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21 outubro, 2026

C-390 impulsiona cooperação industrial entre Brasil e Portugal e amplia espaço da ETI no treinamento militar

Empresa estatal portuguesa integra soluções de capacitação da Embraer para operadores europeus, enquanto OGMA e outras organizações demonstram o alcance industrial do programa 



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LRCA Defense Consulting - 21/10/2026 - 18h13

A expansão internacional do C-390 Millennium está criando oportunidades que vão além da fabricação de componentes aeronáuticos. Um exemplo é a EMPORDEF Tecnologias de Informação (ETI), empresa estatal portuguesa especializada em simulação e treinamento, identificada pela Embraer como participante de soluções de instrução destinadas a operadores europeus da aeronave. Sua trajetória evidencia como a cooperação industrial Brasil–Portugal também alcança software, capacitação de pessoal e serviços associados à vida operacional do cargueiro multimissão.

A participação não começou agora. Em novembro de 2024, ao anunciar o pacote de treinamento da Força Aérea Real dos Países Baixos, a Embraer afirmou que trabalhava havia mais de dez anos com a ETI no desenvolvimento de treinamento baseado em computador (CBT, na sigla em inglês). A relação antecede, portanto, a recente expansão das vendas do Millennium na Europa.

Uma empresa portuguesa de tecnologia de defesa 
Criada em 2004 a partir de uma separação de atividades da OGMA, a ETI é integralmente controlada pela idD Portugal Defence, entidade vinculada ao setor público português. Atua no desenvolvimento de simuladores operacionais, táticos e de manutenção, aplicações de treinamento virtual e soluções de apoio técnico. Em apresentação institucional de 2021, a idD informou que a ETI exportava 80% de sua produção e atendia mais de 50 usuários em diferentes continentes. Esses números descrevem aquele período e não devem ser interpretados como indicadores atualizados de 2026.

A empresa já desenvolvia conteúdos CBT para diferentes plataformas da Embraer, entre elas o Super Tucano, o KC-390 e a aeronave identificada pela idD como VU-Y. A Força Aérea Brasileira figurava entre os usuários finais desses materiais. Isso, contudo, não demonstra contratação direta da ETI pela FAB: a documentação consultada identifica a Embraer como cliente e parceira industrial.

Da cooperação tecnológica aos contratos internacionais 

Em março de 2022, Embraer, idD Portugal Defence e ETI assinaram um memorando de entendimento para estudar colaboração em treinamento e simulação, abrangendo realidade virtual, aumentada e mista, além de análise de dados. O instrumento também mencionava o A-29 Super Tucano e outros programas. Como memorando de intenções, não deve ser confundido com contrato de fornecimento de sistemas específicos.

A cooperação ganhou outra dimensão com o acordo de abril de 2023 envolvendo a Embraer e organizações portuguesas, entre elas ETI, OGMA, CEiiA e GMV, associado ao fortalecimento da base tecnológica e industrial de defesa de Portugal e a oportunidades em programas aeronáuticos, incluindo o A-29N. A iniciativa integra um relacionamento industrial mais amplo, sem representar, por si só, uma encomenda de CBT para o C-390.

O marco comercial mais explícito ocorreu em 1º de novembro de 2024. A Embraer anunciou que forneceria à Força Aérea Real dos Países Baixos um conjunto de treinamento composto por simulador completo de voo e estação de instrução de manuseio de carga, desenvolvidos com a alemã Rheinmetall, além de CBT concebido com a ETI. Na ocasião, a previsão era colocar todas as soluções em operação até o final de 2026; o anúncio não comprova que essa etapa já tenha sido concluída.

O CBT organiza a instrução teórica de pilotos, mestres de carga, demais tripulantes e pessoal de manutenção por meio de recursos digitais e de um sistema de gestão da aprendizagem compatível com o padrão SCORM. Ele complementa, mas não substitui, o simulador de voo completo nem os dispositivos práticos de treinamento de carga.

Em 20 de julho de 2026, durante o Farnborough International Airshow, a Embraer anunciou novas soluções para Suécia e Áustria. O pacote sueco inclui simulador completo, estação de treinamento de carga em parceria com a Rheinmetall e CBT desenvolvido com a ETI. Para a Áustria, a fabricante anunciou uma solução CBT, mas o comunicado não atribuiu nominalmente seu desenvolvimento à empresa portuguesa. Não seria rigoroso, portanto, tratar o fornecimento austríaco pela ETI como confirmado. 

Portugal como elo industrial e operacional 
A importância da ETI deve ser compreendida dentro de uma estrutura de cooperação mais ampla. A OGMA, empresa portuguesa de manutenção e fabricação aeronáutica, tem 65% de seu capital controlado pela Embraer e 35% pela idD Portugal Defence. Já a ETI permanece integralmente sob controle da idD. As duas empresas ocupam posições diferentes, porém complementares, no ecossistema aeronáutico e de defesa de Portugal.

Em publicação institucional, a idD registrou a participação de 15 entidades portuguesas no desenvolvimento do KC-390, com mais de 650 mil horas de engenharia, mais de 2 mil desenhos técnicos e mais de 350 empregos qualificados. A entidade estimou ainda que cada KC-390 vendido no mundo representaria 10 milhões de euros em exportações portuguesas de bens e serviços. Trata-se de uma estimativa histórica divulgada pela instituição, e não de receita atual auditada ou de valor atribuído especificamente à ETI.

A dimensão operacional também se destaca. Em janeiro de 2025, a LRCA noticiou a chegada à Base Aérea n.º 11, em Beja, de um simulador de voo e missão do C-390, fabricado pela Rheinmetall, com expectativa de futura utilização na formação de tripulações europeias. Em agosto daquele ano, a imprensa portuguesa informou o início do treinamento de militares holandeses em Portugal. Esses fatos mostram a formação de uma infraestrutura regional de capacitação, mas não comprovam que o CBT da ETI tenha sido empregado em cada atividade realizada em Beja.

