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04 novembro, 2026

FlyBIS firma encomenda de eVTOLs da Eve, da Embraer, para o litoral catarinense e Serra Gaúcha

Acordo vinculante prevê duas aeronaves firmes e direitos de compra para outras dez; volume é menor que as 40 unidades anunciadas em 2022, mas marca a passagem da fase de intenções para o compromisso de frota no Sul do País 



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LRCA Defense Consulting - 04/11/2026 -  10h17

A Eve Air Mobility, empresa do grupo Embraer que desenvolve aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical (eVTOL), assinou nesta quarta-feira (4) um acordo vinculante com a FlyBIS Aviation Limited para o fornecimento de até 12 aeronaves. O contrato reúne duas encomendas firmes e direitos de compra para mais dez unidades, que deverão ser empregadas pela startup de mobilidade aérea avançada, sediada em Caxias do Sul (RS), em ligações entre cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

O anúncio foi divulgado a partir de Melbourne, na Flórida (EUA), e dá sequência à carta de intenções (Letter of Intent) que as duas empresas firmaram em dezembro de 2022. Na ocasião, a FlyBIS havia sinalizado a intenção de adquirir até 40 eVTOLs da Eve, número que passou a integrar a carteira de pedidos da fabricante, então estimada em até 2.770 aeronaves, como noticiou o LRCA na época.

Litoral e serra 
Entre as rotas em estudo estão conexões no litoral catarinense, envolvendo Navegantes, Balneário Camboriú e Florianópolis, e serviços para destinos turísticos da Serra Gaúcha, como Gramado e Bento Gonçalves. O desenho combina dois perfis de demanda: o fluxo de negócios e de veraneio na faixa litorânea de Santa Catarina e o turismo de serra no Rio Grande do Sul.

O argumento não é novo. Em 2022, o cofundador e CEO da FlyBIS, Gustavo Zanettini, já apontava que, em determinados trechos da região, percorrer 30 km de carro podia levar mais de uma hora e meia, dependendo da época do ano e do trânsito, o que tornaria essas ligações candidatas naturais à substituição pelo eVTOL. As distâncias envolvidas são, em tese, compatíveis com o alcance de cerca de 100 km projetado para a aeronave da Eve, que transportará quatro passageiros e um piloto.

“Este acordo vinculante é um passo importante em nossa relação com a FlyBIS e mostra como nossos clientes estão avançando do desenvolvimento inicial de mercado para compromissos concretos de frota”, afirmou Johann Bordais, CEO da Eve. Segundo ele, o Sul do Brasil concentra alta demanda por conexões de mobilidade aérea urbana justamente por reunir forte atividade turística e empresarial.

Para Zanettini, a assinatura representa um marco para a empresa e a aproxima da introdução de uma nova forma de conectividade regional e urbana na região. “A abordagem integrada da Eve, que combina a aeronave com serviços e suporte operacional, oferece uma base sólida enquanto nos preparamos para as futuras operações”, declarou.

As duas empresas seguirão trabalhando nos requisitos para a entrada em serviço, o que inclui planejamento de malha, prontidão operacional, infraestrutura e integração dos voos ao sistema de transporte mais amplo. O comunicado não traz data para o início das operações nem a localização dos vertiportos, mas os passos dados pela FlyBIS nos últimos meses ajudam a desenhar esse mapa.

Gramado e Santa Catarina 
Em 27 de julho de 2026, a FlyBIS assinou protocolo de intenções com a Prefeitura de Gramado para implantar uma das primeiras operações comerciais de eVTOL do País, com início previsto para 2028, conforme publicou o LRCA. O primeiro vertiporto da cidade deverá ser construído no complexo turístico Sirena Gramado, no bairro Mato Queimado, empreendimento de 205 hectares liderado por Dody Sirena e estimado em cerca de R$ 1 bilhão. A ligação entre Porto Alegre e o complexo foi estimada em 25 minutos de voo.

O protocolo com o município foi precedido por um memorando de entendimento com o Grupo Sirena, firmado em maio, durante o Gramado Summit. A empresa também celebrou acordo semelhante com o governo de Santa Catarina, que prevê operações na Ilha de Florianópolis no primeiro ano e, em uma segunda etapa, voos para Balneário Camboriú, Joinville e Porto Alegre. No Rio Grande do Sul, a malha inicial envolveria Gramado, Canela, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, com expansão futura planejada para Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile.

