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15 junho, 2026

Embraer e Arábia Saudita: uma parceria que continua em construção

Desde 2022, a Embraer acumulou com a Arábia Saudita um dos mais densos portfólios de acordos de cooperação já firmados com um único país fora da Europa e da América do Norte. Ao contrário do que muitos pensam, as negociações continuam...

Imagem meramente representativa feita com IA pela LRCA

*LRCA Defense Consulting - 15/06/2026

Memorandos de entendimento nos três eixos do negócio aeroespacial - defesa, aviação comercial civil e mobilidade aérea urbana - refletem o peso que o reino assumiu na estratégia global da fabricante brasileira, impulsionado pela iniciativa saudita Vision 2030. Mas o caminho entre intenções e contratos ainda não foi concluído, e pelo menos um dos eixos perdeu tração recente.

O ponto de partida: Vision 2030 e a janela de oportunidade
A Arábia Saudita decidiu, com a Vision 2030, substituir a dependência do petróleo por uma base industrial e de serviços capaz de gerar até 50% do PIB nacional por meios não ligados ao hidrocarboneto. O setor aeroespacial foi identificado como prioritário: novos operadores aéreos, expansão de rotas, localização de manutenção e montagem de aeronaves. Para a Embraer, isso significou a abertura de um mercado que historicamente havia resistido às aeronaves regionais menores.

A aproximação formal começou em julho de 2022, quando a Embraer Defesa & Segurança firmou com a BAE Systems dois memorandos de entendimento, um dos quais voltado especificamente para promover o C-390 Millennium nos mercados do Oriente Médio, com foco inicial na Arábia Saudita. Era, então, uma estratégia de parceria com um integrador local para contornar as barreiras de acesso a um mercado dominado por fornecedores norte-americanos e europeus.

O pico de 2023: acordos em série e a visita de Lula
O ano de 2023 marcou a aceleração das negociações. Em julho, a maior delegação saudita já recebida no Brasil e liderada pelo ministro do Investimento, Khalid Al Falih, visitou o país e participou do Fórum de Investimentos Brasil/Arábia Saudita na Fiesp. O ministro mencionou em discurso uma parceria com a Embraer, sem que detalhes fossem divulgados posteriormente. Em agosto, durante visita da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, representantes sauditas confirmaram conversas em andamento com a fabricante.

O marco institucional veio em 29 de novembro de 2023, durante a visita do presidente Lula a Riad. Foram assinados três acordos simultâneos, nos três eixos do negócio:

O primeiro foi um memorando de entendimento entre a Embraer, o Ministério de Investimento saudita (MISA) e a Autoridade Geral da Aviação Civil (GACA), voltado para reforçar a cooperação em investimentos no setor aeronáutico e alinhar a presença brasileira às metas da Vision 2030, entre elas, atrair 150 milhões de visitantes ao reino até 2030.

O segundo foi o acordo com a Saudi Arabian Military Industries (SAMI), subsidiária integral do Fundo de Investimento Público (PIF) saudita e principal empresa de defesa do reino. O memorando estabeleceu como objetivos conjuntos a promoção do C-390 junto à Força Aérea Real Saudita (Royal Saudi Air Force, RSAF), o estabelecimento de um centro regional de MRO (manutenção, reparo e revisão) e a exploração de uma linha de montagem final do C-390 em território saudita, com integração local de sistemas de missão. A proposta incluía até 50% de conteúdo nacional, em linha com a política saudita de localização industrial.

O terceiro foi o memorando da Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer dedicada ao desenvolvimento de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOL), com a operadora aérea saudita Flynas. O acordo previu a exploração de operações de táxi aéreo elétrico em Riad e Jeddah, com perspectiva de início em 2026.

Imagem meramente representativa feita com IA pela LRCA

2024: visitas, demonstrações e novos acordos
O ritmo de aproximação continuou em 2024. Em fevereiro, durante o World Defense Show realizado em Riad, a Saudia Technic e a Embraer Serviços & Suporte assinaram um memorando de colaboração em manutenção e treinamento, com foco na família de jatos regionais E2 e na aviação executiva. No mesmo evento, o diretor de parcerias e alianças da SAMI, Emad Alrajih, conheceu pessoalmente o C-390 e expressou interesse na aeronave.

Em março de 2024, o vice-presidente da Embraer para Oriente Médio e Ásia-Pacífico, Caetano Spuldaro Neto, declarou no Brazil Saudi Arabia Conference, em Riad: "Queremos transformar a Arábia Saudita em um hub da Embraer na região." O executivo apontou que a eventual aquisição do C-390 pela RSAF poderia gerar uma economia de US$ 2 bilhões ao reino nos próximos 30 anos, em comparação com a manutenção da frota de C-130.