Um modelo de internacionalização que vai além da aeronave 
O caso da ETI demonstra que a exportação do C-390 pode estimular uma cadeia de serviços especializados, com possibilidades de atualizações de conteúdo, formação de novos profissionais e suporte ao longo da vida útil das aeronaves. São oportunidades coerentes com a natureza do produto, embora os documentos públicos examinados não permitam quantificar receitas futuras da ETI nem identificar todos os seus contratos.

Também não há comprovação pública suficiente de que a ETI forneça especificamente para o C-390 simuladores virtuais de manutenção, treinadores de parte-tarefa ou sistemas práticos de manuseio de carga. A empresa possui competências em áreas próximas, mas a atribuição desses equipamentos ao programa exige documentação própria.

Para o Brasil, a experiência evidencia uma característica da estratégia internacional da Embraer: combinar competências nacionais com fornecedores especializados de países parceiros, oferecendo ao cliente não apenas a aeronave, mas soluções de treinamento e suporte. Para Portugal, representa a possibilidade de preservar e ampliar capacidades tecnológicas próprias em um programa de alcance internacional.

O resultado é uma relação industrial que não se esgota na entrega de aviões. À medida que a frota do Millennium cresce, a preparação de tripulações e mantenedores torna-se parte relevante da capacidade operacional dos compradores. A ETI já ocupa um espaço documentado nessa estrutura. A extensão futura de sua participação dependerá de novos contratos e de decisões ainda não tornadas públicas.

23 junho, 2026

Embraer e OGMA concluem primeira manutenção programada do C-390 Millennium húngaro

Trabalho de 24 meses, realizado em Portugal, é o primeiro resultado prático do acordo de suporte assinado em fevereiro entre a Embraer e a Força Aérea da Hungria


*LRCA Defense Consulting - 23/06/2026

A Embraer e a OGMA concluíram com sucesso a primeira manutenção programada de 24 meses de um C-390 Millennium operado pela Força Aérea da Hungria. O serviço foi realizado nas instalações da OGMA, em Portugal, e representa o primeiro grande resultado prático do acordo de suporte assinado pela Embraer em fevereiro deste ano para sustentar a frota húngara da aeronave. 

O marco fortalece a estrutura de suporte do C-390 Millennium na Europa, num momento em que o programa atravessa a fase mais intensa de expansão comercial de sua história, com a chegada de novos operadores na OTAN e o anúncio, em maio, do maior pedido de exportação já registrado para o modelo. 

O acordo de suporte e o primeiro resultado prático
Em fevereiro de 2026, durante o Singapore Airshow, a Embraer assinou um acordo de serviços com a Força Aérea da Hungria prevendo manutenção, suporte logístico e suporte técnico para os dois C-390 Millennium húngaros, com base na estrutura europeia da companhia. A manutenção concluída agora na OGMA é a primeira atividade programada de grande porte realizada sob esse contrato. 

Em nota, o Brigadeiro-General Tamás Bali, comandante da Força Aérea da Hungria, classificou a conclusão do serviço como um marco importante para as operações húngaras, destacando a execução geral e o nível técnico das equipes envolvidas. Segundo o oficial, a colaboração estreita entre a força aérea, a OGMA e a Embraer garantiu um processo coordenado, com alto grau de satisfação quanto ao suporte prestado ao longo de toda a atividade. 

Douglas Lobo, Vice-Presidente de Suporte ao Cliente e Vendas Pós-Venda da Embraer Serviços e Suporte, afirmou que o serviço prestado ao C-390 Millennium húngaro reforça as capacidades de suporte da companhia na Europa. Para ele, a parceria com a OGMA permitiu entregar um serviço robusto e eficiente, capaz de garantir a prontidão operacional e a satisfação do cliente no longo prazo. 

A OGMA, parceira de longa data do programa
A OGMA, com sede em Alverca do Ribatejo, é controlada pela Embraer, que detém 65% do seu capital, e atua como centro autorizado de serviços (Authorized Service Centre) para o C-390. A empresa portuguesa integra o programa desde sua concepção: em dezembro de 2011, Brasil e Portugal firmaram parceria para que a OGMA desenvolvesse dados de engenharia de componentes do então KC-390, ao lado da Embraer e da Empresa de Engenharia Aeronáutica. 

Mais de uma década depois, a OGMA oferece capacidade plena de manutenção, reparo e modernização do C-390, com serviços que vão da implementação de boletins de serviço à gestão continuada de aeronavegabilidade, passando pela manutenção de equipamentos de apoio em solo. A localização portuguesa, próxima de clientes da OTAN e da União Europeia, é apresentada pela própria OGMA como vantagem estratégica para sustentar a frota europeia do modelo. 

 

A frota húngara e o desempenho em serviço
A Hungria tornou-se, em novembro de 2025, o primeiro operador a receber a totalidade das aeronaves contratadas: duas unidades, configuradas para reabastecimento em voo, encomendadas ainda em novembro de 2020. O primeiro C-390 húngaro entrou em serviço no final de 2024, na Base Aérea de Kecskemét, e desde então vem operando com taxa de conclusão de missões superior a 99%, segundo dados divulgados pela Embraer. 

As aeronaves húngaras são as primeiras do mundo equipadas com uma Unidade de Terapia Intensiva modular, que pode ser instalada e removida sem necessidade de adaptações estruturais, ampliando a capacidade do C-390 para missões de evacuação aeromédica avançada. A configuração soma-se às demais funções multimissão do modelo, que incluem transporte de carga e tropas, assistência humanitária, busca e salvamento, lançamentos aéreos de precisão, operações com paraquedistas e reabastecimento em voo. 

