Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador Adani Aerospace. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adani Aerospace. Mostrar todas as postagens

04 novembro, 2026

Pedido de até 150 jatos da IndiGo pode destravar a fábrica da Embraer na Índia

Negociação ainda inicial com a maior companhia aérea indiana pode ajudar a destravar a linha de montagem planejada com a Adani, mas enfrenta a concorrência da ATR e o histórico de anúncios que não viraram encomenda 



*
LRCA Defense Consulting - 04/11/2026 -  08h02

A IndiGo, maior companhia aérea da Índia, estaria negociando com a Embraer a compra de 100 jatos regionais, com opção para cerca de mais 50 unidades. A informação foi publicada nesta quarta-feira (4) pela agência Reuters, com base em três pessoas com conhecimento direto do assunto, que falaram sob condição de anonimato. Se a negociação for concluída, o pedido estaria entre os maiores já recebidos pela fabricante brasileira e marcaria sua entrada, em grande escala, no terceiro maior mercado doméstico de aviação do mundo.

As próprias fontes ressalvam que as conversas estão em estágio inicial e que não há garantia de acordo. O modelo de aeronave ainda não foi definido e a quantidade pode mudar. As entregas, segundo duas das fontes, começariam no mínimo em 2030. Procuradas pela agência, a IndiGo e a Embraer não se manifestaram de imediato. A preço de lista, um lote de 100 jatos valeria alguns bilhões de dólares, embora descontos expressivos sejam a regra em contratos desse porte.

Conversas que vêm de agosto 
A aproximação entre as duas empresas não é novidade. Em agosto, a Bloomberg informou que a InterGlobe Aviation, controladora da IndiGo, avaliava dezenas de jatos da família E2 para substituir parte de seus turboélices e ampliar a capacidade em rotas domésticas. Em setembro, durante a premiação World Airline Awards, em Londres, o novo presidente-executivo da companhia, Willie Walsh, confirmou publicamente que a empresa discutia uma encomenda de aeronaves regionais com a Embraer e com a ATR. O dado inédito trazido agora pela Reuters é o tamanho do pacote em discussão.

O vazio entre o turboélice e o Airbus 
A frota da IndiGo somava 442 aeronaves em setembro, quase todas da família Airbus A320neo e A321neo, além de 44 turboélices ATR 72. A meta é chegar a cerca de 600 aviões até 2030. Entre os ATR, com pouco menos de 80 assentos, e os Airbus de corredor único, com 180 lugares ou mais, há uma faixa que a companhia não cobre. É justamente nela que se encaixam os jatos da Embraer: o E175-E1 leva até 88 passageiros, o E190-E2 até 114 e o E195-E2 até 146.

Segundo a Reuters, uma encomenda permitiria à IndiGo abrir mais rotas para cidades regionais e substituir parte dos ATR, oferecendo mais assentos em linhas já existentes. A mudança se encaixa na estratégia de Walsh, ex-presidente da IAG (controladora da British Airways) e ex-diretor-geral da IATA, que assumiu o comando da companhia em agosto. O executivo pretende transformar Nova Délhi em um grande centro de conexões internacionais, alimentado por voos vindos de cidades de segundo e terceiro escalão, sem abrir mão do modelo de baixo custo nas rotas curtas. Para os voos de longa distância, a IndiGo tem 60 Airbus A350-900 encomendados, com a primeira entrega prevista para o segundo trimestre de 2028.

A conta dos 200 pedidos 
O interesse da IndiGo tem peso que vai além da venda em si. Em fevereiro, em Nova Délhi, a Embraer e a Adani Defence & Aerospace trocaram um memorando de entendimento ampliado para estudar a instalação, na Índia, de uma linha de montagem final do E175, vinculada ao programa indiano de aeronaves de transporte regional (RTA). A cerimônia teve a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro do Comércio indiano, Piyush Goyal. O acordo não é vinculante.

Em março, o presidente-executivo da Embraer, Francisco Gomes Neto, disse à Reuters que o projeto dependia de encomendas de pelo menos 200 aeronaves e que os primeiros jatos montados na Índia poderiam ser entregues a partir de 2028, desde que os pedidos fossem assegurados até o fim de 2026. Um lote de 100 jatos da IndiGo cobriria metade dessa exigência, a menos de dois meses do prazo indicado pelo executivo.

Há, porém, um ponto ainda em aberto. A linha planejada com a Adani é do E175-E1, de geração anterior, enquanto as primeiras notícias sobre a IndiGo falavam em jatos E2. Como o modelo não foi definido, não está claro se uma eventual encomenda da companhia seria contabilizada para viabilizar a montagem local.

