Em outubro de 2024, um documento interno da Embraer listou três países que ainda não eram clientes do C-390: Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Chile. Ontem, os EAU acabaram de assinar o maior contrato internacional da aeronave. Restam dois países...
*LRCA Defense Consulting - 05/05/2026
Em outubro de 2024, durante a Conferência de Usuários do C-390 Millennium realizada em São José dos Campos (SP), um slide institucional da Embraer circulou em uma rede social, publicado por um participante do evento. Ao lado dos operadores confirmados, três países figuravam inesperadamente: Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Chile. A LRCA Defense Consulting foi pioneira na publicação da revelação. Hoje, um desses três países converteu o interesse em um grande contrato.
Em 4 de maio de 2026, a história do C-390 Millennium ganhou mais um capítulo decisivo. Os Emirados Árabes Unidos assinaram, no evento "Make It in the Emirates 2026", em Abu Dhabi, o maior contrato internacional já celebrado para a aeronave de transporte militar da Embraer: dez pedidos firmes e dez opções, totalizando potencialmente 20 aeronaves. O ato se deu na presença do Vice-Presidente dos EAU, Sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan, e do CEO da Embraer Defense & Security, Bosco da Costa Junior.
Para quem acompanhava os movimentos do mercado desde outubro de 2024, o desfecho não era surpresa. Ele estava, literalmente, escrito num slide.
O maior contrato da história do programa
O acordo com os Emirados Árabes Unidos representa não apenas uma conquista
geográfica, a primeira venda do C-390 para o Oriente Médio, mas também um
recorde quantitativo. Se o país exercer todas as opções, terá uma frota de
C-390 superior à do próprio Brasil, que possui 18 aeronaves encomendadas (dado da Embraer, embora o contrato, em seu 9º Termo Aditivo, seja para 19 unidades). É o
tipo de validação que, na indústria de defesa, ecoa por anos nas salas de
decisão de ministérios ao redor do mundo.
O processo que antecedeu o contrato foi rigoroso. Os Emirados realizaram uma campanha de avaliação técnica e operacional que incluiu testes do avião nas condições ambientais e geográficas locais. O resultado confirmou o que os operadores europeus já haviam verificado: taxas de prontidão operacional acima de 93% e de conclusão de missão superiores a 99%.
Paralelamente ao contrato de aquisição, a Embraer firmou um acordo exclusivo de parceria estratégica com a empresa emiradense Generation 5 Holding para o desenvolvimento de capacidades locais de Manutenção, Reparo e Revisão (MRO). O modelo industrial que combina compra e desenvolvimento de capacidade local é o mesmo que tem funcionado como argumento diferenciador da Embraer frente ao C-130J da Lockheed Martin em diversas disputas ao redor do mundo.
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| Imagem meramente ilustrativa |
Marrocos: negociação avançada e urgência crescente
Com os EAU confirmados, restam dois dos três nomes do slide
de outubro de 2024: Marrocos e Chile. E os sinais emanados de Rabat são cada
vez mais concretos.
Em agosto de 2025, fontes especializadas já apontavam que as negociações entre Marrocos e a Embraer haviam atingido estágio avançado para a aquisição de quatro a cinco KC-390, em um contrato avaliado em torno de US$ 600 milhões. O país, além disso, já recebeu uma aeronave em regime de empréstimo para fins de avaliação e testes operacionais, o tipo de comprometimento logístico que, na gramática da indústria de defesa, raramente precede uma decisão negativa.
Cronologia Marrocos × C-390
- Out/2024: bandeira
marroquina aparece no slide da Conferência de Usuários do C-390.
- Out/2024: Marrocos
e Embraer assinam Memorando de Entendimento no Marrakech Air Show,
incluindo plano de centro aeronáutico com investimento de US$ 1 bilhão.
- Ago/2025: negociações
são reportadas em estágio avançado; aeronave enviada para testes no país.
- Abr/2025: delegação
da Embraer visita Marrocos para avaliar cadeia de fornecimento
aeroespacial.
- Abr/2026: Min. Múcio anuncia missão internacional em junho para "fechar novas vendas", com Marrocos citado como uma das mais prováveis opções.
O contexto estratégico marroquino favorece a decisão. O país opera uma frota envelhecida de C-130H Hercules da Lockheed Martin, aeronaves cuja idade média e custo de manutenção crescentes pesam sobre o orçamento de defesa. A Embraer oferece um pacote completo de parceria industrial como contraproposta a uma oferta concorrente que prevê apenas a atualização de motores e aviônicos dos Hercules existentes, uma diferença qualitativa considerável para um país que busca modernização e autonomia industrial.
Há ainda a variável geopolítica. O C-390 é hoje operado por sete membros da OTAN e selecionado por 11 nações, incluindo países do Golfo Pérsico a partir de hoje. Essa constelação de operadores cria pressão de interoperabilidade e legitimidade que facilita decisões políticas internas em países que ainda hesitam.
Chile: sinais de Estado, não apenas de mercado
O caso chileno é igualmente revelador, embora num registro
diferente. Enquanto Marrocos avança em negociação formal, o Chile articula sua
decisão no plano político mais alto, e os gestos têm sido eloquentes.