Na ocasião, a FlyBIS informou que as três primeiras aeronaves seriam entregues no primeiro ano de operação no Rio Grande do Sul. O acordo agora assinado, com duas unidades firmes, sugere que a operação inaugural deverá começar em escala mais enxuta, ampliada conforme o exercício dos direitos de compra.

De 40 para 12 
A redução em relação ao número de 2022 chama atenção, mas deve ser lida à luz do mercado de eVTOLs, no qual cartas de intenção costumam expressar potencial de demanda, enquanto contratos vinculantes exigem compromisso financeiro. É essa conversão que investidores e analistas acompanham com mais atenção. Na teleconferência de resultados do segundo trimestre de 2026, Bordais informou que a Eve contava com cerca de 100 encomendas firmes, vindas da Revo e da AirX, dentro de uma carteira de aproximadamente 2.700 aeronaves avaliada em cerca de US$ 13,5 bilhões a preço de tabela, composta majoritariamente por cartas de intenção.

A estrutura do acordo com a FlyBIS se assemelha à adotada com a japonesa AirX, que em fevereiro de 2026 firmou pedido vinculante de até 50 aeronaves, com duas unidades firmes e opções para outras 48. A Revo, operadora paulistana controlada pela Omni Helicopters International (OHI), foi a primeira cliente a assinar contrato vinculante, em junho de 2025, durante o Paris Air Show, para até 50 eVTOLs, em negócio estimado em US$ 250 milhões. A própria Eve afirma que o Brasil já tem dois operadores comprometidos com a implantação de sua aeronave e vários outros interessados.

Quem é a FlyBIS 
Fundada em 10 de março de 2022, em Caxias do Sul, a FlyBIS tem como sócios Carlos Alberto Bertotto, Gustavo Flores da Cunha Zanettini, André Luis Tessari e a holding VZM Aero Participações. Zanettini, que comanda a empresa, é piloto de linha aérea com atuação na Europa e consultor de aviação. A empresa é apoiada pela Brave Aviation, cuja frota inclui jatos Embraer Phenom 100. Zanettini explicou, então, que a atuação da startup se concentraria no Sul do País e no Mercosul porque a Eve já tinha outros parceiros para as demais regiões brasileiras.

O plano original previa o início dos serviços em 2026, calendário que acompanhava a expectativa de certificação da aeronave à época e que acabou superado pelo cronograma do programa. Agora, a FlyBIS informa que está lançando uma nova rodada estratégica de captação de recursos para financiar a aquisição da frota, ampliar parcerias e expandir sua rede. O sucesso dessa captação tende a ser decisivo para que os dez direitos de compra sejam efetivamente exercidos.

O estágio do programa 
O acordo chega em um momento de avanço técnico do eVTOL da Eve. Após o primeiro voo, no fim de 2025, o protótipo de engenharia em escala real superou a marca de 70 voos. Em maio de 2026, a empresa encerrou o bloco de voos pairados (hover) e de baixa velocidade, depois de 59 voos. Em 3 de agosto, realizou o primeiro voo de transição parcial, com a ativação em voo da hélice propulsora traseira (pusher): o ensaio durou 3 minutos e 9 segundos e atingiu velocidade máxima de 30 nós (cerca de 55 km/h).

A fase de transição, em que a aeronave deixa de depender apenas dos oito rotores de sustentação e passa a voar apoiada nas asas (wing-borne flight), é considerada uma das mais críticas e de maior risco em projetos de configuração lift + cruise, como o da Eve. A empresa amplia progressivamente o envelope de voo nessa etapa e prevê iniciar, a partir do fim de 2026, a montagem de seis protótipos conformes, que serão usados na campanha de certificação.

O cronograma, contudo, foi revisto. A certificação de tipo pela ANAC, autoridade primária do programa, que antes era projetada para 2027, passou a ser esperada para 2028, mesmo horizonte indicado para a entrada em serviço. Em paralelo, a Eve conduz processos de validação junto à FAA, dos Estados Unidos, e à EASA, da União Europeia. A produção em série está prevista para a fábrica de Taubaté (SP).

Infraestrutura em discussão 
A preparação do ambiente regulatório e de infraestrutura foi tema de reunião promovida em 21 de setembro pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), em Brasília, com representantes da Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), da ANAC, do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e da Eve. Na ocasião, ANAC e Eve projetaram para 2028 as primeiras operações comerciais de eVTOLs no País.