Hoje, a única companhia aérea indiana que opera jatos da Embraer é a pequena Star Air, com oito E175 arrendados. A empresa também avalia uma compra direta de até 20 jatos E2, negócio estimado em cerca de US$ 1 bilhão a preço de lista. A Embraer projeta demanda de pelo menos 500 aeronaves na faixa de 80 a 146 assentos no mercado indiano.

Concorrência dentro de casa 
A Embraer não está sozinha. A ATR, controlada pela Airbus e pela italiana Leonardo, já fornece turboélices à IndiGo e participa da mesma disputa. Uma escolha pela ATR manteria a companhia no segmento de turboélices, ao lado de seu fornecedor tradicional. A opção pela Embraer, por outro lado, representaria a primeira diversificação de fabricante na frota de uma empresa historicamente fiel ao ecossistema Airbus.

Cautela com o precedente de 2024 

O mercado já viveu essa expectativa. Em maio de 2024, notícias de que a InterGlobe negociava ao menos 100 jatos com a Embraer fizeram as ações da fabricante subir 7,65% em um dia e mais 5,64% no pregão seguinte. Já naquela época a controladora da IndiGo conversava também com a Airbus e a ATR, e o pedido não se concretizou. A diferença, agora, é a confirmação pública das negociações por Walsh e o detalhamento de números por três fontes independentes.

Da aviação civil à Defesa 
A Embraer vem ampliando a presença na Índia há pelo menos dois anos. Em 2025, criou uma subsidiária e inaugurou escritório em Nova Délhi, em cerimônia com o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Defesa, José Múcio. Cerca de 50 aeronaves da empresa, de 11 modelos diferentes, já operam no país, atendendo à Força Aérea Indiana, a órgãos de governo, a operadores executivos e à Star Air. Entre elas estão os ERJ-145 de alerta aéreo antecipado da série Netra.

No campo militar, a fabricante concorre com o C-390 Millennium na licitação da Força Aérea Indiana para 60 aviões de transporte médio, tendo o grupo Mahindra como parceiro local. A Adani fica com a frente comercial. Uma grande encomenda civil tenderia a fortalecer a base industrial e a cadeia de fornecedores da Embraer na Índia, fator relevante numa concorrência em que o conteúdo local, conforme a política Make in India, pesa na avaliação.

Carteira em alta 
A negociação chega num momento favorável para a Embraer. A empresa recebeu 72 encomendas firmes de jatos E2 nos nove primeiros meses de 2026, e o programa ultrapassou 500 pedidos firmes. A carteira da aviação comercial chegou a US$ 15,1 bilhões no segundo trimestre. Entre os pedidos recentes estão o da Finnair, de até 46 E195-E2, e o do Abra Group, de 20 unidades firmes. Na terça-feira (3), as ações da fabricante subiram mais de 4% na B3, a R$ 104,04, impulsionadas pelo contrato da Grécia para o KC-390.

Um pacote de 100 jatos firmes e 50 opções colocaria a IndiGo ao lado dos maiores clientes da família E-Jets. A decisão, porém, ainda depende de Walsh e de sua avaliação sobre que tipo de avião deve ligar as cidades menores da Índia ao novo centro de conexões em Nova Délhi. Até lá, o negócio segue no condicional.

16 outubro, 2026

Índia transforma compra de aviões em política industrial, e Embraer disputa espaço nas duas pontas

Com linhas de montagem em operação, um programa de 60 cargueiros militares e a exigência de produção local, Nova Délhi testa parceiros estrangeiros. A Embraer aposta no C-390 com a Mahindra e no E175 com a Adani, mas cada frente depende de encomendas ainda não confirmadas



*LRCA Defense Consulting - 16/10/2026 - 13h08

A Índia quer que cada grande compra aeronáutica deixe no país fábricas, fornecedores e engenheiros. A lógica das iniciativas Make in India e Atmanirbhar Bharat, impulsionadas pelo governo de Narendra Modi, é condicionar o acesso ao terceiro maior mercado de transporte aéreo do mundo à transferência de atividades industriais. Para fabricantes estrangeiros, a política abre oportunidades; para o governo indiano, a questão central é quanto do conhecimento e do valor agregado permanecerá efetivamente em território nacional. 

O teste mais visível dessa política é o programa de aeronaves de transporte médio (MTA) da Força Aérea Indiana (IAF). Em 12 de agosto de 2026, o Ministério da Defesa indiano emitiu o pedido de propostas (RFP) para 60 aeronaves, avaliadas em cerca de ₹1 lakh crore (aproximadamente US$ 10,4 bilhões). A brasileira Embraer concorre com o C-390 Millennium, em parceria com a Mahindra; a norte-americana Lockheed Martin oferece o C-130J Super Hercules, associada à Tata Advanced Systems Limited (TASL). O resultado dependerá do desempenho das aeronaves, mas também de qual proposta contribuir mais para a indústria que a Índia pretende construir. 

