Delegação polonesa conhece capacidades do KC-390 e A-29 Super Tucano enquanto país reestrutura poder aéreo diante da ameaça russa
*LRCA Defense Consulting - 26/01/2026
A visita da Força Aérea Polonesa às instalações da Embraer no Brasil na semana passada representa muito mais do que uma demonstração comercial de rotina. Trata-se de um desdobramento estratégico em um processo que pode transformar a indústria de defesa brasileira em fornecedora de peso para uma das forças armadas que mais rapidamente se modernizam na Europa.
A delegação polonesa, liderada pelo Major-General Ireneusz Nowak, vice-comandante das Forças Armadas Polonesas, não economizou tempo durante sua estadia em solo brasileiro. Além de conhecer as linhas de montagem do KC-390 Millennium e do A-29 Super Tucano, os militares poloneses participaram de voos de demonstração em ambas as aeronaves e trocaram informações com membros da Força Aérea Portuguesa lá presentes sobre suas experiências operacionais com o cargueiro brasileiro.
Contexto estratégico: preparação para um conflito prolongado
A urgência polonesa tem nome e endereço: Rússia. A invasão da Ucrânia em
2022 mudou radicalmente a percepção de segurança na Europa Oriental. Varsóvia
não está mais planejando apenas para dissuasão, mas para resistência em um
cenário de guerra prolongada.
Como o próprio Major-General Nowak declarou recentemente à publicação Defence24, a Polônia deve estar preparada para manter posições por meses ou até anos. Essa nova doutrina militar exige uma transformação profunda na arquitetura do poder aéreo polonês, com foco não apenas em capacidade de combate, mas em sustentabilidade logística sob pressão constante.
A lição ucraniana foi brutal: superioridade aérea significa pouco sem combustível, peças de reposição e munição. Por isso, antes mesmo de expandir frotas de caças, a Polônia corre para preencher lacunas críticas em transporte aéreo, reabastecimento em voo e suporte logístico.
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| Major-General Ireneusz Nowak, vice-comandante das Forças Armadas Polonesas, no KC-390 |
KC-390: caminho praticamente aberto
O KC-390 Millennium ocupa uma posição privilegiada na estratégia polonesa.
O país adota uma abordagem de complementaridade: o espanhol C-295 cobre
transporte leve, o brasileiro KC-390 assumiria o segmento médio, e o europeu
A400M Atlas ficaria com cargas pesadas e desdobramentos estratégicos.
"Não se trata de uma competição, mas de camadas de capacidade alinhadas aos padrões operacionais da OTAN", explicou o Coronel Paluch, responsável por aquisições na Força Aérea Polonesa.
O que torna a proposta da Embraer especialmente atraente não são apenas as capacidades técnicas da aeronave (velocidade, eficiência logística e custos operacionais reduzidos), mas o compromisso industrial que acompanha a oferta. Em dezembro de 2025, a fabricante brasileira assinou cinco memorandos de entendimento com a Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ), o conglomerado estatal polonês de defesa, estabelecendo cooperação que inclui produção local de componentes, polonização de sistemas, manutenção e até possível instalação de linha de montagem final no país europeu.
Para uma nação traumatizada pela dependência externa (a falta de capacidade local para manutenção de motores dos F-16 tornou-se problema estrutural), a proposta de transferência de tecnologia e soberania operacional tem peso decisivo.
Durante a visita à Embraer, a delegação polonesa teve oportunidade única de conversar com pilotos portugueses que operam o KC-390, colhendo impressões diretas sobre desempenho operacional, confiabilidade e custos de manutenção. A confirmação de que a aeronave retornará em breve à Polônia para demonstrações utilizando equipamentos militares poloneses reforça o estágio avançado das negociações.
