Com contratos conquistados na Malásia, nas Filipinas e agora no próprio Exército Brasileiro, a Mertsav Savunma Sistemleri chegou ao radar mundial de defesa como um fornecedor silencioso de metralhadoras de alta performance. Não por acaso, é ela que a Taurus quer comprar
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| Metralhadora pesada Mertsav MHMG-127 com calibre 12,7mm (.50) |
*LRCA Defense Consulting - 05/04/2026
Há poucos anos, o nome Mertsav Savunma Sistemleri era praticamente desconhecido fora da indústria de defesa turca. A empresa não tinha o apelo de gigantes como FN Herstal ou Heckler & Koch, tampouco a visibilidade de fabricantes estatais. Operava nos bastidores: fornecia peças críticas para a indústria estatal turca, fabricava componentes de armas famosas sob encomenda e acumulava, em silêncio, mais de duas décadas de expertise no segmento mais exigente da indústria armamentista: as armas coletivas.
Hoje, a Mertsav vende para o Exército da Malásia, assinou contrato com os Fuzileiros Navais das Filipinas, fornecerá metralhadoras ao Exército Brasileiro e está na iminência de ser adquirida pela Taurus Armas, a maior vendedora de armas leves do mundo. A trajetória da empresa turca é, ela mesma, a melhor explicação para o interesse brasileiro.
Quem é a Mertsav: da subcontratação ao produto próprio
A Mertsav iniciou suas atividades em 1994 com a produção de
espingardas. Após 1997, passou a atuar exclusivamente na indústria de defesa.
Com mais de 20 anos de experiência, forte capacidade de design e engenharia e
equipamentos de última geração, tornou-se o maior fornecedor da Fábrica de
Armas da MKE, empresa estatal turca, por mais de duas décadas, produzindo as
peças principais mais críticas de armas como MG-3, G-3, MP-5, HK-33 e
lançadores de granadas, muitas vezes como fornecedora exclusiva de componentes, como canos e mecanismos.
Ao longo desse período, produziu também componentes dos fuzis MPT-76 e MPT-55, projetos da Presidência das Indústrias de Defesa da Turquia. Essa expertise fez da Mertsav um dos mais importantes fornecedores da MKEK, das Forças Armadas turcas (TSK) e da Direção Geral de Segurança (EGM).
Com a abertura do setor privado de defesa turco, a empresa deu um salto qualitativo: deixou de ser apenas fornecedora de componentes e passou a desenvolver e fabricar seus próprios sistemas. Seu portfólio atual inclui a MHMG-127, metralhadora pesada calibre 12,7mm com velocidade de boca de 850 m/s, projetada para engajamentos de longa distância e alta cadência contra alvos terrestres e aéreos, além da metralhadora MMG762, calibre 7,62mm NATO, e da MMG556, metralhadora leve 5,56mm NATO com três opções de comprimento de cano, compatível com carregadores STANAG e sistema de alimentação por correia M27.
Atualmente, a empresa possui três unidades de produção em Istambul e na Área Industrial de Defesa de Kırıkkale.
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| Metralhadora pesada Mertsav MHMG-127 com calibre 12,7mm (.50) |
As vendas que provam o produto: Malásia, Filipinas e
Brasil
O cartão de visitas mais convincente da Mertsav não está nos
catálogos, mas sim nos contratos assinados.
- Malásia: o Exército malaio abriu licitação para a aquisição de 86 metralhadoras pesadas 12,7mm. Com 14 concorrentes habilitados e preços variando entre RM 14 e RM 14,6 milhões, o contrato foi adjudicado à Kazakon Sdn Bhd, agente local da Mertsav na Malásia, pelo valor de RM 14,086 milhões. A empresa havia exibido os armamentos da fabricante turca na DSA 2024, a principal feira de defesa do Sudeste Asiático. O produto entregue será a MHMG-127, versão da Browning M2, uma das metralhadoras pesadas mais utilizadas no mundo.
- Filipinas: em julho de 2025, o Corpo de Fuzileiros Navais das Filipinas concedeu à Mertsav a licitação para o fornecimento de 95 metralhadoras MMG762, calibre 7,62mm, pelo valor de cerca de 115 milhões de pesos filipinos. A empresa foi a única licitante a atender todos os requisitos técnicos e financeiros do edital. O contrato foi assinado por meio da representante local Wirox International Trading e destinou-se, provavelmente, ao Grupo de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais. A MMG762 é considerada uma versão aprimorada da FN Minimi 7,62 (Maximi/Mk.48), e analistas filipinos apontam que a empresa pode igualmente concorrer no processo de aquisição de metralhadoras 5,56mm do Exército filipino com o modelo MMG556.
Vale ainda registrar que, nessa mesma disputa pelas Filipinas, a Mertsav e a Taurus participaram de uma licitação separada para fuzis 5,56mm, como concorrentes. A joint venture Nashe Enterprises/Mertsav ficou em terceiro lugar, enquanto a Taurus ficou em segundo, ambas superadas pela sul-coreana Dasan Machineries. A cena é reveladora: as duas empresas já orbitam os mesmos mercados, disputando os mesmos clientes e, em breve, podem estar do mesmo lado do balcão.
