*LRCA Defense Consulting - 15/06/2026 (atualizado em 23/06 às 16h15)
O Arsenal de Guerra do Rio publicou no PNCP o edital para aquisição do protótipo de sua Unidade Móvel para fabricação de drones, com 12 impressoras 3D e painel solar para operação fora da rede elétrica. O conceito, que chega simultaneamente a arsenais de países como EUA e Finlândia, muda a lógica da produção de sistemas não tripulados: em vez de fabricar em escala central e estocar, produz-se no campo, no momento certo, com o design certo.
Do estudo ao edital: a trajetória do AGR
O conceito não surgiu pronto no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026). Ele tem uma trajetória documentada que começa pelo menos um ano antes. Em junho de 2025, durante a 41ª Reunião dos Diretores de Arsenais de Guerra (REDAG), realizada no Departamento de Ciência e Tecnologia em Brasília, o Sistema de Fabricação do Exército recebeu, de forma inédita, solicitação da Chefia de Material de Aviação do Exército (CMAvEx) para estudar a produção de aeronaves remotamente pilotadas por manufatura aditiva — impressão 3D aplicada à fabricação de estruturas, componentes e peças de drones.
Onze meses depois, no SSNTFT realizado entre 25 e 27 de maio de 2026, militares do Arsenal de Guerra do Rio (AGR) apresentaram ao Alto Comando o resultado desses estudos: um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes e, como elemento central, um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva — uma fábrica de drones desdobrável em campanha.
O projeto saiu do papel em junho de 2026. O Edital nº 90002/2026, publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) em 15 de junho pelo Comando do Exército, unidade compradora Arsenal de Guerra do Rio (UASG 160285), tem como objeto a aquisição do protótipo da Unidade Móvel para fabricação de drones. A modalidade é pregão eletrônico com sistema de registro de preço (Lei 14.133/2021, art. 28, I), com recebimento de propostas entre 15 e 25 de junho de 2026, e valor total estimado de R$ 278.548,80.
O que o edital revela sobre a unidade
A composição dos itens do edital dá ao conceito uma escala concreta, até aqui inédita em qualquer fonte aberta sobre o programa. O protótipo é formado por um container escritório (R$ 100.576,38), 12 impressoras 3D (R$ 13.157,74 cada, totalizando R$ 157.892,88), dois notebooks, dois monitores e duas estações de solda — além de outros cinco itens não detalhados na consulta pública inicial. A proporção entre o valor do container e o das impressoras mostra onde está o verdadeiro investimento do projeto: mais da metade do orçamento vai para a capacidade de impressão em si, não para a estrutura que a abriga.
O detalhe técnico mais relevante consta apenas numa nota de esclarecimento anexada ao edital, e não no Termo de Referência original: o item "container escritório" inclui painel solar integrado com sistema híbrido de armazenagem e uso de energia, permitindo que a unidade opere tanto conectada à rede elétrica quanto de forma autônoma, por bateria. Essa especificação confirma que o AGR projetou a unidade para emprego off-grid — em ambiente desprovido de infraestrutura elétrica fixa —, o que é precisamente a condição esperada de uma fábrica de campanha desdobrável próxima à linha de frente, e não de uma instalação fixa de retaguarda.
O conceito não surgiu pronto no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026). Ele tem uma trajetória documentada que começa pelo menos um ano antes. Em junho de 2025, durante a 41ª Reunião dos Diretores de Arsenais de Guerra (REDAG), realizada no Departamento de Ciência e Tecnologia em Brasília, o Sistema de Fabricação do Exército recebeu, de forma inédita, solicitação da Chefia de Material de Aviação do Exército (CMAvEx) para estudar a produção de aeronaves remotamente pilotadas por manufatura aditiva — impressão 3D aplicada à fabricação de estruturas, componentes e peças de drones.
