Future Multirole Light Aircraft (FMLA): um projeto ambicioso, mas distante da realidade
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| Imagem conceitual meramente ilustrativa |
*LRCA Defense Consulting - 05/01/2026
No cenário geopolítico atual, onde as ameaças se diversificam a uma velocidade sem precedentes, de drones hostis a conflitos assimétricos, a capacidade de resposta rápida e eficaz é crucial para a segurança de qualquer nação.
A Europa, com frotas aéreas envelhecidas e a necessidade premente de modernização, encontra-se num ponto de inflexão.
De um lado, a ambição de desenvolver o Future Multirole Light Aircraft (FMLA), um projeto futurista de uma aeronave turboélice com tecnologia stealth, mas com um horizonte de entrega distante (2035-2040) e desafios técnicos colossais.
De outro, a realidade pragmática que Portugal já abraçou: a chegada dos primeiros Embraer A-29N Super Tucano, uma aeronave comprovada em combate, adaptada aos padrões da OTAN e pronta para missões críticas hoje.
Esta matéria mergulha fundo nesse dilema, explorando os contrastes entre um ideal tecnológico ambicioso e a necessidade imediata de soluções testadas, eficientes e já disponíveis, um tema de vital importância para qualquer entusiasta da defesa que acompanha a evolução das capacidades militares e as estratégias de segurança do continente.
O sonho europeu: o projeto FMLA e seus desafios monumentais
A União Europeia planeja investir €15 milhões em estudos iniciais para o FMLA, uma aeronave turboélice que promete furtividade. Contudo, o caminho para transformar essa promessa em realidade está repleto de obstáculos que parecem desafiar as leis da física e da engenharia aeronáutica.
O dilema da furtividade em
aeronaves a hélice
A essência da tecnologia stealth
reside na redução da assinatura de radar da aeronave. Para jatos, isso envolve
geometria facetada, materiais absorventes de radar (RAM), ocultação de motores
em dutos em "S" e redução de assinatura infravermelha. No entanto, o
FMLA propõe a furtividade para um turboélice, uma configuração inerentemente
conflituosa com esses princípios.
Especialistas são unânimes: hélices e lâminas de turbina geram "assinaturas de radar brilhantes e altamente detectáveis". O exemplo clássico é o bombardeiro russo Tu-95 Bear, cuja notoriedade no radar se deve às suas grandes hélices contrarrotativas. O movimento rotativo das pás cria modulações Doppler características, produzindo uma "impressão digital" inconfundível para radares modernos, conhecida como Jet Engine Modulation (JEM). Integrar hélices expostas com requisitos de stealth é, na prática, uma contradição técnica fundamental.
Custos proibitivos e
complexidade
Desenvolver características stealth
genuínas é um empreendimento de bilhões de euros. O F-117, por exemplo, custou
cerca de US$ 6 bilhões em desenvolvimento nos anos 70-80. Para o FMLA, isso
implicaria materiais compostos de carbono e RAM de última geração, testes
extensivos em túneis de vento e câmaras anecóicas, um redesenho completo da
fuselagem e sistemas eletrônicos resistentes à guerra eletrônica. Tudo isso
para uma aeronave cujas hélices, inevitavelmente, continuarão sendo
detectáveis. Mesmo aeronaves de ponta como o F-35, projetadas para como stealth
desde o início, veem sua assinatura radar aumentar significativamente contra
radares de baixa frequência.
O prazo impossível:
2035-2040
Talvez um dos pontos mais críticos do
projeto FMLA seja seu cronograma. Com entregas previstas apenas entre 2035 e
2040, o projeto demandaria 10-15 anos de desenvolvimento após os estudos
iniciais de €15 milhões (em 2026), seguidos por mais 5-10 anos para produção em
série. Isso significa que países com frotas envelhecidas (30-40 anos) teriam
que esperar até duas décadas por uma solução que as ameaças atuais exigem para aqui e agora.
A resposta imediata: o Embraer A-29N Super Tucano e a visão portuguesa
Em contraste direto com a ambição do FMLA, Portugal deu um passo decisivo em sua modernização de defesa. Em dezembro de 2024, o país assinou um contrato para a aquisição de 12 aeronaves A-29N Super Tucano da Embraer, com as cinco primeiras unidades já aterrissando em solo português em dezembro de 2025. Este movimento estratégico posiciona o Super Tucano como uma solução imediata e comprovada para os desafios de segurança europeus.
