*LRCA Defense Consulting - 16/06/2026
A linha de montagem final (Final Assembly Line), ou FAL, da Embraer na Índia terá sede na Região Especial de Investimento de Dholera (DSIR), em Gujarat. A definição do local, reportada em 16 de junho de 2026 pelo Economic Times, encerra meses de disputa entre dois estados indianos e consolida a aposta da fabricante brasileira no maior mercado emergente de aviação regional do mundo.
Da disputa entre estados à escolha de Gujarat
Desde janeiro de 2026, quando a
Adani Defence & Aerospace e a Embraer assinaram um Memorando de
Entendimento (MoU) para desenvolver um ecossistema integrado de aeronaves de
transporte regional na Índia, dois estados competiam pela FAL: Gujarat, com Dholera,
e Andhra Pradesh, com Bhogapuram. Dholera levou vantagem por reunir atributos
que o projeto exige: um aeroporto internacional greenfield em fase
avançada de desenvolvimento, um parque aeroespacial adjacente e o apoio do
governo federal, que vê a iniciativa como âncora do programa Make in India
no setor aeronáutico.
A DSIR está sendo construída do zero, próxima a Ahmedabad, como cidade industrial inteligente planejada, concebida para abrigar indústrias de alta tecnologia com infraestrutura dedicada. A Embraer abriu seu escritório em Nova Délhi em outubro de 2025, sinalização prévia do aprofundamento da presença da empresa no país.
O E175 como veículo do Make in India
A aeronave prevista para a FAL é
o E175-E1, jato regional de 88 assentos da família E-Jets de primeira geração.
O modelo já opera na Índia pela companhia aérea Star Air e é considerado pela
Embraer o produto mais adequado para o mercado indiano de conectividade
regional, cujo principal vetor de demanda é o programa governamental UDAN (Ude
Desh Ka Aam Naagrik), voltado a conectar cidades de médio porte à malha
aérea nacional a tarifas subsidiadas. O UDAN completa dez anos em operação.
A Embraer possui hoje cerca de 50 aeronaves em operação na Índia, atendendo à Força Aérea Indiana, agências governamentais, operadores de aviação executiva e a Star Air. Os E-Jets iniciaram operações no país em 2005.
Condicionante central: o compromisso das companhias
aéreas
Apesar da definição do local, o
projeto mantém uma condicionante crítica. Arjan Meijer, CEO da Embraer Aviação
Comercial, declarou na semana passada, durante interação com a imprensa na sede
da empresa em São José dos Campos (SP), que a FAL só faz sentido se houver
pedidos de companhias aéreas em paralelo.
“Precisamos obter o compromisso das companhias aéreas, porque não há necessidade de instalar uma linha de montagem se não houver pedidos de companhias aéreas em paralelo”, afirmou Meijer, que também qualificou a Índia como um mercado “complexo do ponto de vista da receita”.
A meta, confirmada pelo CEO Francisco Gomes Neto em março de 2026, é obter pedidos de ao menos 200 aeronaves para viabilizar a operação da FAL até 2028. Detalhes sobre volumes de pedidos já confirmados, estrutura de capital da joint venture e cronograma de obras em Dholera não foram divulgados. Embraer e Adani não comentaram o assunto.
Defesa e aviação comercial: dois eixos da estratégia
indiana da Embraer
O acordo com o Adani Group não
se limita à aviação civil. Em outubro de 2025, as duas empresas firmaram
parceria estratégica para produzir o C-390 Millennium, aeronave militar de
transporte multimissão da Embraer, na Índia. O país está em processo de licitação
para substituir sua frota de transportadores militares, e a Embraer figura
entre os concorrentes.
A fabricante brasileira busca fortalecer presença em todos os segmentos do mercado indiano: aviação comercial, defesa, aviação executiva, serviços e suporte, e mobilidade aérea urbana. A parceria com o Adani Group, conglomerado com presença em infraestrutura aeroportuária, MRO e treinamento de pilotos, oferece à Embraer uma plataforma integrada para essa estratégia.
Contexto: precedente do C295 e prazo realista
A referência mais próxima para o
projeto é a linha de montagem do C295, aeronave de patrulha e transporte da
Airbus, instalada em Vadodara (Gujarat) em parceria com a Tata Advanced Systems
Limited (TASL). O governo indiano assinou o contrato de 56 unidades em setembro
de 2021; a fábrica foi inaugurada em outubro de 2024 e a primeira aeronave
montada no país está prevista para setembro de 2025, quase quatro anos após o
acordo. Analistas do setor projetam cronograma semelhante para a FAL da
Embraer.
Uma linha de montagem final de aeronave comercial de asa fixa seria inédita na Índia e representaria marco relevante para o programa Aatmanirbhar Bharat (Índia Autossuficiente), com potencial de geração de até 5.000 empregos diretos e indiretos, segundo estimativas do setor, além de efeitos de adensamento na cadeia de componentes aeronáuticos, aviônica e materiais compósitos.


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