 e possui opção de compra para mais dez aeronaves (destinadas à venda para países aliados), recebe 10 milhões de euros por cada unidade vendida, beneficiando-se diretamente da expansão do programa.
3. A-29N Super Tucano: porta de entrada na OTAN
Em dezembro de 2025, a Embraer e o governo português assinaram uma carta de
intenção para a criação de uma fábrica de produção dos aviões A-29N Super
Tucano em Beja. Portugal tornou-se o primeiro país europeu a operar esta versão
adaptada aos requisitos da OTAN, posicionando-se como potencial hub de montagem
para outros países europeus interessados na aeronave.
A OGMA já realiza a integração de sistemas compatíveis com a OTAN nos A-29N e fornece suporte logístico para as aeronaves, consolidando sua expertise em modificações militares. O ministro da Defesa português, Nuno Melo, destacou que "Portugal é a porta de entrada para a Europa e para a OTAN destes investimentos".
4. Embraer Defense Europe
Em 2024, a Embraer inaugurou em Lisboa sua primeira subsidiária de defesa e
segurança na Europa, com o objetivo específico de atender aos requisitos da
OTAN e da União Europeia. A Embraer Defense Europe conta com capacidades de
engenharia, logística e desenvolvimento de negócios, fortalecendo a presença da
fabricante brasileira no mercado europeu de defesa.
Complementando essa estrutura, em agosto de 2025, a Embraer anunciou a criação da ATEC (Atech), nova subsidiária em Lisboa especializada em controle de tráfego aéreo e integração de sistemas de defesa, ampliando ainda mais seu portfólio de soluções tecnológicas no continente.
5. Expansão em Évora
Além da OGMA em Alverca, a Embraer mantém em Évora um centro de engenharia e
tecnologia focado no desenvolvimento de peças e estruturas em materiais
compósitos. A empresa anunciou a expansão dessas operações com a contratação de
20 engenheiros, reforçando a capacidade de inovação da presença portuguesa da
fabricante.
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| Sede da OGMA em Alverca, Portugal |
Posicionamento global e estratégia de expansão
O fortalecimento da OGMA faz parte de uma estratégia mais ampla da Embraer
de expansão internacional. Em fevereiro de 2025, a fabricante anunciou um plano
de investimentos de 20 bilhões de reais (3,3 bilhões de euros) até 2030 para
aumentar a produção, desenvolver novos produtos e expandir negócios em mercados
internacionais.
No âmbito da defesa, a Embraer também visa implantar linhas de produção do KC-390 na Polônia, com investimentos previstos de US$ 2 bilhões ao longo de dez anos. A escolha da Polônia como parceiro estratégico para montagem final das aeronaves objetiva atender à crescente demanda de países da OTAN, complementando a capacidade produtiva brasileira.
Portugal, através da OGMA, mantém-se como referência na Europa para manutenção, modernização e produção de componentes aeronáuticos. A expertise de mais de 100 anos de experiência, aliada aos investimentos contínuos da Embraer e à integração com programas estratégicos como o KC-390 e o A-29N, posicionam a empresa portuguesa como elemento-chave na expansão global da fabricante brasileira.
Impacto econômico e tecnológico
O sucesso da modernização dos C-130H demonstra a capacidade técnica da OGMA
em projetos complexos de integração de sistemas aviônicos. Este conhecimento
acumulado em mais de 40 anos trabalhando com a aeronave Hércules (a OGMA é
centro de manutenção autorizado pela Lockheed Martin desde 1982) tornou-se um
diferencial competitivo crucial.
"Foi um desafio para a Força Aérea que se superou na área da programação, da gestão, da manutenção, mas também foi fundamental para a capacitação da indústria aeronáutica nacional, nomeadamente da OGMA", reconheceu o General João Cartaxo Alves, à época Chefe do Estado-Maior da Força Aérea Portuguesa.
Com uma área superior a 400 mil metros quadrados, 10 hangares de manutenção, um moderno hangar de pintura, áreas de fabricação e uma pista de 3 mil metros, a OGMA emprega atualmente cerca de 2 mil trabalhadores. A meta de triplicar o faturamento até 2030 deve criar centenas de empregos qualificados, fortalecendo o cluster aeronáutico português.
Para a Embraer, a OGMA representa muito mais que uma subsidiária: é a plataforma estratégica que permite à fabricante brasileira consolidar sua presença no exigente mercado europeu, atendendo aos rigorosos requisitos da OTAN e da União Europeia, e competindo em igualdade de condições com os grandes players globais da indústria aeroespacial.
A entrega da última aeronave C-130H modernizada não é apenas o encerramento de um projeto bem-sucedido, mas a confirmação de que a aposta da Embraer em Portugal, iniciada há mais de 20 anos, está gerando frutos concretos, e que as melhores páginas dessa parceria estratégica ainda estão por ser escritas.


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