Memorando assinado em Santiago abre caminho para negociações governamentais e coloca tecnologia nacional, como o Link-BR2 e o WAD do Gripen, no radar do mercado internacional
*LRCA Defense Consulting - 15/04/2026
Em meio à maior feira aeroespacial da América Latina, a FIDAE 2026, o Brasil deu mais um passo concreto para ampliar sua presença no mercado global de defesa. A ALADA - Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A. firmou um novo acordo estratégico no setor de Defesa e Segurança com a AEL Sistemas, ampliando sua atuação no modelo de exportações governamentais (G2G).
A cerimônia de assinatura do Memorando de Entendimento (MoU) reuniu executivos das duas empresas e simboliza uma aposta coordenada do Estado brasileiro na internacionalização de sua Base Industrial de Defesa (BID). O evento ocorreu no contexto de uma ofensiva diplomática mais ampla do Ministério da Defesa, que aproveitou a vitrine chilena para consolidar acordos com parceiros estratégicos.
O que está em jogo: tecnologia nacional de ponta
No centro do acordo estão produtos que sintetizam a maturidade
tecnológica alcançada pela indústria brasileira de defesa. Entre eles estão o
Link-BR2, voltado para comunicações seguras e interoperáveis, e o WAD,
empregado no caça Saab F-39 Gripen operado pela Força Aérea Brasileira. Esses
equipamentos representam um salto na capacidade da Base Industrial de Defesa
brasileira, consolidando o país como fornecedor competitivo em um setor
altamente exigente.
O Link-BR2 é um sistema de enlace de dados tático que permite a comunicação segura entre aeronaves e plataformas terrestres e navais. Já o WAD (Wideband Airborne Datalink) integra a aviônica do Gripen E/F, caça de quinta geração que está sendo parcialmente fabricado no Brasil em parceria com a sueca Saab. Ambos os sistemas são desenvolvidos pela AEL Sistemas, empresa gaúcha com décadas de experiência em eletrônica embarcada para aplicações militares.
Os protagonistas e suas visões
Do lado da ALADA, o presidente Sergio Roberto de Almeida foi enfático ao
destacar o que o acordo representa para a projeção do Brasil no exterior.
Segundo ele, "a assinatura deste memorando com a AEL reforça o compromisso
da ALADA em promover soluções de alto valor da indústria nacional no mercado
internacional. A qualidade tecnológica de produtos como o WAD, utilizado no
Gripen, e o Link-BR2, evidencia o potencial competitivo do Brasil."
Pela AEL Sistemas, o diretor de Desenvolvimento de Negócios, Samir Mustafá, situou o acordo dentro de uma visão de longo prazo para a cooperação industrial entre o Brasil e nações parceiras. Para Mustafá, "a formalização deste memorando representa um passo inicial para a construção de uma relação estruturada no campo da Defesa, com foco em soluções tecnológicas e integração industrial. A parceria também abre espaço para potenciais negociações no modelo governo a governo (G2G), fortalecendo a cooperação institucional e as relações estratégicas entre o Brasil e parceiros internacionais."
A ALADA como novo braço exportador do Estado
Para compreender o significado do acordo, é necessário entender o papel
crescente que a ALADA vem assumindo na arquitetura institucional da defesa
brasileira. A iniciativa reforça o papel da ALADA como articuladora de
oportunidades para a Base Industrial de Defesa (BID), especialmente em
negociações que envolvem contratos diretos entre governos. A empresa foi
recentemente designada pelo Ministério da Defesa como entidade autorizada a
conduzir esse tipo de contratação em nome do Estado brasileiro, consolidando
sua posição institucional nesse segmento.
Trata-se de uma mudança relevante na forma como o Brasil estrutura suas exportações de defesa. Em vez de relegar esse processo exclusivamente à iniciativa privada, o país passa a dispor de um veículo estatal capaz de negociar contratos de governo a governo, uma modalidade que oferece maior segurança jurídica, agilidade diplomática e possibilidade de incluir cláusulas de transferência de tecnologia e suporte logístico de longo prazo.