Em uma segunda etapa, o encontro foi ampliado aos ministérios do Turismo, de Minas e Energia e da Ciência, Tecnologia e Inovação, além da Anatel e da ANTT. Estiveram em pauta a certificação, os vertiportos, o fornecimento de energia para recarga, a segurança operacional, as telecomunicações e a integração ao espaço aéreo, temas que também condicionarão a viabilidade das rotas planejadas pela FlyBIS.

Para a Eve, que tem ações negociadas na Bolsa de Nova York (EVEX) e recibos de ações (BDR) na B3 (EVEB31), o Brasil reúne condições para estar entre os primeiros mercados a ganhar escala comercial após a certificação: apoio governamental e regulatório, um ecossistema em amadurecimento e forte demanda de passageiros em cidades onde a infraestrutura não acompanhou o crescimento. O contrato com a FlyBIS acrescenta ao mapa uma região fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, com perfil marcadamente turístico, e transforma em compromisso firme uma parceria que, por quase quatro anos, permaneceu no campo das intenções.

13 janeiro, 2026

Brasil se posiciona como pioneiro em Mobilidade Aérea Avançada com projeto de vertiportos em São Paulo e Rio

 Parceria entre PAX Aeroportos e UrbanV pode tornar Campo de Marte e Jacarepaguá os primeiros terminais do país a receber infraestrutura para eVTOLs


*LRCA Defense Consulting - 13/01/2026

O Brasil dá mais um passo rumo à era da Mobilidade Aérea Avançada. Os aeroportos de Campo de Marte, em São Paulo, e de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, podem ser os primeiros a contar com infraestrutura de vertiportos urbanos no país, graças a uma parceria estratégica anunciada nesta terça-feira (13) entre a PAX Aeroportos e a UrbanV, empresa italiana especializada em projeto, construção e operação de redes de vertiportos.

A iniciativa representa um marco para o desenvolvimento da AAM (Advanced Air Mobility) no Brasil. As empresas firmaram acordo para desenvolver conjuntamente a integração de infraestrutura de vertiportos, projeto que já conta com o respaldo de um sandbox regulatório criado no Campo de Marte em cooperação com a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Posicionamento estratégico dos terminais
A escolha dos aeroportos não foi casual. Campo de Marte deve funcionar como hub na região metropolitana de São Paulo, enquanto Jacarepaguá será um ponto de acesso estratégico à zona oeste do Rio, viabilizando conexões futuras com a zona sul, Niterói e os principais aeroportos da cidade.

Ambos os terminais são operados pela PAX Aeroportos desde 2023, empresa controlada pela XP Asset Management que assumiu a concessão por 30 anos após leilão promovido pela ANAC. Os aeroportos são dedicados principalmente à aviação executiva e de negócios, perfil que se alinha naturalmente com a futura demanda por eVTOLs (veículos elétricos de decolagem e pouso vertical).

 

Sandbox regulatório prepara o terreno
A PAX Aeroportos e a UrbanV foram selecionadas pela ANAC para implementar um sandbox regulatório no Campo de Marte, que funcionará como laboratório para o desenvolvimento de soluções e tecnologias para os futuros vertiportos. O projeto terá duração de 24 meses e focará em aspectos cruciais como critérios de design, processamento de passageiros e integração dos eVTOLs à infraestrutura aeroportuária existente.

As áreas de foco incluem regulamentações essenciais, como capacidade da infraestrutura física, sistemas de combate a incêndios, requisitos de ruído das aeronaves e medidas de controle de acesso. A iniciativa também conta com a participação da Eve Air Mobility, da Gol e da Saipher ATC, empresa especializada em soluções de controle de tráfego aéreo.

Visão dos executivos
Para Ivan Bassato, chairman da UrbanV, a parceria é fundamental: "O Brasil é um dos mercados mais estratégicos para a Mobilidade Aérea Avançada, e o acordo com a PAX permitirá construir as bases para as futuras redes de mobilidade aérea no Brasil".

Rogério Augusto Prado, CEO da PAX Aeroportos, vê a AAM como parte natural da evolução urbana. Segundo ele, a Mobilidade Aérea Avançada é uma "evolução natural da aviação na cidade", e a parceria deve consolidar a presença da PAX no Brasil, explorando novas oportunidades da mobilidade urbana de última geração.


