Em um único dia na pista de uma base aérea do Nordeste, trinta expositores, cinco protocolos com o COMAER e voos reais de sistemas nacionais comprovaram que a indústria brasileira de drones saiu do papel, podendo redesenhar a BID aeroespacial; o INOVAERO foi o maior encontro já realizado entre a FAB e a indústria nacional de drones
*LRCA Defense Consulting - 14/06/2026
A Base Aérea de Salvador (BASV) foi palco, no dia 12 de junho de 2026, do 1º Encontro de Inovação Aeroespacial (INOVAERO), promovido pela Força Aérea Brasileira (FAB) em parceria com o SENAI CIMATEC no âmbito do Parque Industrial Tecnológico Aeroespacial da Bahia (PITA-BA). O evento produziu protocolos de intenções entre o Comando da Aeronáutica e empresas da Base Industrial de Defesa (BID), com destaques que vão de um drone de asa fixa com decolagem e pouso vertical, desenvolvido pela Helisul Engenharia, até uma munição de espera (vagante ou kamikase) em testes a bordo do Embraer C-390 Millennium, passando por um drone de logística apresentado pela Speedbird Aero e pela estreia pública do Albatroz Vortex da Stella Tecnologia já como parceira formal da FAB.
O evento e o parque tecnológico
O INOVAERO reuniu o ministro da Defesa, José
Múcio Monteiro, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, o
ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, o comandante da Aeronáutica,
tenente-brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, representantes das três
Forças, membros do Alto-Comando da Aeronáutica, autoridades estaduais e
municipais, além de universidades, centros de pesquisa, bancos de fomento e
cerca de trinta expositores de todo o Brasil.
A iniciativa integra as ações de consolidação do PITA-BA, parceria firmada em 2024 entre o Comando da Aeronáutica e o SENAI CIMATEC, estruturada pelo modelo de cooperação que a FAB denomina Tríplice Hélice: governo, Forças Armadas, academia e indústria operando em conjunto para o desenvolvimento de soluções tecnológicas de interesse estratégico nacional. A cessão de uso de aproximadamente um milhão de metros quadrados da Base Aérea de Salvador - BASV ao SENAI CIMATEC foi viabilizada por termo com vigência inicial de 35 anos, renováveis.
O PITA-BA tem como missão declarada desenvolver sistemas aeroespaciais que garantam ao COMAER maior capacidade operacional com autonomia tecnológica, transformando o Nordeste em polo estratégico para o setor. A escolha de Salvador, conforme a FAB enfatiza, não é simbólica: a BASV oferece infraestrutura militar com acesso direto à pista do aeroporto internacional, o SENAI CIMATEC é um dos principais centros nacionais de pesquisa aplicada e prototipagem, e a posição geográfica da Bahia conecta o Nordeste, o Atlântico Sul e a logística aérea nacional.
O chefe da Sexta Subchefia do Estado-Maior da Aeronáutica, major-brigadeiro do Ar Fábio Luís Morau, sintetizou a ambição da FAB: "No caso do futuro estratégico, já temos estudos dentro do Comando da Aeronáutica visando à utilização dessas tecnologias de drones espalhadas por todo o país. Esses estudos estão aprofundados de maneira que nós, em breve, tenhamos uma capacidade instalada e distribuída por todo o território nacional, utilizando uma tecnologia moderna, de baixo custo e de eficiência reconhecida internacionalmente".
“Vivemos uma época em que os avanços tecnológicos ocorrem em uma velocidade sem precedentes, tornando-se cada vez mais evidente que nenhuma Instituição é capaz de responder aos desafios do futuro de maneira isolada, sendo, portanto, imperativa a construção de parcerias que favoreçam o intercâmbio de ideias, conhecimentos e experiências, de modo a criar um ambiente propício à inovação e à geração de soluções à altura das demandas de nosso tempo”, ressaltou o Comandante da Aeronáutica.