Onze meses depois, no SSNTFT realizado entre 25 e 27 de maio de 2026, militares do Arsenal de Guerra do Rio (AGR) apresentaram ao Alto Comando o resultado desses estudos: um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes e, como elemento central, um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva — uma fábrica de drones desdobrável em campanha.
O projeto saiu do papel em junho de 2026. O Edital nº 90002/2026, publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) em 15 de junho pelo Comando do Exército, unidade compradora Arsenal de Guerra do Rio (UASG 160285), tem como objeto a aquisição do protótipo da Unidade Móvel para fabricação de drones. A modalidade é pregão eletrônico com sistema de registro de preço (Lei 14.133/2021, art. 28, I), com recebimento de propostas entre 15 e 25 de junho de 2026, e valor total estimado de R$ 278.548,80.
O que o edital revela sobre a unidade
A composição dos itens do edital dá ao conceito uma escala concreta, até aqui inédita em qualquer fonte aberta sobre o programa. O protótipo é formado por um container escritório (R$ 100.576,38), 12 impressoras 3D (R$ 13.157,74 cada, totalizando R$ 157.892,88), dois notebooks, dois monitores e duas estações de solda — além de outros cinco itens não detalhados na consulta pública inicial. A proporção entre o valor do container e o das impressoras mostra onde está o verdadeiro investimento do projeto: mais da metade do orçamento vai para a capacidade de impressão em si, não para a estrutura que a abriga.
O detalhe técnico mais relevante consta apenas numa nota de esclarecimento anexada ao edital, e não no Termo de Referência original: o item "container escritório" inclui painel solar integrado com sistema híbrido de armazenagem e uso de energia, permitindo que a unidade opere tanto conectada à rede elétrica quanto de forma autônoma, por bateria. Essa especificação confirma que o AGR projetou a unidade para emprego off-grid — em ambiente desprovido de infraestrutura elétrica fixa —, o que é precisamente a condição esperada de uma fábrica de campanha desdobrável próxima à linha de frente, e não de uma instalação fixa de retaguarda.
A lição ucraniana
O
modelo de produção centralizada de drones, que dominou o pensamento logístico
até 2022, mostrou sua fragilidade na Ucrânia. Fabricar em larga escala,
transportar para a frente de combate, estocar e esperar o momento do emprego
criou uma vulnerabilidade estrutural: o design do drone pode tornar-se obsoleto
antes de chegar ao campo de batalha. Na guerra de drones, frequências, cargas
úteis, métodos de guiamento e contramedidas eletrônicas podem mudar em semanas.
A
resposta ucraniana foi empírica e brutal: unidades avançadas passaram a
fabricar e reparar drones in loco, com impressoras 3D portáteis,
componentes eletrônicos disponíveis comercialmente e arquivos de design
atualizados remotamente. O ciclo de adaptação - detectar uma nova contramedida
russa, redesenhar o drone, imprimir, testar e reempregar - passou a ser medido
em dias, não em meses.
Tim
De Zitter, analista da Defesa Belga especializado em sistemas C-UAS e munições
vagantes, sintetizou a transformação conceitual em publicação do dia 15 de
junho: a fábrica móvel não é apenas um meio de produção, mas parte integrante
da cadeia de kill chain de defesa aérea. Segundo ele, "o campo de
batalha não pergunta mais quem tem o drone melhor, mas sim quem consegue
reconstruir o drone melhor amanhã". A lógica é a mesma para drones de
ataque e para interceptadores: a capacidade de adaptar e produzir mais rápido
que o adversário vale mais do que qualquer design específico.
O
conceito em números: o que já existe no mercado
O
AGR não está sozinho nessa direção. Nos últimos meses, pelo menos três
iniciativas paralelas e independentes chegaram ao mesmo conceito operacional, o
que valida a ideia sem que nenhuma delas sirva como modelo direto para a
solução brasileira.