Contexto do mercado de eVTOLs no Brasil
O anúncio ocorre em momento de grande efervescência do setor no país. A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, realizou recentemente o primeiro voo de seu protótipo de eVTOL em escala real em Gavião Peixoto, no interior paulista, marcando o início oficial da campanha de testes.

O eVTOL da Eve comporta cinco ocupantes (um piloto e quatro passageiros) e possui autonomia de até 100 quilômetros, com capacidade de reduzir viagens como a da zona sul de São Paulo até Guarulhos de 150 minutos para apenas 15 minutos. A empresa já acumula cerca de 2,8 mil pedidos globais e prevê certificação e início das operações comerciais em 2027.

Desafios e próximos passos
A implantação da Mobilidade Aérea Avançada no Brasil dependerá de avanços regulatórios, desenvolvimento de infraestrutura adequada, aceitação social e modelos de negócio viáveis. A ANAC tem papel fundamental nesse processo, trabalhando na definição do arcabouço regulatório tanto para as aeronaves quanto para os vertiportos.

O sandbox regulatório no Campo de Marte e a parceria entre PAX e UrbanV representam passos concretos para que o Brasil se posicione entre os pioneiros globais nessa nova modalidade de transporte, que promete revolucionar a mobilidade urbana nas próximas décadas, oferecendo alternativas sustentáveis e eficientes aos congestionamentos das grandes metrópoles.

10 dezembro, 2025

Eve, da Embraer, e SkyGrid, da Boeing, traçam o futuro dos céus urbanos em Hong Kong

Parceria entre subsidiária da Embraer e empresa da Boeing apresenta roteiro para integrar táxis aéreos elétricos ao espaço aéreo global 


*LRCA Defense Consulting - 10/12/2025

Em um momento decisivo para o futuro da aviação urbana, a Eve Air Mobility, subsidiária da brasileira Embraer, e a SkyGrid, empresa da Boeing especializada em gestão de tráfego aéreo, lançaram um white paper conjunto que estabelece as diretrizes para a integração segura e escalável de veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOLs) no espaço aéreo global.

O documento de 17 páginas, intitulado "Habilitando a Mobilidade Aérea Avançada – Serviços Automatizados de Gestão de Tráfego para Operações em Baixa Altitude", foi apresentado durante a conferência CANSO Airspace Asia Pacific 2025, realizada esta semana no AsiaWorld-Expo, em Hong Kong. O evento inaugural reuniu mais de 100 expositores e líderes da aviação de toda a região Ásia-Pacífico.

A promessa dos táxis voadores
A mobilidade aérea avançada (AAM, na sigla em inglês) promete revolucionar a forma como pessoas e mercadorias se deslocam nas grandes cidades. Com aeronaves elétricas capazes de decolar e pousar verticalmente, como helicópteros, mas silenciosas, sustentáveis e mais eficientes, os eVTOLs surgem como alternativa ao congestionamento urbano crescente.

De acordo com as projeções da Eve, a região Ásia-Pacífico deverá representar 41% da frota mundial de eVTOLs até 2045, com mais de 12.200 aeronaves em operação. Este crescimento será impulsionado pela rápida urbanização, pelo aumento da classe média e pelo congestionamento nas maiores cidades do mundo.

"Publicar este documento no Airspace Asia Pacific representa um momento crucial para o futuro da aviação", afirmou Luiz Mauad, vice-presidente de serviços ao cliente da Eve. "Nossa visão é garantir que a mobilidade aérea avançada não seja apenas possível, mas escalável, segura e sustentável. A Ásia-Pacífico, em particular, apresenta uma oportunidade extraordinária para liderar esta transformação, dada sua velocidade de urbanização e demanda por novas soluções de mobilidade."

Os desafios da integração
O white paper aborda os desafios operacionais e regulatórios da integração de eVTOLs altamente automatizados e outras aeronaves novas no espaço aéreo urbano e regional. Um dos principais obstáculos é fazer com que esses veículos operem de forma segura ao lado da aviação convencional, sem sobrecarregar controladores de tráfego aéreo ou a infraestrutura existente.

A solução proposta passa pela automação e pela gestão digital do tráfego. Segundo o documento, serviços automatizados de gerenciamento de tráfego aumentarão a previsibilidade, capacidade e flexibilidade nos céus urbanos. Com novas tecnologias, estruturas digitais de espaço aéreo e troca de dados, os Provedores de Serviços de Navegação Aérea (ANSPs) poderão suportar grandes volumes de tráfego em baixa altitude.

