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domingo, fevereiro 21, 2021

Taurus: variação cambial turbinará resultado do 4T20 em cerca de R$ 61 milhões


*LRCA Defense Consulting - 21/02/2021

Diferentemente dos três primeiros trimestres de 2020, quando a variação cambial trimestral foi positiva, o quarto trimestre inverteu a mão e apresentou um número negativo, ou seja, neste trimestre o real se valorizou perante o dólar norte-americano.

Esse fato será decisivo para que empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança, como Taurus Armas e Embraer, ambas com a maior parte da dívida fortemente dolarizada, registrem um impacto positivo nos números dos respectivos balanços, turbinando lucros ou atenuando prejuízos, conforme for o caso.

O Jornal do Brasil, em edição de 29/01/2021, divulgou que, com base nos demonstrativos financeiros padronizados que as empresas de capital aberto entregam à CVM, a consultoria Economatica calculou que a queda de 7,87% na cotação do dólar Ptax (a taxa oficial de câmbio do Banco Central) no 4º trimestre de 2020 poderá afetar de maneira positiva o lucro das empresas, ao reduzir o valor da dívida em dólar (isto sem considerar operações de hedge ou swap cambial, que minimizam o impacto da oscilação do câmbio na dívida e no faturamento das empresas exportadoras/importadoras).

O caso da Taurus Armas
Para fins de comparação, toma-se aqui o caso da empresa multinacional Taurus Armas, que possui cerca de 91% de sua dívida em dólares americanos, mas que, em compensação, exporta  praticamente 85% de sua produção no Brasil
 
No primeiro trimestre do ano passado, o dólar registrou a maior valorização trimestral em 18 anos, com cerca de 29%. Como, para fins contábeis de balanço, é utilizada a cotação de fechamento do dólar do final de cada trimestre, e como a variação cambial se acentuou no final do final do trimestre, este fato intempestivo - um verdadeiro "pênalti financeiro convertido aos 45 minutos do segundo tempo" - fez com que as empresas brasileiras que têm boa parte da dívida em moeda estrangeira (como a Taurus) vissem o lucro líquido ser derrubado em quase 70%, como mostra esta reportagem do Estadão de 02/06: "Alta do dólar pressiona dívida e derruba lucro das empresas em 70% no trimestre".

Assim, como já era esperado pelo mercado, esse fato impactou fortemente a dívida em dólares da Taurus Armas, fazendo com que suas despesas financeiras passassem de R$ 16,2 milhões no 1T19, para R$ 209,2 milhões no 1T20. Desse total, R$ 195,4 milhões, ou 93,4%, foram referentes às variações cambiais passivas.

Ao fim e ao cabo, em que pese ter tido, na época,  um desempenho recorde no Ebitda (R$ 45,4 milhões), no lucro bruto (R$ 102,9 milhões) e no caixa líquido (R$ 77,7 milhões), a Taurus registrou no 1T20 um resultado líquido final negativo de R$ 157,1 milhões,
refletindo a forte e atípica desvalorização da moeda nacional no período.

Nos dois trimestres seguintes, a variação cambial também foi positiva, mas em números bem menores, sendo plenamente sobrepujada pelos excelentes resultados operacionais em todos os demais campos, o que contribuiu para que a empresa voltasse a apresentar um sólido lucro trimestral, como mostra o gráfico abaixo.


Expectativas para o 4º trimestre

A Taurus produziu 1.103 mil armas nos primeiros nove meses de 2020 (9M20). Em média, 6,9 mil armas foram produzidas por dia, com suas duas fábricas em forte atividade: a do Brasil, operando à plena capacidade; e unidade americana - fábrica que está em atividade há pouco mais de um ano e, portanto, ainda em ramp-up - já superando os volumes produzidos nos 9M19 pela antiga unidade industrial. Com o crescimento do interesse pelos produtos da Taurus e o mercado altamente comprador, o volume de vendas de armas nos 9M20 totalizou 1.290 mil unidades, 28,4% superior aos 9M19. 

No Brasil, as vendas dos 9M20 foram 132,7% acima do mesmo período de 2019, enquanto que nos EUA, maior mercado para a empresa, foram vendidas mais de 1 milhão de armas no mesmo período. 


Para o 4T20, todos os indicadores apontam que o mercado foi demandante em níveis recordes, tanto aqui como, principalmente, em terras do Tio Sam, pois a Taurus está com backorders (pedidos em carteira) fortes, de cerca de 1,5 milhão de armas para o mercado dos EUA e de 150 mil armas para o mercado nacional. Na prática, essa quantidade significa que, se não recebesse mais nenhum pedido a partir de hoje, a multinacional gaúcha teria que produzir a pleno por cerca de 12 meses para poder entregar todos os pedidos que tem em carteira. 

Com relação ao endividamento em moeda estrangeira, estima-se que a Taurus tinha, em 31/12/2020, uma dívida em dólares no valor de cerca de 151 milhões. Assim, a desvalorização da moeda norte americana em 7,87% impactará positivamente no resultado da empresa, gerando um forte ganho financeiro próximo de de 11,8 milhões de dólares, ou algo como 61 milhões de reais ao câmbio de 30/12/20.

Esse cenário, aliado ao permanente controle de custos e redução de despesas, permite antever que os resultados operacionais e financeiros da empresa possam continuar apresentando números próximos ou mesmo superiores aos do 3T20, quando atingiu oito marcas históricas, obtendo o maior resultado para um trimestre em termos de: produção, volume de vendas, receita líquida, lucro bruto, margem bruta, Ebitda, margem Ebitda e lucro líquido. 

Em síntese, mesmo após descontada a variação cambial incidente sobre o produto das vendas, é lícito estimar que a Taurus Armas traga números muito consistentes e positivos no balanço referente ao 4T20.

Embraer

A propósito, a Embraer, com uma dívida em dólares de 23.276.826,00 (em 31/12/2020), deverá ter um ganho financeiro próximo de US$ 1,831 milhão no 4T20.

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