Em maio de 2024, durante o Future Aviation Forum em Riad, dois novos acordos foram formalizados. O Centro Nacional de Desenvolvimento Industrial saudita (NIDC), o Grupo AHQ e a Embraer assinaram um memorando para discutir uma estratégia conjunta de desenvolvimento do ecossistema aeroespacial local, com avaliação do E2 como aeronave preferida para um novo projeto de companhia aérea regional com sede em Dammam. No mesmo evento, a Eve e a Saudia Technic assinaram um memorando para explorar demanda de MRO para eVTOLs na região, incluindo a avaliação de infraestrutura para possível remontagem do veículo da Eve em território saudita.

Também em 2024, o Ministério da Indústria e Recursos Minerais da Arábia Saudita assinou com a Embraer um memorando voltado ao desenvolvimento dos setores de aviação no reino, na presença do ministro Bandar Al-Khorayef, que havia visitado as três instalações da Embraer no Brasil, e do vice-ministro para Assuntos Industriais, Khalil bin Salamah.

No plano da defesa, uma delegação do Ministério da Defesa saudita visitou o Brasil no final de 2023 e participou de demonstrações do Radar Saber M200 Vigilante junto à 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada do Exército Brasileiro e do Radar Sentir M20 no Comando Militar do Oeste, em Campo Grande (MS), ampliando o escopo da parceria potencial para além das aeronaves.

A reviravolta de março de 2026: o C-390 sai das prioridades
Em março de 2026, o CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, declarou à agência Reuters que a Arábia Saudita deixou de ser um "ponto quente" para a divisão de defesa da empresa. Os esforços na área militar passaram a se concentrar na Índia. onde a Embraer aguarda uma licitação para 60 aeronaves de transporte militar, e nos Estados Unidos.

A declaração reflete uma mudança de contexto. A RSAF já opera a versão mais recente do C-130, o C-130J Super Hercules da Lockheed Martin, que compete diretamente com o C-390. Gomes Neto sugeriu que a força aérea saudita pode estar buscando uma aeronave de transporte de maior porte, o que reduziria a janela para o jato brasileiro no curto prazo. O potencial pedido de 33 aeronaves, amplamente discutido entre 2023 e 2024, ficou sem desfecho.

A comparação com os Emirados Árabes Unidos evidencia o contraste: em maio de 2026, o Tawazun Council emiradense fechou um contrato para 10 aeronaves C-390, com opção de mais 10 unidades, o primeiro contrato firmado no Oriente Médio. A Arábia Saudita, que havia protagonizado as negociações na região, foi precedida pelo vizinho.

A reavaliação de junho de 2026: acordos ativos, tom mais otimista
Em 11 de junho de 2026, o jornal saudita Asharq Al-Awsat publicou cobertura de briefing concedido por executivos da Embraer em São Paulo, às margens da cúpula anual da Iata no Rio de Janeiro. A mensagem foi diferente da de março: os memorandos firmados com a Arábia Saudita em 2023 permanecem ativos e avançam em ritmo satisfatório, abrangendo os três eixos: aviação civil, defesa e mobilidade aérea urbana.

A publicação do Asharq Al-Awsat não anunciou contratos novos nem apontou datas para desdobramentos concretos. O tom é de reafirmação de intenção, em linha com o peso estratégico que a Arábia Saudita representa para a indústria global de aviação no contexto da Vision 2030.

eVTOL da Eve voando pela Flynas na Arábia Saudita (renderização)

Eve: o eixo mais avançado
Dos três segmentos, o da mobilidade aérea urbana é o que apresenta a trajetória mais consistente na Arábia Saudita. A Eve Air Mobility fechou acordos com duas das principais empresas do setor aéreo saudita e inseriu o reino numa estratégia regional que não tem paralelo nos eixos de defesa e aviação comercial.

O primeiro acordo foi o memorando de entendimento com a Flynas, firmado em 29 de novembro de 2023, durante a visita do presidente Lula a Riad. A Flynas  (maior companhia aérea de baixo custo do Oriente Médio, com 60 aeronaves, mais de 1.500 voos semanais e 70 destinos domésticos e internacionais) comprometeu-se a explorar operações de eVTOL em Riad e Jeddah, com perspectiva inicial de início em 2026. O acordo foi apresentado pelas partes como uma contribuição direta às metas de sustentabilidade da Vision 2030, incluindo a neutralização de emissões de gases de efeito estufa até 2060.

O segundo acordo, de natureza operacional e industrial, foi o memorando de entendimento assinado com a Saudia Technic em maio de 2024, durante o Future Aviation Forum em Riad. A Saudia Technic é a principal empresa de MRO do Oriente Médio e integra o grupo Saudi Arabian Airlines. O documento estabeleceu a cooperação em três frentes: treinamento de pessoal para manutenção de eVTOLs, avaliação de infraestrutura para operações na região e estudo da viabilidade de remontagem local da aeronave da Eve na Arábia Saudita, o que representaria uma etapa de industrialização relevante para o reino.