Uma cadeia aeronáutica em formação 
O exemplo mais concreto dessa estratégia é o C295, produzido pela Airbus em parceria com a TASL. O contrato, assinado em setembro de 2021, prevê 56 aeronaves para a IAF: 16 fabricadas em Sevilha, na Espanha, e 40 produzidas na Índia. A linha de montagem final de Vadodara, em Gujarat, foi inaugurada em outubro de 2024. O primeiro C295 montado no país saiu da linha em maio de 2026 e realizou o voo inaugural em junho; a entrega à IAF estava prevista para setembro. Segundo os parceiros, o programa já envolve mais de 13 mil peças e 4 mil subconjuntos fabricados localmente, 37 fornecedores indianos e mais de 85% da montagem estrutural e final das unidades indianas. Motores e aviônica, porém, continuam a vir de fornecedores estrangeiros, e a produção das 40 aeronaves deve estender-se até 2031. 

Nas asas rotativas, a Airbus e a TASL inauguraram em fevereiro de 2026, em Vemagal, no estado de Karnataka, a primeira linha privada de montagem de helicópteros do país, dedicada ao H125. O primeiro lote está previsto para o início de 2027. A Lockheed Martin, por sua vez, mantém desde 2010 a Tata Lockheed Martin Aerostructures Limited (TLMAL), em Hyderabad, que já entregou 250 empenagens para a linha global do C-130J. Completa o quadro a estatal Hindustan Aeronautics Limited (HAL), responsável pelo caça Tejas e pelo Su-30MKI, com instalações em Bengaluru e Nashik. 

Esses polos estão em estágios diferentes. Anúncio, inauguração de fábrica, primeiro voo, entrega, certificação e produção sustentada são etapas distintas, e apenas parte delas foi cumprida em cada caso.

Um programa desenhado para produzir no país 
O programa MTA destina-se a substituir os An-32, em operação na IAF desde 1984, e, possivelmente, parte dos Il-76. Aprovado pelo Defence Procurement Board em 2 de março de 2026, segue o modelo Buy and Make: 12 aeronaves serão entregues prontas para voo (fly away) e 48 serão produzidas na Índia por meio de parceria entre o fabricante estrangeiro e uma empresa indiana, responsável também por centros de manutenção, reparo e revisão (MRO). As entregas deverão começar em até 36 meses após a assinatura do contrato, e a imprensa indiana menciona uma opção de ampliação de 50% do lote, o que representaria mais 30 unidades.

O RFP foi encaminhado a Tata, Mahindra, Adani Defence & Aerospace, Reliance Defence e HAL. A IAF busca aeronaves na faixa de 18 a 30 toneladas, capazes de operar em grande altitude e em pistas não preparadas, como as Advanced Landing Grounds de Ladakh e do Nordeste indiano, requisito que reflete as lições da crise com a China na fronteira himalaia. As exigências de conteúdo nacional ainda precisam ser confirmadas pelos documentos oficiais: segundo o portal ThePrint, a indigenização mínima seria de 40%, com elevação escalonada até 60%; a Tribune India fala em percentual progressivamente superior a 50%. 

A disputa não se limita, em tese, a dois concorrentes. A Airbus ofereceu o A400M, com apoio do governo alemão e promessa de até 85% de conteúdo local em fases, mas a aeronave, com carga útil de 37 toneladas, excede o requisito, e a imprensa indiana prevê sua saída da competição. O ThePrint também noticiou que a HAL retomou a articulação com a Rússia, revivendo o projeto conjunto de transporte encerrado em 2016. Na prática, o C-390 e o C-130J são apontados como os principais candidatos. 

A frente militar da Embraer 
A parceria entre Embraer e Mahindra começou com um memorando de entendimento em fevereiro de 2024. Em outubro de 2025, quando a fabricante brasileira inaugurou sua subsidiária em Nova Délhi, as empresas firmaram um acordo de cooperação estratégica para industrialização, fabricação, montagem, cadeia de suprimentos e MRO. Em fevereiro de 2026, durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, anunciaram planos para uma estrutura de manutenção do C-390 no país, condicionada à seleção da aeronave. 

Em 1º de outubro de 2026, as duas empresas identificaram Nagpur, em Maharashtra, como local proposto para a linha de montagem final do C-390. A unidade reuniria montagem, integração de sistemas, engenharia de fabricação e desenvolvimento de fornecedores locais. Vinod Sahay, do Conselho Executivo do Grupo Mahindra, agradeceu ao governo estadual pela rápida alocação do terreno. O anúncio, contudo, não informou área, investimento nem prazo de construção, e a implantação depende da escolha do C-390 e de uma encomenda efetiva. Em junho, executivos da Embraer haviam declarado à FlightGlobal a disposição de reproduzir na Índia a estrutura de Gavião Peixoto (SP), incluindo a montagem estrutural da fuselagem, e de usar a linha indiana para atender exportações.