Protocolos assinados: da Polícia Civil à BID
Como principal desdobramento institucional do
INOVAERO, foram assinados protocolos de intenções para cooperação no
desenvolvimento de projetos estratégicos voltados à FAB. O acordo envolveu,
além do Comando da Aeronáutica e do SENAI CIMATEC, a Polícia Civil da Bahia e
as empresas BRVANT, Helisul, Mac Jee, OBL e Taurus Armas. A presença simultânea de
uma instituição de segurança pública e de empresas com portfólio orientado à
defesa reflete a tônica de uso dual que o parque baiano busca consolidar.
Paralelamente, o SENAI CIMATEC formalizou memorandos voltados à pesquisa, desenvolvimento, testes, prototipagem, produção e formação de mão de obra especializada com outros participantes do evento. Os termos específicos de cada protocolo não foram divulgados publicamente.
Não é o primeiro protocolo firmado pela Helisul no âmbito do PITA-BA: em julho de 2025, a empresa já havia assinado memorando de entendimento durante a cerimônia de formalização das primeiras parcerias do parque, ao lado de Aba On Tech, Digex Aircraft, FCX Aero, Viasat Brasil, Innex, ANAC e Agência Espacial Brasileira. O INOVAERO representa uma segunda camada de comprometimento formal.
Centro de competência em Aeronáutica e Drones avança para a segunda fase
Em paralelo aos protocolos, o PITA-BA avança
para a segunda fase do Centro de Competência em Aeronáutica e Drones. A
iniciativa contempla o desenvolvimento de uma estação móvel para ensaios em
voo, laboratório de laminação de materiais compósitos, eletrônica embarcada com
suporte a inteligência artificial, simulação de gerenciamento de tráfego aéreo
para drones (UTM), avaliação de combustíveis sustentáveis para aviação e
construção de cenários operacionais. O projeto reúne universidades, centros de
pesquisa e empresas nacionais.
O parque também investe em encomendas tecnológicas voltadas ao desenvolvimento de equipamentos produzidos no Brasil, criando demanda para a BID e incentivando empresas nacionais a desenvolver soluções que possam atender tanto às Forças Armadas quanto ao mercado internacional.
Helisul Drones e o VTOL Gull
A Helisul foi uma das empresas que realizaram
demonstrações aéreas durante o INOVAERO, ao lado de Stella, FCX Aero e
Speedbird. As imagens divulgadas pela FAB identificam explicitamente o sistema
voado pela empresa como o Gull (Gaivota), drone de asa fixa com
decolagem e pouso vertical desenvolvido pela Helisul Engenharia, divisão
surgida da incorporação da Albatross Indústria Aeronáutica em 2024, voltada a
drones de alta performance, soluções embarcadas e sistemas de guerra
eletrônica.
Com 3 metros de envergadura e 2,5 metros de comprimento, o Gull conta com quatro motores para a fase de decolagem e pouso vertical e um quinto motor dedicado ao voo de translação horizontal, configuração que combina a conveniência operacional dos multirrotores com a eficiência de cruzeiro das aeronaves de asa fixa, eliminando a necessidade de pista, catapulta ou paraquedas de recuperação. A carga útil chega a 5 quilogramas, a autonomia de voo é de até quatro horas, o teto operacional é de 5 mil pés e o alcance inicial estimado, em modo BVLOS (além da linha de visada visual), é de 200 quilômetros.
Para missões de inteligência e vigilância, o Gull pode ser configurado com sensor eletro-óptico convencional e infravermelho, sistema SATCOM, capacidade COMMINT (interceptação de comunicações e detecção de drones), detector de aparelhos celulares e sensor multiespectral entre 10 e 20 polegadas. Na configuração voltada à vigilância marítima, a aeronave embarca um radar de visada lateral (Side Looking Airborne Radar, SLAR) com alcance de 200 milhas náuticas e resolução de 15 centímetros, adequado ao imageamento de longa distância e à proteção da Amazônia Azul. O enlace de dados opera por linha de visada ou, opcionalmente, via antena satelital Starlink.
Versões futuras do Gull devem receber propulsão híbrida elétrico-combustão e navegação SATCOM dedicada, ampliando a persistência e o alcance de missão. A Helisul comercializa o sistema completo, com treinamento e suporte logístico incluídos, e oferece também modalidade de arrendamento com acesso contínuo a atualizações.
