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30 janeiro, 2026

Polônia assina contrato de €3,4 bilhões para sistema anti-drone e avalia Super Tucano como complemento aéreo

Varsóvia formaliza maior programa europeu de defesa contra UAVs e estuda integrar aeronave brasileira em arquitetura multicamada 

 
 
*LRCA Defense Consulting - 30/01/2026

A Polônia deu um passo decisivo para consolidar-se como referência europeia em defesa contra drones ao assinar, nesta sexta-feira (30), o contrato para desenvolvimento do sistema SAN, descrito pelo primeiro-ministro Donald Tusk como uma capacidade "sem paralelo" no continente. O acordo, estimado em 15 bilhões de zlotys (aproximadamente €3,4 bilhões), foi formalizado em Kobyłka, nos arredores de Varsóvia, na presença de Tusk e do ministro da Defesa Władysław Kosiniak-Kamysz.
 
O programa SAN ficará a cargo de um consórcio liderado pelo grupo estatal de defesa PGZ, em parceria com a empresa privada polonesa APS e a norueguesa Kongsberg. O prazo de execução é de dois anos, período no qual serão construídas 18 baterias antidrone e mais de 700 veículos especializados.
 
O Sistema SAN: defesa terrestre integrada
O SAN representa uma abordagem multicamadas para neutralizar ameaças de veículos aéreos não tripulados (UAVs), combinando sensores avançados, comando e controle dedicado e uma gama diversificada de "efetores", termo militar para sistemas de neutralização.
 
A arquitetura do sistema integra:
 
Camada de sensores: radares ativos, sensores passivos e sistemas optrônicos trabalham em conjunto para detectar, rastrear e identificar drones em diferentes condições climáticas e de visibilidade.
 
Efetores cinéticos: canhões automáticos de 35mm, 30mm e 12,7mm com munição programável, mísseis de curto alcance e drones interceptadores (contra-drones) compõem o arsenal de resposta física.
 
Efetores não cinéticos: sistemas de guerra eletrônica e jamming permitem neutralizar drones por meio de interferência em suas comunicações e navegação, oferecendo opções de resposta graduada.
 
Comando e controle: uma rede integrada de C2 permite coordenação em tempo real entre as baterias, otimizando a alocação de recursos e a resposta a ameaças múltiplas.
 
Um "andar" na defesa aérea em camadas
Autoridades polonesas enfatizam que o SAN não é uma solução isolada, mas um componente essencial de uma arquitetura de defesa aérea estratificada. O sistema complementa:
 
Wisła (Patriot): focado em ameaças de média e alta altitude, incluindo aeronaves tripuladas e mísseis balísticos.
 
Narew (CAMM): cobertura de média altitude contra aeronaves e drones maiores.
 
Pilica/Pilica+: defesa de curtíssimo alcance contra ameaças de baixa altitude.
 
O SAN preenche especificamente a lacuna crítica entre esses sistemas, oferecendo resposta eficiente contra drones comerciais modificados, UAVs táticos e enxames de drones, ameaças que têm se multiplicado nos campos de batalha modernos, especialmente após a invasão russa da Ucrânia.
 
"O objetivo é enfrentar drones baratos e em massa com soluções de baixo custo e alta cadência de tiro", explicou Kosiniak-Kamysz, destacando a ineficiência de utilizar mísseis caros ou caças supersônicos para interceptar alvos de baixo valor unitário.
 
A dimensão aérea: entra o Embraer A-29 Super Tucano
Enquanto o SAN representa a solução terrestre, a Polônia avalia paralelamente adicionar uma camada aérea à sua defesa anti-drone, e é aqui que entra o brasileiro Embraer A-29 Super Tucano.
 
Em meados de janeiro de 2026, uma delegação militar polonesa liderada pelo Major-General Ireneusz Nowak visitou as instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Durante a visita, pilotos poloneses realizaram voos de familiarização com o A-29, avaliando especificamente suas capacidades contra drones do tipo Shahed, os mesmos UAVs de ataque que a Rússia tem empregado massivamente contra a Ucrânia.
 
"Definitivamente testaremos o Super Tucano e o examinaremos mais de perto", confirmou o General Nowak, sinalizando interesse concreto na plataforma brasileira.
 
 
Por que o Super Tucano?
A aeronave de ataque leve turboélice apresenta características ideais para missões de caça a drones:
 
Custo operacional: voar um A-29 custa uma fração do que representa operar um caça a jato — crucial para missões de patrulha contínua sobre áreas extensas.
 
Velocidade compatível: enquanto caças supersônicos têm dificuldade em voar lentamente o suficiente para engajar drones subsônicos (como o Shahed, que voa a aproximadamente 185 km/h), o Super Tucano opera confortavelmente nessa faixa de velocidade.
 
Sensores embarcados: o A-29 pode ser equipado com pods de sensores eletrônicos e optrônicos que permitem detectar e rastrear drones a distâncias seguras.
 
