Ampliação da fábrica da Omnisys em São Bernardo
do Campo consolida a subsidiária como centro global de produção e reforça o
apetite da matriz francesa por fusões e aquisições no País, movimento que já
vinha sendo puxado por outros grupos estrangeiros na base industrial de defesa
*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026
A Omnisys, subsidiária brasileira do grupo
francês de defesa Thales, concluiu a maior expansão industrial de sua história
e, ao mesmo tempo, sinalizou disposição para crescer no Brasil por meio de
novas parcerias e aquisições. O anúncio, feito nesta terça-feira (28), em São
Bernardo do Campo (SP), reúne dois movimentos que se complementam: a
consolidação da fábrica local como polo global de radares e a perspectiva,
admitida publicamente por executivos da companhia, de que o crescimento futuro
no País passe também por operações de compra ou associação com outras empresas
do setor.
O maior
investimento da história da unidade
Segundo a Thales, o aporte superior a R$ 120
milhões multiplicou por dez a capacidade de produção de radares da Omnisys, que
passa de uma média de cinco para 50 equipamentos por ano. A área fabril da
unidade, no bairro Vila Júpiter, cresce 40%, de oito mil para 11 mil metros
quadrados, e o processo deve ser concluído em junho de 2027. O quadro de
funcionários aumentará 70%, de 250 para 420 pessoas, com a capacitação da nova
mão de obra prevista para durar até dezembro de 2026.
O anúncio contou com a presença do ministro do
Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. Segundo o presidente da Omnisys, Rodrigo
Modugno, a companhia já exporta para 20 países e pretende orientar a produção
para escala serial sem abrir mão da capacidade de inovar e atender às Forças
Armadas brasileiras. O diretor-geral da Thales no Brasil e vice-presidente para
a América Latina, Luciano Macaferri Ridrigues, afirmou que o resultado
consistente da operação no País justificou a decisão de concentrar ali parte da
produção hoje feita na França, no Reino Unido e na Austrália.
Discurso aberto a
fusões e aquisições
Ao lado da ampliação física da fábrica, a Thales
deixou claro que enxerga espaço para crescer no Brasil também por vias
externas. Em entrevista à Reuters, o vice-presidente de radares de superfície
da Thales, Eric Huber, disse que a companhia está aberta a parcerias e a
atividades de M&A (fusões e aquisições), já que pretende continuar
crescendo no País. Segundo ele, a empresa não comenta casos específicos, mas
reafirma a intenção de ampliar sua presença nacional.
No curto prazo, a prioridade da Thales é
garantir o sucesso da nova etapa produtiva e das entregas decorrentes da
expansão da fábrica. No médio e no longo prazos, porém, o grupo avalia ampliar
o portfólio fabricado localmente, incluindo novos modelos de radares e o
reforço da parceria com o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira na
área de radares militares. A Thales projeta crescimento superior a 60% em
vendas e receitas na América Latina nos próximos três a cinco anos.
Um padrão que já
se repete na indústria brasileira
A sinalização da Thales ocorre num momento em
que a base industrial de defesa (BID) brasileira já vive um ciclo de
consolidação puxado por capital estrangeiro. O caso mais recente é o do EDGE
Group, conglomerado estatal dos Emirados Árabes Unidos, que concluiu, em pouco
menos de três anos, a compra de três empresas de defesa no País: 50% da SIATT
(Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico), em 2023; 51% da Condor
Tecnologias Não Letais, em 2024; e, mais recentemente, 100% da Akaer, empresa
de engenharia aeroespacial de São José dos Campos.
Segundo o CFO do EDGE Group, Rodrigo Torres, o
objetivo do conglomerado é repetir nas empresas adquiridas a mesma estratégia:
injeção de capital, expansão da produção e acesso à carteira internacional do
grupo. A movimentação do EDGE Group ilustra o interesse de grandes
conglomerados estrangeiros em ativos brasileiros de defesa com tecnologia
sensível, como mísseis, sistemas eletro-ópticos e engenharia aeroespacial; é
nesse cenário que se insere a fala de Huber sobre o apetite da Thales por
parcerias e aquisições.
Radares militares
e vigilância costeira como próximos passos
Modugno adiantou que a Omnisys pretende ampliar
sua atuação em vigilância costeira, área que, segundo ele, é uma demanda
crescente à medida que os países ficam mais atentos às suas zonas econômicas
exclusivas. No mercado doméstico, o executivo citou o aumento das apreensões em
zonas rurais como outro fator de demanda. A empresa também deve quadruplicar a
capacidade de seu laboratório de reparos em São Bernardo do Campo, com técnicos
brasileiros atuando em diferentes países para garantir a disponibilidade dos
radares, cuja vida útil varia de 25 a 30 anos.
Para Macaferri Ridrigues, o maior desafio da
expansão não está na demanda, mas na formação de mão de obra especializada;
segundo ele, um radarista qualificado pode levar décadas para ser formado, o
que levou a Thales a investir em treinamento interno e em intercâmbio com
universidades locais, entre elas a Universidade Federal do ABC (UFABC).
Se, por ora, a Thales evita comentar operações
específicas, o discurso público de seus executivos e o histórico recente de
outros grupos estrangeiros no setor sugerem que o apetite por parcerias e
aquisições no Brasil deve seguir como uma frente relevante de expansão da
indústria de defesa nacional, ao lado dos investimentos diretos em capacidade
industrial já em curso.

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