O Gull não é a primeira experiência da Helisul com drones VTOL de asa fixa. Em fevereiro de 2023, a empresa firmou parceria com a desenvolvedora europeia FIXAR para distribuir e operar no Brasil o modelo FIXAR 007, drone híbrido com capacidade de carga de 2 quilogramas, velocidade de 20 metros por segundo e alcance superior a 60 quilômetros, com previsão de incorporar o modelo FIXAR 025 (até 10 quilogramas de carga útil e 300 quilômetros de alcance). A parceria com a fabricante estrangeira funcionou como base operacional e comercial; o Gull representa o salto para o desenvolvimento próprio.
![]() |
| DLV-2, da Speedbird Aero |
Speedbird revela o DLV-2
A Speedbird Aero, empresa sediada em Franca (SP) e com operações em múltiplos continentes, apresentou no INOVAERO o DLV-2, drone de logística com capacidade de carga de até 6 quilogramas, peso máximo de decolagem de 25 quilogramas e alcance de 8 quilômetros em missão de ida e volta, voltado ao transporte de cargas pesadas como itens industriais, materiais biológicos e pedidos de e-commerce. O DLV-2 integra uma família de três aeronaves: o DLV-1, para logística urbana leve (até 2,5 kg, raio de 3 km); e o DLV-4, modelo VTOL de asa fixa com alcance de até 40 quilômetros em configuração padrão e potencial de 100 quilômetros dependendo da configuração, voltado à conexão entre cidades, armazéns, hospitais e áreas remotas.
Todos os modelos operam em modo BVLOS e são gerenciados pela plataforma Cloud Control Station (CCS) da própria empresa, com controle por enlace 4G/5G, telemetria em tempo real, pouso assistido por inteligência artificial e lógicas de segurança certificadas para operações além da linha de visada. A Speedbird já possui Certificado de Aeronavegabilidade emitido pela ANAC, sendo a primeira plataforma do gênero certificada por uma autoridade de aviação civil de referência, e conta entre seus clientes com iFood, Grupo Pardini, Ambev, Claro, Mercedes-Benz, Natura e Siemens. O diretor do Conselho e presidente para as Américas da empresa, André Stein, descreveu o DLV-2 como capaz também de atuar em "ambientes complexos", abrindo perspectiva de uso dual que dialoga diretamente com os interesses do COMAER no INOVAERO.
Stella Tecnologia e BRVANT: duas frentes
nacionais em drones e munições vagantes
A Stella Tecnologia, Empresa Estratégica de Defesa sediada no Rio de Janeiro e fundada em 2015, levou ao INOVAERO três aeronaves de sua família: o Albatroz Vortex, que realizou demonstração aérea, e o Albatroz e o Atobá, exibidos em configuração estática. Em conjunto, as três plataformas demonstraram a profundidade de um portfólio capaz de atender diferentes envelopes de missão para a FAB, a Marinha do Brasil e o Exército Brasileiro.
O Albatroz Vortex foi o destaque das demonstrações aéreas do evento. Com 150 quilogramas de peso máximo de decolagem, 4 metros de comprimento e 7 metros de envergadura, é o primeiro drone brasileiro equipado com turbina a jato de produção inteiramente nacional, a ATJR 15-5, desenvolvida em cooperação com a Aero Concepts no âmbito do Acordo de Cooperação e Parceria para Desenvolvimento Tecnológico firmado entre o COMAER e a Aero Concepts em novembro de 2025. O voo inaugural com a turbina ocorreu em 17 de dezembro de 2025, na Base Aérea de Santa Cruz. A aeronave atinge até 250 km/h e pode operar acima de 12 mil metros de altitude; versões futuras com a mesma turbina poderão alcançar até 700 km/h. Projetada para operar em pistas com menos de 150 metros de extensão, incluindo embarcações, o Albatroz Vortex é adequado a operações a partir do Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico e foi concebido como plataforma para sensores, radares e pequenos mísseis. O Albatroz, versão anterior da mesma família, integrou a exposição estática ao lado do Atobá, consolidando a integração entre célula e turbina nacionais já na linha de produção.
