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12 maio, 2026

Delegação brasileira visita fábrica da JD Taurus na Índia e reforça cooperação bilateral em defesa

Adidos militares e representante da câmara de comércio estiveram em Hisar, Haryana, para discutir produção, transferência de tecnologia e oportunidades de negócio entre os dois países 

 

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LRCA Defense Consulting - 12/05/2026

Uma delegação oficial brasileira visitou, em 8 de maio de 2026, a fábrica da Jindal Defence Taurus (JD Taurus) em Hisar, no estado indiano de Haryana, em missão que reuniu representantes militares da Embaixada do Brasil em Nova Déli e da Câmara de Comércio Índia Brasil (IBCC). O encontro consolidou o diálogo em torno de desenvolvimentos operacionais da joint venture, futuras linhas de produtos e formas de ampliar a cooperação bilateral no setor de defesa.

Participaram da visita o Coronel Ronny de Brito Barros, adido do Exército, e o Coronel Devilan Dutra Paulon Júnior, adido de Defesa e Força Aérea, além de Dana Blackman, chefe do escritório da IBCC na Índia. Do lado da joint venture, a delegação foi recebida por Gaurav Mehra, diretor-executivo de negócios da JD Taurus, e por Henrique de Moraes Gomes, diretor militar e de exportações da Taurus Armas. A programação incluiu tour pelas instalações fabris, apresentação de produtos, informações técnicas sobre controle de qualidade e discussões sobre o processo de fabricação.

Parceria firmada em 2020 já colhe resultados
A JD Taurus é uma joint venture constituída em 2020 entre a Jindal Defence Systems, divisão do prestigiado Grupo OP Jindal, e a brasileira Taurus Armas S.A., uma das maiores fabricantes de armas leves do mundo. O acordo foi celebrado durante o 1.º Diálogo da Indústria de Defesa Brasil-Índia, no âmbito do Fórum de Negócios Índia-Brasil (IBBF), organizado pelo Ministério das Relações Exteriores indiano. A Taurus detém 49% da joint venture e contribui principalmente com a transferência de tecnologia, enquanto a Jindal Defence arca com a maior parte dos investimentos em infraestrutura e operação.

A unidade fabril, com mais de dois hectares em Hisar, recebeu licença para operação comercial do governo indiano em novembro de 2023 e iniciou a produção de lotes-piloto em março de 2024 com assistência técnica in loco da equipe brasileira. A capacidade instalada chega a 1.500 armas por dia, com potencial de produção anual de até 250 mil unidades. Entre os produtos fabricados estão pistolas das séries TS9 e PT57, revólveres, carabinas/submetralhadoras T9 e o fuzil T4 5,56 x 45 mm, destinados aos mercados civil, policial, paramilitar e militar.

Desde o início das operações, a empresa acumula uma série de conquistas no mercado institucional indiano. Em 2024, a submetralhadora JD Taurus T9 venceu uma licitação para o fornecimento de 550 unidades ao Exército indiano, primeira vitória militar da empresa logo após o início da produção. Em maio de 2025, a pistola TS9 9 mm foi selecionada para equipar a Railway Protection Force (RPF), a polícia ferroviária indiana. Em junho de 2025, uma nova licitação de pistolas 9 mm para um órgão policial estadual foi vencida pela joint venture, consolidando a presença da marca no segmento de segurança pública.

No início de 2026, a JD Taurus conquistou dois contratos militares expressivos: em janeiro, fechou o fornecimento de 5.368 pistolas TS9 às Forças Armadas Policiais Centrais (CAPF) da Índia; em março, assinou novo contrato para entregar 6.136 unidades da mesma pistola à Força-Tarefa Especial de Uttar Pradesh, unidade de elite do estado mais populoso do país. Somados, os dois pedidos ultrapassam 11,5 mil armas entregues ou a entregar em menos de dois meses. As vendas civis cresceram mais de 60% em 2025, e a operação na Índia já contribui positivamente para o resultado da Taurus via equivalência patrimonial. A empresa monitora ainda licitações em andamento que podem envolver cerca de 70 mil armas, com valor estimado em 30 milhões de dólares.

Na maior licitação de armas leves já realizada no mundo, aberta pelo Ministério da Defesa da Índia para a aquisição de cerca de 425 mil fuzis, a JD Taurus concorreu com o fuzil T4 5,56 mm e terminou classificada em 3.º lugar. Apesar de não vencer o certame, a participação confirmou a capacidade técnica da empresa para operar em concorrências de escala global, e as lições extraídas do processo fortalecem o posicionamento da joint venture nas disputas em curso.


Make in India e Atmanirbhar Bharat como pano de fundo
A joint venture se insere nas políticas industriais indianas Make in India e Atmanirbhar Bharat (Índia autossuficiente), iniciativas do governo do primeiro-ministro Narendra Modi para reduzir a dependência de importações e fortalecer a base industrial de defesa local. A JD Taurus é uma das primeiras empresas privadas a operar uma fábrica de armas leves no estado de Haryana, e seu portfólio registra agregação de valor entre 50% e 100% no território indiano para diferentes categorias de produto. A visão da Taurus como Empresa Estratégica de Defesa do Brasil e integrante da Base Industrial de Defesa (BID) confere à parceria respaldo institucional dos dois lados.

A presença da IBCC na visita ilustra o papel crescente da câmara como ponte institucional entre empresas e governos dos dois países. Fundada em 2003 e com escritório na Índia desde 2007, a organização sem fins lucrativos atua na prospecção de oportunidades, formulação de alianças estratégicas e articulação com entidades governamentais indianas e brasileiras. A chefe do escritório indiano, Dana Blackman, acompanhou a delegação como facilitadora do diálogo entre os representantes diplomáticos e a liderança da joint venture.

Tecnologia brasileira como vetor de exportação estratégica
Para o Brasil, a JD Taurus representa uma mudança qualitativa em seu perfil exportador: um país historicamente associado à exportação de commodities começa a transferir tecnologia de ponta para um dos maiores mercados do mundo em um setor estratégico. O CEO global da Taurus Armas, Salesio Nuhs, já havia destacado que a Índia representa um potencial ainda maior do que o crescimento extraordinário registrado pela empresa em 2021 nos Estados Unidos. A lógica financeira favorece a Taurus: como sua contribuição é essencialmente tecnológica, os 49% dos resultados da joint venture chegam com margens expressivas, sem os custos de capital que recaem sobre a Jindal Defence.

Do lado indiano, a parceria com a Taurus sinaliza a disposição do Grupo Jindal de ocupar espaço no mercado de defesa que até recentemente era dominado por fabricantes estatais ou por importações. O conflito com o Paquistão em 2025, que aumentou a urgência das aquisições militares, deve acelerar licitações em andamento e ampliar a relevância estratégica da capacidade produtiva já instalada em Hisar.

A visita de 8 de maio, ainda que de natureza institucional e técnica, reflete a consolidação de uma das parcerias industriais mais significativas entre Brasil e Índia nas últimas décadas. Com produção em escala, contratos militares conquistados e um portfólio em expansão, a JD Taurus caminha para se tornar referência no mercado de armas leves da Ásia Meridional e um capítulo relevante na história da diplomacia econômica brasileira.

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