Na primeira jornada da FIDAE 2026, realizada em abril em Santiago, o presidente José Antonio Kast posou junto à maquete do KC-390 ao lado do Comandante da Aeronáutica Brasileira, Tenente-Brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, e do CEO da Embraer Defense & Security, Bosco da Costa Junior. No mesmo momento, o Ministro da Defesa Fernando Barros segurou um quadro representando o KC-390 com os emblemas da Força Aérea do Chile (FACh) e a inscrição: "KC-390, expressão de uma Aliança Estratégica orientada ao fortalecimento da cooperação e ao apoio à sociedade chilena."
A relação entre Chile e Embraer tem raízes profundas. Ainda em 2010, os ministros da Defesa do Brasil e do Chile assinaram uma declaração de intenções sobre eventual participação chilena no próprio programa de desenvolvimento do KC-390. Em 2024, Embraer e a estatal ENAER assinaram acordo de cooperação industrial estratégica. Em 2026, o país recebeu a aeronave de demonstração pela primeira vez com a nova pintura institucional. A escalada é evidente.
Analistas apontam razões objetivas para a compra: o Chile enfrenta um ambiente operacional desafiador, com frequentes desastres naturais, geografia acidentada e bases na Antártica que demandam alta confiabilidade logística. A frota de C-130H, incluindo ao menos uma aeronave que sofreu acidente, não atende mais às necessidades crescentes da FACh. A Colômbia, por sua vez, já deu um passo à frente: o presidente Gustavo Petro ordenou formalmente, em 30 de março de 2026, a compra de dois C-390 para substituir seus C-130H fora de serviço. O precedente vizinho é um argumento adicional.
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Cronologia dos fatos
- Set
2024: slide da Conferência de Usuários do C-390 lista
Marrocos, EAU e Chile como próximos clientes. LRCA publica a revelação.
- Out
2024: Marrocos e Embraer assinam MOU no Marrakech Air Show. CEO
da Embraer confirma interesse dos três países, nega contratos firmados.
- Ago
2025: negociações com Marrocos reportadas em estágio
avançado para 4–5 aeronaves (≈US$ 600 mi). Aeronave enviada para testes in
loco.
- Abr
2026: FIDAE 2026: Presidente Kast e Min. Defesa do Chile posam
com KC-390, sinalizando interesse de Estado.
- Abr
2026: Min. Múcio anuncia missão internacional em junho para
fechar contratos do C-390.
- 4 Mai 2026: EAU assinam maior contrato internacional do C-390: 10 firmes + 10 opções. Primeira venda ao Oriente Médio.
A missão de junho e a janela de decisão
O ministro da Defesa brasileiro José Múcio Monteiro anunciou que realizará,
em junho de 2026, uma missão internacional com o objetivo declarado de
"fechar novas vendas" do C-390. O timing não é aleatório: junho marca
o período pré-recessão do verão europeu, fase historicamente crítica para
formalização de contratos de defesa. Mas Marrocos, destino africano e fora do
calendário europeu, pode figurar na agenda pela lógica própria: a negociação
está madura.
Panorama completo: candidatos ativos ao C-390 em 2026
- Marrocos:
negociação avançada. Aeronave em testes. Contrato estimado em US$ 600 mi.
Inclui parceria industrial.
- Chile:
sinalização política de alto nível na FIDAE 2026. Cooperação com ENAER em
vigor. Novo governo assume com força para decidir.
- Grécia:
decisão iminente para três aeronaves. C-390 favorito sobre o C-130J.
- Polônia:
Embraer propôs 20 aeronaves com produção localizada e transferência de
tecnologia.
- Colômbia:
processo de compra formalmente iniciado por ordem presidencial em março de
2026.
- Turquia: MOU assinado com Turkish Aerospace; negociações incluem coprodução.
Para a Embraer, o universo de candidatos simultâneos nunca foi tão amplo. O CEO Francisco Gomes Neto reconhece negociar com "5 a 10 países" ao mesmo tempo. A empresa projeta faturamento de US$ 10 bilhões até 2030, e o C-390 é o principal vetor dessa expansão. Com os Emirados convertidos, a pressão por mais fechamentos antes do verão europeu é real, e o governo brasileiro, ao assumir papel de facilitador diplomático, eleva a aposta.
O slide tinha razão...
Em outubro de 2024, quando o slide da Conferência de Usuários circulou pela
imprensa especializada, a Embraer negou acordos firmados com Marrocos, Emirados
Árabes Unidos e Chile, e tecnicamente, tinha razão. Nenhum contrato estava
assinado. Mas a presença dos três países no documento não era especulação de
mercado: era um posicionamento comercial oficial diante de clientes e
parceiros, revelado antes do tempo.
Hoje, dezessete meses depois, um desses três assinou o maior contrato internacional do programa. Os outros dois avançam, cada um em seu ritmo e estratégia.
O slide, afinal, não era uma previsão. Era quase um "relatório de situação".




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