Um programa em expansão
A manutenção concluída em Portugal ocorre num momento de forte expansão comercial do C-390 Millennium. Em maio, os Emirados Árabes Unidos assinaram contrato para adquirir até vinte aeronaves do modelo, dez firmes e dez em opção, tornando-se o maior cliente de exportação do programa e o primeiro operador no Oriente Médio. Suécia e Países Baixos também ingressaram recentemente entre os operadores da aeronave, ao lado de Portugal, Hungria, Chéquia e Eslováquia, no âmbito da OTAN; fora da aliança, Brasil, Áustria, Coreia do Sul e Uzbequistão completam a lista de usuários do modelo. 

Esse ritmo de vendas eleva a importância de uma rede de suporte consolidada, e a OGMA desponta como peça central da estratégia europeia da Embraer para sustentar essa frota crescente ao longo de seu ciclo de vida operacional.

02 maio, 2026

O Gripen sobrevoa Lisboa: como a Suécia corteja Portugal numa das maiores decisões de defesa da sua história recente

De Linköping a Alverca, passando por Brasília e Lisboa, uma teia de interesses industriais, geopolíticos e tecnológicos está sendo tecida em torno de uma única questão: que caça irá substituir os F-16 da Força Aérea Portuguesa?

Imagem meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 02/05/2026

Céu azul sobre Linköping. Na cidade que é considerada o berço da Força Aérea sueca, o Gripen-E sobe a pique, mergulha, regressa, manobra com uma agilidade quase irritante para quem olha de baixo. A demonstração, realizada no final de abril para a imprensa portuguesa no aeroporto local, foi calculada. A Saab sabe que Portugal está ouvindo e quer que Portugal veja.

Dois anos depois de a Suécia ter aderido à NATO, e num contexto de aumento dos gastos em Defesa, a sueca Saab quer voar mais alto e estar à altura de outros fornecedores de caças que ambicionam fechar negócio com Portugal para a substituição da esquadra dos F-16, como os Estados Unidos da América, com os F-35, ou o consórcio europeu que inclui a Airbus e os seus Eurofighters.

A questão não é nova, mas ganhou uma urgência inesperada. Durante décadas, a Força Aérea Portuguesa sonhou com o F-35. Em 2019, a sua liderança reiterou publicamente esse desejo. O avião de quinta geração, com a sua furtividade característica e sensores integrados de última geração, era o horizonte natural para substituir os 28 F-16AM e BM que compõem a frota atual, aeronaves que se aproximam velozmente do fim da vida útil.

Mas o mundo mudou.

A virada de março de 2025
Em março de 2025, o ministro da Defesa, Nuno Melo, anunciou o cancelamento da aquisição dos F-35, citando preocupações com custos, imprevisibilidade das relações com Washington e a necessidade de privilegiar alternativas europeias. A mudança de posição ocorreu num contexto de tensões crescentes entre a Europa e os EUA, com o governo Trump a pressionar aliados através de tarifas comerciais e a tornar os parceiros europeus menos confortáveis com uma dependência excessiva de equipamento militar americano.

Foi neste vácuo que a Saab entrou com passo firme, argumentos preparados e uma proposta que vai muito além da venda de um avião.

O argumento técnico central da empresa sueca não é a furtividade, pois admite que o Gripen perde nesse parâmetro face ao F-35. O que contesta é a relevância crescente dessa característica no campo de batalha moderno. Executivos e engenheiros da empresa argumentam que os avanços tecnológicos em aviônica tornaram a furtividade menos decisiva do que era. A eficácia de uma aeronave, segundo esta visão, mede-se cada vez menos pela velocidade ou agilidade e cada vez mais pela capacidade de usar poder computacional para superar o adversário.

No centro desta filosofia está a arquitetura de software do Gripen E, aquilo que a própria Saab compara a um iPhone: um dispositivo cujo hardware permanece estável enquanto o software evolui continuamente. O sistema DIMA (Distributed Integrated Modular Avionics) permite que todos os componentes da aeronave funcionem como um único sistema integrado, com interfaces de software abertas que tornam possível introduzir novas funcionalidades de forma ágil, sem necessidade de reverificar o sistema inteiro.

Inteligência artificial a bordo
Se há um argumento da Saab que captura a imaginação e a atenção dos analistas militares, é o da inteligência artificial integrada em combate real.

Em junho de 2025, a Saab e a empresa alemã de IA Helsing anunciaram a conclusão bem-sucedida dos primeiros três voos integrando o agente de inteligência artificial "Centaur" num Gripen E real, sobre o Mar Báltico. Nestes voos, o agente assumiu o controlo de manobras de combate além do alcance visual, sugerindo disparos de mísseis contra um Gripen de treino adversário e evitando trajetórias desfavoráveis, enquanto o piloto humano permanecia a bordo como comandante final.

O que impressionou os analistas não foi apenas a capacidade técnica da IA, mas a velocidade de integração: o trabalho pré-voo do agente Centaur começou apenas seis meses antes dos primeiros testes, com o sistema inicialmente treinado em simuladores do Gripen. Isto só foi possível graças à arquitetura aberta do avião, que separa o software crítico de voo do software tático, permitindo inserir o agente de IA sem tocar nos sistemas de segurança.

Não é ficção científica. É o argumento mais concreto que a Saab tem para dizer que o Gripen não é um caça do passado, mas sim uma plataforma em permanente evolução.

A isto soma-se uma parceria tecnológica com a Critical Software, empresa portuguesa de Coimbra. A Saab está a alargar as suas parcerias com entidades portuguesas através da assinatura de vários memorandos de entendimento, nomeadamente com a Critical Software, com quem está a desenvolver um programa baseado em Inteligência Artificial que permite o treino de pilotos destes caças através de uma espécie de "jogo virtual".

