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14 maio, 2026

Defesa nacional - soberania e a contradição brasileira


 

*Mauro Beirão - 14/05/2026

O Brasil vive uma contradição estratégica cada vez mais evidente. De um lado, as lideranças das nossas Forças Armadas alertam há anos para a necessidade urgente de ampliar as capacidades de defesa do país diante de um cenário internacional cada vez mais instável. De outro, a própria Base Industrial de Defesa (BID) brasileira demonstra possuir capacidade tecnológica, engenharia qualificada, infraestrutura industrial e competências para desenvolver sistemas sofisticados de emprego militar.

Ainda assim, permanecem perguntas incômodas: por que tantos engenheiros, técnicos e especialistas brasileiros deixam o país em busca de oportunidades fora do Brasil? Por que as Forças Armadas ainda convivem com limitações operacionais e equipamentos defasados em diversas áreas estratégicas? E por que grande parte das soluções que poderiam ser desenvolvidas ou produzidas no Brasil não se convertem em programas estruturantes de longo prazo?

As respostas às essas questões passam, inevitavelmente, pela questão orçamentária e pela ausência histórica de previsibilidade estratégica.

Enquanto o mundo atravessa um novo ciclo de rearmamento e fortalecimento de capacidades militares, o Brasil segue investindo proporcionalmente pouco em defesa. Dados recentes apontam que o país mantém gastos militares próximos de 1,1% do PIB, percentual considerado baixo para um país continental, detentor da maior fronteira terrestre da América do Sul, da Amazônia, de vastas riquezas minerais, recursos energéticos offshore e uma das maiores zonas econômicas exclusivas marítimas do planeta. 

O contraste internacional é evidente. Países da OTAN aprovaram metas de até 5% do PIB voltadas à defesa e segurança estratégica até 2035. A Alemanha ultrapassou 2% do PIB em defesa pela primeira vez desde 1990. A Polônia acelera sua modernização militar. A Ásia amplia investimentos em tecnologias críticas, drones, guerra eletrônica, inteligência artificial e defesa cibernética. Mesmo países da América do Sul vêm aumentando seus investimentos diante do novo ambiente geopolítico.

O Brasil, apesar de ter registrado crescimento nominal nos gastos militares em 2025, continua distante de uma estrutura de financiamento compatível com suas necessidades estratégicas. Mais grave ainda é a composição desse orçamento. Grande parte dos recursos é consumida por despesas obrigatórias, especialmente folha de pagamento, aposentadorias e pensões. Estimativas recentes indicam que cerca de 80% a 85% do orçamento da Defesa permanece comprometido com despesas de pessoal, restando parcela reduzida para investimentos efetivos em modernização, prontidão operacional, pesquisa e desenvolvimento. 

O resultado é uma consequência direta e previsível: projetos estratégicos sofrem atrasos, aquisições são fragmentadas, programas perdem escala, e a indústria nacional enfrenta ciclos permanentes de incerteza.

E isso ocorre justamente em um momento no qual a tecnologia passou a definir o poder militar contemporâneo.

Os conflitos recentes demonstraram que superioridade operacional hoje depende de sensores avançados, sistemas integrados de comando e controle, guerra eletrônica, drones, satélites, inteligência artificial, sistemas autônomos, integração em rede e capacidade de produção nacional resiliente. Nenhuma potência moderna constrói soberania apenas com efetivos militares. A soberania contemporânea é tecnológica e industrial.

Nesse aspecto, o Brasil possui ativos extremamente relevantes
A BID brasileira reúne empresas capazes de atuar em áreas altamente complexas como aeroespacial, sistemas embarcados, radares, guerra eletrônica, comunicações seguras, optrônicos, sistemas navais, integração de plataformas, veículos blindados, armamentos inteligentes, sistemas espaciais e tecnologias não tripuladas. Além disso, o país dispõe de centros de engenharia altamente especializados e profissionais reconhecidos internacionalmente.

Não por acaso, engenheiros brasileiros são frequentemente absorvidos por empresas e programas estratégicos no exterior. O problema, portanto, não é ausência de competência técnica. O problema é continuidade.

Sem previsibilidade orçamentária de médio e longo prazo, a indústria não consegue sustentar ciclos permanentes de inovação. Sem escala, empresas perdem competitividade. Sem contratos estruturantes, fornecedores estratégicos desaparecem. Sem estabilidade, talentos migram.

A evasão de cérebros da área de defesa e alta tecnologia é um reflexo direto desse ambiente
Profissionais altamente qualificados buscam mercados que ofereçam estabilidade, continuidade de projetos, investimentos em pesquisa e perspectivas concretas de crescimento tecnológico. Países que compreendem a defesa como vetor de desenvolvimento nacional criam ecossistemas permanentes de inovação. No Brasil, ainda convivemos com descontinuidades, contingenciamentos e programas sujeitos a oscilações políticas e fiscais.

Isso produz um efeito silencioso, porém extremamente perigoso: a perda gradual da capacidade nacional de projetar, desenvolver e sustentar tecnologias críticas.

Defesa não pode ser tratada apenas como despesa corrente de governo. Defesa é política de Estado
Os países que hoje lideram os setores aeroespacial, cibernético e militar compreenderam algo fundamental: investir em defesa gera domínio tecnológico, empregos qualificados, inovação dual, capacidade industrial e autonomia estratégica.

Grande parte das tecnologias utilizadas no cotidiano civil nasceu de programas militares ou espaciais: internet, GPS, sensores, materiais compostos, aviônica, comunicações seguras, satélites, inteligência artificial e inúmeras soluções embarcadas.

Quando o Brasil investe em sua Base Industrial de Defesa, não está apenas fortalecendo as Forças Armadas. Está fortalecendo engenharia nacional, ciência, universidades, indústria, inovação e soberania.

Soberania não se improvisa em momentos de crise
Ela é construída ao longo de décadas, com planejamento, previsibilidade, investimento contínuo e visão estratégica de longo prazo. O debate sobre defesa nacional precisa, portanto, ultrapassar a visão limitada de gasto militar e passar a ser compreendido como tema de desenvolvimento nacional, proteção de recursos estratégicos, estabilidade regional e capacidade tecnológica. O Brasil possui território, recursos naturais, dimensão geopolítica, capacidade industrial e inteligência técnica para ocupar posição muito mais relevante no cenário internacional da defesa. O que ainda falta é transformar esse potencial em prioridade permanente de Estado.

Porque nenhuma nação preserva sua soberania apenas pelo discurso. Soberania é preservada por meio de capacidade real de defesa, tecnologia própria e indústria forte.

*Mauro Beirão tem formação em Engenharia Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial, atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e tecnologia para a defesa nacional.   

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