Acordo entre as fabricantes, firmado durante visita do presidente sul-coreano ao Brasil, formaliza plano anunciado em fevereiro para explorar o desenvolvimento de uma aeronave de nova geração
*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026 (atualizado às 09 horas)
A Korea Aerospace Industries (KAI) e a Embraer assinaram um memorando de entendimento (MOU) para ampliar a cooperação em aviação comercial e aeroespacial, fortalecendo a parceria estratégica entre as duas fabricantes. O acordo foi firmado durante o Korea-Brazil Business Roundtable, realizado em São Paulo nesta terça feira (28), no âmbito da visita de Estado do presidente sul-coreano Lee Jae Myung ao Brasil, segundo informou o portal especializado AVIATOR.
Segundo autoridades sul-coreanas, o MOU dá continuidade a um anúncio feito pelas duas empresas em fevereiro, quando KAI e Embraer já haviam manifestado a intenção de explorar conjuntamente o desenvolvimento de uma aeronave comercial de nova geração. O novo memorando estabelece agora um marco para colaboração mais ampla e diálogo estratégico regular entre as companhias.
O acordo corporativo coincidiu com uma proposta política do presidente Lee, que, no mesmo evento, apontou o desenvolvimento conjunto de aeronaves comerciais de nova geração como um dos três eixos prioritários para aprofundar a relação econômica entre os dois países, ao lado da cooperação em minerais críticos e da crescente indústria coreana de cosméticos.
Governo fala em
estágio inicial, mas empresas já formalizam colaboração
Em paralelo ao
MOU entre as fabricantes, o chefe da Política Presidencial da Coreia do Sul,
Kim Yong-beom, afirmou que a participação sul-coreana no programa de nova
geração da Embraer ainda está em estágio muito preliminar: nem a forma dessa
participação, nem os termos comerciais de um eventual acordo mais amplo foram
definidos até o momento. A distinção é relevante: o MOU já assinado organiza o
diálogo entre KAI e Embraer, mas o formato final da cooperação, incluindo
eventual investimento ou desenvolvimento conjunto de um avião maior, segue em
aberto.
Ideia surgiu
durante inspeção a um C-390
O tema já havia
sido lançado por Lee no domingo (26), ao chegar a Brasília, quando inspecionou
um C-390, aeronave de transporte militar fabricada pela Embraer que a Força
Aérea sul-coreana deve começar a receber ainda neste ano, dentro de um contrato
que já prevê a produção de componentes por empresas coreanas. Na ocasião, o
presidente disse a autoridades brasileiras que os dois países deveriam, no
futuro, construir aeronaves civis juntos, se possível.
Um avião maior
que os jatos regionais atuais
De acordo com
Kim, a Embraer estaria avaliando ampliar seu portfólio para além dos jatos
regionais de 70 a 100 assentos, hoje núcleo de seu negócio comercial, entrando
no segmento de aeronaves de médio porte, com capacidade para 150 a 200
passageiros. É nesse programa, ainda em fase de concepção, que a Coreia do Sul
pretende buscar uma participação mais profunda do que a atual, hoje restrita
majoritariamente ao fornecimento de partes de fuselagem e asas.
A motivação:
ampliar a base industrial aeroespacial coreana
Kim explicou que
a eventual parceria serviria para ampliar a base industrial aeroespacial da
Coreia do Sul, hoje concentrada quase exclusivamente na fabricação de aeronaves
militares pela Korea Aerospace Industries (KAI). Segundo ele, a KAI não pode
permanecer restrita a esse campo, dependente apenas da demanda doméstica por
caças, e precisa expandir tanto na área militar quanto na aviação comercial. O
setor de aviação comercial, os motores aeronáuticos e a indústria espacial
estão conectados, disse Kim, acrescentando que a Coreia do Sul precisa
fortalecer significativamente suas capacidades aeroespaciais.
O que a KAI já
fornece à Embraer hoje
A KAI afirmou que
a parceria tem como objetivo ir além da atual relação de fornecedora que mantém
com a Embraer. Atualmente, a empresa sul-coreana fabrica estruturas de asa para
aeronaves comerciais da Embraer e componentes estruturais para aeronaves eVTOL
(de decolagem e pouso vertical elétricos), segmento em que a fabricante
brasileira atua por meio da Eve Air Mobility. Com o novo memorando, a KAI busca
desenvolver uma parceria de mais longo prazo, focada em compartilhamento de
tecnologia e desenvolvimento conjunto.
Empresas já se
movimentam
Durante a viagem,
executivos coreanos se anteciparam ao debate público: Cho Won Tae, presidente
do Hanjin Group, e Kim Jong Chool, presidente da KAI, mantiveram reuniões
individuais com o chairman da Embraer para tratar de uma possível participação
sul-coreana e da ampliação da parceria já existente entre as duas empresas. O
acordo entre KAI e Embraer foi um dos sete memorandos de entendimento assinados
entre companhias coreanas e brasileiras durante o fórum, que também abrangeram
defesa, minerais críticos e biotecnologia.
Kim Yong-beom mencionou ainda conversas em andamento entre a Korean Air e a Embraer, mas o Governo evitou detalhá-las, alegando tratar-se de um estágio ainda inicial das tratativas.
Cautela diante de
um mercado concentrado
O próprio Kim
reconheceu que as empresas avançam com cautela: o mercado global de aeronaves é
dominado por poucos fabricantes, entre eles Airbus e Boeing, e uma eventual
parceria com a Embraer poderia afetar as relações da Coreia do Sul com esses
concorrentes. Ainda assim, o Governo sul-coreano avalia que a Embraer, uma das
três maiores fabricantes de aeronaves comerciais do mundo e importante player
em aviação executiva e defesa, oferece uma oportunidade concreta de expansão na
aviação civil global, caso as condições se mostrem favoráveis.
Uma base de
cooperação que já existe
A eventual
expansão para o campo comercial se apoiaria em uma cooperação industrial já
consolidada entre os dois países. Em 2023, a Coreia do Sul foi selecionada pela
Administração do Programa de Aquisição de Defesa (DAPA) como cliente do C-390
Millennium, no programa Large Transport Aircraft II (LTA II), e
componentes do cargueiro, como partes de fuselagem e asas, já são produzidos
por fornecedores locais como ASTG, EMK e Kencoa Aerospace. Em outubro de 2025,
a Embraer e a DAPA assinaram ainda um memorando de entendimento para aprofundar
a cooperação tecnológica e abrir caminho à participação de empresas coreanas
nas cadeias globais de suprimentos da fabricante brasileira.
Próximos passos
Segundo Kim, o Governo sul-coreano pretende usar
os resultados das conversas da Korean Air e da KAI com a Embraer para desenhar
uma estratégia de participação mais ampla, envolvendo outras empresas e órgãos
oficiais, sob coordenação da Presidência e da Korea AeroSpace Administration.
Após o retorno da comitiva a Seul, disse Kim, o tema será discutido
internamente de forma mais aprofundada, como base para dar sequência às
tratativas com a Embraer.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).