O trunfo industrial: a OGMA e a Embraer
Mas a proposta da Saab a Portugal vai muito além da tecnologia. O argumento mais sedutor e mais politicamente relevante é o industrial.

A Saab não propõe apenas a venda destes caças a Portugal, mas quer inserir o país na cadeia de produção, numa lógica de cooperação mútua. Daniel Boestad, vice-presidente e diretor da área de negócio Gripen, deixou claro que existe "potencial" para uma parte do processo de montagem de componentes e estrutura destes caças poder ser feita em Portugal, nomeadamente na OGMA, localizada em Alverca.

O responsável acrescentou ainda que existe a possibilidade de ir mais além, admitindo a montagem final em território português, ou operações de manutenção e reparação, hipótese que depende dos contornos de um eventual negócio para a aquisição de caças pelo Estado português.

No centro desta equação está um nome inesperado para quem não conhece a história recente da aviação lusófona: a Embraer.

A fabricante brasileira controla 65% do capital da OGMA desde 2005. A empresa de Alverca tornou-se, ao longo de duas décadas, uma referência europeia em manutenção, reparação e revisão aeronáutica, e é precisamente esse histórico que a posiciona hoje como um elo estratégico entre a Suécia e Portugal.

Este não é um pé-na-porta diplomático. É uma relação industrial já testada e consolidada. A Embraer e a Saab trabalham como parceiras desde 2014, quando o governo brasileiro assinou o contrato para fornecer à Força Aérea Brasileira 36 aeronaves Gripen, que incluíam não apenas a aeronave, mas também apoio logístico, sistemas de apoio, simuladores, treinamento e desenvolvimento. Por meio de um memorando de entendimento assinado em 2023, ambas as empresas reafirmaram a sua colaboração.

Os sinais diplomáticos desta aproximação vinham já de 2024. Em julho desse ano, a OGMA recebeu a visita da Embaixadora da Suécia em Portugal, Elisabeth Eklund, acompanhada por Rickard Strandberg, Encarregado de Assuntos Políticos da Embaixada. Os visitantes foram recebidos pelo CEO da OGMA, Paulo Monginho, e visitaram as instalações da empresa, nomeadamente as áreas de manutenção de aeronaves e motores e aeroestruturas.

Sede da OGMA

O modelo brasileiro: uma referência para Portugal
O programa Gripen no Brasil tornou-se a referência que a Saab mais gosta de citar quando fala com Lisboa. E com razão: os números são impressionantes.

Um dos pilares centrais do programa foi o compromisso da Saab em oferecer acesso irrestrito aos códigos-fonte do caça, algo que os concorrentes Boeing F/A-18 Super Hornet e Dassault Rafale não conseguiram igualar de forma tão abrangente. Este ponto ganhou especial relevância quando, em 2025, tornou-se público que a francesa Dassault rejeitou firmemente o pedido da Índia de acesso aos códigos-fonte dos 62 caças Rafale que adquiriu, citando a importância estratégica e a sensibilidade dos códigos à segurança.

Para Portugal, a lição é clara: escolher um caça é também escolher o grau de autonomia tecnológica que o país terá nas próximas décadas.

O programa de transferência de tecnologia (ToT) associado ao Gripen no Brasil é descrito como o maior da história da Suécia e o mais extenso em curso naquele país. Ele envolve mais de 600 mil horas de treinamento e 62 projetos, abrangendo áreas como sistemas de comunicação, integração de armamentos, ensaios em voo, aviônicos, aerodinâmica e produção de componentes estruturais.

A linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto (SP), inaugurada em 2023, é a única fora da Suécia. Das 36 aeronaves contratadas, 15 estão sendo produzidas no Brasil, com a primeira já em fase de montagem final.

A proposta da Saab para Portugal vai além da aeronave em si, enfatizando benefícios industriais e econômicos que poderiam repercutir em Lisboa. A empresa tem um histórico de oferecer transferência de tecnologia e acordos de produção local, como demonstrado em seu acordo de 5,4 mil milhões de dólares com o Brasil em 2014, que incluiu a instalação de uma linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto.

Setembro de 2025: os acordos de Lisboa
Em setembro de 2025, durante uma visita a Lisboa do ministro da Defesa sueco, a diplomacia industrial deu um salto qualitativo.

A Saab assinou dois acordos com as empresas OGMA e Critical Software. Com a OGMA, controlada maioritariamente pela Embraer, a colaboração volta-se principalmente para áreas de produção, manutenção, reparação e revisão de aeronaves militares. No caso da Critical Software, os projetos articulados concentram-se em software para aviação e sistemas críticos de missão.

Daniel Boestad, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios Gripen na Saab, foi claro: "A OGMA e a Critical são excelentes parceiros independentemente do que aconteça." Os acordos não estão condicionados à compra dos Gripen por Portugal; são, segundo a empresa, uma resposta ao aumento global de procura que a Saab enfrenta.

Em dezembro do mesmo ano, foi a vez de um novo acordo com o AED Cluster Portugal, a associação que reúne mais de 160 entidades do setor aeronáutico, espacial e de defesa nacional.

"Portugal tem de estar no ciclo produtivo"
Do lado português, o ministro da Defesa Nuno Melo tem sido explícito quanto às condições que Portugal impõe a qualquer aquisição de caças: o retorno industrial é inegociável.

"Temos de produzir mais na Europa e comprar mais na Europa. As opções têm de ser as europeias e Portugal tem de estar no ciclo produtivo. Não quer dizer que esteja de A a Z, mas na produção de componentes ou manutenção", declarou o ministro.

O ministro acrescentou: "Cerca de 80% das aquisições da UE vêm de fora da UE, portanto há uma margem brutal. E têm de ser nossas também."

