Visita de autoridades angolanas à base portuguesa do KC-390 e sucessivas sinalizações de compra sugerem que a pauta de Defesa pode ter sido o centro da reunião de 17 de agosto
*LRCA Defense Consulting - 18/08/2026
O Presidente de Angola, João Lourenço, recebeu na segunda-feira, dia 17 de agosto, no Palácio Presidencial da Cidade Alta, em Luanda, o presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior. A imprensa angolana, ao noticiar o encontro, deu ênfase à aviação civil e à possível ampliação da presença da Embraer no mercado doméstico e regional, citando a família E-Jets e a relação da TAAG com a Boeing. O próprio noticiário local, no entanto, reconheceu que aviação e segurança estiveram no centro das conversações, e citou nominalmente o C-390 Millennium e o A-29 Super Tucano como soluções da divisão dirigida por Bosco da Costa Junior. Uma análise dos antecedentes recentes sugere que a dimensão de Defesa da visita pode ter sido mais relevante do que a repercussão inicial deu a entender.
Uma relação militar já estabelecida
Angola não é um mercado novo para a Embraer na área de Defesa. O país opera seis A-29 Super Tucano, cuja entrega teve início em 2013, além de 12 EMB-312 Tucano usados na formação de pilotos. Uma eventual negociação em torno do C-390 ocorreria, portanto, sobre uma relação prévia já consolidada, que inclui conhecimento da plataforma brasileira, da cadeia de suporte e da formação de tripulações associada.
Do interesse em quatro aeronaves ao pedido por três
A possibilidade de Angola adquirir o C-390 não é recente. Em agosto de 2023, durante visita à África, o Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva declarou que Angola poderia adquirir quatro unidades do C-390 Millennium, além de revitalizar a frota de Tucano e Super Tucano. À época, o presidente da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), Jorge Viana, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que qualquer venda dependeria de financiamento brasileiro.
Em 23 de maio de 2025, durante encontro com João Lourenço em Brasília, Lula voltou ao tema, mas revisou o número para três aeronaves e afirmou que pediria ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar a operação, segundo reportagem da Aerospace Global News. Até aquele momento, segundo a mesma publicação, a Embraer não tinha nenhum cliente confirmado do C-390 no continente africano, embora houvesse negociações avançadas com a África do Sul, o Marrocos e o Egito.
Portugal como porta de entrada
Um sinal mais recente e concreto de aproximação ocorreu em janeiro de 2026, quando o ministro da Defesa Nacional de Angola, general João Ernesto dos Santos, visitou a Base Aérea nº 11, em Beja, Portugal, e teve contato direto com o KC-390 operado pela Força Aérea Portuguesa (foto abaixo). A comitiva angolana conheceu instalações da Esquadra 506, incluindo o simulador de voo usado na formação de pilotos, em visita acompanhada pelo ministro português Nuno Melo e pelo chefe do Estado-Maior da Força Aérea portuguesa, general João Cartaxo Alves.
Portugal tem hoje seis KC-390 encomendados e garantiu opções para mais dez aeronaves, mecanismo criado justamente para viabilizar eventuais repasses a países parceiros por meio de acordos governo a governo. A Força Aérea Portuguesa não integra formalmente o programa internacional de parceria industrial do KC-390, mas participa da cadeia produtiva do avião, com componentes fabricados no próprio país. Apesar de todo esse histórico de aproximação, o continente africano continua sem nenhum operador confirmado do C-390 ou do KC-390.


Uma frota de transporte com espaço para renovação
Os inventários abertos mais recentes mostram uma Força Aérea Nacional (FAN) com uma frota de transporte numerosa, mas heterogênea e majoritariamente de origem soviética ou russa. Segundo o World Directory of Modern Military Aircraft (WDMMA), em levantamento de 2026, a frota inclui sete Antonov An-12, quatro Ilyushin Il-76, quatro An-72, três An-32, dois Kodiak 100, um Xian MA60 e um CASA/IPTN C-212. Outras fontes abertas apresentam números distintos para os mesmos modelos, o que é comum em levantamentos desse tipo, mas o quadro geral converge: a aviação de transporte angolana segue apoiada, em grande parte, em plataformas de gerações anteriores.
Esse cenário cria espaço para uma renovação gradual. O C-390 não substituiria os Il-76, que pertencem a uma categoria de transporte estratégico distinta, mas poderia ocupar o lugar dos An-12, An-32 e An-72, hoje mais antigos e com disponibilidade operacional questionável.
Complementaridade com o C-295
Em 2022, o governo angolano firmou acordo com a Airbus para receber três turboélices C-295, sendo dois destinados à patrulha marítima e um ao transporte, o que já indicava a intenção de modernizar parte da frota. C-295 e C-390 poderiam cumprir papéis complementares, o primeiro atende à faixa de transporte tático e à vigilância com custos e dimensões menores, enquanto o segundo oferece maior velocidade, alcance e capacidade de carga, além de versatilidade para lançamento de paraquedistas, evacuação aeromédica e operação em pistas não pavimentadas.
O que está confirmado e o que ainda é hipótese
Está confirmado que João Lourenço recebeu Bosco da Costa Junior em 17 de agosto e que a pauta divulgada envolveu aviação e segurança. Também estão documentados o histórico de interesse angolano pelo C-390 (com números que oscilaram entre quatro e três aeronaves conforme a fonte e a data); a visita de autoridades angolanas à base do KC-390 em Beja, em janeiro de 2026; e a relação já consolidada entre Angola e a Embraer por meio do A-29 Super Tucano.
Não está confirmado, porém, que o C-390 tenha sido formalmente discutido durante a audiência de 17 de agosto, nem que Angola tenha retomado oficialmente um projeto específico de aquisição. Qualquer afirmação nesse sentido seria, neste momento, uma extrapolação. O mais correto é tratar a hipótese como uma possibilidade que voltou a ganhar relevância e que deve ser acompanhada a partir de sinais concretos, como novos encontros entre Bosco da Costa Junior e autoridades de Defesa angolanas, contatos com a Força Aérea Nacional ou avanços em uma solução de financiamento.
Para a Embraer, uma eventual venda a Angola representaria a primeira colocação do C-390 no continente africano, além de consolidar uma relação de longo prazo que já inclui o A-29 Super Tucano e pode se estender à manutenção, ao treinamento e a outras soluções de Defesa & Segurança. Para Luanda, seria um passo na renovação de uma frota de transporte ainda concentrada em plataformas antigas, com uma aeronave já escolhida por operadores lusófonos como Portugal.

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