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01 abril, 2026

IDV inaugura nova linha de produção em Sete Lagoas para fabricar o blindado Guaicurus

Fábrica mineira inicia a produção em série do LMV-BR 2, dando corpo a um contrato bilionário de 420 viaturas que se insere no mais amplo esforço de modernização das Forças Blindadas brasileiras


*LRCA Defense Consulting - 01/04/2026

A Iveco Defence Vehicles (IDV), braço de defesa do Grupo Leonardo, inaugurou nesta semana uma nova linha de produção em sua unidade fabril de Sete Lagoas (MG), voltada exclusivamente para a fabricação do LMV-BR 2 "Guaicurus", a Viatura Blindada Multitarefa Leve Sobre Rodas (VBMT-LSR) 4x4 de segunda geração destinada ao Exército Brasileiro. O marco formaliza o início da produção em série de um dos projetos mais aguardados da indústria de defesa nacional.

A inauguração representa o passo operacional mais concreto desde a assinatura, em julho de 2024, do contrato entre o Exército Brasileiro e a IDV. O documento foi assinado pela Diretoria de Fabricação (DF), na figura do seu Diretor, General de Divisão Tales Villela, e pelo Presidente da IDV LATAM, Humberto Spinetti, para a obtenção por nacionalização de 420 Viaturas Blindadas Multitarefa – Leve Sobre Rodas (VBMT-LSR) 4x4 Guaicurus, no escopo do Programa Estratégico do Exército Forças Blindadas, a serem entregues à Força Terrestre nos próximos dez anos. O valor do contrato é de 1,4 bilhão de reais, equivalente a cerca de 235 milhões de euros.

Primeiras entregas previstas para junho
De acordo com declarações de Humberto Marchioni Spinetti, presidente da IDV Latin America, em entrevista à revista Tecnologia & Defesa, a linha de produção estava praticamente concluída e a previsão era de que a primeira viatura começasse a ser produzida no primeiro trimestre de 2026, com entrega prevista para junho, com o compromisso de entregar 15 viaturas ainda este ano e uma média de 55 unidades nos anos seguintes, até 2034.

O veículo: evolução tecnológica com indústria nacional
O LMV-BR 2 é uma viatura 4x4 da classe de oito toneladas. O LMV-BR2 é uma evolução direta do consagrado LMV, incorporando inovações tecnológicas da versão LMV-2, porém mantendo o mesmo peso. Diferente do LMV-2, mais pesado e desenvolvido para requisitos da OTAN, o modelo brasileiro será produzido na fábrica da IDV em Sete Lagoas.

Um detalhe relevante é a identidade do fornecedor do sistema de armas remoto: as viaturas serão produzidas em duas variantes, uma com Sistema de Armas Manual e outra equipada com o Sistema de Armas RCWS REMAX, produzido pela ARES, empresa do Rio de Janeiro. Além disso, o contrato engloba, além das plataformas veiculares, os serviços de integração dos sistemas de armas automatizado e de comando e controle, bem como a obtenção de ferramentais especiais para a manutenção da viatura.

Em termos de proteção, o LMV conta com cidadela blindada para a tripulação, casco em V e estrutura sanduíche recolhível no piso para deflectir e absorver explosões de minas. O sistema de armadura modular permite a instalação de proteção adicional conforme necessário. 

 

Meta de 50% de nacionalização e supervisão militar
Um dos pilares mais estratégicos do programa é a progressiva incorporação da indústria nacional. A contratação visa atingir níveis de nacionalização de, no mínimo, 50% do veículo ao final da obtenção, por meio de três pilares principais: construção de infraestrutura local no Brasil para montagem das viaturas; fabricação de componentes em território nacional, fomentando a Base Industrial de Defesa (BID); e capacitação de mão de obra qualificada, gerando notável quantidade de novos empregos, diretos e indiretos.

Outro aspecto inédito deste contrato é a presença permanente de engenheiros militares na fábrica: o contrato permitirá que o Exército Brasileiro, por meio de sua comissão de engenheiros militares que trabalha nas instalações da empresa em Sete Lagoas, possa acompanhar os processos de fabricação e de nacionalização, proporcionando a absorção de conhecimentos quanto às tecnologias empregadas no processo de produção industrial da viatura.

O LMV utilizará boa parte da cadeia logística do Guarani, e a empresa está desenvolvendo uma cadeia de fornecedores locais para os componentes específicos do LMV, com várias partes da cabine fabricadas em Sete Lagoas a serem exportadas para outras unidades do grupo, transformando a fábrica mineira em polo exportador dentro da cadeia global da IDV.

O Guaicurus no contexto da modernização das Forças Blindadas
O LMV-BR 2 não é uma aquisição isolada, mas sim uma peça dentro de um ambicioso plano de renovação do poder terrestre brasileiro. Na conferência internacional de veículos blindados IAV 2025, realizada em Farnborough (Inglaterra), em janeiro de 2025, o General Hertz Pires do Nascimento, comandante do Comando Militar Sul, apresentou o quadro geral dessa modernização. Em relação aos veículos mais leves, o general disse que a introdução dos LMV-BR 2 4x4 "representa uma mudança significativa nas capacidades das brigadas mecanizadas", acrescentando que 420 veículos devem ser entregues até 2033 para substituir os veículos de carroceria macia atualmente em serviço.

No mesmo painel, o general revelou os demais programas em andamento: o Guarani 6x6 é o foco principal, com mais de 1.300 APCs a serem entregues em diversas variantes, incluindo uma versão armada com canhão Elbit de 30 mm operado remotamente, veículos de posto de comando, de defesa aérea, de comunicação, ambulância e uma variante de engenharia blindada nos estágios finais de avaliação. Para os regimentos de cavalaria, o Exército Brasileiro selecionou o Centauro II, armado com canhão de 120 mm, do Consórcio Iveco–Oto Melara, e em breve espera assinar um contrato para 98 veículos. Olhando mais adiante, o projeto para aquisição de novos carros de combate principais (MBTs) está programado para começar em 2028, buscando plataformas com alto grau de comunalidade com um futuro veículo de combate de infantaria (IFV), com o objetivo de construí-los no Brasil em parceria com a indústria internacional.

Uma parceria de décadas com a IDV
A relação entre o Exército Brasileiro e a IDV é sólida e longeva. A colaboração inclui o fornecimento de 700 unidades do veículo blindado anfíbio 6x6 Guarani e 32 unidades do LMV-BR de primeira geração. O Exército Brasileiro opera atualmente 48 viaturas Guaicurus: 32 unidades novas adquiridas em 2019 e 16 Lince K2 usadas, compradas em 2018 para emprego durante a Intervenção Federal no Rio de Janeiro. Com o novo contrato, essa frota será multiplicada por quase dez ao longo da próxima década.

Além do Exército, Forças de Segurança do Brasil estão negociando a aquisição do veículo, sendo possível que o primeiro contrato seja anunciado ainda no primeiro semestre de 2026, o que ampliaria ainda mais o alcance do programa e o potencial de escala da linha de produção recém-inaugurada.

Sete Lagoas, polo da defesa brasileira
Com a nova linha de produção, Sete Lagoas consolida sua posição como o maior polo da indústria de defesa terrestre do Brasil, reunindo na mesma planta a produção do Guarani, do futuro Centauro II e agora do Guaicurus. O simbolismo é evidente: numa única cidade mineira, concentra-se boa parte do futuro blindado das Forças Terrestres brasileiras. 

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