O ministro deu ainda o exemplo do KC-390, o avião de transporte da Embraer que Portugal opera e em cujas vendas tem participação financeira direta: "Cada KC que é vendido significam 10 milhões que entram nos cofres do Estado."

A ideia para o Gripen pode passar por um modelo de negócio semelhante ao que a Saab já desenvolve com a Força Aérea brasileira: através da Embraer, parte do caça Gripen é produzido no Brasil. Este modelo é semelhante ao que une Portugal e a Embraer na produção das aeronaves KC-390, que a cada venda gera lucro para o Estado português.

Imagem meramente ilustrativa

Portugal já está dentro do Gripen
Há um dado que a Saab gosta de sublinhar e que poucos conhecem: Portugal já participa, ainda que de forma limitada, na cadeia de produção do Gripen.

Daniel Boestad adiantou que Portugal "já é parte da construção do Gripen", através do fornecimento de material, mencionando empresas como a Vangest (localizada na Marinha Grande), a metalúrgica Ristaltek, ou a Thyssenkrupp em território português.

Para o vice-presidente da Saab, "Portugal é muito interessante e tem muito potencial. Não tem a maior indústria de Defesa, mas a que tem é brilhante."

As sombras no horizonte
A proposta sueca não é isenta de fragilidades, e seria desonesto ignorá-las.

Uma das principais é a dependência do Gripen E de componentes fabricados nos EUA, em particular o motor F414G da GE Aviation, que exige licenças de exportação e suporte de manutenção de empresas americanas, o que complica a narrativa de "autonomia total" face a Washington.

Para atenuar esse problema, a Saab enfatizou a arquitetura aberta do jato, que permite aos clientes desenvolver o seu próprio software e integrar sistemas não americanos. Para Portugal, essa flexibilidade poderia permitir a colaboração com empresas de defesa europeias, reduzindo a dependência das cadeias de suprimentos americanas ao longo do tempo.

Do lado português, o processo foi também perturbado por instabilidade política interna: em 2025, o primeiro-ministro Luís Montenegro apresentou a demissão na sequência de uma moção de censura, e as eleições subsequentes foram fator de atraso nas decisões estratégicas de defesa. A concorrência inclui ainda o Eurofighter Typhoon e o Dassault Rafale.

Portugal ainda não deu início ao processo formal de substituição dos F-16, de acordo com o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, que afirmou que a escolha terá por base critérios técnicos, sem manifestar preferência. O general João Cartaxo Alves, agora Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), nunca escondeu a sua preferência por um caça de quinta geração, ou seja, os americanos F-35, quando ainda liderava a Força Aérea.

O Gripen como aposta estratégica
O que se passa hoje em Portugal é sintomático de uma transformação mais ampla. A Europa questiona a dependência de sistemas de armas americanos. Os conflitos em curso, sobretudo na Ucrânia e no Oriente Médio, onde a capacidade de atualização rápida de software e a guerra eletrônica provaram ser tão decisivas quanto o hardware, mudaram os termos do debate estratégico.

O custo é outro elemento central. Comparado aos seus concorrentes, o Gripen E/F oferece vantagens distintas para uma nação como Portugal. O F-35A, embora incomparável em furtividade e fusão de sensores, tem um custo unitário superior a 80 milhões de dólares e despesas anuais de manutenção que podem sobrecarregar orçamentos menores de defesa.

Sem detalhar valores, o responsável da Saab estimou que a aquisição deste tipo de programa, totalizando todo o seu ciclo de vida, ronda "um terço" do custo comparativamente às empresas concorrentes no mercado.

Há ainda uma lógica de complementaridade operacional que a Saab não cansa de sublinhar: o Gripen E pode ser reabastecido em voo, e Portugal está a preparar-se para adquirir os kits de reabastecimento para os seus KC-390 da Embraer. A combinação das duas aeronaves, utilizadas tanto pela Suécia como pelo Brasil, é apresentada pela Saab como o exemplo perfeito de uma parceria de sucesso que Portugal poderia replicar.

Uma decisão que vai além dos aviões
A Saab afirma estar "pronta para apoiar Portugal na aquisição da futura plataforma para a Força Aérea Portuguesa" e apresenta o Gripen E como "uma solução verdadeiramente europeia, combinando velocidade de inovação, adaptabilidade e eficiência de custos". Se Portugal escolher o Gripen, não comprará apenas um avião. Comprará um modelo de soberania industrial, um acesso à cadeia de valor global de um programa aeronáutico em expansão e, através da OGMA e da Embraer, uma posição singular na encruzilhada entre a Europa e o Brasil num dos setores de maior valor tecnológico do século XXI.

A decisão final pertence a Lisboa. Mas o debate técnico, estratégico, industrial e geopolítico já está em pleno andamento. E Johan Segertoft, o vice-presidente da Saab que desembarcou em Lisboa para dizer que o Gripen é "o caça mais avançado do mundo", voltou para Estocolmo com a certeza de que Portugal está, de fato, a ouvir.

O que vai fazer com o que ouviu é outra história. Essa ainda se escreve... 

28 março, 2026

MoU industrial e acordo militar Portugal & Eslováquia devem acelerar compra do KC-390

Parceria com Portugal surge como o catalisador que pode fechar o contrato de aquisição dos C-390 ainda em 2026 

Vice-Primeiro Ministro e Ministro da Defesa da Eslováquia, Robert Kaliňák, na Base Aérea N.º 11, em Beja

*LRCA Defense Consulting - 28/03/2026

A visita oficial do Vice-Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa da Eslováquia, Robert Kaliňák, a Portugal nos dias 24 e 25 de março de 2026 não foi apenas protocolar. Resultou em dois acordos concretos que abrem caminho para uma parceria estratégica mais profunda e que, segundo fontes oficiais, podem encurtar de forma decisiva o processo de aquisição de três aeronaves KC-390 Millennium pela Força Aérea Eslovaca. 