- Brasil: o caso mais significativo veio do próprio
país sede da Taurus. Conforme revelado pelo CEO Salesio Nuhs em live realizada
em 25 de março de 2026, a Taurus venceu uma licitação internacional, via
Estados Unidos, para o fornecimento de 300 metralhadoras Mertsav MMG762 7,62mm ao
Exército Brasileiro. A informação representa um dado de peso: antes mesmo de a
aquisição da empresa turca ser concluída, as armas da Mertsav já estão sendo
compradas para equipar as próprias Forças Armadas do país que quer comprá-la.
O acordo com a Marinha: tecnologia turca com uniforme
brasileiro
Se os contratos internacionais revelam o alcance comercial
da Mertsav, o protocolo firmado com a Marinha do Brasil em 10 de fevereiro de
2026 revela algo ainda mais importante: a intenção de transformar tecnologia
turca em capacidade industrial brasileira.
A Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), celebrou um Protocolo de Intenções com a Taurus para o desenvolvimento de novos sistemas de armas leves e coletivas. A cerimônia, realizada na histórica Fortaleza de São José, no Centro do Rio de Janeiro, contou com o apoio institucional do BNDES.
Segundo informações apresentadas durante o evento, os projetos de metralhadoras nos calibres 5,56mm e 7,62mm terão como base exatamente o projeto Mertsav, fundamentado nos modelos MMG762 e MMG556. A metralhadora calibre .50 será baseada no modelo MHMG-127. Também está previsto o desenvolvimento de um fuzil de assalto baseado no modelo MAR556 da empresa turca.
O CEO Salesio Nuhs foi direto ao anunciar o acordo: "Estamos dando um passo decisivo dentro da Taurus, indo em direção ao mercado de armamento militar, que são as Minimi em calibre 5,56mm, a 7,62mm, e a .50. Isso é uma tecnologia que nós estamos desenvolvendo. O Brasil, a nossa Base Industrial de Defesa, tem que ampliar os seus horizontes."
O Comandante-Geral do CFN, Almirante de Esquadra Carlos Chagas Vianna Braga, reforçou a dimensão operacional da iniciativa: "O armamento empregado pelo Fuzileiro Naval deve ser sempre o mais confiável. Disso depende a segurança dele, de todas as pessoas que estão à sua volta e daqueles que ele está protegendo. Assim, a busca por armamento desenvolvido especificamente para atender plenamente aos nossos requisitos operacionais representa uma excelente oportunidade."
A presença do BNDES não foi protocolar. O presidente da instituição, Aloizio Mercadante, formalizou o apoio por documento oficial, destacando que a parceria está em plena sintonia com a Nova Indústria Brasil. A Missão 6 da NIB, voltada para a defesa nacional, conta com R$ 112,9 bilhões em investimentos até 2026, sendo R$ 79,8 bilhões de recursos públicos e R$ 33,1 bilhões do setor privado. O banco sinalizou que poderá analisar apoio financeiro a projetos futuros que gerem avanços tecnológicos e maior conteúdo local.

Uma das unidades de produção da Mertsav na Turquia
A proposta e o que vem depois
O movimento da Taurus em direção à Mertsav não começou em
2026. Em 1º de abril de 2025, durante a LAAD, maior feira de defesa da América
Latina, as duas empresas assinaram o primeiro Memorando de Entendimentos
(MoU). As negociações acumularam sucessivas prorrogações de prazo: em outubro
de 2025, o MoU foi renovado até novembro, com extensão automática por mais dois
meses.
Em 2 de abril de 2026, um ano após o início das tratativas, a Taurus formalizou uma proposta não vinculante para a aquisição do controle acionário da Mertsav. Segundo a companhia, a proposta não implica obrigação entre as partes, e para que a operação avance, ainda será necessário concluir as negociações, realizar auditorias, formalizar documentos definitivos e obter aprovações regulatórias.
O CEO confirmou que, caso a aquisição se concretize, as armas serão produzidas também na fábrica no Brasil, sem desativar as unidades turcas, o que transformaria a Taurus Turquia na quarta unidade produtiva da empresa no mundo.
Para analistas do setor, o conjunto de evidências é eloquente. A eventual aquisição representaria a primeira vez que uma empresa brasileira absorve tecnologia estrangeira de ponta no segmento de armas coletivas com o objetivo explícito de desenvolver capacidade nacional de produção e exportação. Mais do que uma compra corporativa, seria um salto de identidade: a Taurus deixaria de ser apenas a maior vendedora mundial de armas leves para se tornar, também, um fabricante completo de sistemas militares, do calibre .22 LR ao .50 BMG.
A Mertsav, por sua vez, deixaria de ser a empresa turca que poucos conhecem. Passaria a ser a tecnologia que equipa os Fuzileiros Navais e o Exército do Brasil.



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