Histórico operacional
comprovado
O A-29 Super Tucano não é uma
promessa, mas uma realidade operacional com mais de 600.000 horas de voo
globalmente, incluindo mais de 60.000 horas em combate. Sua versatilidade é
demonstrada em 22 forças aéreas ao redor do mundo, operando em ambientes tão
diversos quanto a selva colombiana (missão de combate contra as FARC),
o cenário hostil do Afeganistão (26 aeronaves operadas), o combate ao Boko
Haram na Nigéria, operações de segurança fronteiriça no Líbano e missões antinarcóticos
no Brasil.
Capacidades multimissão
versáteis
O Super Tucano oferece um portfólio
completo, tornando-o um verdadeiro "canivete suíço" para forças
aéreas:
● Apoio Aéreo Aproximado (CAS): longo tempo de permanência sobre o campo de batalha com munições de precisão.
● Reconhecimento Armado (ISR): sensores EO/IR que operam a 15.000 pés, compatíveis com óculos de visão noturna.
● Treinamento Avançado: prepara pilotos para transição a jatos de 4ª/5ª geração.
● Interdição Aérea: patrulha de fronteiras e combate a atividades ilegais.
● Coordenação JTAC: treinamento de controladores de ataque aéreo conjunto.
● Vigilância de Fronteiras: opera a partir de pistas não preparadas em ambientes austeros.
Custo-efetividade
inigualável
Um dos maiores trunfos do Super
Tucano é seu custo operacional: aproximadamente US$ 1.500 por hora de voo. Isso
é cerca de 10 vezes menos do que caças de 4ª geração (F-15: ~US$
15.000-20.000/hora; F-16: ~US$ 8.000-10.000/hora) e 20-30 vezes menos que caças
de 5ª geração (F-35: ~US$ 35.000-40.000/hora). Essa economia permite patrulhas
prolongadas sem drenar orçamentos de defesa, preserva caças avançados para
missões de alta intensidade e garante maior número de horas de treinamento para
pilotos.
Capacidade anti-drone: uma
vantagem crítica
Em novembro de 2025, a Embraer
validou oficialmente a expansão das capacidades do A-29 para missões
contra-drone (counter-UAS). Esta é uma resposta direta e urgente às crescentes
ameaças de drones hostis, como os Shahed e similares russos na Ucrânia. O Super Tucano emprega:
● Sensores e detecção: datalinks dedicados para coordenadas de alvos e sensores EO/IR para rastreamento e designação a laser.
● Armamento efetivo: foguetes guiados a laser APKWS (Advanced Precision Kill Weapon System), que oferecem precisão a 1/3 do custo de mísseis tradicionais, e metralhadoras calibre .50 nas asas para resposta imediata.
● Vantagem tática: sua velocidade de cruzeiro de 280 nós e estol a 80
nós permite igualar a velocidade de drones lentos, voar entre 3/4 até 8,5 horas e utilizar com precisão suas metralhadoras e foguetes guiados. Caças supersônicos, por sua vez, são rápidos demais para
engajar drones lentos com segurança usando canhões, e o disparo de mísseis
ar-ar embora efetivo, é proibitivamente caro.
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| Sede da OGMA em Alverca, Portugal |
Portugal: um hub europeu de
produção
A aquisição portuguesa vai além da
simples compra. Embraer e o Estado Português assinaram uma Carta de Intenções
(LOI) para estabelecer uma linha de montagem final do A-29N em Beja, Portugal.
A OGMA (Oficinas Gerais de Material Aeronáutico), subsidiária da Embraer com
65% de participação, já está integrada no programa para montagem parcial,
integração de sistemas NATO, manutenção e upgrades futuros, embora ainda não
tenha sido definido se será ela a produzir os Super Tucanos em Beja ou se a
Embraer estabelecerá uma unidade própria. Isso não só cria empregos e expertise
técnica em Portugal, mas também fortalece a base industrial de defesa continental
com uma solução verdadeiramente "europeia" no sentido industrial.
Variante A-29N: padrão OTAN
Portugal é o cliente de lançamento e
primeiro operador europeu da variante A-29N, adaptada especificamente aos
padrões da OTAN, incluindo:
● Sistema de comunicações SATCOM.
● Link 16 para interoperabilidade com forças da OTAN.
● Módulo DACAS (Data Acquisition and Control System).
● Suíte de autoproteção integrada.
● Sensores eletro-ópticos avançados e capacidade de operação monopiloto.
Essas características garantem total interoperabilidade, algo que o FMLA ainda teria que desenvolver e certificar.
