A decisão que Tony Fernandes, CEO da Capital A Bhd, controladora da AirAsia, anunciará no próximo mês pode representar um ponto de virada histórico para a aviação comercial na Ásia-Pacífico. A companhia aérea está prestes a escolher entre os jatos regionais da Airbus (A220) e da Embraer (família E2) em uma encomenda que, segundo Fernandes, será "maior do que a relatada anteriormente", superando as estimativas iniciais de 100 a 150 aeronaves.
O que torna essa disputa ainda mais intrigante é que, pela primeira vez em décadas, a fabricante brasileira Embraer tem chances concretas de quebrar o domínio europeu em uma das companhias aéreas de baixo custo mais importantes do mundo. E os sinais de que isso pode acontecer são mais fortes do que muitos observadores imaginam.
O contexto: uma reestruturação que muda tudo
A AirAsia passa por sua maior transformação desde a fundação
em 2001. Depois de sobreviver à crise da pandemia sem ajuda governamental, um
feito raro no setor, a companhia concluiu recentemente seu processo de
reestruturação financeira sob o regime PN17 da Malásia. Agora, com as finanças
estabilizadas, Fernandes está redesenhando completamente a estratégia de frota.
O movimento mais significativo foi o cancelamento do pedido de 15 aeronaves Airbus A330neo, sinalizando uma mudança radical de filosofia. Em vez de apostar em jatos de longo alcance e alta capacidade, a AirAsia quer jatos regionais menores para criar uma rede hub-and-spoke ao estilo americano, conectando destinos menores através de centros de conexão.
"Ter uma aeronave com 240 assentos não me permite atender muitos destinos pequenos", explicou Fernandes à Reuters. "Minha filosofia é sobre frequência, conectar ponto a ponto o máximo possível".
Essa visão estratégica favorece naturalmente aeronaves na faixa de 100 a 150 assentos, exatamente o segmento onde a família E2 da Embraer compete diretamente com o A220 da Airbus.
Por que a Embraer tem chances reais
Historicamente, Tony Fernandes sempre foi visto como um
cliente fiel à Airbus. Toda a frota atual da AirAsia é composta por aeronaves
do fabricante europeu: 258 jatos da família A320 e A330. Além disso, a
companhia tem 347 pedidos pendentes de A321neo, incluindo 50 unidades do modelo
de longo alcance A321XLR.
Mas há sinais concretos de que, desta vez, a competição pode ser diferente:
1. O momentum da E2 na Ásia-Pacífico
A Embraer vem ganhando terreno significativo na região. A Scoot, subsidiária de baixo custo da Singapore Airlines, tornou-se a primeira
operadora do Sudeste Asiático a adotar o E190-E2, recebendo nove unidades entre
2024 e 2025. O sucesso dessa operação abriu portas que antes pareciam fechadas.
"Isso abre as portas, não apenas com a Scoot, mas com todas as companhias aéreas no Sudeste Asiático, que junto com o Sul da Ásia, era o mercado mais difícil para nós penetrarmos", afirmou Raul Villaron, vice-presidente sênior de vendas da Embraer para a Ásia-Pacífico.
A Virgin Australia também firmou pedidos para E2s, e a All Nippon Airways (ANA), um cliente tradicionalmente conservador, surpreendeu o mercado ao encomendar 15 E190-E2 em 2025, sua primeira compra da Embraer.
2. Performance técnica superior em rotas específicas
O E195-E2 oferece vantagens técnicas específicas que podem
ser decisivas para a estratégia da AirAsia. A aeronave pode decolar de pistas
com apenas 1.300 metros de comprimento, capacidade que permite acesso a
aeroportos regionais menores e que o A220 não consegue atender com a mesma
eficiência.
Para uma companhia que quer conectar destinos menores através de hubs, essa capacidade de operar em aeroportos com infraestrutura limitada é um diferencial estratégico importante.
3. Melhor economia de combustível no segmento
A Embraer promove o E2 como "o jato de fuselagem
estreita pequeno mais eficiente do mundo", uma reivindicação que tem
respaldo em dados operacionais. Para uma companhia aérea de baixo custo como a
AirAsia, onde cada ponto percentual de economia de combustível impacta
diretamente a lucratividade, essa eficiência pode compensar outros fatores.
4. Flexibilidade de financiamento e prazos de entrega
Enquanto a Airbus enfrenta uma carteira de pedidos lotada
até meados da década de 2030, a Embraer tem mais flexibilidade para acelerar
entregas. Fernandes mencionou que precisa de aeronaves operacionais até 2027, um prazo que pode favorecer a fabricante brasileira.
Além disso, a Embraer tem trabalhado ativamente com arrendadores como a Azorra para oferecer soluções de financiamento competitivas, crucial para uma companhia que acabou de sair de reestruturação financeira.
5. Treinamento simplificado de pilotos
Um ponto frequentemente subestimado é a facilidade de
transição. Pilotos migrando de jatos E-Jets antigos para a família E2 precisam
de apenas dois dias de treinamento, uma economia operacional significativa. A
Embraer inaugurou um centro de treinamento completo em Singapura em 2024, com
simuladores de última geração.