O CEO da Stella, Gilberto Buffara, sintetizou o significado da participação: "Voar o Albatroz Vortex em Salvador, diante do Comandante da Aeronáutica e do Ministro da Defesa, é mais do que uma vitrine: é a prova de que o Brasil pode dominar toda a cadeia de uma aeronave não tripulada de alto desempenho, da estrutura à turbina, dentro de casa. O PITA-BA e o INOVAERO confirmam que há um novo polo aeroespacial nascendo fora do eixo Sudeste, e a Stella quer estar no centro dessa construção".
![]() |
| Drone Atobá, da Stella |
A parceria com a Thales amplia o envelope de missão: a Omnisys, subsidiária brasileira do Grupo Thales, desenvolve conjuntamente sistemas avançados de vigilância e sensores para integração nas plataformas da Stella, incluindo radar de abertura sintética, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos, aviônicos e foguetes inteligentes de 70 mm. O acordo foi reforçado publicamente na DroneShow Robotics 2025, quando o protótipo do Atobá foi exposto com tecnologia e armamentos da Thales embarcados.
A presença da Stella no INOVAERO não foi estreia de parceria com a FAB. Em fevereiro de 2026, as duas partes assinaram protocolo de intenções cobrindo: desenvolvimento de plataformas de inteligência, vigilância e reconhecimento com enlace além da linha de visada e integração de inteligência artificial; avaliação de capacidades de lançamento de cargas com controle e precisão; e desenvolvimento de sistemas aéreos remotamente pilotados de ataque único, com prioridade para soluções de propulsão nacionais. O acordo não prevê transferência direta de recursos financeiros.
![]() |
| Munição planadora Siopi, da Stella Tecnologia |
O portfólio ofensivo da Stella é o mais diversificado entre as empresas brasileiras do setor e abrange três linhas distintas. A primeira é a munição planadora Siopi, desenvolvida para ser lançada a partir do Atobá, do Albatroz ou do Condor: sem propulsão própria, ela planar com razão máxima de 20:1, ou seja, a cada metro de altitude perdido, avança 20 metros horizontalmente. Lançada a 10 mil metros, pode percorrer até 200 quilômetros carregando uma cabeça de guerra de 4 quilogramas. Sua assinatura acústica é praticamente nula, a assinatura radar é mínima e a assinatura térmica é próxima de zero, tornando-a extremamente difícil de detectar. O sistema de guiamento combina medições inerciais com visão computacional, e o operador pode corrigir o curso ou autodestruir a munição até instantes antes do impacto. A Stella trabalha ainda em capacidade de emprego por enxame (swarm).
A segunda linha é o drone kamikaze guiado por fibra óptica, apresentado em evento militar em dezembro de 2025: o enlace de controle e a transmissão de vídeo trafegam como pulsos de luz por um cabo ultrafino conectado fisicamente ao operador, tornando o sistema praticamente imune à guerra eletrônica. O alcance operacional situa-se entre 10 e 50 quilômetros, o peso de lançamento é de cerca de 15 quilogramas e o sistema conta com câmera no nariz e enlace de dados criptografado.
![]() |
| Imagem aproximada do drone com fibra óptica da Stella Tecnologia |
A família inclui ainda o Condor, em desenvolvimento com motorização híbrida, 1.400 quilogramas de MTOW, 390 quilogramas de carga útil, 40 horas de autonomia e enlace satelital de alcance ilimitado; quando operacional, será a maior plataforma não tripulada já desenvolvida no hemisfério sul.
A BRVANT Soluções Tecnológicas, Empresa Estratégica de Defesa com histórico de fornecimento de sistemas não tripulados para as Forças Armadas, incluindo o drone-alvo BRV-Cardeal, utilizado em exercícios de tiro antiaéreo da Marinha, chegou ao INOVAERO com um sistema de natureza distinta: uma munição vagante de asa delta com propulsão traseira, transportada a bordo de um C-390 Millennium. A própria empresa publicou no LinkedIn a imagem do carregamento com a legenda "Rumo ao PITA-BA!!!", confirmando o transporte até a Base Aérea de Salvador. A morfologia do sistema, com fuselagem cilíndrica alongada, ogiva cônica e asa em delta de baixo perfil, é consistente com a família de munições vagantes de propulsão convencional que inclui o Shahed-136 iraniano e o Geran-2 russo, amplamente empregados nos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia.