O passo societário veio em seguida. Em 9 de outubro, a Mahindra Defence Systems Limited (MDSL) firmou acordo para vender à Embraer 51% da Novavayu Aerospace Limited, constituída em 29 de julho de 2026. A conclusão está prevista até 1º de dezembro. Conforme registrou o LRCA, o preço da participação, cerca de ₹510 mil, e a ausência de receitas indicam a compra de uma sociedade recém-criada, sem atividade comercial conhecida. A operação oferece uma estrutura empresarial para projetos futuros, mas nenhum documento público confirma que a Novavayu operará a unidade de Nagpur.

A Embraer não chega à IAF como estranha. A força aérea opera o sistema de alerta aéreo antecipado Netra, desenvolvido sobre o jato ERJ-145, e, segundo publicação reproduzida pelo LRCA em março, a aquisição de mais seis células para a versão Netra Mk-1A recebeu aprovação do Defence Acquisition Council e do Comitê de Segurança do Gabinete, o que elevará essa frota a nove aeronaves. 


A frente comercial depende de 200 encomendas 
Na aviação civil, a parceira é a Adani Defence & Aerospace. O primeiro memorando foi assinado em janeiro de 2026 e ampliado em 21 de fevereiro, em cerimônia acompanhada por Lula e pelo ministro indiano do Comércio e da Indústria, Piyush Goyal. O objetivo é instalar uma linha de montagem final do jato regional E175, alinhada ao programa indiano de aeronaves de transporte regional. Em junho, segundo o Economic Times, a Região Especial de Investimento de Dholera (DSIR), em Gujarat, foi escolhida como sede, superando Bhogapuram, em Andhra Pradesh. 

A condição, porém, é comercial. O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirmou que a linha só se torna viável com pedidos firmes de ao menos 200 aeronaves; a construção levaria 24 meses, o que permitiria as primeiras entregas em 2028 caso as encomendas fossem fechadas ainda em 2026. Como alternativa, a empresa avalia um centro de acabamento, onde aviões produzidos no Brasil receberiam pintura e interiores. A família E-Jets obteve em julho a certificação de tipo da autoridade de aviação civil indiana (DGCA), e há negociações em curso com a IndiGo, a maior companhia aérea do país, e com a estatal Alliance Air. A Embraer soma cerca de 50 aeronaves de 11 modelos em operação na Índia, entre elas os E175 da Star Air. 

As duas frentes são formalmente separadas. Em 27 de setembro, o presidente da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, reafirmou à agência ANI que a Mahindra é a parceira no programa militar e que a colaboração com a Adani se restringe à aviação comercial. O esclarecimento foi relevante porque a Adani também recebeu o RFP do MTA. Não há evidência pública de que o governo indiano avalie as duas iniciativas em conjunto.

Vantagens que não se anulam 
A Lockheed Martin parte de uma posição consolidada. A IAF adquiriu 12 C-130J a partir de 2011, um deles perdido em acidente em 2014, e conhece a aeronave em operações exigentes, como os pousos na pista de Daulat Beg Oldi, em Ladakh. Tripulações, mecânicos e infraestrutura já estão formados. Além da TLMAL, a TASL iniciou em 18 de dezembro de 2025, em Bengaluru, a construção de uma instalação de MRO para o C-130J, com conclusão prevista para o fim de 2026 e recebimento da primeira aeronave no início de 2027. Desde setembro de 2024, as duas empresas estudam também a ampliação da fabricação e a montagem local do Super Hercules.

O C-390 responde com desempenho e potencial industrial. De acordo com os fabricantes, o C-130J-30 transporta até cerca de 20 toneladas e voa a 356 nós de cruzeiro, enquanto o C-390, movido a turbofans, leva até 26 toneladas e atinge 470 nós. A diferença, de aproximadamente 30% em carga e 32% em velocidade, pode reduzir o número de surtidas necessárias para a mesma missão. Desempenho em altitude, condições de pista, disponibilidade e custo ao longo do ciclo de vida, porém, terão de ser examinados conforme os requisitos efetivos da IAF, sem que um único indicador defina o vencedor. O C-390 oferece ainda à Índia a possibilidade de ingressar desde cedo na cadeia de um programa relativamente novo, cuja frota mundial está em expansão, enquanto o C-130J representa padronização e menor risco de transição. 