A Eve também chegou a explorar com a Saudia Technic a possibilidade de que a própria Saudia (braço de aviação do grupo, separado da Saudia Technic) participasse do processo de remontagem local do eVTOL para o mercado saudita, embora esse desdobramento específico permaneça em fase de avaliação.

Do lado do produto, o programa da Eve avançou significativamente em 2025 e 2026. Em dezembro de 2025, a empresa realizou o primeiro voo do protótipo em escala real, não tripulado, em Gavião Peixoto (SP), validando a arquitetura básica do veículo, incluindo o sistema fly-by-wire de quinta geração e os rotores de sustentação. Em março de 2026, o mesmo protótipo voou perante autoridades brasileiras, incluindo o presidente Lula, no âmbito da campanha de testes que prevê até 300 ensaios ao longo do ano. A fase seguinte, com voos de transição do modo vertical para o voo sustentado pelas asas, está prevista para o segundo semestre de 2026.

Em 12 de junho de 2026, executivos da Eve confirmaram que a certificação de tipo foi revisada de 2027 para 2028, refletindo a complexidade de certificar uma categoria inteiramente nova de aeronave junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), com alinhamento paralelo com a FAA americana e a EASA europeia. O novo cronograma prevê a construção de seis protótipos em conformidade com os requisitos de certificação, a partir da fábrica da Eve em Taubaté (SP), com capacidade projetada para até 480 unidades por ano em regime de maturidade. O adiamento não é exceção no setor: vários fabricantes de eVTOL que previam entrada em serviço para meados da década já revisaram seus planos, diante das complexidades regulatórias da nova categoria.

A carteira da Eve soma atualmente cerca de 2.900 reservas de 30 clientes em 13 países, representando um potencial estimado de US$ 14,5 bilhões em receita. O CEO Francisco Gomes Neto projeta que o programa pode contribuir com US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão ao ano à receita do grupo Embraer em regime de cruzeiro. O consumo de caixa em 2026 deve ficar na faixa inferior da projeção da empresa, entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões, com liquidez de US$ 641 milhões que, segundo a empresa, garante operação até meados de 2028, janela que coincide com o prazo de certificação e que não oferece margem significativa para novos atrasos.

Para a Arábia Saudita, o interesse na Eve vai além do táxi aéreo urbano: a possibilidade de remontagem local do eVTOL em território saudita, ainda em avaliação, alinharia o programa à política de localização industrial da Vision 2030 e criaria um precedente de manufatura aeronáutica de nova geração no reino.

E2: a aviação comercial depende de uma nova companhia aérea
O futuro do E2 na Arábia Saudita está vinculado ao projeto de uma terceira companhia aérea nacional saudita, a ser sediada em Dammam, diferenciando-se da Saudia (Jeddah) e da Riyadh Air (Riad). O memorando entre NIDC, Grupo AHQ e Embraer, firmado em maio de 2024, avalia o E2 como candidato preferencial para a frota desse operador. Os detalhes do projeto permanecem indefinidos: modelo de negócios, estrutura acionária e frota ainda não foram anunciados.

O contexto regional para o E2 é desafiador. Historicamente, as companhias aéreas do Golfo evitaram jatos regionais. A exceção mais recente na região é a Salam Air (Omã), que encomendou seis E195-E2, com entregas a partir de 2025. O êxito eventual de um operador saudita com o E2 dependeria de uma aposta no segmento de rotas domésticas e conexões africanas sub-representadas nas operações atuais.

Arjan Meijer, CEO da Embraer Commercial Aviation, informou que o E2 detém 76% do mercado global na categoria de jatos regionais, com 24 clientes, 202 aeronaves entregues e cerca de 1,25 milhão de horas de voo acumuladas. A base regional do Oriente Médio permanece, por ora, marginal nessa contagem.

Balanço: muitos acordos, mas os contratos ainda estão por vir
Entre 2022 e 2024, a Embraer firmou com atores sauditas pelo menos oito documentos formais de cooperação envolvendo entidades governamentais (MISA, GACA, Ministério da Indústria), empresas estatais (SAMI, NIDC) e operadoras privadas (Flynas, Saudia Technic, Grupo AHQ). Nenhum evoluiu ainda para contrato de aquisição.

O eixo da defesa esfriou em 2026, com o foco da Embraer Defesa & Segurança migrando para Índia e EUA. O eixo comercial civil aguarda a definição do projeto de companhia aérea em Dammam. O eixo da mobilidade urbana avança no ritmo do próprio programa de certificação da Eve, com 2028 como horizonte realista para operações.

A cobertura recente do Asharq Al-Awsat e a presença da Embraer na cúpula da Iata no Rio de Janeiro sinalizam que o mercado saudita permanece na agenda estratégica da empresa. A Arábia Saudita não saiu do mapa, mas a conversão das intenções em pedidos depende de variáveis que ainda não se alinharam: a decisão final sobre o substituto do C-130 saudita, o modelo de negócios da nova companhia aérea a ser criada e o calendário de certificação do eVTOL.

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