No dia 24 de março, no Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, os ministros da Defesa de Portugal (Nuno Melo) e da Eslováquia assinaram um Acordo de Cooperação Técnico-Militar. O documento prevê colaboração em tecnologias avançadas, com ênfase em sistemas não tripulados (drones), manutenção aeronáutica, incluindo os KC-390 e F-16, e aumento da produção de munições. Os dois governantes destacaram a complementaridade entre as indústrias: a tradição eslovaca em armamento aliada à especialização portuguesa em aeronáutica e sistemas avançados. 

“Estamos empenhados no reforço do pilar europeu de defesa da NATO”, sublinhou o ministro português. Kaliňák, por seu lado, manifestou abertamente o interesse do seu país nos drones portugueses (produzidos por empresas como Beyond Vision e Tekever) e, sobretudo, nas aeronaves KC-390 da Embraer, fabricadas em parte em Portugal pela OGMA. 

Paralelamente, a idD Portugal Defence coordenou a vertente empresarial da visita, reunindo delegações de empresas dos dois países. O ponto alto foi a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) entre a idD e a ZBOP – Associação da Indústria de Segurança e Defesa da Eslováquia. O acordo cria um quadro formal para parcerias industriais, projetos conjuntos e participação em iniciativas de defesa, abrindo portas a contrapartidas (offsets) na eventual compra do KC-390. 

No dia seguinte, 25 de março, a delegação eslovaca rumou à Base Aérea n.º 11, em Beja, sede da Esquadra 506 “Rinocerontes”. Ali, os visitantes tiveram contato direto com os KC-390 em operação na Força Aérea Portuguesa, incluindo demonstrações e acesso ao simulador de voo, uma experiência que, segundo analistas, reduz riscos percebidos e acelera a tomada de decisão operacional. 


O contexto da aquisição do C-390
A Eslováquia já tinha escolhido o C-390 Millennium como a melhor solução para modernizar a sua frota de transporte aéreo em dezembro de 2024. Na época, o ministro Kaliňák assinou uma Carta de Intenções com o Brasil e anunciou o início formal das negociações para três aeronaves (com possibilidade de uma quarta). O processo está em curso desde janeiro de 2025, mas ainda depende de aprovação orçamental e parlamentar em Bratislava. 

Portugal, que opera o KC-390 desde 2020 e tem a OGMA como centro europeu de manutenção e produção de componentes, surge agora como parceiro chave. A cooperação permite à Eslováquia contar com um “hub” europeu próximo para treino, logística e suporte, em vez de depender exclusivamente do Brasil, reduzindo custos de ciclo de vida e prazos de entrega.

Como a visita agiliza o negócio
Especialistas consultados por várias agências noticiosas apontam quatro fatores decisivos:

- Familiarização operacional: a visita a Beja permite aos eslovacos verem o avião em serviço real numa força aérea NATO experiente.

- Offsets industriais via MoU idD-ZBOP: empresas portuguesas podem participar em MRO (manutenção, reparação e revisão), produção de peças e transferência de tecnologia, tornando a proposta mais atrativa para o governo de Bratislava.

- Suporte europeu: a manutenção do KC-390 em Portugal (OGMA) garante maior autonomia estratégica no continente.

- Pacote “G2G” completo: o acordo governamental complementa as negociações diretas com a Embraer, criando um pacote integrado (avião + treino + logística + contrapartidas industriais).

Em resumo, o que começou como uma visita bilateral transformou-se num impulso concreto para o maior programa de aquisição de transporte aéreo da Eslováquia nos últimos anos. Com a frota de transporte eslovaca envelhecida e os vizinhos (Hungria, Áustria, República Checa e Suécia) já a operar ou a encomendar o C-390, a parceria com Portugal surge como o catalisador que pode fechar o contrato ainda em 2026. 

01 fevereiro, 2026

Embraer intensifica ofensiva para conquistar mercado dos EUA

Matéria patrocinada em portal de defesa, postagens de executivos no LinkedIn e visitas estratégicas sinalizam novo esforço da fabricante brasileira  

A validação americana seria a chave que abriria um mercado multibilionário para a empresa, no qual Portugal já está posicionado para capturar valor substancial. 

Imagem meramente ilustrativa


*LRCA Defense Consulting - 01/02/2026

A Embraer está realizando um esforço coordenado e abrangente para posicionar o KC-390 Millennium no mercado militar dos Estados Unidos, conforme evidenciado por uma série de ações recentes que incluem conteúdo patrocinado no portal Breaking Defense, postagens estratégicas de executivos no LinkedIn e visitas do Departamento de Defesa americano ao Brasil.

O portal Breaking Defense e a estratégia de visibilidade
Em 29 de janeiro de 2026, o Breaking Defense, um dos portais mais conceituados em assuntos de estratégia e defesa, publicou uma matéria patrocinada destacando as capacidades multimissão do KC-390. O artigo enfatiza que a aeronave brasileira não é apenas um tanque, transporte ou evacuação médica, mas todas essas funções integradas, podendo ser reconfigurada entre diferentes missões em questão de horas, não dias.

A publicação foi rapidamente compartilhada por Pete Castor, coronel aposentado da Força Aérea dos EUA e atual Diretor de Vendas e Desenvolvimento de Negócios da Embraer Defesa & Segurança nos EUA, em seu perfil no LinkedIn. Castor, figura-chave na estratégia americana da Embraer, tem destacado que o KC-390 oferece uma combinação rara de capacidade, acessibilidade e resiliência.

A postagem de Castor foi posteriormente citada por João Bosco Costa Junior, Presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, com o comentário direto: "KC390 - An Unbeatable Combination, Ready for the USA" (KC390 - Uma Combinação Imbatível, Pronto para os EUA). Este endosso público do mais alto executivo da divisão de defesa da Embraer não deixa dúvidas sobre a prioridade estratégica que o mercado americano representa para a empresa brasileira.