Do anúncio à autonomia
A eventual coexistência de polos em Vadodara, Vemagal, Hyderabad, Bengaluru, Nashik, Nagpur e Dholera aponta para uma especialização territorial crescente, mas esses centros têm maturidades muito diferentes: alguns produzem há anos, outros acabam de entregar a primeira aeronave e dois existem apenas como propostas condicionadas a encomendas. Montar aeronaves com conjuntos importados não equivale a dominar engenharia, ensaios, integração e certificação. A consolidação da Índia como polo aeronáutico dependerá de pedidos continuados, produtividade, qualidade certificada, mão de obra qualificada e capacidade exportadora. 

Para a Embraer, a Índia representa mais do que a venda de cargueiros. A presença simultânea nos segmentos militar e comercial, somada ao histórico do Netra e aos fornecedores indianos já integrados à sua cadeia, pode estabelecer relações industriais duradouras. A questão em aberto não é apenas qual aeronave a Índia comprará, mas qual parceria contribuirá melhor para a indústria que o país deseja construir. O C-390 encontra um ambiente favorável à sua proposta de industrialização; o C-130J reúne presença operacional e cadeia produtiva comprovadas. A decisão dependerá de critérios e compromissos que ainda não podem ser considerados resolvidos.

27 setembro, 2026

Embraer reafirma Mahindra na disputa militar indiana e esclarece papel da Adani

Declaração de Bosco da Costa Junior mantém a divisão entre as parcerias militar e comercial em meio à concorrência por 60 aeronaves de transporte 



*LRCA Defense Consulting - 27/09/2026

A Embraer reafirmou que o Grupo Mahindra permanece como seu parceiro na disputa pelo programa de aeronaves de transporte médio da Força Aérea Indiana, enquanto a colaboração com o Grupo Adani está voltada à aviação comercial. O esclarecimento foi feito pelo presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, em entrevista à agência ANI repercutida pela imprensa indiana em 27 de setembro.

A declaração ganhou relevância porque a Adani também figura entre as empresas indianas que receberam o pedido de propostas para o programa militar. Questionado sobre a possibilidade de atuar com esse grupo na concorrência, Bosco reafirmou a escolha da Mahindra para oferecer o C-390 Millennium e a manutenção da parceria comercial com a Adani.

Parceria construída desde 2024 
Embora algumas manchetes apresentem a escolha da Mahindra como novidade, a cooperação foi anunciada em fevereiro de 2024, com a assinatura de um memorando de entendimento. Em outubro de 2025, as empresas aprofundaram a relação por meio de um acordo de cooperação estratégica, abrangendo comercialização conjunta, industrialização e desenvolvimento da Índia como centro de produção e suporte do C-390.

Em fevereiro de 2026, anunciaram planos para estabelecer uma instalação de manutenção, reparo e revisão na Índia, condicionada à seleção da aeronave no programa. A estrutura proposta inclui manutenção básica e pesada, inspeções estruturais, reparo de componentes, suporte de aviônicos e treinamento.

A entrevista atual, portanto, reafirma a composição da candidatura brasileira. Os textos consultados não anunciam um novo acordo entre Embraer e Mahindra nem apresentam uma decisão indiana de aquisição do C-390.

Concorrência por 60 aeronaves 
O programa busca iniciar a substituição da envelhecida frota de transporte indiana. Conforme a cobertura da ANI, o pedido de propostas foi encaminhado a Mahindra, Tata, Hindustan Aeronautics Limited, Reliance Defence e Adani. A imprensa informa uma opção de ampliar em 50% o lote inicial de 60 unidades, o que representaria mais 30 aeronaves, caso essa possibilidade seja exercida.

O LRCA já havia noticiado a emissão do pedido de propostas em 12 de agosto. Na entrevista agora divulgada, Bosco afirmou que a Embraer está empenhada em responder dentro do cronograma solicitado. A fabricante apresenta o C-390 como solução para substituir o An-32 e contribuir para a padronização da frota de transporte médio da força.

Produção e suporte com alcance internacional 
A Embraer também reiterou o interesse em ampliar sua cadeia de fornecedores e sua rede de manutenção a partir da Índia para acompanhar o crescimento da frota mundial do C-390. Essa ambição já estava presente no acordo estratégico de 2025 e no anúncio de manutenção de fevereiro de 2026.

Na frente comercial, a associação com a Adani contempla oportunidades ligadas à fabricação, à cadeia de suprimentos, aos serviços de pós-venda e à formação de pilotos. O esclarecimento de Bosco delimita essas duas frentes de atuação, preservando a Mahindra como parceira da proposta militar, cuja concretização industrial depende do resultado da concorrência.