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| Major-General Ireneusz Nowak, vice-comandante das Forças Armadas Polonesas, no A-29 |
Super Tucano: o caçador improvável de drones
Mais surpreendente que o interesse no KC-390 é a atenção polonesa ao A-29
Super Tucano, um turboélice de ataque leve que parece anacronismo em uma era de
caças supersônicos e drones sofisticados. Mas a guerra moderna revelou ironias
táticas imprevistas.
A proliferação massiva de drones na Ucrânia, de pequenos quadricópteros comerciais adaptados para lançar granadas até UAVs de reconhecimento de médio porte, criou um problema para o qual soluções convencionais são economicamente inviáveis. Usar um caça moderno que custa dezenas de milhares de dólares por hora de voo para abater um drone de cinco mil dólares não faz sentido operacional.
"Tem que ser uma solução de treinamento e combate, de uso duplo: quando não está treinando pilotos, pode ser usada para missões simples de combate ou patrulha", explicou Nowak. O Super Tucano combina sensores eletro-ópticos, enlaces de dados e armamentos guiados a laser – exatamente o necessário para detectar, rastrear e interceptar drones a uma fração do custo de jatos supersônicos.
A Embraer aproveitou a visita para apresentar formalmente as capacidades contra-UAS (sistemas aéreos não tripulados) do A-29, tema também destacado durante a cerimônia de assinatura dos memorandos em dezembro.
Entretanto, o caminho do Super Tucano na Polônia é mais incerto. A avaliação só começará no início de 2026, não há definição de quantidades, e outras plataformas (incluindo helicópteros Apache AH-64E e até o transporte leve M-28 Brisa) também estão sendo consideradas para missões anti-drones.
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| No painel acima dos presentes, a frase em polonês: "Bem-vindo à Embraer" sobre um KC-390 já estilizado para a Força Aérea Polonesa |
Soberania industrial: a nova moeda europeia
O que torna a estratégia da Embraer particularmente inteligente é
compreender que, para a Europa Oriental, soberania industrial em defesa
tornou-se obsessão justificada. A dependência de fornecedores externos - sejam
americanos, russos ou mesmo de outros países europeus - revelou-se uma vulnerabilidade perigosa.
"No caso de um conflito, você nunca sabe se haverá restrições de acesso às aeronaves por razões políticas", argumentou Nowak, justificando por que a Polônia recusou soluções multinacionais da OTAN para reabastecimento aéreo e preferiu desenvolver capacidade nacional própria.
Os acordos da Embraer com a PGZ não são meros contratos de compensação industrial, mas parcerias de longo prazo visando integrar empresas polonesas na cadeia de valor global da fabricante brasileira. Isso inclui não apenas produção de componentes, mas desenvolvimento de novas capacidades e possibilidade de que a indústria polonesa contribua para operações da Embraer em outros mercados europeus.
Janela histórica para a indústria brasileira
Para o Brasil e para a Embraer, o momento é histórico. Pela primeira vez,
uma nação europeia da OTAN considera seriamente a aquisição em escala de
aeronaves militares brasileiras, não por argumentos políticos ou filantropia,
mas porque representam a melhor solução técnica, operacional e industrial para
necessidades reais e urgentes.
A transformação da Força Aérea Polonesa apenas começou. O país planeja investir dezenas de bilhões de euros na próxima década para se tornar a força aérea mais poderosa da Europa Oriental, posição que a geografia e a história lhe impõem. Nesse processo, haverá espaço para múltiplos fornecedores: Airbus, Lockheed Martin, Boeing e, potencialmente, Embraer.
A visita da delegação polonesa ao Brasil e o retorno programado do KC-390 à Polônia para demonstrações com equipamentos militares locais sinalizam que as negociações avançaram além de conversas preliminares. Estão em estágio de validação operacional concreta.
Os próximos meses serão decisivos. Mas uma certeza já se consolidou: Varsóvia está prestando atenção. E no atual cenário de segurança europeu, atenção é o primeiro passo para um contrato que pode redefinir o papel do Brasil no mercado global de defesa.






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