A estratégia agressiva da Embraer
Não é coincidência que a Embraer esteja investindo
pesadamente na Ásia-Pacífico justamente agora. A fabricante brasileira
identificou a região como seu principal alvo de crescimento e está executando
uma estratégia de "proximidade", mantendo peças, treinamento e
suporte técnico próximos aos operadores.
Em setembro de 2025, Fernandes admitiu à publicação especializada Skift que está "deixando tanto a Airbus quanto a Embraer loucos" com as negociações. "Ainda estamos passando por essa avaliação. Faz parte do meu grande plano mestre de fornecer conectividade", disse.
Essa declaração revela duas coisas: primeiro, que as negociações estão realmente equilibradas; segundo, que Fernandes está usando a competição para extrair as melhores condições possíveis.
Os desafios da Embraer
Apesar das perspectivas favoráveis, a Embraer enfrenta
obstáculos significativos:
- Influência política: a Airbus conta com o apoio dos governos europeus, especialmente França e Alemanha, que historicamente usam influência diplomática para fechar negócios. O Brasil, embora tenha peso econômico crescente, não possui a mesma força geopolítica na Ásia.
- Histórico de relacionamento: a AirAsia opera exclusivamente Airbus há mais de duas décadas. Introduzir um novo fabricante significa complexidades operacionais, custos de treinamento e necessidade de novas cadeias de suprimento.
- Questões com motores Pratt & Whitney: tanto o E2 quanto o A220 usam motores GTF (Geared Turbofan) da Pratt & Whitney, que enfrentaram problemas de confiabilidade em 2025. No entanto, a Embraer reportou em fevereiro de 2026 que apenas cinco E2s ainda estavam no solo devido a problemas com motores, uma melhora drástica dos 35 jatos que chegaram a ficar parados no pico da crise.
- Tradição de "jogo duro" de Fernandes: analistas do setor apontam que Fernandes tem histórico de usar fabricantes concorrentes como alavanca para conseguir melhores preços da Airbus. Em 2015, ele visitou o estande da Bombardier (então fabricante do que hoje é o A220) na feira de Le Bourget, uma visita que durou 20 minutos e resultou em nada, mas que garantiu condições melhores com a Airbus logo depois.
Por que desta vez pode ser diferente
Mas há razões para acreditar que, desta vez, não se trata
apenas de táticas de negociação:
- Necessidade
real de diversificação: a AirAsia precisa genuinamente de aeronaves
menores para sua nova estratégia. O A220, embora menor que o A320, ainda
pode ser grande demais para algumas rotas que Fernandes quer desenvolver.
- Momento
financeiro da Embraer: a fabricante brasileira teve um 2025
excepcional, com 154 pedidos firmes para a família E2, um recorde.
Empresas como Avelo Airlines (50 E195-E2 + 50 opções), LATAM (24 + 50
opções) e Porter Airlines (30 unidades) demonstram que o E2 está
conquistando até clientes tradicionais da Airbus.
- Maturidade
do produto: diferente da tentativa de venda do C-Series/A220 anos
atrás, a família E2 hoje é um produto maduro, com operações comprovadas em
múltiplos continentes e diferentes condições climáticas.
- Aposta estratégica regional: a AirAsia poderia se tornar a "âncora" da Embraer no Sudeste Asiático, um papel que a fabricante brasileira precisa para ganhar escala na região. Isso poderia resultar em condições comerciais excepcionalmente favoráveis.
O que está em jogo
Esta não é apenas uma transação comercial. Para a Embraer,
vencer este pedido significaria:
- Estabelecimento definitivo no mercado de baixo custo asiático;
- Validação do E2 como alternativa real ao domínio Airbus-Boeing;
- Plataforma para conquistar outros operadores regionais que observam de perto.
Para a AirAsia, a escolha definirá:
- A arquitetura de sua rede pelos próximos 15-20 anos;
- A capacidade de executar sua visão de hub regional;
- O custo operacional e a competitividade frente a rivais.
O anúncio iminente
Fernandes afirmou que a decisão virá "no próximo
mês", uma promessa que já foi adiada algumas vezes enquanto a companhia
finalizava o financiamento. Mas agora, com a reestruturação concluída e o plano
estratégico definido, o anúncio parece iminente.
A indústria da aviação observa atentamente. Se a Embraer conseguir essa vitória, será um dos maiores feitos comerciais da fabricante brasileira, comparável apenas à entrada no mercado norte-americano décadas atrás.
E mesmo que a Airbus mantenha sua histórica dominação, o simples fato de a Embraer ter chegado tão longe nas negociações já representa uma mudança fundamental na dinâmica competitiva da aviação regional asiática.
A resposta virá em breve. E pode surpreender o mercado.
Tony Fernandes, conhecido por transformar a AirAsia de uma companhia falida em uma das maiores operadoras de baixo custo do mundo, está prestes a tomar uma das decisões mais importantes de sua carreira. E a Embraer pode estar mais perto de uma vitória histórica do que muitos imaginam.


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