*LRCA Defense Consulting - 15/06/2026
O
Arsenal de Guerra do Rio apresentou no SSNTFT 2026 um conceito de unidade móvel
de manufatura aditiva para drones bombardeiros e kamikazes. Agora busca
parceiros para desenvolver o protótipo, com prazo de abertura de propostas em
25 de junho. O conceito, que chega simultaneamente a arsenais de países como
EUA e Finlândia, muda a lógica da produção de sistemas não tripulados: em vez
de fabricar em escala central e estocar, produz-se no campo, no momento certo,
com o design certo.
Do estudo ao
protótipo: a trajetória do AGR
O
conceito não surgiu pronto no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força
Terrestre (SSNTFT 2026). Ele tem uma trajetória documentada que começa pelo
menos um ano antes. Em junho de 2025, durante a 41ª Reunião dos Diretores de
Arsenais de Guerra (REDAG), realizada no Departamento de Ciência e Tecnologia
em Brasília, o Sistema de Fabricação do Exército recebeu, de forma inédita,
solicitação da Chefia de Material de Aviação do Exército (CMAvEx) para estudar
a produção de aeronaves remotamente pilotadas por manufatura aditiva, ou seja, impressão 3D aplicada à fabricação de estruturas, componentes e peças de
drones.
Onze
meses depois, no SSNTFT realizado entre 25 e 27 de maio de 2026, militares do Arsenal
de Guerra do Rio (AGR) apresentaram ao Alto Comando o resultado desses estudos:
um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes e,
como elemento central, um conceito de container para fabricação de drones com
manufatura aditiva. Tratava-se, em essência, da proposta de uma fábrica de
drones desdobrável em campanha.
Agora,
o projeto avança para a fase seguinte. Segundo informações do serviço de
inteligência de mercado Brazil Defense Brief (BDB), o Exército Brasileiro está
buscando ativamente parceiros para desenvolver o protótipo da unidade móvel de
produção, com submissão de propostas aberta a partir de 15 de junho de 2026 e
previsão de abertura em 25 de junho. O sistema proposto inclui espaço de
trabalho conteinerizado, impressoras 3D e equipamentos associados, com o
objetivo de viabilizar a produção avançada de drones diretamente em ambientes
operacionais.
A lição ucraniana
O
modelo de produção centralizada de drones, que dominou o pensamento logístico
até 2022, mostrou sua fragilidade na Ucrânia. Fabricar em larga escala,
transportar para a frente de combate, estocar e esperar o momento do emprego
criou uma vulnerabilidade estrutural: o design do drone pode tornar-se obsoleto
antes de chegar ao campo de batalha. Na guerra de drones, frequências, cargas
úteis, métodos de guiamento e contramedidas eletrônicas podem mudar em semanas.
A
resposta ucraniana foi empírica e brutal: unidades avançadas passaram a
fabricar e reparar drones in loco, com impressoras 3D portáteis,
componentes eletrônicos disponíveis comercialmente e arquivos de design
atualizados remotamente. O ciclo de adaptação - detectar uma nova contramedida
russa, redesenhar o drone, imprimir, testar e reempregar - passou a ser medido
em dias, não em meses.
Tim
De Zitter, analista da Defesa Belga especializado em sistemas C-UAS e munições
vagantes, sintetizou a transformação conceitual em publicação do dia 15 de
junho: a fábrica móvel não é apenas um meio de produção, mas parte integrante
da cadeia de kill chain de defesa aérea. Segundo ele, "o campo de
batalha não pergunta mais quem tem o drone melhor, mas sim quem consegue
reconstruir o drone melhor amanhã". A lógica é a mesma para drones de
ataque e para interceptadores: a capacidade de adaptar e produzir mais rápido
que o adversário vale mais do que qualquer design específico.
O
conceito em números: o que já existe no mercado
O
AGR não está sozinho nessa direção. Nos últimos meses, pelo menos três
iniciativas paralelas e independentes chegaram ao mesmo conceito operacional, o
que valida a ideia sem que nenhuma delas sirva como modelo direto para a
solução brasileira.
A
empresa finlandesa Sensofusion lançou, em março de 2026, a Tactical Drone Factory:
uma instalação completa de fabricação de drones comprimida num container padrão
de 20 pés (ISO 668, compatível com STANAG), equipada com impressoras 3D
industriais para estruturas em plástico de carbono, estação de montagem de
eletrônicos e estoque de peças de reposição. Capacidade declarada:
aproximadamente 50 drones interceptadores por dia, operados por uma equipe
reduzida, desdobráveis em qualquer lugar do mundo. A troca de modelo de drone
requer apenas o carregamento de um novo arquivo de design, com adaptação imediata
a novas ameaças, sem necessidade de nova linha de produção.
Nos
Estados Unidos, a startup Firestorm Labs desenvolveu o xCell, plataforma de
manufatura em container capaz de imprimir sistemas de drones em menos de 24
horas. Em abril de 2026, a empresa captou US$ 82 milhões para expandir o
conceito. O Exército americano já usou o xCell para imprimir peças de reposição
de um veículo blindado Bradley diretamente no campo, substituindo componentes
que, pelo processo convencional, levariam meses para ser adquiridos. O Rock
Island Arsenal-Joint Manufacturing and Technology Center (RIA-JMTC), principal
arsenal de fabricação do Exército dos EUA, desenvolve versão orgânica do mesmo
conceito, com foco em produção descentralizada de drones em escala para as
forças terrestres americanas.