07 agosto, 2026

Embraer negocia com a IndiGo encomenda bilionária de jatos regionais na Índia

Fabricante brasileira discute venda de dezenas de aeronaves da família E2 para substituir frota de turboélices ATR da maior companhia aérea indiana; negociações estão em estágio inicial e podem aproximar a Embraer da instalação de uma linha de montagem no país
 

*LRCA Defense Consulting - 07/08/2026

A InterGlobe Aviation Ltd., controladora da IndiGo, maior companhia aérea da Índia, está em negociações com a Embraer sobre uma possível encomenda de grande porte de jatos regionais, segundo pessoas com conhecimento do assunto ouvidas pela Bloomberg. As fontes, que pediram para não ser identificadas em razão do caráter confidencial da informação, afirmaram que a IndiGo avalia a compra de dezenas de aeronaves da família E2 da fabricante brasileira.
De acordo com o levantamento, o objetivo da companhia aérea indiana é duplo: substituir a frota de 46 turboélices ATR atualmente em operação e, ao mesmo tempo, ampliar a capacidade de transporte em rotas regionais. As conversas ainda estão em fase preliminar, e as fontes ressalvaram que não há garantia de que um pedido será efetivamente fechado.
Valor bilionário e maior pedido já negociado na Índia
Um eventual acordo pode ser avaliado em bilhões de dólares, considerando o preço de tabela antes da aplicação dos descontos habituais do setor. Segundo a Bloomberg, seria o maior pedido já negociado pela Embraer na Índia e aproximaria a fabricante brasileira da instalação de uma linha completa de montagem de aeronaves no país. O presidente-executivo da Embraer, Francisco Gomes Neto, já havia declarado publicamente que a empresa precisa reunir encomendas para pelo menos 200 jatos regionais antes de considerar viável essa unidade fabril indiana.
Procuradas pela reportagem original, a IndiGo e a Embraer não responderam de imediato a pedidos de comentário enviados por e-mail.
Mercado indiano em expansão
A Índia é hoje o terceiro maior mercado de viagens aéreas do mundo e segue em rápida expansão, segundo dados da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo). Apesar disso, o país ainda não conta com montagem comercial de aeronaves em solo indiano, o que mantém o setor dependente de fabricantes estrangeiros. IndiGo e Air India Ltd. concentram algumas das maiores encomendas do mundo para jatos da Airbus e da Boeing. A própria IndiGo fechou, em junho de 2023, um pedido recorde de 500 aeronaves da família A320 junto à fabricante europeia, reforçando seu perfil histórico de cliente da Airbus.
Segundo dados da própria companhia relativos a março deste ano, a frota da IndiGo é composta por 441 aeronaves, das quais 46 são turboélices regionais ATR. A companhia aérea ainda tem cerca de 900 aeronaves com entrega prevista para a próxima década, o que torna um eventual pedido à Embraer uma mudança significativa em relação ao padrão de compras da empresa.
Parceria com o grupo Adani e ambição de manufatura local
A Embraer já firmou parceria com o conglomerado do bilionário Gautam Adani para viabilizar a produção de aeronaves em território indiano, iniciativa que se soma ao plano do governo de Narendra Modi de transformar o país em polo global de manufatura aeronáutica. A fabricante brasileira também abriu escritório em Nova Délhi, em outubro do ano passado, movimento que reforçou suas ambições comerciais no mercado indiano.
A linha de montagem final planejada pela Embraer em parceria com a Adani Defence & Aerospace terá sede na Região Especial de Investimento de Dholera (DSIR), em Gujarat, e deve produzir o E175-E1, jato regional de 88 assentos da primeira geração da família E-Jets, a partir de 2028. O modelo negociado com a IndiGo, no entanto, integra a família E2, de segunda geração, o que indica que a fabricante brasileira trabalha simultaneamente em diferentes frentes comerciais no país: pedidos de aeronaves E2 para atender operadoras já estabelecidas e o projeto de manufatura local voltado ao E175-E1.
Outras companhias indianas na mira da Embraer
As tratativas com a IndiGo se somam a outras negociações já em curso da Embraer no país. A fabricante mantém conversas com a Star Air, maior companhia aérea regional da Índia, para a venda de até 20 aeronaves, negócio avaliado em cerca de US$ 1 bilhão. A Alliance Air, operadora regional estatal, também discute preliminarmente com a Embraer a renovação de sua frota de turboélices, em meio a problemas recorrentes enfrentados com os ATR 72.
A própria IndiGo já vinha sendo apontada, desde o fim de 2025, como uma das companhias em avaliação de um pedido regional de até 100 aeronaves, cujas opções incluíam o ATR 72, o A220 da Airbus e o E175 da Embraer. A confirmação, agora, de negociações específicas para jatos E2 indica um avanço nessas tratativas, ainda que sem fechamento de contrato.
Próximos passos
Caso as negociações avancem e se traduzam em pedido firme, o acordo representaria um marco para a presença da Embraer na aviação comercial indiana, hoje modesta se comparada à de mercados como China e Japão. A confirmação de um contrato com a IndiGo também poderia contribuir para que a fabricante brasileira atingisse o patamar de encomendas necessário para viabilizar sua planejada unidade de manufatura no País, ainda que a métrica de 200 unidades citada pela Embraer se refira especificamente ao programa E175-E1 destinado à linha de Dholera.