Militares do Departamento de Defesa da Embaixada dos Estados Unidos visitaram a Base Aérea de Anápolis para conhecer de perto a aeronave que tem se destacado no cenário global de aviação militar.

Visita estratégica em Anápolis
Em 29 de outubro de 2025, integrantes do Departamento de Defesa da Embaixada dos Estados Unidos visitaram a Base Aérea de Anápolis para conhecer de perto o 1º Grupo de Transporte de Tropas, Esquadrão Zeus, e o KC-390. A visita teve tom cordial e entusiasta, com os representantes norte-americanos demonstrando interesse minucioso nas capacidades operacionais da aeronave.

Durante a apresentação, os representantes mostraram curiosidade genuína sobre missões de transporte tático, reabastecimento aéreo e operações especiais, sinalizando que o interesse vai além de cortesia diplomática. Este tipo de visita técnica geralmente precede negociações comerciais mais concretas. 

Vantagens técnicas e operacionais
As publicações e materiais promocionais divulgados pela Embraer destacam várias vantagens do KC-390 que seriam particularmente relevantes para as forças armadas americanas:

- Velocidade e eficiência: equipado com dois turbofans Pratt & Whitney, a velocidade máxima de cruzeiro é de Mach 0,8, permitindo que uma missão de seis horas com um C-130 na Amazônia seja completada em quatro horas e 20 minutos no KC-390.

- Flexibilidade multimissão: a aeronave sai da linha de produção já preparada para reabastecimento em voo, e a reconfiguração entre missões leva horas em vez de dias, graças aos kits roll-on/roll-off.

- Capacidade de sobrevivência:  o KC-390 pode operar em pistas precárias ou danificadas, graças ao trem de pouso robusto, alta distância ao solo e motores montados para evitar danos causados por objetos estranhos. Sua arquitetura aberta permite que clientes instalem o conjunto de capacidade de sobrevivência de sua preferência.

- Confiabilidade superior: a aeronave alcança taxas de capacidade de missão acima de 93% e taxas de conclusão de missão acima de 99%, números que impressionam comandantes acostumados com plataformas mais antigas.

- Alinhamento com conceito ACE: o KC-390 se alinha ao conceito de Agile Combat Employment da USAF, que demanda aeronaves capazes de rápida mobilização em ambientes austeros, podendo operar em pistas curtas e não preparadas.

Estratégia de produção local
Um elemento crucial da estratégia da Embraer é o compromisso com produção local. A empresa planeja estabelecer uma linha de montagem nos Estados Unidos, prometendo criar milhares de posições de alta tecnologia no país.

Segundo informações do FlightGlobal, a Embraer já desenvolveu planos para múltiplas localidades nos EUA que poderiam suportar a produção do KC-390. A empresa está 100% comprometida a investir mais nos Estados Unidos, com estimativas de investimento entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão nos próximos três a cinco anos.

 

Proposta de tarifa zero
Em uma jogada estratégica audaciosa, a Embraer está propondo ao governo americano a produção local do KC-390 em troca da eliminação completa das tarifas de importação sobre suas aeronaves. A empresa projeta exportações de US$ 13 bilhões aos Estados Unidos até 2030.

Esta proposta surge como resposta às tarifas de 10% impostas pela administração Trump sobre produtos da Embraer, mas vai além de uma simples reação: representa uma estratégia de longo prazo para estabelecer presença permanente no mercado americano.

Conteúdo americano e conformidade
Segundo a Embraer, 59 empresas aeroespaciais americanas contribuem para o KC-390, representando mais de 50% dos materiais comprados que compõem cada jato. Isso inclui os motores Pratt & Whitney/IAE V2500 e os aviônicos Collins Aerospace Pro Line Fusion.

A montagem local tornaria a aeronave totalmente compatível com o Buy American Act, legislação que geralmente exige que o governo federal obtenha suas necessidades de compras domesticamente.

Nova parceria após reveses anteriores
Após o fracasso das parcerias com a Boeing (encerrada em abril de 2020) e com a L3Harris (dissolvida no final de 2024), há indícios de que a Embraer esteja em negociações com a Northrop Grumman Corporation para uma parceria estratégica.

A Northrop Grumman, uma das maiores empresas de tecnologia aeroespacial e de defesa do mundo, possui expertise consolidada em sistemas de reabastecimento aéreo, exatamente a capacidade que a Embraer precisa aprimorar para o mercado americano, particularmente o desenvolvimento de um sistema de boom rígido.

Programa NGAS como alvo
O objetivo final da Embraer é posicionar o KC-390 como candidato para o programa Next Generation Air Refueling System (NGAS) da Força Aérea dos EUA, destinado a substituir os antigos KC-135. A Embraer já respondeu a uma solicitação de informações sobre sistemas de missão NGAS no ano passado e está em contato constante com a USAF.

O General John Lamontagne, chefe do Air Mobility Command, indicou que praticamente todas as opções estão sobre a mesa, incluindo um design stealth, um jato executivo convertido ou um tanque convencional com gerenciamento de assinatura, o que poderia incluir uma variante específica do KC-390 para os EUA.

Sucesso internacional como referência
A Embraer tem utilizado o sucesso internacional do KC-390 como argumento de venda. A aeronave foi selecionada por 11 nações, incluindo pelo menos seis países europeus e sete membros da OTAN.

Portugal, primeiro cliente internacional, recebeu seu primeiro KC-390 em 2023 e imediatamente o transportou para os EUA para resgatar um helicóptero Black Hawk, carregando-o sem remover o rotor e retornando a Lisboa no dia seguinte. Este tipo de demonstração prática de capacidade operacional tem sido fundamental para a campanha de marketing da Embraer.