"A SkyGrid tem orgulho de trabalhar com a Eve traçando um caminho claro em direção à gestão automatizada de tráfego em baixa altitude", declarou Nate Isbell, chefe de desenvolvimento de negócios da SkyGrid. "Nossa pesquisa ressalta como automação e serviços baseados em dados podem transformar a gestão do espaço aéreo, reduzir a complexidade para reguladores e criar novas oportunidades para operadores."

A parceria estratégica
A colaboração entre Eve e SkyGrid une expertises complementares. A Eve, que nasceu do grupo Embraer – fabricante brasileiro com mais de 50 anos de experiência aeroespacial –, está desenvolvendo seu próprio eVTOL com tecnologia de propulsão elétrica distribuída. A aeronave utiliza oito rotores para voo vertical e asas fixas para o voo de cruzeiro, priorizando segurança, eficiência e certificabilidade.

Com 2.900 pedidos confirmados de 30 clientes em 13 países, representando US$ 14,5 bilhões em receita potencial, a Eve se posiciona como uma das líderes no mercado global de eVTOLs. A empresa planeja iniciar a produção em série em 2026 em sua fábrica em Taubaté, no interior de São Paulo, e espera obter certificação da agência reguladora brasileira ANAC até o final de 2027.

Já a SkyGrid, subsidiária da Wisk Aero (empresa da Boeing), é especializada em criar infraestrutura digital para integração de aeronaves autônomas. Fundada em 2018 como joint venture entre Boeing e SparkCognition, a empresa desenvolve a plataforma AerialOS, que utiliza inteligência artificial e blockchain para gerenciar o tráfego de aeronaves não tripuladas e eVTOLs no espaço aéreo compartilhado.

Mercado em expansão explosiva
O mercado global de eVTOLs, avaliado em US$ 4,2 bilhões no início de 2025, deve alcançar US$ 39 bilhões até 2033, representando uma taxa de crescimento anual composta de mais de 35%. Esta expansão explosiva atrai não apenas fabricantes aeroespaciais estabelecidos, mas também montadoras automotivas e startups bem financiadas, cada uma perseguindo diferentes abordagens técnicas e estratégias de mercado.

A competição é acirrada. Empresas como Joby Aviation e Archer Aviation, ambas dos Estados Unidos, também avançam no desenvolvimento de suas aeronaves elétricas. A EHang, da China, já realiza voos demonstrativos com passageiros em várias cidades chinesas. A Europa conta com players como a Lilium e a Volocopter.

Neste cenário competitivo, a Eve se diferencia pela experiência da Embraer em certificação aeronáutica e pela abordagem holística que vai além da aeronave. A empresa também está desenvolvendo soluções de gestão de tráfego aéreo urbano (Urban ATM), serviços de manutenção e uma rede global de suporte.

O contexto asiático
A escolha de Hong Kong para o lançamento do white paper não é coincidência. A cidade, tradicional hub da aviação internacional, está investindo fortemente na chamada "economia de baixa altitude". A secretária de Transporte e Logística de Hong Kong, Mable Chan, anunciou durante a conferência planos ambiciosos para integração do espaço aéreo, incluindo o programa "Regulatory Sandbox X", que testará cenários complexos como logística transfronteiriça e drones transportando passageiros.

A China continental também avança rapidamente. A Administração da Aviação Civil da China (CAAC) tem desenvolvido regulamentações específicas para eVTOLs e mobilidade aérea urbana. Cidades como Shenzhen e Xangai estão sendo preparadas como campos de teste para essas novas tecnologias.

"A integração entre aviação e meteorologia é essencial para garantir a segurança do espaço aéreo regional diante de padrões climáticos cada vez mais imprevisíveis", destacou Ma Bing, vice-administrador da CAAC, durante a abertura da conferência.

Infraestrutura e economia operacional
Um dos pontos críticos abordados no white paper é a infraestrutura necessária. Os eVTOLs precisarão de vertiportos – áreas de decolagem e pouso adaptadas – distribuídos estrategicamente pelas cidades. Esses vertiportos deverão estar integrados aos sistemas de transporte público existentes para viabilizar o modelo de negócio.