O fato de pelo menos duas empresas brasileiras convergirem simultaneamente para o nicho de munições vagantes (a Stella pela via da fibra óptica e da planagem furtiva, a BRVANT pela via da propulsão convencional e do alcance estendido) indica que o Brasil está construindo em paralelo as vertentes que dominam o debate tático internacional: o drone de ataque preciso e imune à guerra eletrônica, e a munição de longo alcance e baixo custo unitário capaz de saturar defesas adversárias com interceptores de valor muito superior. A combinação dessas capacidades, se amadurecida, representa um salto qualitativo real para a BID aeroespacial nacional.
![]() |
| Munição vagante de asa delta com propulsão traseira, da BRVANT |
Segurança de voo e coordenação regulatória
As demonstrações aéreas foram coordenadas com a
ANAC, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e a administração do
Aeroporto Internacional de Salvador, sendo realizadas nos intervalos sem voos
comerciais, dentro de circuitos controlados e monitorados por todos os órgãos
de controle do espaço aéreo. Segundo a FAB, todas as normas de segurança de voo
aplicáveis foram respeitadas, e o INOVAERO serviu para "confirmar o
elevado nível de operacionalidade dos equipamentos que já estão em fase final
de desenvolvimento".
O ecossistema e a disputa pela dianteira
tecnológica
Além das empresas signatárias dos protocolos, o INOVAERO reuniu Embraer, Aeromot, Saab, AEL Sistemas, Adtech, FCX Aero, Axon, Percepta Analytics, Axé Fly, ABDRONE, TRL9, Aero Concepts, Inova-USP e outras, compondo um retrato abrangente do que o Brasil tem hoje em termos de capacidade aeroespacial aplicada à defesa e ao uso dual.
O destaque tecnológico da FCX Aero foi o Austros, descrito como a maior aeronave agrícola autônoma do Brasil, que também realizou demonstrações aéreas durante o evento. A Aero Concepts, fabricante da turbina ATJR 15-5 do Albatroz Vortex, esteve presente reforçando sua posição como fornecedora estratégica de propulsão para o ecossistema nacional de drones, uma empresa que, apoiada pela FINEP e pelo DCTA desde 2006 e agora com acordo formal com a FAB, projeta dominar integralmente as tecnologias de fabricação de turbinas no Brasil, incluindo superligas estratégicas. A Saab, por sua vez, compareceu ao evento no contexto da parceria industrial do programa Gripen, que está transformando São José dos Campos em polo de desenvolvimento aeroespacial de dupla aplicação, com desdobramentos diretos sobre o ecossistema de sensores, aviônicos e sistemas embarcados que alimentam projetos como os da Stella e da AEL Sistemas.
A TRL9, empresa nacional de tecnologia aeroespacial presente entre os expositores, chamou atenção com um modelo conceitual exibido em seu estande: uma aeronave de fuselagem cilíndrica com ogiva cônica pronunciada, asas em delta de pequeno alongamento e superfícies de cauda cruciformes, morfologia característica de um interceptador ou drone de defesa antiaérea. A empresa não divulgou especificações técnicas ou denominação oficial do sistema durante o evento, mas a presença do conceito no INOVAERO é em si um dado: num encontro dominado por plataformas de vigilância, logística e ataque, a TRL9 trouxe a dimensão da defesa ativa, nicho que o Exército Brasileiro está prestes a contratar por até R$ 3,4 bilhões e que ainda carece de solução nacional consolidada.
O Albatroz Vortex da Stella também voou durante o evento, consolidando o marco histórico de dezembro de 2025. Segundo o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, o Brasil integraria um grupo de apenas seis países no mundo com capacidade de desenvolver um drone e uma turbina de produção inteiramente doméstica. A afirmação posiciona o INOVAERO não como uma feira de novidades, mas como a certificação pública de uma maturidade industrial que levou duas décadas para ser construída, da criação do DCTA à primeira turbina voando em uma aeronave nacional.