Armamento flexível: a aeronave pode empregar desde metralhadoras e canhões até foguetes e mísseis guiados, oferecendo opções para diferentes cenários de engajamento.
 
Autonomia: com capacidade de voar por horas em missões de patrulha, o Super Tucano pode manter presença aérea persistente sobre áreas vulneráveis.
 
A Embraer formalizou recentemente a expansão oficial do portfólio de missões do A-29 para incluir explicitamente operações contra-drone (C-UAS), aproveitando sistemas e capacidades já existentes na plataforma, o que facilita sua integração em arquiteturas de defesa como a que a Polônia está desenvolvendo.
 
Arquitetura integrada: terrestre + aérea
A visão estratégica polonesa aponta para uma defesa anti-drone verdadeiramente abrangente, onde SAN e Super Tucano desempenhariam papéis complementares:
 
Defesa territorial (SAN): proteção de pontos críticos — bases militares, infraestrutura energética, centros urbanos — com resposta rápida e automatizada contra drones que penetrem o espaço aéreo protegido.
 
Caça aérea (A-29): interceptação de drones em profundidade, antes que atinjam áreas protegidas, atuando como "hunters" que patrulham rotas conhecidas de aproximação ou respondem a alertas de detecção precoce.
 
Integração C2: ambos os sistemas operariam sob comando e controle unificado, compartilhando dados de sensores e coordenando respostas, por exemplo, o SAN poderia direcionar o A-29 para interceptar alvos além de seu alcance, enquanto a aeronave poderia fornecer reconhecimento aéreo para as baterias terrestres.
 
Contexto estratégico
O investimento polonês em defesa anti-drone não é acidental. Como nação fronteiriça da OTAN no flanco oriental, a Polônia tem registrado múltiplas violações de seu espaço aéreo por drones, alguns confirmadamente russos, outros de origem incerta.
 
Um incidente em setembro de 2025, descrito por Tusk como "nosso pesadelo", evidenciou "quão inadequados" são sistemas convencionais de defesa aérea para lidar com pequenos drones. A tentativa de abater UAVs com caças supersônicos ou mísseis antiaéreos de alto custo provou-se tanto economicamente insustentável quanto operacionalmente ineficaz.
 
O conflito na Ucrânia tem demonstrado diariamente como drones baratos podem saturar defesas sofisticadas, causar danos desproporcionais ao seu custo e drenar arsenais de interceptadores caros. A resposta polonesa (sistemas terrestres dedicados combinados com plataformas aéreas de baixo custo) reflete lições aprendidas desse conflito.
 
Investimento tota  e cronograma
O ministro Kosiniak-Kamysz revelou que o programa SAN faz parte de um investimento total polonês em defesa aérea que alcança aproximadamente 250 bilhões de zlotys (cerca de 57 bilhões de euros), incluindo os programas Wisła, Narew e outros sistemas. 
 
O SAN especificamente deve entrar em operação inicial dentro de dois anos, embora a capacidade plena das 18 baterias provavelmente seja alcançada de forma gradual.
 
Quanto ao Super Tucano, não há ainda decisão formal de aquisição. A visita de janeiro representa a fase de avaliação técnica, que deve ser seguida por análises operacionais e negociações contratuais, caso a Polônia decida prosseguir. Fontes do setor de defesa estimam que uma eventual aquisição envolveria entre 12 e 24 aeronaves, suficientes para manter cobertura aérea sobre as áreas mais sensíveis do território polonês.
 
 
Implicações para a OTAN
O desenvolvimento polonês é observado com atenção por outros membros da Aliança Atlântica. Países bálticos, Romênia e mesmo nações da Europa Ocidental enfrentam desafios semelhantes de drones, seja por violações do espaço aéreo, seja por preparação para cenários de conflito.
 
Um sistema SAN bem-sucedido poderia tornar-se referência para outros aliados, potencialmente com vendas de exportação pela indústria polonesa. Da mesma forma, a validação operacional do Super Tucano em missões C-UAS na Europa poderia abrir mercado significativo para a Embraer em um continente que até recentemente não considerava aeronaves turboélice para funções de combate.
 
Mudança de paradigma na defesa aérea
A Polônia está construindo uma das mais abrangentes capacidades anti-drone da Europa, combinando inovação tecnológica, lições dos conflitos modernos e pragmatismo estratégico. O sistema SAN representa a fundação terrestre dessa capacidade, enquanto o possível Super Tucano adicionaria mobilidade e alcance aéreo.
 
Mais que sistemas isolados, SAN e A-29 exemplificam uma mudança de paradigma na defesa aérea: reconhecer que ameaças assimétricas de baixo custo exigem respostas igualmente criativas, onde efetividade e sustentabilidade econômica pesam tanto quanto sofisticação tecnológica.
 
Para o Brasil e a Embraer, o interesse polonês valida o reposicionamento estratégico do Super Tucano como plataforma C-UAS, potencialmente abrindo mercados em uma Europa que desperta para novas ameaças e busca soluções além dos caças supersônicos convencionais. 

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