Pesquisar este portal

05 janeiro, 2026

Exército Brasileiro avança em tecnologia de camuflagem multiespectral com apoio da FINEP

Convênio assinado em dezembro de 2025 viabiliza ampliação da Rede Urutau, sistema nacional que reduz detecção por drones e sensores termais 
 


*LRCA Defense Consulting - 05/01/2026

Em um movimento estratégico para fortalecer a autonomia tecnológica brasileira na área de defesa, o Exército Brasileiro e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) assinaram em 19 de dezembro um convênio para desenvolver tecnologias de camuflagem multiespectral. O projeto representa um avanço significativo na capacidade das Forças Armadas de enfrentar os desafios da guerra moderna, caracterizada pelo uso intensivo de sistemas não tripulados e sensores avançados.

A tecnologia que "engana" múltiplos sensores
A iniciativa busca ampliar as capacidades da Rede de Camuflagem Urutau, reduzindo as marcas deixadas por tropas e equipamentos nos espectros visível, infravermelho e de micro-ondas. Na prática, isso significa que viaturas, instalações e soldados se tornam mais difíceis de detectar não apenas a olho nu, mas também por câmeras infravermelhas, sensores térmicos e radares.

A Rede Urutau já demonstrou resultados expressivos em testes, com redução da assinatura térmica entre 10 e 12 graus Celsius, tornando equipamentos militares praticamente invisíveis para sensores térmicos que são amplamente utilizados em drones de vigilância e mísseis guiados modernos.

Uma rede de instituições em prol da inovação
O projeto mobiliza um conjunto robusto de instituições brasileiras. A Diretoria de Fabricação liderará as atividades, contando com o SENAI CETIQT, Instituto Militar de Engenharia, Centro de Avaliações do Exército, Centro Tecnológico do Exército, Centro de Instrução de Engenharia e Arsenal de Guerra de São Paulo como coexecutores.

Essa articulação entre diferentes competências – pesquisa acadêmica, desenvolvimento tecnológico, avaliação técnica e produção industrial – acelera a transferência de conhecimento e permite a validação das inovações em cenários realistas de emprego militar.

Resposta às ameaças contemporâneas
O cenário operacional atual é marcado pela proliferação de sensores avançados, especialmente câmeras infravermelhas e radares integrados a sistemas não tripulados. Conflitos recentes ao redor do mundo demonstraram como drones armados com tecnologia de detecção térmica podem causar danos devastadores a forças militares convencionais.

Diante dessa realidade, a camuflagem multiespectral deixa de ser um recurso opcional e se torna elemento essencial de sobrevivência no campo de batalha. A capacidade de ocultar simultaneamente as assinaturas visual, térmica e de radar amplia drasticamente as chances de proteção de tropas e equipamentos em operações.

Soberania tecnológica e Base Industrial de Defesa
A FINEP é uma empresa pública brasileira de fomento à ciência, tecnologia e inovação, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com atuação em toda a cadeia da inovação, desde a pesquisa básica até a preparação do produto para o mercado.

A parceria com a FINEP é vista como passo significativo para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira. O projeto fomenta a inovação em uma tecnologia classificada como crítica e interoperável pelo Ministério da Defesa, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros e fortalecendo cadeias produtivas nacionais.

Produção nacional já em andamento
O Arsenal de Guerra de São Paulo já produz as redes Urutau em três tamanhos padronizados: M1 (4,6×4,6m), M2 (13,7×9,2m) e M3 (18,4×13,7m). O Comando de Artilharia do Exército demonstrou interesse em equipar suas baterias de mísseis e foguetes com as novas redes, visando agregar mais capacidade de sobrevivência ao Sistema ASTROS, um dos principais sistemas de artilharia de saturação de área das Forças Armadas brasileiras.

Além dos padrões para ambiente de selva, o Arsenal desenvolveu protótipos de redes com padrões para caatinga e ambientes urbanos, demonstrando a adaptação da tecnologia à diversidade de biomas e cenários operacionais do território nacional.

O "rei da camuflagem"
O urutau, pássaro que dá nome à rede, também conhecido como mãe-da-lua, é uma ave noturna encontrada principalmente na América do Sul, incluindo o Brasil, famosa por seu aspecto enigmático e hábitos discretos. Durante o dia, ele permanece imóvel sobre galhos ou troncos quebrados, adotando uma postura ereta que imita perfeitamente a forma de um pedaço de madeira. Sua camuflagem é reforçada pela plumagem em tons de cinza, marrom e preto, com padrões irregulares que lembram casca de árvore, além de olhos semicerrados que reduzem reflexos. Essa combinação de forma, cor e comportamento torna o urutau extremamente difícil de ser percebido, protegendo-o de predadores e exemplificando uma das estratégias de camuflagem mais impressionantes da natureza, a ponto de o pássaro ser conhecido como "rei da camuflagem".

Implicações estratégicas
O desenvolvimento autônomo de tecnologias críticas de defesa possui múltiplas dimensões estratégicas. Primeiro, garante que as Forças Armadas não dependam de fornecedores externos em momentos de crise ou conflito. Segundo, impulsiona o desenvolvimento de competências técnicas e científicas nacionais. Terceiro, posiciona a indústria brasileira de defesa em condições de competir no mercado internacional.

O convênio FINEP-Exército reafirma o compromisso do país com soluções tecnológicas próprias para necessidades de defesa, alinhadas ao lema da Diretoria de Fabricação: "Produzir Soberania!". Em um mundo onde a superioridade tecnológica no campo de batalha pode decidir conflitos antes mesmo do primeiro disparo, investir em camuflagem multiespectral não é apenas uma questão técnica, mas uma decisão estratégica de primeira grandeza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).

Postagem em destaque