Para a Helisul, a participação consolidou um duplo movimento: a apresentação do Gull como produto de desenvolvimento próprio orientado à defesa e à segurança pública, e a renovação do vínculo formal com o COMAER por meio do novo protocolo de intenções. A empresa, que há três décadas atua no apoio aéreo a órgãos de segurança e incorporou em 2024 a divisão de engenharia voltada a drones de alta performance e guerra eletrônica, posiciona-se como integradora de soluções C5ISTAR no ecossistema aeroespacial que a FAB busca consolidar no Nordeste, com Salvador como ponto de partida e o PITA-BA como estrutura permanente.
A logística do próprio INOVAERO foi, em si, uma demonstração de capacidade. Tanto o Atobá da Stella (fotografado à noite sendo embarcado com a marca da Thales já na fuselagem), quanto a munição vagante de asa delta da BRVANT chegaram a Salvador a bordo de C-390 Millennium da FAB. O fato não é trivial: a mesma aeronave que acumula contratos de exportação em Portugal, Países Baixos, Áustria, Hungria, República Tcheca e avança em negociações com Turquia, Grécia e Polônia foi usada para mobilizar o ecossistema nacional de defesa em direção ao Nordeste, funcionando como vetor estratégico da própria BID que ajudou a construir.
A
presença simultânea de uma empresa de porte global como a Embraer e de
startups em estágio inicial, ilustra a amplitude do ecossistema que o
PITA-BA pretende articular.
Essa disputa pela dianteira tecnológica tem um componente geopolítico que o INOVAERO deixou implícito, mas que os sistemas presentes tornaram explícito: munições vagantes, drones de ataque por fibra óptica, radares holográficos C-UAS, sistemas de vigilância marítima de longo alcance e logística autônoma são, todos, tecnologias que os países que dominam conflitos modernos desenvolveram internamente, ou que compraram a preço político alto de fornecedores com capacidade de impor restrições de uso. O Brasil, que depende de importações para boa parte de seu material de defesa sensível, está construindo, peça por peça, a capacidade de não depender.
Salvador como ponto de inflexão
O INOVAERO não foi apenas um evento. Foi uma declaração de intenções com drones voando ao fundo. Em um único dia, na pista de uma base aérea do Nordeste, o Brasil viu um drone de vigilância VTOL desenvolvido por uma empresa gaúcha de aviação executiva, um sistema de logística autônoma capaz de transportar equipamento médico em ambientes hostis, o primeiro drone brasileiro com turbina a jato de produção nacional exibido como parceiro formal das Forças Armadas, e indícios de que munições de espera (vagantes ou kamikases) nacionais podem estar mais próxima da linha de produção do que se imaginava. Nenhum desses sistemas existia, na forma atual, há cinco anos.
O que o PITA-BA representa, e o que o INOVAERO deixou visível, é a tentativa de o Brasil comprimir em uma década o caminho que Israel, Turquia e Irã percorreram em duas ou três. Os três países partiram de capacidades modestas, apostaram em uso dual, aceitaram começar por sistemas simples e baratos, e hoje exportam tecnologia para conflitos reais. O Brasil tem o que eles não tinham no início: uma indústria aeronáutica consolidada, uma fabricante de aeronaves entre as maiores do mundo, universidades com produção científica reconhecida e um mercado interno de defesa que, quando ativa encomendas, tem porte suficiente para sustentar ciclos industriais.
O que faltava, historicamente, foi exatamente o que o INOVAERO tentou construir: o elo entre quem desenvolve, quem financia e quem opera. Se os protocolos assinados em Salvador se converterem em contratos, e os contratos em produtos entregues e operados, o Nordeste terá deixado de ser periferia do mapa aeroespacial brasileiro para se tornar uma de suas alavancas. O próximo INOVAERO dirá se foi um começo ou apenas um evento.















Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).