16 junho, 2026

Embraer e Adani definem Dholera como sede da linha de montagem de jatos regionais na Índia

 

*LRCA Defense Consulting - 16/06/2026

A linha de montagem final (Final Assembly Line), ou FAL, da Embraer na Índia terá sede na Região Especial de Investimento de Dholera (DSIR), em Gujarat. A definição do local, reportada em 16 de junho de 2026 pelo Economic Times, encerra meses de disputa entre dois estados indianos e consolida a aposta da fabricante brasileira no maior mercado emergente de aviação regional do mundo.

Da disputa entre estados à escolha de Gujarat
Desde janeiro de 2026, quando a Adani Defence & Aerospace e a Embraer assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para desenvolver um ecossistema integrado de aeronaves de transporte regional na Índia, dois estados competiam pela FAL: Gujarat, com Dholera, e Andhra Pradesh, com Bhogapuram. Dholera levou vantagem por reunir atributos que o projeto exige: um aeroporto internacional greenfield em fase avançada de desenvolvimento, um parque aeroespacial adjacente e o apoio do governo federal, que vê a iniciativa como âncora do programa Make in India no setor aeronáutico.

A DSIR está sendo construída do zero, próxima a Ahmedabad, como cidade industrial inteligente planejada, concebida para abrigar indústrias de alta tecnologia com infraestrutura dedicada. A Embraer abriu seu escritório em Nova Délhi em outubro de 2025, sinalização prévia do aprofundamento da presença da empresa no país.

O E175 como veículo do Make in India
A aeronave prevista para a FAL é o E175-E1, jato regional de 88 assentos da família E-Jets de primeira geração. O modelo já opera na Índia pela companhia aérea Star Air e é considerado pela Embraer o produto mais adequado para o mercado indiano de conectividade regional, cujo principal vetor de demanda é o programa governamental UDAN (Ude Desh Ka Aam Naagrik), voltado a conectar cidades de médio porte à malha aérea nacional a tarifas subsidiadas. O UDAN completa dez anos em operação.

A Embraer possui hoje cerca de 50 aeronaves em operação na Índia, atendendo à Força Aérea Indiana, agências governamentais, operadores de aviação executiva e a Star Air. Os E-Jets iniciaram operações no país em 2005.

Condicionante central: o compromisso das companhias aéreas
Apesar da definição do local, o projeto mantém uma condicionante crítica. Arjan Meijer, CEO da Embraer Aviação Comercial, declarou na semana passada, durante interação com a imprensa na sede da empresa em São José dos Campos (SP), que a FAL só faz sentido se houver pedidos de companhias aéreas em paralelo.

“Precisamos obter o compromisso das companhias aéreas, porque não há necessidade de instalar uma linha de montagem se não houver pedidos de companhias aéreas em paralelo”, afirmou Meijer, que também qualificou a Índia como um mercado “complexo do ponto de vista da receita”.

A meta, confirmada pelo CEO Francisco Gomes Neto em março de 2026, é obter pedidos de ao menos 200 aeronaves para viabilizar a operação da FAL até 2028. Detalhes sobre volumes de pedidos já confirmados, estrutura de capital da joint venture e cronograma de obras em Dholera não foram divulgados. Embraer e Adani não comentaram o assunto.

Defesa e aviação comercial: dois eixos da estratégia indiana da Embraer
O acordo com o Adani Group não se limita à aviação civil. Em outubro de 2025, as duas empresas firmaram parceria estratégica para produzir o C-390 Millennium, aeronave militar de transporte multimissão da Embraer, na Índia. O país está em processo de licitação para substituir sua frota de transportadores militares, e a Embraer figura entre os concorrentes.

A fabricante brasileira busca fortalecer presença em todos os segmentos do mercado indiano: aviação comercial, defesa, aviação executiva, serviços e suporte, e mobilidade aérea urbana. A parceria com o Adani Group, conglomerado com presença em infraestrutura aeroportuária, MRO e treinamento de pilotos, oferece à Embraer uma plataforma integrada para essa estratégia.