KC-390 Millennium

Portugal como Hub Europeu: benefícios estratégicos da adoção americana do KC-390
Portugal não é apenas o primeiro cliente internacional do KC-390, mas um parceiro industrial estratégico que se posiciona para colher benefícios significativos caso os Estados Unidos adotem a aeronave brasileira.

Desde 2010, quando assinou uma Declaração de Intenções para participar no programa, Portugal estabeleceu uma relação que vai muito além de uma simples compra de equipamento militar. A OGMA, empresa aeroespacial portuguesa controlada 65% pela Embraer e 35% pelo governo português, é responsável pela fabricação de componentes críticos do KC-390, incluindo a fuselagem central, spoilers, elevadores da asa traseira e partes dos lemes.

- Centro de manutenção e montagem europeu
Desde 2013, a OGMA produz componentes para o KC-390 e se tornará o centro europeu de manutenção para o tipo. Mas o papel de Portugal pode ir muito além: em 25 de abril de 2023, em uma declaração conjunta de Brasil e Portugal, foi anunciado que o KC-390 poderia ser construído ou montado em Portugal pela OGMA para clientes europeus.

Esta declaração transformou Portugal de um simples centro de produção de componentes para um potencial hub de montagem final para o mercado europeu, posição que seria enormemente fortalecida se os Estados Unidos adotassem a aeronave.

- O efeito cascata da validação americana
A adoção do KC-390 pelos Estados Unidos funcionaria como um "selo de qualidade" reconhecido globalmente. Com as forças armadas mais avançadas e respeitadas do mundo validando a aeronave, países europeus e membros da OTAN, bem como outros países mundo a fora, que ainda hesitam em adotar equipamento de origem não-americana teriam suas preocupações eliminadas.

Portugal, como primeiro membro da OTAN a operar esta aeronave, beneficia-se da expertise avançada de seu pessoal da Força Aérea, essencial para compartilhamento de conhecimento e cooperação com outros operadores aliados. Com a adoção americana, Portugal se tornaria o centro de excelência para treinamento e certificação de tripulações europeias.

- Expansão já em andamento
Portugal já demonstrou sua confiança no programa de forma concreta. O país assinou acordo com a Embraer para uma sexta aeronave KC-390 Millennium, tornando-se o primeiro operador a expandir sua frota. A emenda de 17 de setembro também adiciona dez opções de compra para potenciais nações parceiras.

Estas "dez opções de compra para potenciais nações parceiras" são particularmente significativas: demonstram que Portugal já está se posicionando como facilitador para vendas a outros países, um papel que seria exponencialmente ampliado com a adoção americana.

- Impacto econômico substancial
O investimento da Embraer em Portugal representa quase €150 milhões, com as fábricas eventualmente empregando 600 pessoas diretamente e criando empregos para 2.000 pessoas indiretamente na região. Com a validação americana e o consequente aumento da demanda europeia, estes números poderiam crescer significativamente.

A Base Aérea nº 11 está se consolidando como centro especializado de treinamento, estabelecendo-se como centro de excelência para treinamento de pilotos e operadores do KC-390. Com a adoção americana, este centro poderia se tornar referência global, treinando não apenas tripulações europeias, mas potencialmente oferecendo cursos para aliados americanos e parceiros em todo o mundo.

- Portugal na vanguarda de um mercado multibilionário
A adoção do KC-390 pelos Estados Unidos criaria um efeito multiplicador que beneficiaria Portugal em múltiplas dimensões: aumento da produção de componentes na OGMA, possível expansão da montagem final para atender demanda europeia crescente, posicionamento como centro de manutenção e suporte para toda a região EMEA (Europa, Oriente Médio e África), e consolidação como centro de excelência em treinamento e certificação.

Portugal não apenas se tornaria um hub de vendas, mas o epicentro europeu de toda a cadeia de valor do KC-390: produção, montagem, manutenção, suporte e treinamento. Este posicionamento estratégico transformaria a indústria aeroespacial portuguesa e consolidaria o país como player essencial na aviação de defesa europeia. A validação americana seria a chave que abriria um mercado multibilionário no qual Portugal já está posicionado para capturar valor substancial.

Sede da OGMA em Alverca, Portugal

Análise: esforço coordenado e multifacetado
O conjunto de ações observadas nas últimas semanas (matéria patrocinada em portal de prestígio, postagens coordenadas de executivos-chave no LinkedIn, visitas técnicas do Departamento de Defesa americano ao Brasil, negociações com gigante da indústria de defesa e proposta ousada de tarifa zero) sugere que a Embraer está conduzindo sua campanha mais estruturada e agressiva para conquistar o mercado americano.

Diferentemente das tentativas anteriores, que dependiam principalmente de parcerias com empresas americanas, a estratégia atual é multifacetada: combina diplomacia empresarial de alto nível (reunião com o Secretário de Defesa), demonstrações práticas (tour promocional por bases americanas), compromissos concretos de investimento local (linha de montagem nos EUA), concessões comerciais (proposta de tarifa zero) e comunicação estratégica (conteúdo patrocinado e presença ativa nas redes sociais).

A coordenação entre a matéria do Breaking Defense, as postagens de Pete Castor e João Bosco Costa Junior, e a visita do Departamento de Defesa americano em Anápolis não parece coincidência, mas sim parte de um esforço orquestrado para manter o KC-390 no radar dos tomadores de decisão americanos justamente quando a USAF está reavaliando suas necessidades futuras de reabastecimento aéreo.

O sucesso desta empreitada definirá não apenas o futuro do KC-390, mas também as ambições globais da Embraer no competitivo setor de defesa internacional. Se bem-sucedida, a estratégia pode estabelecer um novo modelo de como empresas estrangeiras podem penetrar no complexo mercado de defesa americano.

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