Comparativo técnico: FMLA (proposto) vs. A-29 Super Tucano (realidade)
Para ilustrar a discrepância entre as duas abordagens, apresentamos uma tabela comparativa com os principais aspectos:
As vantagens estratégicas do Super Tucano para a Europa
1. Urgência operacional imediata: as ameaças atuais exigem respostas agora. O Super Tucano oferece essa resposta, com Portugal recebendo sua frota completa até 2028.
2. Custo-efetividade comprovada: economia de bilhões de euros, cadeia de suprimentos estabelecida e manutenção simplificada.
3. Solução verdadeiramente europeia: com a produção em Portugal, há criação de empregos, desenvolvimento de expertise técnica e fortalecimento da base industrial de defesa continental.
4. Interoperabilidade OTAN garantida: o A-29N foi projetado especificamente para padrões OTAN, com Link 16, SATCOM e compatibilidade com armamento padrão.
5. Preservação de ativos de alta capacidade: ao empregar o Super Tucano para missões de baixa intensidade, caças de 4,5ª e 5ª geração podem ser preservados para ameaças de alta intensidade.
6. Flexibilidade multimissão: uma única aeronave para treinamento avançado, apoio aéreo aproximado, reconhecimento armado, vigilância de fronteiras, missões anti-drone e interdição aérea.
7. Capacidade anti-drone imediata: uma resposta eficaz e de baixo custo para a ameaça crescente dos drones.
A "Síndrome do Não-Inventado-Aqui" e os riscos do FMLA
A insistência europeia no FMLA pode ser interpretada como a clássica "Síndrome do Não-Inventado-Aqui" (Not Invented Here - NIH). Embora argumentos como "independência estratégica" e "desenvolvimento de tecnologia própria" sejam válidos em tese, a realidade é que gastar bilhões para reinventar uma solução já testada em combate pode ser um desperdício. A portuguesa OGMA já está finalizando a montagem de uma aeronave "europeia" no sentido industrial, gerando empregos e expertise, o que deverá ser potencializado com a nova planta industrial em Beja.
Os riscos do projeto FMLA são palpáveis:
● Risco técnico: a física das hélices versus stealth é um desafio quase insuperável.
● Risco de cronograma: programas militares europeus têm um histórico notório de atrasos e estouros de orçamento, como visto no A400M, NH90 e Eurofighter.
● Risco de obsolescência: em 2035-2040, as tecnologias e ameaças terão evoluído drasticamente, tornando o FMLA potencialmente obsoleto antes mesmo de se tornar operacional.
Recomendações para a Europa: pragmatismo acima da ambição
Diante deste cenário, o documento sugere caminhos claros para a Europa:
Opção 1: cancelar FMLA e adotar o Super Tucano
- Expandir a produção do A-29N em Portugal e estabelecer acordos entre países da OTAN europeus.
- Investir os €15 milhões (orçamento FMLA) em upgrades e customizações europeias para o Super Tucano.
- Benefícios: capacidade operacional em 2026-2028, economia de bilhões de euros,
plataforma comprovada e risco técnico mínimo.
Opção 2: abordagem híbrida
- Adquirir aeronaves Super Tucano para as necessidade imediatas (2026-2030) e continuar a pesquisa do FMLA com expectativas realistas.
- Avaliar em 2030 se o FMLA ainda faz sentido.
Opção 3: redesenhar o FMLA realisticamente
- Abandonar os requisitos stealth, focar no custo-efetividade e acelerar o cronograma para 2030-2032.
- Colaborar com a Embraer para adaptar a tecnologia Super Tucano ao FMLA.
Uma escolha clara...
O contraste é evidente. O FMLA promete tecnologia questionável que talvez nunca se materialize a tempo das ameaças atuais. Já o Super Tucano acumula mais de 600 mil horas de voo, mais de 60 mil horas de combate, opera em 22 forças aéreas e conta agora com capacidade anti-drone. Não é promessa: é realidade operacional.
As palavras do ministro da Defesa português, Nuno Melo, sintetizam essa escolha com clareza: “O Super Tucano agora oferece a possibilidade de realizar missões anti-drone, demonstrando a flexibilidade da aeronave escolhida pela Força Aérea".
A decisão é estratégica. A Europa pode economizar bilhões de euros, obter capacidade operacional imediata e fortalecer uma base industrial de defesa real em Portugal. Ou pode perseguir um fantasma tecnológico que, quando, e se chegar, provavelmente já esteja ultrapassado por uma nova geração de ameaças.
A escolha inteligente é clara. A verdadeira questão é: a Europa terá a sabedoria de fazê-la?



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