Contexto: precedente do C295 e prazo realista
A referência mais próxima para o projeto é a linha de montagem do C295, aeronave de patrulha e transporte da Airbus, instalada em Vadodara (Gujarat) em parceria com a Tata Advanced Systems Limited (TASL). O governo indiano assinou o contrato de 56 unidades em setembro de 2021; a fábrica foi inaugurada em outubro de 2024 e a primeira aeronave montada no país está prevista para setembro de 2025, quase quatro anos após o acordo. Analistas do setor projetam cronograma semelhante para a FAL da Embraer.

Uma linha de montagem final de aeronave comercial de asa fixa seria inédita na Índia e representaria marco relevante para o programa Aatmanirbhar Bharat (Índia Autossuficiente), com potencial de geração de até 5.000 empregos diretos e indiretos, segundo estimativas do setor, além de efeitos de adensamento na cadeia de componentes aeronáuticos, aviônica e materiais compósitos.

22 fevereiro, 2026

Embraer negocia 200 pedidos para instalar fábrica na Índia e entregar jatos em 2028

Fabricante brasileira negocia encomendas com Air India e IndiGo após ter firmado acordo com o Grupo Adani; Dholera, em Gujarat, desponta como sede da linha de montagem. 


*LRCA Defense Consulting - 22/02/2026

A fabricante aeroespacial brasileira Embraer tem uma meta clara para desembarcar definitivamente na Índia com produção local: conseguir pedidos firmes de mais de 200 aeronaves de companhias aéreas indianas. Esse volume é considerado pelo presidente e CEO da empresa, Francisco Gomes Neto, o patamar mínimo para tornar viável a instalação de uma Linha de Montagem Final (FAL, na sigla em inglês) no país para aeronaves comerciais de asa fixa.

"Sendo o mercado de aviação que mais cresce no mundo, a Índia precisará de pelo menos 500 jatos regionais nos próximos anos. Precisamos de um pedido firme de 200 aeronaves para que a FAL seja viável." - Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer

Em sua primeira visita à Índia após a assinatura, no mês passado, de um memorando de entendimento com o Grupo Adani para a instalação da FAL, Gomes Neto detalhou o cronograma ao jornal Times of India: a linha de montagem pode ser erguida em 24 meses após o início das obras, o que, caso os pedidos sejam firmados ainda em 2026, resultaria na entrega dos primeiros jatos em 2028.

Caso o volume de encomendas demore a se materializar, a Embraer avalia uma solução intermediária: um "centro de conclusão", onde aeronaves produzidas no Brasil voariam até a Índia para receber pintura, instalação de assentos e acabamentos internos antes de serem entregues aos operadores locais.

Números-chave do projeto

  • 200 pedidos firmes necessários para viabilizar a FAL
  • 24 meses estimados para montar a linha de produção
  • Entrega dos primeiros jatos prevista para 2028, se pedidos vierem em 2026
  • Aeronave-alvo: E175, de 76 a 88 passageiros
  • Mais de 15 fornecedores indianos já na cadeia da Embraer
  • Dholera (Gujarat) é o principal candidato para sediar a fábrica

Na pauta das reuniões durante a visita estão os principais grupos da aviação indiana. Gomes Neto se encontrou com executivos da Air India, braço aéreo do Grupo Tata, e tem encontros programados com a IndiGo, maior companhia aérea do país em número de passageiros. O modelo a ser montado localmente é o E175, jato regional com capacidade para 76 a 88 passageiros, voltado a rotas de curta e média distância. Atualmente, oito unidades do E175 operam na Star Air e uma integra a frota da Reliance Industries.

O compromisso com o programa "Make in India" do governo Modi vai além da montagem. A Embraer trabalha há cerca de um ano e meio na construção de uma base de fornecedores locais para abastecer inclusive as fábricas no Brasil. Recentemente, foi assinado um memorando com a Hindalco para explorar oportunidades na fabricação de alumínio aeronáutico. No segmento de defesa, a empresa também monitora o programa da Força Aérea Indiana para aeronaves de transporte médio, no qual pretende oferecer o cargueiro militar C-390 Millennium, incluindo capacidade de manutenção, reparo e revisão (MRO) no país caso seja selecionada.

Até hoje, a Embraer mantém linhas de montagem final apenas no Brasil, onde produz aeronaves comerciais e de defesa, e nos Estados Unidos, exclusivamente para jatos executivos, além de fabricar alguns componentes em Portugal. A Índia seria, portanto, sua primeira plataforma de produção comercial fora do continente americano. "Estamos vindo para a Índia principalmente para atender o mercado indiano. Uma vez estabelecidos aqui, buscaremos atender também mercados próximos a partir da Índia", afirmou o CEO. 

Postagem em destaque