A
empresa finlandesa Sensofusion lançou, em março de 2026, a Tactical Drone Factory:
uma instalação completa de fabricação de drones comprimida num container padrão
de 20 pés (ISO 668, compatível com STANAG), equipada com impressoras 3D
industriais para estruturas em plástico de carbono, estação de montagem de
eletrônicos e estoque de peças de reposição. Capacidade declarada:
aproximadamente 50 drones interceptadores por dia, operados por uma equipe
reduzida, desdobráveis em qualquer lugar do mundo. A troca de modelo de drone
requer apenas o carregamento de um novo arquivo de design, com adaptação imediata
a novas ameaças, sem necessidade de nova linha de produção.
Nos
Estados Unidos, a startup Firestorm Labs desenvolveu o xCell, plataforma de
manufatura em container capaz de imprimir sistemas de drones em menos de 24
horas. Em abril de 2026, a empresa captou US$ 82 milhões para expandir o
conceito. O Exército americano já usou o xCell para imprimir peças de reposição
de um veículo blindado Bradley diretamente no campo, substituindo componentes
que, pelo processo convencional, levariam meses para ser adquiridos. O Rock
Island Arsenal-Joint Manufacturing and Technology Center (RIA-JMTC), principal
arsenal de fabricação do Exército dos EUA, desenvolve versão orgânica do mesmo
conceito, com foco em produção descentralizada de drones em escala para as
forças terrestres americanas.
Os
três casos compartilham uma premissa: instalações fixas de fabricação são
alvos. Uma fábrica dentro de um container pode ser movida, ocultada, replicada
e reprogramada. A resiliência logística vira capacidade de combate.
![]() |
| Tactical Drone Factory, da Sensofusion |
O que ainda falta para operacionalizar o conceito
O edital cobre a estrutura física da unidade — container, impressoras, estações de trabalho e de solda —, mas não esgota o desafio de transformar esse protótipo em capacidade operacional real. Pelo menos quatro questões de integração permanecem fora do escopo do pregão e são decisivas para o sucesso do conceito:
- Eletrônicos e autopilotos: as impressoras 3D fabricam fuselagens e estruturas, mas os componentes eletrônicos (controladores de voo, receptores GPS, módulos de comunicação, baterias) precisam estar disponíveis em estoque no container ou ser adquiridos localmente. A dependência de componentes de origem asiática é o principal vetor de fragilidade logística, e o edital não contempla esse suprimento.
- Materiais de impressão: filamentos de fibra de carbono, nylon reforçado e resinas de alta resistência são os materiais adequados para estruturas de drones sujeitas a vibrações e impactos. Não são consumíveis triviais, pois exigem controle de temperatura, umidade e prazo de validade, fatores que pesam ainda mais em emprego de campanha sob calor, poeira ou umidade elevada.
- Software e arquivos de design: a vantagem competitiva real do container não está na impressora em si, mas na capacidade de atualizar o design do drone remotamente, em resposta a uma nova ameaça ou contramedida. Isso exige infraestrutura séria de transmissão de arquivos, compatível com os requisitos de segurança da informação das Forças Armadas, peça que não aparece em nenhum item do edital.
- Operadores: uma equipe reduzida precisa dominar tanto a operação das impressoras quanto a montagem eletrônica e os testes de voo. A curva de treinamento é um fator crítico para o tempo entre o pedido e o primeiro drone operacional, e nenhuma capacitação consta como item da contratação atual.
A ausência desses quatro elementos no edital não é necessariamente uma falha de planejamento: é provável que estejam previstos em contratações ou desenvolvimentos posteriores, já que o objeto desta licitação é explicitamente o protótipo da unidade física. Mas é exatamente nesse hiato, entre o container entregue e o drone produzido, que residirá o verdadeiro teste de maturidade do projeto.
O edital cobre a estrutura física da unidade — container, impressoras, estações de trabalho e de solda —, mas não esgota o desafio de transformar esse protótipo em capacidade operacional real. Pelo menos quatro questões de integração permanecem fora do escopo do pregão e são decisivas para o sucesso do conceito:
- Eletrônicos e autopilotos: as impressoras 3D fabricam fuselagens e estruturas, mas os componentes eletrônicos (controladores de voo, receptores GPS, módulos de comunicação, baterias) precisam estar disponíveis em estoque no container ou ser adquiridos localmente. A dependência de componentes de origem asiática é o principal vetor de fragilidade logística, e o edital não contempla esse suprimento.