A economia operacional dos eVTOLs ainda é incerta até que as operações comerciais comecem. Embora prometam custos operacionais mais baixos que helicópteros devido à redução em manutenção e combustível, alcançar paridade de custos com o transporte terrestre exigirá altas taxas de utilização e preços premium.

As operações iniciais provavelmente terão como alvo viajantes corporativos e serviços de emergência, onde a economia de tempo justifica custos mais elevados. Rotas entre aeroportos e centros urbanos, ou entre bairros congestionados, são consideradas as mais viáveis inicialmente.

Desafios regulatórios
A certificação e regulamentação permanecem como desafios significativos. Cada país tem sua própria autoridade de aviação civil e processos de certificação. Harmonizar regulamentações internacionalmente será fundamental para permitir operações transfronteiriças.

O white paper propõe que os ANSPs colaborem com provedores de serviços terceirizados (TSPs) como a SkyGrid para oferecer novos serviços de dados e automação. Esta abordagem distribuiria responsabilidades e permitiria escalar operações sem sobrecarregar as autoridades reguladoras.

Sustentabilidade e impacto social
Um dos atrativos principais dos eVTOLs é seu impacto ambiental reduzido. Sendo 100% elétricos, não emitem gases poluentes durante o voo. O eVTOL da Eve, por exemplo, oferece redução substancial de ruído durante o voo de cruzeiro, uma preocupação importante para operações urbanas.

No entanto, críticos apontam que a pegada de carbono real dependerá da fonte de eletricidade usada para carregar as baterias. Em regiões onde a eletricidade ainda vem predominantemente de combustíveis fósseis, os benefícios ambientais seriam parciais.

Há também questões sobre equidade. Inicialmente, os eVTOLs serão serviços premium, acessíveis apenas para quem pode pagar. O desafio será democratizar o acesso ao longo do tempo, tornando a mobilidade aérea urbana uma opção viável para a população em geral.

Próximos passos
O white paper está disponível para revisão e discussão da indústria como parte do painel CANSO "Caminho para a Mobilidade Aérea Avançada – Lançando o AAM Regional no Futuro". Eve e SkyGrid reafirmam seu compromisso compartilhado de trabalhar com reguladores, ANSPs e operadores para avançar a infraestrutura digital e automação.

Para a Eve, os próximos marcos incluem a conclusão do desenvolvimento do protótipo em escala real, continuação dos testes de voo e avanço no processo de certificação. A empresa recentemente anunciou parceria com a Beta Technologies para fornecimento de motores propulsores e recebeu US$ 35 milhões adicionais do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para apoiar o desenvolvimento do eVTOL em 2025.

A SkyGrid, por sua vez, continua desenvolvendo sua plataforma AerialOS e estabelecendo parcerias com diversos fabricantes de eVTOLs e autoridades de aviação ao redor do mundo.

Solução tangível para desafios reais de transporte urbano
À medida que as cidades crescem e o congestionamento se intensifica, a mobilidade aérea avançada emerge não como ficção científica, mas como solução tangível para desafios reais de transporte urbano. O white paper conjunto da Eve e SkyGrid representa mais um passo importante na jornada para transformar essa visão em realidade.

O sucesso, no entanto, dependerá de colaboração entre múltiplos stakeholders: fabricantes, operadores, reguladores, provedores de infraestrutura e governos. Como enfatizou Simon Hocquard, presidente e CEO da CANSO, durante a abertura do Airspace Asia Pacific: "Estes desafios não podem ser resolvidos dentro de fronteiras nacionais."

A próxima década será decisiva. Se os desafios técnicos, regulatórios e econômicos forem superados, os céus urbanos poderão se tornar a nova fronteira do transporte público, redefinindo como pessoas e bens se movem através de cidades e regiões em todo o mundo. E a Ásia-Pacífico, com sua densidade populacional, urbanização acelerada e disposição para inovação, está posicionada para liderar essa transformação.


Glossário:

  • eVTOL: Electric Vertical Takeoff and Landing (aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical)
  • AAM: Advanced Air Mobility (mobilidade aérea avançada)
  • ANSP: Air Navigation Service Provider (provedor de serviços de navegação aérea)
  • TSP: Third-Party Service Provider (provedor de serviços terceirizado)
  • UAM: Urban Air Mobility (mobilidade aérea urbana)
  • CANSO: Civil Air Navigation Services Organisation (Organização de Serviços de Navegação Aérea Civil)

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