Os
três casos compartilham uma premissa: instalações fixas de fabricação são
alvos. Uma fábrica dentro de um container pode ser movida, ocultada, replicada
e reprogramada. A resiliência logística vira capacidade de combate.
![]() |
| Tactical Drone Factory, da Sensofusion |
O
que o AGR precisaria para operacionalizar o conceito
A
manufatura aditiva aplicada a drones não é uma tecnologia experimental isolada
no contexto brasileiro. O AGR já utiliza impressoras 3D para fabricação e
manutenção de equipamentos de comunicações e de visão noturna. O Instituto
Militar de Engenharia (IME) e o Instituto de Pesquisas e Ensaios em Voo (IPEV)
têm capacidade instalada em manufatura aditiva. A empresa ARES Aeroespacial e
Defesa, fornecedora do sistema de armas REMAX para os blindados Guarani, opera
laboratório de manufatura aditiva integrado à sua linha de produção. Da mesma forma, a Taurus Armas emprega a impressão 3D para fabricar componentes de seus armamentos, assim como a Embraer o faz para algumas peças de seus aviões.
Para
um container de fabricação de drones operacional em campanha, os desafios
técnicos mais relevantes não estão na impressão das estruturas em si, mas na
integração dos demais componentes:
- Eletrônicos
e autopilotos: as impressoras 3D fabricam fuselagens e estruturas, mas os
componentes eletrônicos (controladores de voo, receptores GPS, módulos de
comunicação, baterias) precisam estar disponíveis em estoque no container ou
ser adquiridos localmente. A dependência de componentes de origem asiática é o
principal vetor de fragilidade logística.
- Materiais:
filamentos de fibra de carbono, nylon reforçado e resinas de alta resistência
são os materiais adequados para estruturas de drones sujeitas a vibrações e
impactos. Não são consumíveis triviais, pois exigem controle de temperatura,
umidade e prazo de validade.
- Software
e arquivos de design: a vantagem competitiva do container não é a impressora,
mas a capacidade de atualizar o design do drone remotamente. Isso exige
infraestrutura segura de transmissão de arquivos, compatível com os requisitos
de segurança da informação das Forças Armadas.
- Operadores:
uma equipe reduzida precisa dominar tanto a operação das impressoras quanto a
montagem eletrônica e os testes de voo. A curva de treinamento é um fator
crítico para o tempo entre o pedido e o primeiro drone operacional.
O
que está em jogo para a BID
O
chamamento de parceiros lançado pelo Exército Brasileiro abre uma janela de
oportunidade concreta para empresas da Base Industrial de Defesa com capacidade
em manufatura aditiva, sistemas embarcados e desenvolvimento de plataformas não
tripuladas. O prazo é imediato (propostas a partir de 15 de junho, abertura
prevista para 25 de junho) e o escopo é um protótipo funcional, não uma
solução de produção em série.
Para
empresas como SkyDrones (desenvolvimento de plataformas multirotoras sob
demanda), XMobots (fabricação de RPAS de médio e grande porte, com fábrica de
6.000 m² em São Carlos) e eventuais parceiros do ecossistema de manufatura
aditiva industrial, trata-se de uma oportunidade de posicionamento num programa
que, se validado no protótipo, pode escalar para os Arsenais de Guerra do Rio de
Janeiro e de São Paulo.
O
contexto mais amplo reforça a urgência. A Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº
943682, com R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis para ICTMDs, tem entre
suas linhas temáticas explícitas os sistemas de guiamento e navegação para
veículos não tripulados, inteligência artificial e robótica, exatamente as
tecnologias que uma unidade de fabricação avançada de drones demanda. O prazo
de submissão vai até 18 de setembro de 2026, o que cria uma janela de
articulação entre o chamamento de parceiros do AGR e o financiamento disponível
pela Finep.
A
soma dos três elementos (a iniciativa institucional do AGR, o processo de
seleção de parceiros da Diretoria de Fabricação e o financiamento da Finep) sugere que o Brasil está, pela primeira vez, articulando de forma coordenada os
três vértices necessários para avançar nessa capacidade: demanda militar
formalizada, parceria industrial e capital público para desenvolvimento.
O
limite da validação operacional
Uma
ressalva é necessária. O conceito de container de fabricação de drones, seja na
versão brasileira, finlandesa ou americana, ainda não tem validação operacional
plena em ambiente de combate real. Cinquenta drones por dia numa linha de
produção controlada é uma métrica de capacidade industrial, não de eficácia em
campo. A pressão logística, a guerra eletrônica, a escassez de peças, as
condições climáticas e o desgaste dos operadores são variáveis que apenas o
emprego real consegue avaliar.
A
direção, porém, está correta, e isso é o que importa para o planejamento de
longo prazo. O Exército Brasileiro, ao buscar parceiros para um protótipo de
fábrica móvel de drones, está comprimindo o ciclo que na Ucrânia levou três
anos de guerra para ser aprendido empiricamente. Aprender antes do conflito,
com tempo e recursos para errar e corrigir, é exatamente o tipo de vantagem que
um programa de defesa deve perseguir.




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