O modelo G2G tem ganhado relevância internacional por oferecer maior previsibilidade e segurança nas transações, além de facilitar acordos mais amplos que incluem treinamento, suporte logístico e transferência de conhecimento. Nesse cenário, a atuação da ALADA se torna central ao conectar empresas da Base Industrial de Defesa com oportunidades internacionais em nível governamental.
AEL Sistemas: um gigante pouco conhecido do grande
público
A AEL Sistemas é hoje uma das empresas mais relevantes (e menos visíveis
ao público em geral) da indústria de defesa brasileira. Com mais de 460
colaboradores e cerca de 190 engenheiros dedicados à inovação, a AEL Sistemas é
um dos principais expoentes da Base Industrial de Defesa brasileira. A empresa
é referência no desenvolvimento de sistemas embarcados, aviônicos e soluções de
comando e controle, atendendo às demandas das Forças Armadas no Brasil e no
exterior. Atualmente, mais de 50% do faturamento da companhia é proveniente de
exportações, evidenciando sua competitividade global.
Reconhecida por sua competência em engenharia de sistemas complexos e software crítico, a AEL participa de programas estratégicos da Defesa Nacional, contribuindo para o fortalecimento da BID e para a autonomia tecnológica do Brasil. A empresa integra cadeias globais de tecnologia sensível, mantendo elevados padrões de qualidade, certificação e segurança da informação.
O fato de mais da metade do faturamento vir do exterior já coloca a AEL em uma posição diferenciada em relação a muitas outras empresas da BID brasileira, que ainda dependem majoritariamente de contratos domésticos com as Forças Armadas.
Um sinal de amadurecimento da indústria nacional
A parceria entre ALADA e AEL não deve ser lida de forma isolada. Ela se
insere em um movimento mais amplo de consolidação da indústria de defesa
brasileira como fornecedor internacional relevante. O Programa F-X2, que
resultou na adoção do Gripen E/F pela FAB, impôs um extenso programa de
transferência de tecnologia que elevou significativamente as capacidades da
BID. Empresas como a própria AEL, a Embraer Defesa & Segurança e outras
foram beneficiárias desse processo.
A parceria com a AEL também sinaliza um momento de amadurecimento da indústria de Defesa no Brasil, que busca expandir sua presença global e aumentar a exportação de tecnologias desenvolvidas no país. O movimento fortalece a autonomia tecnológica nacional e cria novas oportunidades econômicas em um setor considerado estratégico para a soberania e o desenvolvimento industrial.
O cenário geopolítico global, marcado pelo aumento dos gastos militares em diversas regiões e pela busca por diversificação de fornecedores, especialmente após as tensões geradas pela guerra na Ucrânia, também cria uma janela de oportunidade para países como o Brasil, que oferecem tecnologia competitiva sem os ônus políticos associados aos grandes exportadores ocidentais ou à Rússia e à China.
Próximos passos: do memorando ao contrato
Como todo Memorando de Entendimento, o documento assinado em Santiago não
representa ainda um compromisso comercial concreto. Ele estabelece um marco de
intenções e abre formalmente o caminho para negociações mais detalhadas. O
verdadeiro teste da parceria estará na capacidade das duas empresas, bem como do
aparato diplomático e institucional do Estado brasileiro, de identificar
mercados-alvo, estruturar propostas competitivas e fechar negócios G2G
efetivos.
A presença do Brasil na FIDAE 2026 com um estande denominado "Espaço Brasil", articulando múltiplas empresas e instituições, indica que há uma estratégia de projeção coordenada em curso. O acordo ALADA-AEL é, nesse sentido, um dos frutos mais visíveis dessa articulação.
Para um país com ambições de se tornar um exportador relevante de sistemas de defesa de alto valor tecnológico, cada memorando conta. O desafio agora é transformar intenções em contratos, e contratos em presença permanente nos mercados internacionais de segurança e defesa.

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