Comissão de Armamentos do Parlamento helênico aprovou o programa nesta quarta-feira; contrato será firmado com Portugal via acordo governo a governo; entregas previstas entre 2027 e 2030
*LRCA Defense Consulting - 10/06/2026
A Grécia cruzou nesta quarta-feira, 10 de junho, o limiar que transforma intenção em decisão. A Comissão Especial Permanente de Programas e Contratos de Armamentos do Parlamento helênico aprovou, em sessão realizada no período da tarde, a aquisição de três aeronaves de transporte C-390 Millennium da Embraer, num contrato avaliado em 597.586.682 euros, incluindo impostos e retenções de 6%. O programa, que será executado ao longo de seis anos por meio de acordo governo a governo com Portugal, marca o ingresso da Grécia em um clube europeu de operadores do cargueiro brasileiro que já reúne 12 países.
A aprovação parlamentar é o rito institucional que, no sistema grego de aquisições de defesa, precede formalmente a assinatura do contrato. Com ela, o C-390 passa de candidato favorito a escolha ratificada.
Os números do contrato
O documento examinado pela comissão
parlamentar detalha a estrutura financeira do programa com precisão incomum
para esta fase do processo. O custo das três aeronaves em si soma 473.723.440
euros, o que resulta em um preço unitário médio de 157.907.813 euros, valor que
inclui a configuração com sistemas de autodefesa, capacidade de reabastecimento
aéreo e equipamento de evacuação aeromédica exigidos pela Força Aérea Helênica
(HAF). O suporte logístico integrado para os primeiros anos de operação acrescenta
outros 90.037.580 euros ao total.
O primeiro avião será entregue em 2027 e o último em 2030. O mecanismo contratual escolhido é o acordo governo a governo com Portugal, o primeiro operador europeu e o primeiro membro da Otan a incorporar o C-390 ao serviço. Lisboa assinou em setembro de 2025 um aditivo ao seu contrato original que incluiu dez opções de compra transferíveis a nações parceiras, mecanismo que viabiliza a aquisição grega sem a necessidade de um processo concorrencial autônomo.
O portal Defence-Point.gr, que publicou os detalhes financeiros do pacote antes da sessão parlamentar, destacou ainda que a aquisição não será financiada pelo instrumento europeu SAFE, pois este exige que 65% do valor econômico do produto seja gerado na Europa, condição que o C-390 não atende integralmente na configuração prevista.
Uma frota em colapso operacional
O pano de fundo que tornou a decisão
urgente é conhecido há anos, mas os números apresentados ao Parlamento grego
são mais graves do que o noticiado até recentemente. O portal especializado
Pronews.gr revelou que a Força Aérea Helênica possui 15 C-130 Hercules em seu
inventário, mas apenas cinco se encontram operacionais e em voo ativo no
momento. Segundo o mesmo texto, houve períodos recentes em que um único
exemplar ou mesmo nenhum estava disponível para missões, resultado de crônicos
problemas de manutenção e falta de sobressalentes.
Dos 15 C-130 gregos, os demais estão em manutenção de fábrica pesada (na Hellenic Aerospace Industry, em hangares estrangeiros ou sob programas de suporte), ou imobilizados em armazenamento de longa duração na base de Tanagra. A situação dos C-27J Spartan, aeronaves de porte menor, também é precária: das oito unidades recebidas (de uma encomenda original de 12), entre cinco e seis estão operacionais, com disponibilidade que já chegou a níveis críticos por falta de peças.
O Defence-Point.gr acrescenta que a rápida execução do programa derruba, na avaliação do portal, a narrativa do Ministério da Defesa Nacional sobre a recuperação da disponibilidade da frota existente, dado que a taxa de retorno das aeronaves após manutenção na HAI permanece muito baixa. A última entrega de um C-130 revisado ocorreu em 14 de março de 2025.
C-130J derrotado após cinco décadas de monopólio
O C-390 venceu a disputa contra o
C-130J Super Hercules da Lockheed Martin, que durante cinco décadas abasteceu
sozinho o estoque de aeronaves de transporte da Força Aérea Helênica. A
avaliação técnica do Estado-Maior da Aeronáutica grego concluiu que o C-130J
apresenta custo total de aquisição e custo operacional superiores aos do
cargueiro brasileiro. Os números colocados em circulação nos portais gregos
apontam para uma diferença de até 60% no custo de ciclo de vida em favor do
C-390.