- Materiais de impressão: filamentos de fibra de carbono, nylon reforçado e resinas de alta resistência são os materiais adequados para estruturas de drones sujeitas a vibrações e impactos. Não são consumíveis triviais, pois exigem controle de temperatura, umidade e prazo de validade, fatores que pesam ainda mais em emprego de campanha sob calor, poeira ou umidade elevada.
- Software e arquivos de design: a vantagem competitiva real do container não está na impressora em si, mas na capacidade de atualizar o design do drone remotamente, em resposta a uma nova ameaça ou contramedida. Isso exige infraestrutura séria de transmissão de arquivos, compatível com os requisitos de segurança da informação das Forças Armadas, peça que não aparece em nenhum item do edital.
- Operadores: uma equipe reduzida precisa dominar tanto a operação das impressoras quanto a montagem eletrônica e os testes de voo. A curva de treinamento é um fator crítico para o tempo entre o pedido e o primeiro drone operacional, e nenhuma capacitação consta como item da contratação atual.
A ausência desses quatro elementos no edital não é necessariamente uma falha de planejamento: é provável que estejam previstos em contratações ou desenvolvimentos posteriores, já que o objeto desta licitação é explicitamente o protótipo da unidade física. Mas é exatamente nesse hiato, entre o container entregue e o drone produzido, que residirá o verdadeiro teste de maturidade do projeto.
O
que está em jogo para a BID
O edital, ainda que de valor modesto para os padrões da indústria de defesa, é um marco de processo: é a primeira contratação formal e documentada do programa, com prazo curto entre publicação e abertura de propostas (dez dias), o que sinaliza prioridade interna do Exército para validar o conceito rapidamente.
O contexto mais amplo reforça a urgência. A Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº 943682, com R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis para ICTMDs, tem entre suas linhas temáticas explícitas os sistemas de guiamento e navegação para veículos não tripulados, inteligência artificial e robótica, exatamente as tecnologias que uma unidade de fabricação avançada de drones demanda. O prazo de submissão vai até 18 de setembro de 2026, criando uma janela de articulação entre o protótipo já licitado pelo AGR e o financiamento disponível pela Finep para etapas posteriores de desenvolvimento e escala.
O contexto mais amplo reforça a urgência. A Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº 943682, com R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis para ICTMDs, tem entre suas linhas temáticas explícitas os sistemas de guiamento e navegação para veículos não tripulados, inteligência artificial e robótica, exatamente as tecnologias que uma unidade de fabricação avançada de drones demanda. O prazo de submissão vai até 18 de setembro de 2026, criando uma janela de articulação entre o protótipo já licitado pelo AGR e o financiamento disponível pela Finep para etapas posteriores de desenvolvimento e escala.
O
limite da validação operacional
Uma
ressalva é necessária. O conceito de container de fabricação de drones, seja na
versão brasileira, finlandesa ou americana, ainda não tem validação operacional
plena em ambiente de combate real. Cinquenta drones por dia numa linha de
produção controlada é uma métrica de capacidade industrial, não de eficácia em
campo. A pressão logística, a guerra eletrônica, a escassez de peças, as
condições climáticas e o desgaste dos operadores são variáveis que apenas o
emprego real consegue avaliar.
A
direção, porém, está correta, e isso é o que importa para o planejamento de
longo prazo. O Exército Brasileiro, ao buscar parceiros para um protótipo de
fábrica móvel de drones, está comprimindo o ciclo que na Ucrânia levou três
anos de guerra para ser aprendido empiricamente. Aprender antes do conflito,
com tempo e recursos para errar e corrigir, é exatamente o tipo de vantagem que
um programa de defesa deve perseguir.




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