A superioridade técnica do C-390 sobre o C-130J é multidimensional. O jato brasileiro é mais veloz (988 km/h contra 643 a 670 km/h do turboprop americano), carrega mais carga (26 toneladas contra 19 a 20 toneladas), opera em altitude de cruzeiro de até 36.000 pés (contra 26.000 a 28.000 pés do C-130J com carga), e tem dois motores turbofan IAE V2500 em vez dos quatro turboprops do Hercules, o que reduz sensivelmente as horas de manutenção e o custo de sobressalentes. A Grécia também considerou e descartou o Airbus A400M, plataforma maior e mais cara, avaliada como excessiva para as necessidades operacionais da HAF.
Reabastecimento aéreo, autodefesa e medevac: três requisitos não
negociáveis
A especificação grega vai além da
simples substituição de capacidade de transporte. A HAF exigiu três
funcionalidades adicionais que transformam o C-390 em multiplicador de poder
para o conjunto das Forças Armadas. A primeira é o sistema de autodefesa (suíte
de guerra eletrônica, alerta de mísseis, flares, chaffs e contramedidas
infravermelhas direcionadas), essencial para operações no Mar Egeu e no
Mediterrâneo Oriental, cenário de tensão permanente no contexto das relações
greco-turcas. A segunda é a capacidade de reabastecimento aéreo com sistema de
cesta (basket), que permitirá apoiar os caças Rafale da frota helênica e, em
uma segunda fase, eventualmente também os F-16, abrindo para a Grécia uma
capacidade que o país historicamente não possui. A terceira é o equipamento de
evacuação aeromédica, de relevância tanto militar quanto humanitária para um
país com centenas de ilhas habitadas.
Portugal como intermediário e modelo operacional
A escolha do mecanismo governo a
governo com Portugal reflete um cálculo estratégico que vai além da
conveniência procedimental. Lisboa é o país europeu com mais experiência
operacional no C-390: a Base Aérea nº 11 de Beja concentra toda a frota
portuguesa, opera o simulador de voo completo do tipo e formou pilotos de
outros países. Em janeiro de 2026, Portugal recebeu o quarto C-390 da frota, o
primeiro equipado com kit completo de reabastecimento aéreo, com tanques na
fuselagem e pods sob as asas.
O ministro da Defesa grego, Nikos Dendias, visitou Beja em maio de 2026 a convite do colega português, Nuno Melo, e declarou publicamente o interesse de Atenas na aeronave. Menos de três semanas depois, a Embraer e a Hellenic Aerospace Industry (HAI) assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para o desenvolvimento de capacidades locais de MRO (Manutenção, Reparo e Revisão) na Grécia, sinalizando que a decisão política já estava tomada. A aprovação parlamentar desta quarta-feira confirma essa leitura.
O 13º país de um clube em expansão acelerada
Com a decisão grega, o C-390 alcança
13 países compradores ou operadores. O programa acumula clientes entre membros
da Otan (Brasil, Portugal, Hungria, Áustria, República Tcheca, Países Baixos,
Suécia, Lituânia, Eslováquia, Coreia do Sul) e ampliou seu alcance geográfico
em maio de 2026 com um pedido dos Emirados Árabes Unidos de 20 aeronaves (10
firmes e 10 opções), sua estreia no Oriente Médio. A frota brasileira, com 19
unidades em serviço e mais de 14.000 horas de voo acumuladas, apresenta taxa de
disponibilidade superior a 99%, número frequentemente citado pela Embraer em
apresentações a clientes potenciais.
Para a Embraer, a adesão da Grécia
representa mais um avanço na substituição dos veteranos C-130 no mercado
europeu. O contrato grego, somado ao MoU com a HAI e ao histórico de mais de
duas décadas de parceria com a Força Aérea Helênica por meio dos jatos
ERJ-135LR e ERJ-145 AEW&C em operação desde 2000, consolida a empresa
brasileira como fornecedora de referência no setor aeroespacial de defesa
grego. As entregas estão previstas para o período de 2027 a 2030.
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GRÉCIA: OS NÚMEROS DA COMPRA DO C-390 |
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Valor total do contrato |
EUR 597.586.682 (incl. retenções de 6%) |
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Custo das 3 aeronaves |
EUR 473.723.440 (média: EUR 157,9 M/unidade) |
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Suporte logístico inicial |
EUR 90.037.580 |
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Mecanismo contratual |
Governo a governo com Portugal |
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Prazo de execução |
6 anos (entregas: 2027 a 2030) |
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Financiamento SAFE |
Não aplicável (regra dos 65% europeus) |
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C-130 operacionais na HAF |
5 de 15 em inventário |
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C-390 selecionados (fase 1) |
3 unidades (opção de mais 3 em fase 2) |
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Concorrentes avaliados |
C-130J Super Hercules (Lockheed Martin) e A400M (Airbus) |
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Aprovação parlamentar |
10 de junho de 2026 |

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